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Chapter 4: Analysis and evaluation

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O acontecimento e seu relato estão ligados à memória. Cada pessoa guarda um conjunto de experiências, registros e informações que, independentemente de sua veracidade, oferece-lhe um sentido de identidade e um sentido de direção. Normalmente, os historiadores profissionais deploram a superficialidade do conhecimento histórico popular, mesmo sabendo

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que sem esse tipo de conhecimento a pessoa é excluída do debate político e social, assim como a perda da memória desqualifica qualquer um para grande parte da interação humana cotidiana. Mesmo reconhecendo que a lembrança desempenha uma alta função, Eclea Bosi (1998: 87) adverte para a falta de memória provocada pelo excesso de informação:

O receptor da comunicação de massa é um ser desmemoriado. Recebe um excesso de informações que saturam sua fome de conhecer, incham sem nutrir, pois não há lenta mastigação e assimilação. A comunicação em mosaico reúne contrastes, episódios díspares sem síntese, é a-histórica, e por isso é que seu espectador perde o sentido da história.

A memória coletiva está marcada pelas mesmas distorções, à medida que as prioridades levam as pessoas a destacar alguns aspectos e a excluir outros. Para qualquer grupo social ter uma identidade coletiva é necessário que uma determinada interpretação dos eventos seja partilhada por aqueles que constituem esse grupo ao longo do tempo. Às vezes isso irá incluir uma crença sobre as origens do grupo, como é o caso de muitos Estados- nações, ou a ênfase pode ser dada a momentos marcantes ou simbólicos que confirmam a autoimagem e as aspirações do grupo. Como assinala Tosh (2011: 17) “os agrupamentos sociais precisam de uma recordação da experiência prévia, mas eles também demandam uma imagem do passado que serve para explicar ou justificar o presente”. Tosh lembra que a operação da memória social é mais clara nas sociedades nas quais não se pode apelar à recordação documentada como sendo um corretivo ou como sendo ela mesma uma autoridade de grau superior. Nesse sentido, o mito fundador, tão presente em sociedades primitivas e nas sociedades atuais também, não implica, necessariamente, que o relato é falso, mas apenas que foi transformado em uma versão simplista, geralmente rósea, dos acontecimentos.

É inegável a importância da memória para a história. Só que a memória faz parte do jogo do poder. Ela autoriza manipulações conscientes ou inconscientes, dependendo se ela obedece a interesses individuais ou coletivos. Já a história, como todas as demais ciências, tem como norma a verdade. O passado não é a história, mas o seu objeto. Também a memória não é história, mas um de seus objetos e, simultaneamente, um nível elementar de elaboração histórica.

O conceito de memória, como propriedade de conservar certas informações, remete a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas. Desse ponto de vista, o estudo da memória abarca a psicologia, a psiquiatria e a própria psicanálise. São, portanto, inúmeras as concepções sobre memória, mas a que interessa diretamente a esta pesquisa diz respeito às

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recordações e ao esquecimento. Psicanalistas e psicólogos insistem, quer a propósito da recordação, quer a propósito do esquecimento, nas manipulações conscientes ou inconscientes que o interesse, a afetividade, o desejo, a inibição e a censura exercem sobre a memória individual.60 Do mesmo modo, a memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta de forças sociais pelo poder. Como assinala Le Goff (1992: 422),

Tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da memória coletiva.

Em se tratando da televisão, a questão da memória se torna crucial. Muito do que se convencionou chamar de memória, é a memória do que foi mostrado/destacado/veiculado pela própria televisão. Em outras palavras, a televisão tornou-se um dos elementos constitutivos da história individual e coletiva no Brasil. Some-se a isso que, sobre si mesma, a televisão comercial veicula (ou deixa de veicular) a história que lhe é conveniente.

As Organizações Globo têm sido acusada por jornalistas como Mino Carta e Paulo Henrique Amorim de tentar “reescrever a história do Brasil”, especialmente no que se refere à participação na derrubada do governo João Goulart e no apoio à ditadura civil-militar implantada no país a partir do ano de 1964. O jornalista Pedro Bial, autor da biografia de Roberto Marinho, também é acusado da mesma prática em relação ao seu biografado. Em editorial de 01/09/2013, o jornal o Globo admitiu que apoiou o golpe civil-militar de 1964. É importante ressaltar que esse fato teve lugar em meio à onda de protestos que tomou conta de várias cidades brasileiras em meados de 2013 (as chamadas “jornadas de junho”), sendo a própria atuação e cobertura da TV Globo alvo de críticas, protestos e de ataques 61 por parte de setores dos manifestantes. De acordo com a publicação,

Diante de qualquer reportagem ou editorial que lhes desagrade, é frequente que aqueles que se sintam contrariados lembrem que O GLOBO apoiou editorialmente o golpe militar de 1964.

A lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá- la. É História. O GLOBO, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como “O Estado de S. Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”, para citar apenas alguns. Fez o mesmo parcela importante da população, um apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo e outras capitais. (O Globo, 01/09/2013)

60 Para um aprofundamento sobre o assunto, ver Mezan (1995).

61 Vários carros de reportagem da TV Globo foram alvo de ataques e depredações, com suas equipes tendo que

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Aos olhos do jornalista Mino Carta, no entanto, o fato de O Globo admitir que cometeu um erro, não o redime:

Diz-se ali [no editorial] que apoiar o golpe de 64 foi erro nascido de um equívoco. Veio a ditadura, como sabemos, provocada pelos gendarmes chamados pelos donos do poder civil, entre os quais figurava, com todos os méritos, Roberto Marinho, e os anos de chumbo de alguns foram de ouro para a Globo. (Carta Capital, nº 765, 11 de setembro de 2013)

Se no passado os reis e os poderosos criaram instituições voltadas para a preservação da memória (ou do que entendiam ser a memória), a exemplo dos arquivos, bibliotecas e museus, as sociedades contemporâneas não só mantiveram essas instituições, como passaram a dispor dos recursos do som e da imagem, através da radiodifusão, que tanto podem conduzi-las ao entendimento de sua história ou distancia-las dela.

Nesse sentido, é possível distinguir pelo menos dois tipos de histórias: a da memória coletiva e a dos historiadores. É desejável que a informação histórica, produzida pelos historiadores profissionais, divulgada pelas escolas e pelos meios de comunicação, corrija a história tradicional, no que ela tem de falseada. A história deve esclarecer a memória e ajudá- la a retificar os seus erros, mas nem sempre isso acontece. A história da televisão brasileira tem-se valido muito mais da memória de quem supostamente a fez ao invés da cuidadosa pesquisa que deveria cercar um objeto de tamanha magnitude e importância. Isso porque a memória não é neutra e está longe de ser objetiva. A memória é, em relação à história, um modo de seleção do passado, uma construção intelectual e não um fluxo interior ao pensamento. Assim, as lembranças, mesmo de quem teve papel considerado relevante neste ou naquele episódio, precisam ser relativizadas. Em outras palavras, é necessário revisitar não só as histórias conhecidas e aceitas como tal, como aquelas envoltas em áreas de sombras e penumbra, como é o caso das TVs não comerciais no Brasil.

As memórias coletivas, assim como as memórias individuais, estão sujeitas a múltiplas contradições, tensões e reconstruções. É por isso que o silêncio sobre determinado fato ou aspecto difere do esquecimento. É razoável que o empresário Assis Chateaubriand tenha merecido diversas biografias e ensaios abordando sua atuação como homem de imprensa e tido como responsável pelo surgimento da televisão no Brasil. É, no entanto, sintomático que sobre Edgard Roquette-Pinto, o pioneiro da radiodifusão no país, em especial da radiodifusão não comercial, permaneça o silêncio. É razoável que exista uma gama expressiva de publicações sobre a história da televisão comercial no Brasil. É sintomático, por outro lado, que as emissoras de televisão não comerciais não tenham merecido, até o

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presente momento, mais do que rápidas menções. É sintomático que toda vez que se tenta criar uma emissora de Televisão não comercial no Brasil, ela rapidamente passe a ser considerada “estatal” ou “governamental”. É tão ou mais sintomático que, apesar de a BBC ser citada com frequência pelos jornais, rádios e TVs comerciais como “uma das melhores televisões do mundo”, estes mesmos veículos brasileiros nunca se lembrem de mencionar que se trata de uma televisão pública.62

Por isso, é preciso cuidado com os aspectos enganosos da memória social. Todas as sociedades têm uma memória coletiva, um depósito de experiências que é delineada para oferecer certo sentido de identidade e um sentido de direção. Todos os julgamentos são permeados por um sentido do passado, mas é preciso diferençar consciência histórica de memória social. A consciência histórica exige reflexão ao passo que a memória social comporta de tudo, em graus diferentes de lembrança e compreensão. Como o passado é conhecido e como ele é aplicado para a necessidade do tempo presente são temas em aberto, espaços em disputa. Sabe-se, a partir da experiência pessoal, que a memória não é nem fixa e nem infalível: nós esquecemos, nós revestimos memórias antigas como experiência posterior, nós alteramos a ênfase e nós cultivamos falsas memórias.

Como a televisão de Assis Chateaubriand foi ao ar e passou a ter história, ela organizou em torno de si um grupo de pessoas com experiências diretas e criou outro, muito maior, de pessoas que a ela assistiu, seus telespectadores. Ambos têm recordações, imagens do passado mostradas/criadas pela emissora, que serviram e servem para explicar ou justificar o passado e o presente. Como a TV sonhada por Roquette-Pinto não foi ao ar, o grupo em torno dela acabou se limitando aos seus idealizadores e durou menos de quatro anos, tempo em que o sonho levou para ser desfeito e seus integrantes perceberem que tinham sido derrotados. A derrota acabou transformando-se em uma não história. Ou uma história que, aos olhos de alguns de seus participantes, não valeria a pena ser contada.

Se a memória social guarda aspectos de enorme importância, ela também pode servir para sustentar o que Tosh (2011: 18) denomina de “senso de opressão ou exclusão”. Exemplos disso não faltam entre os movimentos sociais que se viram na arena política pela primeira vez e são particularmente conscientes das demandas absolutas do passado, como no caso do movimento dos negros nos Estados Unidos. Esse tipo de preocupação foi

62 A rádio CBN, de propriedade das Organizações Globo, mantém parceria com a BBC no que se refere à

cobertura internacional. Através dela, as matérias dos repórteres da BBC Brasil são veiculadas também pela emissora do falecido Roberto Marinho. Na vinheta que abre essas reportagens, a BBC é apresentada como uma emissora importante, mas nunca caracterizada como rádio pública, induzindo o ouvinte a acreditar que se trata da equipe de uma rádio comercial, como a própria CBN.

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manifestado por Malcolm X na década de 1960 e serve como tema para reflexão por parte de outros movimentos que têm como prioridade a luta em prol da cidadania, como é o caso dos que batalham pela democratização das comunicações no Brasil, das quais a criação de uma efetiva TV Pública tem sido um dos principais itens. Malcolm X alertava para o fato de que uma das razões para a opressão dos negros era exatamente a América branca os ter separado de seu passado.

Se não vamos ao passado para descobrir como chegamos a esta situação, pensaremos que sempre estivemos nesta situação. E se você pensar que sempre esteve na situação em que se encontra agora é impossível que tenha muita confiança em si mesmo, acabando por se desvalorizar, pensando que não vale quase nada. (apud Tosh, 2011: 18)

As palavras do líder negro norte-americano servem como uma luva para o que se pretende com esta pesquisa. Sem o conhecimento da história da Televisão não comercial no Brasil, jamais se conseguirá entender por que ela demorou tanto a ter espaço entre nós. E mesmo tendo demorado tanto, por que o seu espaço continua sendo pequeno, frágil e ainda sujeito à contestação.

A história da Televisão não comercial tem personagens, enredo, disputas e embates pouco conhecidos e menos ainda divulgados. Para entender o que se passou é preciso um mergulho na história do Brasil e também no que pode ser denominado de “pré-história” da radiodifusão brasileira para, a partir daí, recuperar não só o início dessa trama, como acompanhar os seus diversos desdobramentos. Afinal, toda história é também uma negociação entre a familiaridade e a estranheza, já que a passagem do tempo torna estranho o que antes parecia lugar-comum.

É com os olhos de estranhamento que, nos próximos capítulos, a história desses primórdios será percorrida. Também serão revistos os principais aspectos que marcam a história da televisão no Brasil nas últimas seis décadas, respeitando-se a autonomia do passado, mas buscando recolher nele o que não foi registrado e o que, por motivos diversos, ficou de fora da história “rápida” dos vencedores.

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