• No results found

i. Bombeamento

O bombeamento das águas subterrâneas torna-se um processo necessário para o funcionamento das minas. Uma vez na superfície, parte da água subterrânea é jogada por algumas minas, nas ruas ou nas áreas brejeiras, caracterizando o mau aproveitamento da água subterrânea. A outra parte abastece os poços e a área de lavagem do material (Valetão e brejos Trecho Novo e Trecho do Netinho). No entanto, a água faz parte de um ciclo, que vai para a

drenagem natural, pois é filtrada pelo solo, reabastecendo o lençol freático e, por muitas vezes, o contaminando, numa eterna dinâmica das águas.

ii. Rebaixamento

Outro fator impactante é o bombeamento contínuo da água subterrânea; mas o nível do lençol freático foi diminuindo significativamente, chegando a secar em alguns locais, como no caso em uma das prováveis nascentes do Córrego Landi. Segundo informações locais, o Córrego Landi foi um córrego de águas perenes e claras, que abastecia o brejo próximo. A nascente do Córrego apresenta uma pequena canaleta de água e está totalmente antropopizado, sendo utilizado para plantações de hortaliças em seu leito e criações de porcos (ver Figura 5.3). A micro-bacia do Córrego Landi, na área do Valetão, tornou-se uma drenagem seca, por onde corre água de bombeamento e do processo de lavagem. O rebaixamento do lençol freático traz conseqüências drásticas às Bacias Hidrográficas como um todo, embora seja o que viabiliza a mineração subterrânea.

Figura 5.3 – Rejeito de xisto a margem esquerda do Rio do Peixe. Fig. (C). Antropização na nascente do Córrego Landi com plantações de hortaliças Fig. (D) – área próxima ao Trecho Novo - Campos Verdes-GO. Fotos da autora (2008).

iii. Assoreamento

O processo de lavagem do minério gera uma fina camada de areia (silte) de aspecto semelhante a uma farinha que, quando misturada à água, forma um sedimento argiloso. Esse material se concentra nas margens e no fundo dos cursos d’água, alterando sua dinâmica e assoreando os mesmos – fatos observados nas duas bacias hidrográficas situadas

dentro do município, as quais estão sendo afetadas pelo sedimento de forma grave e de difícil reversibilidade a curto e médio prazo, como no caso do Rio do Peixe. O Rio do Peixe, localizado nos limites da área de garimpagem, foi utilizado no auge do garimpo para lavagem de xisto.

No entanto, após 28 anos, ainda pode-se observar rejeito de xisto em suas margens, conseqüências do carregamento lento do material pelas águas. E ainda, o processo de transporte e deposição de rejeito de xisto pode ser visto nas planícies de inundação dos mananciais, como mostra a Figura 5.4. A deposição de rejeito próximo à nascente do Córrego Landi descaracterizou a paisagem original das Áreas de Proteção Permanentes – APPs (ex: campos de murundus), dando lugar a espécies invasoras, como por exemplo Taboas12(Typha dominguensis. Pers, da família Typhacea). Além disso, a deposição incorreta dos rejeitos pode causar danos à vida aquática, a flora, a fauna e até mesmo interferir na saúde humana, de forma cumulativa.

Figura 5.4 - Deposição de xisto - áreas brejeiras do córrego Landi. Fig.(E). Fig. (F) - Presença de vegetação (taboas) secundária nas APPs. Campos Verdes-GO. Fotos da autora (2008).

iv. Contaminação

Existe a possibilidade de contaminação das águas subterrâneas pelo contato da atividade garimpeira com subsolo (esgoto) e pelas minas abandonadas encontradas ao longo de todo o Trecho Velho e Novo: a maioria das minas desativadas está com os seus shafts abertos, propiciando a contaminação do lençol freático por águas de despejo, e mesmo pelas

12É uma planta perene, herbácea, aquática, nativa da América do Sul. É muito freqüente em margens de lagos, reservatórios, canais de drenagem e várzeas. Do ponto de vista negativo, quando em povoamentos densos, essas plantas provocam desequilíbrio, tornando-se infestantes em açudes e várzeas úmidas, diminuindo ou impedindo seu aproveitamento adequado; outro fator negativo é que nos povoamentos de taboas existem excelentes condições para a reprodução de mosquitos. (Bianco et al., 2003).

águas da chuva no carregamento do lixo urbano, levando-os até aos cursos d’água, e por fezes de animais que circulam pelo local.

Outras fontes poluentes estão ligadas aos efluentes químicos na utilização de dinamites, fossas de esgotamento doméstico e o próprio ambiente de trabalho na mina que, às vezes, nem sempre apresenta condições de higiene. Por conseguinte, o contato da água com diversas substâncias nas situações descritas, pode poluir os aqüíferos e os corpos d’água, considerando a poluição das águas como quaisquer formas de materiais e energia cuja presença, lançamento ou liberação possa causar dano ao bioma.

v. Minas Abandonadas

As minas abandonadas propiciam alto risco de acidentes tanto para as pessoas, como para os animais domésticos, gado, e cavalos que sempre circulam pelo local, além da proliferação de vetores, frequentemente evocados pela mídia como causadores de doenças como dengue, febre amarela, febre tifóide, entre outras (ver Figura. 5.5). De acordo com a população garimpeira (sócios/proprietários), o abandono das minas está relacionado com a ausência de investimento no setor de energia, sendo este o motivo de muitas paralisações de serviços, principalmente no Trecho Novo. Quanto às operações de recuperação das áreas abandonadas (não se sabe até o momento de quem é a responsabilidade), a tomada de decisão é deixada para o Estado.

Figura 5.5– Mina abandonada –com 100m aprox. de água. Trecho Novo Fig. (G). À direita presença de animais próximo aos poços abandonados. Fig. (H). Campos Verdes (GO). Fotos da autora (2008).

H G

5.1.3 - Efeitos sobre o solo

As alterações no solo são decorrentes de várias atividades executadas durante os processos de exploração como abertura de vias de acesso, descapeamento, desmonte da rocha, entre outras; considerando-se que a extração de esmeraldas ocorreu de forma espontânea, no local de início da garimpagem, as adulterações no solo tornam-se ainda maiores, se for observada a abertura de poços, e/ou reativações e abandono dos mesmos, sem nenhum controle por parte das autoridades locais.

Da mesma forma, a implantação de bota fora implica na alteração no solo, pois sua formação depende da remoção da camada de minerais sem valor econômico para liberação da esmeralda. Este impacto está associado à alteração no regime de escoamento superficial e ao impacto visual.

i. Impacto visual

Os efeitos oriundos do acúmulo indevido do rejeito mineral favorecem a desconfiguração da paisagem local, assim como os poços abandonados nas áreas (Trecho Velho e Trecho Novo) onde se originou o garimpo são, visualmente, impactantes. O material mineralizado retirado das minas é processado em lavadores, cujo método não possui um destino certo para o resíduo, tanto sólido (chamado de bagaço), quanto à própria água de lavagem, que é jogada nas áreas brejeiras.

De acordo com os moradores, no início do garimpo, era bastante comum encontrar pelas ruas da cidade pilhas de rejeitos. Recentemente, houve certa redução no número de minas operando no local, e não foram observados rejeitos espalhados pela cidade. Entretanto, devido às minas em produtividade (cerca de oito) estarem localizadas nas proximidades dos cursos d’água, tanto no Trecho Velho, no Trecho do Netinho, quanto no Trecho Novo, os rejeitos podem ser encontrados em quantidades consideráveis nas planícies de inundação, como citado anteriormente.

ii. Aumento da erosão

É uma conseqüência direta da atividade no garimpo de esmeraldas. Com as aberturas desordenadas de poços desde o início da garimpagem, principalmente nos Trechos Velho e Novo formou-se, nestas áreas, um emaranhado de galerias subterrâneas, abertas por

empresas e pequenos grupos de garimpeiros; a reativação de shafts abandonadas na área do Trecho Novo são favoráveis aos impactos do garimpo no ambiente, tais como formação de crateras, buracos expostos a intempéries, entre outros – em decorrência do abandonado das minas a céu aberto.

Vale ressaltar que as constantes agressões ao subsolo do tipo perfurações e detonações nas áreas do Trecho Velho, próximo ao ambiente urbano, podem contribuir para os riscos de subsidência do terreno, e vulnerabilidade às pessoas que ali residem ou trabalham.

O desnível na superfície próximo às residências torna-se perceptível, concomitantemente com os processos erosivos em boa parte da área de estudo, apresentando- se de modo significativo nas áreas de garimpagem nos dois Trechos já citados. Nas figuras 5.6 (I, J, K), podem ser visualizadas a reativação de serviços, presença de animais domésticos e residências próximas às áreas onde a desestruturação do solo se faz presente.

Área do Trecho Velho – “Buraco da viúva” – observa-se abaixo reativação da mina na antiga área. – Residência acima próxima aos sinais de erosões. Fig. (I).

Área de risco de

SUBSIDÊNCIA DO TERRENO - Ruas do Trecho Velho, residência próxima a área erosiva. Área de intensa atividade no subsolo. Fig. (J).

I

Figura 5.6 – Desestruturação do solo nas áreas dos Trechos: Velho e Novo – Fig. (I, J, K). Figura K - antiga área do Valetão. Campos Verdes (GO). Fotos da autora. (2008).

5.1.4 – Efeitos sobre a Flora

i. Cobertura vegetal

A grande parte das minas no Município possui construções rústicas, e para a viabilização da extração de esmeraldas são utilizadas madeiras (do cerrado) como escora de blocos de rochas após as detonações. As principais madeiras utilizadas são: aroeiras, ipês e sucupiras, adquiridas na região, segundo informações dos garimpeiros. As aroeiras são as preferidas, em função da durabilidade dentro da mina, pois o ambiente molhado e a troca das madeiras é uma tarefa arriscada. E, ainda de acordo com estas informações, em função da grande procura por esta espécie, atualmente, ela torna-se escassa na região e foi o tipo de vegetação do cerrado que sofreu impacto imediato.

ii. Degradação das áreas de Proteção Permanentes – APPs.

As áreas de proteção permanente, como brejos e as matas ciliares, encontram-se alteradas em decorrência dos processos de extração do mineral – no caso do meio físico biológico, representados pelo aumento significativo da vegetação exclusiva e de prováveis distúrbios na vida semi-áquatica. As matas ciliares são descontínuas em alguns trechos, devido ao uso dessas margens para lavagem de xisto. Recentemente, verifica-se a supressão da vegetação em alguns pontos da mata ciliar, devido ao acúmulo de material estéril nas planícies de inundações, na provável nascente do Córrego Landi. O ressurgimento das Taboas, espécies exóticas, nas áreas antes providas de campos de murundus indicadores de lençol freático raso - também está presente nessas áreas (Figura 5.4).

-Impacto visual - Trecho Novo – animal pastando à esquerda e reativação de antigas minas.

- Minas abertas expostas aos processos erosivos à direita. Fig. (K).

5.1.5 - Efeito sobre a Fauna

A detonação com uso de explosivos é uma medida usada para o fracionamento da rocha subterrânea. Esse impacto causa possível poluição sonora e prejuízo à fauna terrestre. Pela riqueza e abundância de espécies da avifauna como Tucanos (família Ramphastidae), Bem-Te-Vis (família tyrannidae), Xexéus e Pássaros Pretos (ambos da família Letrídae), João de Barro (família furnaridae), entre outros – e pelo comportamento dessas espécies, pode-se dizer que o impacto para este grupo, hoje, não é significativo, exceto para as espécies como Corujas (família Strigidae), aves de rapina com hábitos noturnos e habitat subterrâneo que estão presentes nas áreas afastadas do ambiente urbano, de acordo com informações dos moradores.

Estas espécies são indicadores ambientais, pois, se alimentam de animais de pequeno porte. Assim, pode-se concluir que próximo às áreas de garimpagem há alteração no comportamento destas, condicionando-as migrar. Em contrapartida, outras espécies silvestres da região parecem estar adaptadas ao espaço urbano e suas atividades, pela sua capacidade adaptativa aos prováveis benefícios locais, como nos casos de reprodução e alimentação.

i. A ictiofauna

Está condicionada aos cursos d’água com volumes de água expressivos, como o Rio do Peixe e o Rio dos Bois. Devido às pressões impactantes da garimpagem e/ou as proximidades com a área urbana, a maior parte dos córregos não possui condições de vida aquática regular, como o Córrego Landi e afluentes do Taquaruçuzinho. Contudo, de acordo com informações dos moradores ribeirinhos, atualmente, ainda podem ser encontradas no Rio do Peixe espécies de Piau (Anastomídae), Mandi (Família Pimelodidae), Cascudo (Família Loricaríide).

5.2 - ASPECTOS DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO NO GARIMPO DE