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6. Eget skapende arbeid – på plass i skogen

6.1 Hundremeterskogen

Trafegar pelos caminhos da pesquisa requer do pesquisador/a instrumentos para acompanhá-lo nessa trajetória. O diário de campo, nesse processo, torna-se um companheiro fiel que ocupa uma função muito importante. Em uma escrita livre, o/a investigador/a registra todas as informações, sejam elas voltadas a sua incursão no campo, ou às emoções que acabam desabrochando nesta caminhada.

Geralmente, para os/as pesquisadores/as, esse caderno representa a função de descrever tudo o que acontece na investigação: as observações realizadas a partir dos encontros com o lugar, com os sujeitos participantes da pesquisa, com as reflexões teóricas e metodológicas vivenciadas no período de incursão e vivência no campo.

Essas observações, inerentes aos momentos de incursão no campo, na concepção de Vianna (2007) devem ser entendidas como um processo: o/a pesquisador/a deve ser cada vez mais um participante e obter acesso ao campo de atuação e às pessoas. A observação deve, aos poucos, se tornar cada vez mais concreta e centrada nos aspectos essenciais para responder às questões da pesquisa. Observações essas que devem diariamente ser repassadas e dialogadas com o diário de campo.

Uma das inspirações para se pensar na importância do diário de campo veio a partir de Magnani (1997). Para ele, esse instrumento é indispensável na mochila do etnógrafo, seja ele marinheiro de primeira viagem ou velho lobo do mar. Ele serve para depositar notas, impressões, observações, primeiras teorizações, mapas, esboços e desabafos.

Inspirada pelas colocações do autor supracitado, decidi construir não apenas um diário que registrasse os mergulhos no trabalho de campo. Nele procurei discorrer sobre tudo que me fazia sentido, ou seja, as ações realizadas em decorrência da pesquisa de campo e as reflexões e os sentimentos dos diferentes fatos que me ocorriam no cotidiano. Compreendia que a descrição do particular contexto em que os dados estavam sendo colhidos e as emoções que partiam do meu modo de vida eram inerentes a esse itinerário.

Em março de 2011, iniciei minhas primeiras observações e inaugurei meu diário de campo. Nele registrei impressões, imagens e vozes que experienciei ao chegar a Santana do Acaraú, para realizar a pesquisa de campo, ao compreender que ele é um instrumento ao qual o/a pesquisador/a se dedica a produzir dia após dia, ao longo de toda a experiência etnográfica. É uma técnica que tem por base o exercício da observação direta dos comportamentos culturais de um grupo social, método que teve Bronislaw Malinowski como pioneiro. (WEBER, 2009).

A cada observação ou leituras teóricas, meu diário estava presente. A primeira vez que estive no assentamento, depois de uma longa conversa que mantive com D. Suzete, meu caderno foi fundamental, tendo em vista que naquele momento, como estávamos nos conhecendo, não quis usar o gravador. Recordo que fui até a mochila pegar meu diário de campo para registrar a descrição do cenário que naquele momento estava conhecendo e as informações apreendidas em nosso diálogo.

Segundo Travancas (2006), na pré-história da antropologia, o caderno de campo tinha inúmeras funções. O gravador hoje exerce uma que anteriormente era exclusiva do caderno: registrar entrevistas, eventos, conversas, músicas, liberando, em muitos aspectos, o olhar do/a pesquisador/a para o que está acontecendo ao redor.

Acredito que o diário de campo não esteja tão distante dessa realidade nos dias atuais, pois mesmo que os recursos tecnológicos como a máquina digital, a filmadora e o gravador sejam imprescindíveis nessa caminhada, há momentos em que os sujeitos da pesquisa se recusam a ser fotografados, filmados e se sentem intimidados quando se realizam anotações em sua presença. Nesse caso, os registros só conseguem ser gravados na memória e redigidos no diário.

Essa recusa em ceder imagens aconteceu comigo no início da pesquisa de campo. Certa vez fui convidada por uma jovem que fazia parte da pesquisa pelo facebook para participar dos festejos de Nossa Senhora das Graças, padroeira de uma das comunidades do assentamento, a Floresta. No momento em que estava lá, direcionei meu olhar aos/as jovens. O comportamento de alguns deles anunciava timidez, principalmente, quando me aproximava com a máquina fotográfica, um deles pediu inclusive para não ser fotografado. Já outros/as jovens estavam bastante descontraídos com a máquina ou o celular capturando imagens de uns e

dos outros durante todo o leilão, alguns até pediram para serem fotografados por mim.

Nesse momento, senti muita falta do diário de campo, pois minha permanência nesse evento foi de oito horas: cheguei à novena às 19 h e retornei às 3h, e nesse tempo muitas coisas aconteceram. Mas, apesar de estar sem o caderno em mãos, procurei registrar em uma folha pequena palavras que pudessem direcionar meus escritos posteriores. Como chegamos de madrugada, não pude registrar esses acontecimentos. Somente no dia seguinte, dirigi-me ao diário. Poderia ter carregado comigo esse instrumento, entretanto fazia poucos meses que transitava pelo assentamento e, inicialmente, percebia que as anotações das minhas observações realizadas na presença de alguns sujeitos da pesquisa, incomodavam- nos.

Para Angrosino (2009), a observação pressupõe esse tipo de contato com as pessoas ou coisas que são observadas. No caso da etnografia, esta é feita no campo, em cenários de vida real. O observador tem assim, em maior ou menor grau, um envolvimento com aquilo que está observando.

Nesse envolvimento, que me conduzia a observar “de perto e de dentro” o modo de vida dos/as jovens do assentamento, decidi aceitar o convite da mesma jovem que realizou o anterior para passar um dia em sua casa. Na ocasião, pude acompanhar sua rotina. No decorrer do dia observei cada gesto que ela realizava, cada fala, sem qualquer instrumento para que ela se não sentisse invadida. No início, isso me preocupou bastante, mas, no decorrer das horas, percebi que ela me via para além da pesquisadora, estávamos nos tornando amigas. Penso que se tivesse dado atenção somente aos registros, ela não teria buscado uma aproximação maior do que já existia. Recordo que ficamos na cozinha após o almoço para limpá-la. Em seguida, acessamos a internet juntas e logo depois do seu descanso, ela me chamou para sentarmos no chão da sala de sua casa para que ela mostrasse as várias fotos que tinha desde a sua infância.

Nesse caso, a minha postura é enquadrada, por Angrosino (2009), como aquela em que o/a pesquisador/a, que participa como observador/a está mais completamente integrado/a à vida do grupo e mais envolvido com as pessoas; ele/a é igualmente um/a amigo/a e um/a pesquisador/a neutro/a. No entanto, suas atividades ainda são reconhecidas em alguns momentos.

Esse reconhecimento sempre acontecia quando precisava tirar meu diário de campo da bolsa, registrar algo na máquina fotográfica ou compartilhar alguns momentos da pesquisa com D. Suzete. Para mim, era uma forma que encontrava de fazê-la perceber que estava participando da pesquisa comigo.

No final do dia, ao retornar da casa da jovem para dormir na casa de D. Suzete, porque tinha marcado uma entrevista no dia seguinte com outro jovem que morava próximo, circulei pelo assentamento para realizar observações sobre o cotidiano das pessoas. Visitei a casa de dois assentados e, em uma delas, encontrei um dos jovens que participava da pesquisa. Ele estava com os primos. Ao me aproximar, ele sorriu e começamos a conversar. Quando perguntei o que faziam, responderam que estavam jogando no celular e passando mensagem de texto para os colegas.

Quando cheguei à casa de D. Suzete, recorri ao diário para registrar esses acontecimentos. Mas, não pude escrever muito, tendo em vista que o horário de repouso deles é bem diferente do meu. Geralmente, dormem por volta das 22 h e eu, por estar lá, precisava respeitar o modo de vida deles e me adaptar. No início foi estranho, no entanto, fui me acostumando. Só com o decorrer dos dias, rompi um pouco esses horários ficando até mais tarde na cozinha ou no quarto escrevendo.

No dia seguinte, novamente fui ao meu diário registrar outros momentos observados, como esse:

Às sete de manhã, do dia seguinte, pego meu caderno e vou até o terreiro. Neste momento tento reconstituir todas as reflexões realizadas a partir dos momentos que vivenciei um pouco o cotidiano dessas pessoas. Acordar com o canto dos pássaros, o berrar dos carneiros, o barulho dos porcos, o cocoricó das galinhas e respirar esse ar puro, Nada me parece familiar, embora me agrade bastante. Olho muitas pessoas passando de moto, de carroça, de bicicleta, de carro, de pau de arara rumo a Santana. Sou interrompida por D. Suzete que me pergunta quando vou retornar. Dei um abraço carinhoso nela e disse que não tinha data, mas que ligaria. Aproveitei para agradecer-lhe. No retorno, continuei contemplando muitas belezas existentes neste lugar. (Trecho do diário de campo, 07/07/2011).

Bogdan e Bliken (1994) acentuam a importância dessas notas realizadas no diário de campo e explica. A cada observação, entrevista ou qualquer outra sessão de investigação, é claro que o/a investigador/a escreverá o que aconteceu. Essas notas de campo fornecem uma descrição das pessoas, dos objetos, dos lugares, dos acontecimentos, das atividades e das conversas. Em adição e como parte dessas notas, poderão ser registradas ideias, estratégias, reflexões e palpites.

O diário de campo é um dos instrumentos importantes para quem deseja adentrar os caminhos do cotidiano. A necessidade de registrar quase tudo o que o olho do observador vê no cotidiano, torna-se quase uma obsessão, uma ânsia estimulada pela pergunta, pelas inúmeras perguntas, dúvidas e incertezas que surgem a partir da própria descrição e leitura do descrito. (STECANELA, 2008).

Seguindo a lógica da autora supracitada, conduzi-me a observar, a descobrir, a entender, a revelar e a descrever o cotidiano desses sujeitos partindo da “[...] rotina de trabalho diário [...] o modo como prepara a comida e se alimenta; o tom das conversas e da vida social; a existência de fortes laços de amizade; as simpatias ou aversões momentâneas entre as pessoas [...]” (MALINOWSKI, 1997, p.31). Essas observações, devidamente registradas no diário, foram acompanhadas sempre de olhares e escutas que tentavam perceber nessa realidade “o que nela se passa mesmo quando nada se passa”. (PAIS, 2003a, p. 33). Nas observações, fui percebendo que caminhava em uma passarela que mostrava até nas atitudes (repetitivas e vistas como algo inerte, superficial) enigmas que mereciam ser decifrados, ao perceber como “o cotidiano está impregnado de enigmas à espera de decifração.” (STECANELA, 2008, p. 38). Por fim passei a compreender que o objeto de estudo estava para além de um simples recorte da realidade geográfica.

Entender esse cotidiano para além de um recorte geográfico aconteceu, principalmente, quando passei a discorrer, a refletir diariamente no diário de campo sobre o modo de vida dessas pessoas que, no início, só conseguia associá-lo ao seu lugar de origem. Com o decorrer da caminhada, estabeleci conexões com elementos que se agregam ao cotidiano de quem mora no campo, como os meios de comunicação e as idas à sede para frequentar a escola, o centro da cidade ou mesmo para trabalhar.

De acordo com Minayo (1994), o/a observador/a, enquanto parte do contexto da observação, estabelece uma relação face a face com os/as observados/as. Mas, a importância dessa técnica reside, principalmente, no fato de podermos captar uma variedade de situações ou fenômenos que não são obtidos por meio de perguntas, uma vez que, observados diretamente na própria realidade, transmitem o que há de mais imponderável e evasivo na vida real.

O diário de campo, inerente à observação, é um dos instrumentos importante para utilizar na pesquisa qualitativa, principalmente pelas de cunho etnográfico, pois exigem do/a pesquisador/a uma descrição de tudo que ele vê e

ouve durante a pesquisa, embora o gravador e a filmadora atualmente assumam essa função. No entanto, é importante ressaltar que o uso do gravador requer primeiro uma relação mais próxima para não criar inibição e suspeita de sua utilização. No meu caso, em particular, precisei de um tempo para iniciar as gravações, percebia que eles/as precisavam criar laços de confiança comigo para compartilhar seus modos de viver.

Na busca desse compartilhamento, precisei utilizar entrevista e apreender do grupo de discussão maneiras de capturar as vozes dos/as jovens investigados/as. A seguir discutirei as contribuições desse instrumento, desse método para garimpar as vozes dos/as jovens investigados/as.

2.4. Interações individuais e coletivas no processo investigativo: maneiras de