4 Linking access and fair and equitable benefit-sharing to climate change adaptation
4.2 How can access regimes contribute to climate change adaptation?
A primeira geografia de cariz marcadamente político sobre Portugal deve-se ao anarquista francês Élisée Reclus (1830-1905), filho de um pastor calvinista, que teria com a mulher, Zéline, 17 rebentos. Muito ligado ao seu irmão Élie, o futuro geógrafo, destinado pelo progenitor ao sacerdócio, é enviado por este para a Prússia, onde já se encontrava o citado irmão, mas, se Élisée não se deu bem com o ensino religioso ministrado em Neuwied, aprendeu alemão, inglês e holandês, além de latim. De regresso a França, frequenta o colégio protestante de Sainte-Foy, vivendo em casa de uma tia materna, e fazendo nessa altura leituras de Saint-Simon, Comte, Fourier e Lamennais. Em 1848, ele e o irmão Élie inscrevem-se na faculdade de teologia protestante de Montauban, mas, em 1849, os dois irmãos decidem ausentar-se sem autorização para uma visita à região do Mediterrâneo. É por essa altura que Élisée desperta para a geografia, que ele encarará como saber profundamente ligado à sociedade. Os dois irmãos são expulsos da faculdade de teologia protestante — e, no início da década de 50, vamos encontrar Élisée em Berlim, onde sobrevive a dar lições de francês, ao mesmo tempo que estuda geografia na universidade. Meses depois, atravessa parte da França a pé, na companhia de Élie, contacta de perto com a vida dos camponeses e redige o seu primeiro texto considerado anarquizante.
Surge entretanto o golpe de Estado de Luís Napoleão Bonaparte — e os dois irmãos indignam-se publicamente, pelo que de seguida têm de rumar a Inglaterra, onde passam grandes necessidades, tentando depois a sorte na Irlanda. O futuro geógrafo, depois de trabalhar como operário agrícola, decide tentar a Luisiana. Perceptor dos filhos de uma família de proprietários agrícolas de origem francesa, o antigo estudante de teologia contacta com o fenómeno da escravatura, algo que o revolta sobremaneira — e decide abandonar os Estados Unidos, depois de visitar a região do Mississipi. Tenta criar uma
159 exploração agrícola de café na Nova Granada, actual Colômbia, subsidiado pela família para quem trabalhara, mas não consegue levar a bom porto essa iniciativa, mormente porque adoece. Regressado a França, fixa-se em Paris, passa a ensinar línguas estrangeiras e entra na Sociedade de Geografia. Casa-se pelo civil com uma mulata do Senegal, Clarisse Brian, que lhe dará duas filhas, e adere à maçonaria, que acabará por abandonar devido ao ambiente reinante não se coadunar com a sua maneira de pensar. É por essa altura (1860), que a editora Hachette o encarrega de redigir guias destinados a viajantes, os guias Joanne, que o levam a visitar diversos países da Europa, entre os quais Portugal, onde se deslocará mais de uma vez. Em 1864, Élisée e o irmão Élie, que entretanto não fora bem sucedido com um banco destinado ao crédito ao trabalho e fundara um jornal intitulado Association, aderem à Associação Internacional de Trabalhadores, travam conhecimento com Bakunine, e passam a militar na clandestina Fraternidade Internacional. É no Segundo Congresso da Liga da Paz e da Liberdade, efectuado em Berna, em 1868, que se considera a adesão pública de Élisée aos ideais anarquistas. Começa assim uma intensa actividade de escrita e de participação em reuniões internacionais. Quando surge a guerra franco-prussiana, em 1870, Reclus entrega-se às actividades políticas, e, quando é proclamada a Comuna de Paris, integra como voluntário a Guarda Nacional, acabando por ser preso pelas chamadas forças de Versalhes, os inimigos figadais da tentativa revolucionária. Julgado em conselho de guerra e condenado à deportação para a Nova Caledónia, um movimento internacional de personalidades científicas inglesas e norte-americanas, sobretudo, consegue que as autoridades vitoriosas comutem a pena para uma década de banimento. A prisão não impedira o geógrafo de começar alguns dos textos que lhe darão renome, como a Nova
Geografia Universal, que se publicará até 1894 (19 volumes). Os seus ideais também não esmorecem. Exilado na Suíça, Élisée assiste ao Congresso da Paz em Lugano (1872), funda uma secção internacionalista em Vevey e cria o jornal O Trabalhador, cuja temática principal é a educação das classes mais desfavorecidas e a defesa dos ideais libertários. As suas viagens prosseguem por diversas partes do globo, nomeadamente Estados Unidos, Canadá, América Latina e norte de África. Os seus contactos com figuras importantes do anarquismo continuavam, com relevo para Kropotkin, e, depois de breve permanência em França, aceita reger uma cadeira de Geografia Comparada na Universidade Livre de Bruxelas. A anulação desse curso, apesar de protestos da parte dos docentes, conduziria à fundação da Universidade Nova,
160 e nele Élisée pôde continuar a ensinar geografia, enquanto o seu irmão Élie ministrava conhecimentos de mitologia.
O seu trabalho científico continuou e era de imediato traduzido em diversas línguas, e as suas iniciativas também prosseguiram, embora nem todas bem sucedidas, como a de uma editora de cartas geográficas, mas colabora no projecto de construção de um globo gigantesco. Embora sofrendo de angina de peito, continuou a viajar e morreu pouco depois de receber a notícia cara às suas convicções da revolta dos marinheiros do couraçado russo Potemkine (1905). Apresentado como o pai da geopolítica, o precursor da ecologia e das uniões livres (teve três mulheres e só casou com a primeira), preconizou o naturismo, era vegetariano e, como internacionalista, acreditava nas potencialidades do esperanto. Sempre se apresentou, no entanto, apenas como geógrafo
mas anarquista, embora prezasse sobremaneira a sua condição de espírito livre, não havendo notícia que impusesse o que quer que fosse aos outros ou deixasse alguma vez de pensar pela própria cabeça.356