Mas vejamos algumas das opiniões e referências que Portugal mereceu ao geógrafo Élisée Reclus, na sua Nouvelle Géographie Universelle, La Terre et les Hommes,
L’Europe Méridionale, Paris, Librairie Hachette, 1875.357 Começaremos por uma breve alusão à Vue d’ensemble, mas, dado o fio condutor do nosso trabalho, a atenção centra-
se em ouvi-lo opinar sobre Lisboa, a cidade-mãe do fado, e também, claro, os portugueses, dada a ideologia deste peculiar e importante cientista. Nem por isso os
356 - São múltiplas as fontes existentes sobre a vida de Élisée, como imensa a sua obra, quer a geográfica, quer a relativa a múltiplos assuntos, como a pena de morte, por exemplo. Teve relações estreitas com Bakunine, Kropotkin, Dumartheray, Jean Grave, James Guillaume, Max Nettlau, etc. Curiosamente, influiu nas obras de Jules Verne. Ver artigos de Lionel Dupuy publicados no suplemento de La Sago (Julho-Agosto de 2005), por ocasião do centenário da morte de Reclus. Outras obras importantes sobre este geógrafo anarquista, que continua a apaixonar muitos estudiosos: Joseph Ishill, Élisée and Élie Reclus, The Oriole Press, Berkeley Heights, New Jersey, USA, 1927; Hélène Sarrazin, Élisée Reclus ou la passion du monde, Éditions du Sextant, Paris, 2006; Marie Fleming, The Geography of Freedom, the Odyssey of Élisée Reclus, Black Roses Books, Montreal-New York, 1988; J-P. Bord et alii, Élisée Reclus - Paul Vidal de la Blache, le géographe, la cité et le monde, hier et aujourd'hui, Paris, L'Harmattan, 2009; Jean-Didier Vincent, Élisée Reclus, géographe, anarchiste, écologiste, Robert Laffont, 2010.
357 - A obra não tardou a conhecer uma edição norte-americana: The earth and its inhabitants, Europe, by Élisée Reclus, edited by E. G. Ravenstein, vol. I, Greece, Turkey in Europe, Rumania, Servia, Montenegro, Italy, Spain, and Portugal. Illustrated by numerous engravings and maps. New York: D. Appleton and Company.
161 considerandos de ordem geral, com o seu pendor internacionalista e, no fundo, indiciadores de preocupações de equilíbrio entre as nações do norte e sul europeus, deixam de revelar não apenas interesse como até flagrante oportunidade:
Portugal é um dos mais pequenos Estados soberanos da Europa, embora durante um curto período da História, tenha sido o mais poderoso. Ocupa uma superfície inferior à de muitos governos da Rússia Europeia, e mesmo na sua pequena extensão apresenta-se escassamente povoado, excepção feita à parte setentrional, que é um dos territórios do continente em que os habitantes estão mais próximos uns dos outros. Antes de mais nada, pareceria, devido ao resultado natural das atracções geográficas, que Portugal devesse fazer parte integrante de um Estado ibérico, compreendendo todas as províncias transpirenaicas. Contudo, não é obra do acaso nem a consequência de acontecimentos puramente históricos, se Portugal teve quase sempre uma existência nacional independente da Espanha. (…) Foi pelo litoral e passo a passo que Portugal se constituiu em Estado independente; (…) Conhece-se a forma plena de sucesso como os marinheiros de Lisboa levaram e efeito a sua obra de descoberta: acabaram por dar à mãe-pátria um litoral imenso (…) Na África, na América, na Ásia, nas ilhas do extremo oriente, os territórios ditos como pertencentes ao imperceptível Portugal ocupavam uma extensão prodigiosa, da qual nenhum geógrafo pôde tentar dar-se conta. Semelhantes conquistas eram do domínio da epopeia; era necessário um Camões para cantá-las (…) Lisboa ocupou sempre um lugar elevado no rol das cidades dedicadas ao comércio. (…) Sem dúvida que a grande cidade portuguesa tornou-se ponto de reunião de diversas linhas de grandes navios transoceânicos; além disso, ela é ponto de partida da rede de caminhos de ferro europeia; mas que desvios bizarros faz ainda a via férrea para chegar a Madrid através das solidões da Extremadura espanhola e os planaltos da Mancha! Continua a faltar a Lisboa uma via de comunicação directa para a França e o resto da Europa, e isso deve-se não apenas à inveja dos espanhóis, mas também à falta de iniciativa dos próprios portugueses.(…) Quando Portugal perdeu [com a independência do Brasil] a única parte do seu império colonial que lhe dava uma importância real no concerto das nações, o pequeno povo europeu encontrava-se num estado de prostração verdadeiramente lamentável. (…) Aliás, o estado intelectual das diferentes regiões não deixava menos a desejar que o respectivo estado económico. (…) É verdade que esses ignorantes de Portugal, bem diferentes de tantos camponeses do norte da Europa, quase letrados e, contudo, continuando a ser grosseiros, sabem discutir com moderação, falar com elegância, e mesmo improvisar versos a que não faltam métrica, ritmo, nem verdadeira poesia. (…) No espaço de uma geração a instrução sofreu um forte incremento; uma grande parte do espaço que separava os portugueses das outras nações
162 da Europa do ponto de vista de civilização material encurtou, e cada dia a distância diminui. Desta forma, para citar apenas um exemplo, índice de todos os progressos de natureza económica, o país dotou-se já de uma rede de caminho de ferro, e todas as respectivas grandes linhas estarão completas dentro de poucos anos. (…) O comércio externo português quase triplicou desde meados do século, graças às linhas de embarcações a vapor que asseguram à navegação cerca de dois terços da sua tonelagem. Mais de metade dessas trocas faz-se com a Grã-Bretanha, país que noutros tempos tinha um monopólio quase total do comércio externo da Lusitânia. Torna-se fácil de compreender, mesmo do ponto de vista geográfico, esta grande influência da Inglaterra sobre Portugal. O litoral português encontra-se precisamente na rota que tomam os navios inglesas para se dirigirem ao Mediterrâneo, ao Brasil, ao Cabo da Boa Esperança, à Índia; nenhuma via marítima é mais frequentemente utilizada pelas frotas britânicas. (…) A importância crescente das trocas de Portugal com o Brasil, ao qual une agora um cabo telegráfico que repousa no fundo do oceano, é também um fenómeno necessário derivado da vizinhança relativa dos dois países, e pelas relações de parentesco e a comunidade de tradições existentes entre os dois povos. (…) Mas é com a Espanha, percebe-se, que a solidariedade comercial dos mercados portugueses deve ser cada vez mais íntima, apesar dos ódios antigos e da oposição dos interesses dinásticos. (…)358
Não deixam de ser curiosas algumas observações do geógrafo anarquista sobre o nosso povo, capaz de compensar a falta de cultura literária com comedimento na fala e boa métrica nos versos. Já o músico espanhol Pedro Blanco (1883-1919), que se estabelecera no Porto e acabaria por cá vítima da fatal pneumónica, daria sobre os portugueses um interessante testemunho. Sem falar em fado, este pianista e compositor de recorte clássico seria até autor de Canções Portuguesas359:
Portugal é um País romântico, de um romantismo calmo e contemplativo, que vive da lembrança das suas glórias passadas, folheando o livro da sua História, para se lembrar dos seus heróis, das suas conquistas, e deixa-se acariciar indolentemente por um sol divino, em meio a uma paisagem admirável. A sua música, como o seu povo, é geralmente triste, indolente, melancólica e doce.360
358 - Cf. Nouvelle Géographie Universelle, La Terre et les Hommes, L’Europe Méridionale, Paris, Librairie Hachette, 1875, capítulo referente a Portugal. A tradução foi feita pelo autor da tese.
359 - Quanto às Canções Portuguesas de Blanco, as primeiras foram: O Senhor Reitor, A Fiandeira e Flor da Rua, com poemas de Maximiano Ricca, Carvalho Barbosa e João Saraiva. O músico espanhol musicou diversos poemas de autores de primeira grandeza, como A Rosa e o Lírio e Barca Bela, de Almeida Garrett.
360 - Pedro Blanco, La Musique Populaire Portugaise, in Revue Musicale, n.º 2, 15 de Fevereiro, Paris, 1912. Tradução do autor da tese.
163 Voltemos a Élisée Reclus para dizermos que o geógrafo francês, depois de visitar Portugal em 1886, ou seja, mais de uma década volvida sobre a sua primeira digressão pelo nosso País, não teve dúvidas em escrever que as hostes anarquistas cresciam de dia para dia, registando-se não apenas acções de distribuição de propaganda, como a edição de um jornal.361
Com profunda ligação aos meios do operariado que cultivava o fado — e que pensava, como Avelino de Sousa, ser a trova meio privilegiado para a luta social —, o ideal libertário criou fundas raízes entre os trabalhadores integrantes de um proletariado urbano que o nosso endémico atraso só tardiamente vira nascer em relação a nações mais desenvolvidas. Esse começo de politização dos meios ditos operários ocorrerá com muita lentidão, num País dominado por sentimentos católicos, por vezes não mais do que simples manifestações atávicas ditadas pela tradição ou meras comparências a cerimoniais, mas inculcadores de temor pelas hierarquias e travões às contestações sociais fundamentadas. É curiosa a percepção do antigo communard Reclus sobre o nosso importante surto desenvolvimentista no fontismo, enquanto o músico espanhol, mais tarde, é certo, mas tendo feito vida por cá, nos chame duas vezes indolentes, ao escrever numa revista francesa, além de contemplativos e sempre com os olhos postos no passado. São características pouco compagináveis com dinamismo e progresso, seja económico, social ou de outra qualquer natureza…
Mesmo com o impulso dos melhoramentos materiais, o País continuava a padecer de muitas carências — e as piores porventura de natureza educacional. Até mais de metade do século XIX, a agricultura dominava o tecido económico e só restava emigrar a quem procurasse libertar-se das tarefas do campo. Poucos podiam aspirar a uma vida com alguns horizontes de promoção social, se permanecessem no tempo suspenso das aldeias, onde certamente não se conseguiria adquirir qualquer consciência política, apesar das relações de solidariedades tecidas desde tempos imemoriais. Se é certo que a perda do Brasil representou um golpe muito sério, nem por isso ficáramos sem império ou fôramos irradiados da Europa… Digamos que desapareceram, para muitos, formas de vida fácil, aliás tuteladas de longe pelo poder da mais velha aliada, principal parceira comercial, muito mais à vontade desde a abertura dos portos brasileiros. A bem- intencionada revolução liberal de 1820 e a Constituição de 1822, esfumar-se-iam nas guerras intestinas (1832-1834) dilacerantes, entre liberais e absolutistas, os primeiros
361 - Cf. Edgar Rodrigues, O despertar operário em Portugal, 1834-1911, Lisboa, Sementeira, 1980, p. 197.
164 desejosos de restabelecer o Antigo Regime e esquecer que existira a Revolução Francesa, e os segundos, mais actualizados mas nem por isso completamente isentos, na sua maioria, desejando impor a predominância da burguesia das profissões liberais e dos proprietários mais esclarecidos. Retratou-os como ninguém Domingos António de Sequeira (1768-1837), decidido a passar de súbdito a cidadão, num momento da vida em que decidiu tomar opções.
Se ainda nos anos 30 do século XIX surgiria uma associação mutualista operária, só em 1850 apareceria o jornal Eco dos Operários,362 fundado pelo escritor, dramaturgo e folhetinista António Pedro Lopes de Mendonça (1826-1865) — então defensor de um socialismo utópico como o preconizado por Pierre-Joseph Proudhon —, juntamente com Francisco Maria de Sousa Brandão e Francisco Vieira da Silva Júnior. Assim nascia um dos primeiros órgãos de Imprensa nacionais destinados a difundir o socialismo. Entusiasmado com a Regeneração, cedo Lopes de Mendonça tomaria esse rumo político, tornando-se deputado pouco eficiente e acabando por enlouquecer.
Os grandes acontecimentos revolucionários europeus da época, como a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (1866) ou a Comuna de Paris (1871), eram conhecidos pela elite que lia jornais numa nação de analfabetos. Textos sobre os ideais mais avançados estavam, apenas, ao alcance daquele pequeno número dos seus adeptos, como Antero de Quental ou Jaime Batalha Reis. Tornou-se importante o repto lançado por alguns activistas espanhóis para que fosse fundada em Portugal uma secção da AIT, projecto a que aderiram, além dos anteriormente citados, José Tedeschi e Azedo Gneco, entre outros, registando a secção da capital alguns milhares de adesões e outro tanto sucedendo à criada no Porto (a indústria portuguesa concentrar-se-ia, durante longos anos, nas regiões lisboeta e portuense). A esquerda nacional apoiava-se no ideário do já mencionado Proudhon, além do preconizado por Charles Fourier (1772-1837) — e pelo de Bakunine (1814-1876), mais tarde, sendo menos atraída por Karl Marx. Seria um operário relojoeiro suíço, da parte italiana da Confederação Helvética, José Fontana (1840-1876), radicado entre nós, um dos mais operosos batalhadores pelos ideais socialistas, não apenas através de artigos em jornais como escrevendo cartas a Marx e Engels. Quando se suicidou, atormentado pela tuberculose, Fontana estava filiado na Maçonaria, mas antes lutara pela melhoria das condições de vida das classes laboriosas. Sócio-gerente da Livraria Bertrand, é dele a redacção dos estatutos da Associação Fraternidade Operária, embrião do Partido Socialista de então, tendo também
165 colaborado nos estatutos do Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas.363 Se nos primeiros anos da década de 70 do século XIX as associações de trabalhadores contavam mais de dez mil aderentes, nem por isso o País deixara de possuir uma economia predominantemente agrícola, caracterizada por um minifúndio a norte, que obrigava à continuação da emigração, sobretudo para o Brasil, enquanto a sul dominava o latifúndio. Quanto à ideologia das classes laboriosas, se alguns elementos aderiam ao republicanismo, vingavam as ideias libertárias e a consequente luta de classes, difundindo-se o anarquismo nalgumas cidades do País, numa altura em que Lisboa rondava ao findar a centúria os 300 mil habitantes e o Porto cerca de metade.364 De salientar a importância da visita atrás citada de Élisée Reclus a Portugal em 1886, dado que no ano seguinte, surgiam grupos comunistas-anarquistas nas duas principais cidades portuguesas, e era dado à estampa o jornal Revolução Social. Deve dizer-se, aliás, que o nosso anarquismo foi fértil em publicações: além de simples folhetos e volumes de escassas páginas (Biblioteca do Revoltado, Biblioteca do Grupo Anarquista
Revolução Social, O Mundo Novo, Biblioteca dos Trabalhadores, Biblioteca Anarquista, Biblioteca dos Trabalhadores Anarquistas do Porto), surgiram diversos jornais, entre 1890 e os primeiros anos do século XX, como A Revolta, A Propaganda, O Agitador, O Lutador, Grito de Revolta, A Ideia, A Aurora, O Proletário, A Greve, A Sementeira, O Despertar , O Libertário, Paz e Liberdade, A Vida, A Manhã… Outros apareceriam mais tarde, já em pleno século XX.
De sublinhar que a longa luta pelo derrube da monarquia, personificada na figura do
Caçador Simão, criada pelo estro de Guerra Junqueira, envolveu militantes de diversas tendências (republicanos, socialistas, anarquistas…), que tiveram de fazer face a uma dureza crescente das autoridades, que usava a força de uma forma sistemática. Esses obreiros de uma causa comum, embora com ideais e até métodos de actuação diferentes, vindos de quadrantes sociais distintos, tinham no anticlericalismo um dos pontos de união, dada a influência da Igreja Católica na vida do País, embora mesmo no seio dela existissem adeptos de mudança. Escusado é pensar-se que o fado poderia estar ausente dessa vertente de contestação ao regime, como se prova pelos exemplos a seguir focados. Se o positivismo era saudado com quadras como esta:
363 - Cf. Luís de Figueiredo, Almanaque José Fontana, Lisboa, 1855; Maria Manuela Cruzeiro, Vida e acção de José Fontana, Lisboa, Fundação José Fontana, 1990; Gabriele Rossi, José Fontana en Suisse, Bellinzona, Fondazione Pellegrini-Canevascini, 1990.
166 Não existe a Divindade
Nas regiões siderais, Nelas só vê a ciência Matéria e nada mais.365 Também as havia com alusões chistosas:
Duas coisas há no mundo Que eu não posso compreender: Que é o ser padre e pecar, Ser cirurgião e morrer. O pobre do Zé-Povinho
Por todos é enganado, Ainda corre a foguetes, E por fim fica pasmado.366 Ou as mais sérias:
Desejava me dissessem Esses sábios da ciência, Se estaria em seu juízo Quem se tira a existência.
Alerta, oh liberais, Não temamos a reacção, Batalhemos até morrer Contra a falsa religião!
Visto que nada escapa À vil falsificação Deve ser analisado
O fabrico da geração.367
E as glosas deliberadamente interventoras:
Deus, diabo, inferno e céu, Baptismos e confissões, Sermões e missas cantadas, Tudo isso são palões. (…)
Os ministros da religião Essa indecente canalha, Dizem ao povo: trabalha! Mas eles mexerem-se, não; A sua árdua missão
É sim das mais engraçadas, Dizem latim às carradas, Papam hóstias, bebem vinho, Impingem ao Zé-Povinho
365 - Cf. João Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Dom Quixote, 5.ª edição, 2003. 366 - Idem, ibidem.
167 Sermões e missas cantadas.
Tem cada um uma ama Nova e que seja peixão, Que lhe trate da refeição E durma com ele na cama; À vida do padre se chama Vida de mortificações, Inzoneiros e mandriões, D’onde só o mal germina, O seu Deus, sua doutrina, Tudo isso são palões.368
Nunca é de mais sublinhar o papel da trova numa vertente de crítica social e luta por novos ideais, afirmando-se assim também como veículo de propaganda política, numa altura de mudança desejada sobretudo pela pequena-burguesia urbana dos funcionários públicos de escalão inferior, empregados comerciais, professores primários, entre outros, e proletariado mais politizado das indústrias das então duas cidades dominantes no País. Por vezes a linguagem poderá parecer crua e os versos falhos de inspiração, mas há que atender-se que enfileiravam em manifestações de carácter panfletário. Portugal, afinal, fora vivo em palavras duras e vivas polémicas entre os integrantes das suas élites. Basta que nos lembremos que na sequência de uma polémica, iniciada por Antero de Quental, então um jovem de vinte e poucos anos, em 1865, com a famosa
Carta Bom-Senso e Bom-Gosto e crismada pela História da Literatura como Questão Coimbrã, pondo em causa a poesia ultra-romântica e não só, e o seu papa, António Feliciano de Castilho (1800-1875), este, embora procurasse aparentar indiferença contra o ataque dos jovens defensores do naturalismo-realismo — e sobretudo o seu antigo aluno nos Açores e Lisboa —, na intimidade, passou a tratá-lo por pantero do quintal no
seu antro de Celas, tolo e doido, parvo, zaranza, asno, javardo, bácoro que chafurda por Coimbra.369 Quando Ramalho Ortigão decidiu terçar armas com Antero, o venerando pedagogo invisual acrescentou aos mimos anteriormente citados o de
espadachim velhaco,370 enquanto os seus apoiantes mais inflamados se encarregavam dos epítetos mais soezes. Antigo companheiro de brincadeiras do poeta em São Miguel, o futuro segundo visconde de Castilho, Júlio (1840-1919), autor dos livros
368 - Idem., ibidem.
369 - Cf. Castilho e Camilo – Correspondência trocada entre os dois escritores, prefácio e notas de João Costa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1924.
168 incontornáveis sobre Lisboa, limitava-se a chamar ao velho amigo Lutero de Quental,371 algo que terá soado mais como elogio do que vitupério a quem tudo queria reformar e modernizar. Diz-se, verdade ou não, que o rei D. Carlos tratava o seu reino pelo simpático termo de a piolheira, algo que Rafael Bordalo Pinheiro teria ouvido ao soberano em Paris — e que Raul Brandão regista nas suas Memórias.372 Se o fazia, vem na sequência dos intelectuais sempre insatisfeitos com o País, e entra num certo anedotário nacional fértil em termos fortes. O escritor e filósofo espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936) refere esse adjectivo num texto dedicado a D. Carlos,373 mas também a ele se deve o elaborar sobre um povo de suicidas,374 que alegadamente seríamos… Muito mais tarde, o antigo deputado socialista e reitor da Universidade de Salamanca, apoiante convicto da rebelião chefiada pelo general Francisco Franco, que daria lugar à Guerra Civil de 1936-39, haveria de interrogar-se muito mais dramaticamente sobre os espanhóis. Insultado em plena Universidade, durante um acto solene, pelo general José Millán-Astray (1879-1954), fundador da Legião Estrangeira Espanhola e grande mutilado, o autor de Niebla teve, apesar de tudo, o seu momento de grandeza, ao fazer frente ao sinistro militar do viva la muerte!,375dando-se conta da imensa tragédia em que o seu País irremediavelmente mergulhara.376