O quarto processo que promove a articulação tópica é definido pelo emprego de perguntas. Pinheiro (2003) esclarece que esse mecanismo é mais recorrente nos contextos de mudança e exerce a função de mobilizar a atenção dos interlocutores para o fim ou abertura de um tópico.
Nessa orientação de mudança, é o locutor quem aponta o novo tópico que deve ser desenvolvido. Em uma entrevista escrita, por exemplo, o autor analisa o fato de os tópicos serem articulados por meio de perguntas abertas, através das quais o entrevistador seleciona o tópico e orienta o entrevistado para a mudança.
Além das perguntas abertas, o autor verificou que as perguntas retóricas também atuam como mecanismo de articulação tópica. Nesses casos, o locutor tem a expectativa de que seu interlocutor específico compartilha previamente do
105
conhecimento que é apresentado. Selecionamos o exemplo 09, em que Pinheiro, (2003, p. 198) discute esse fenômeno.
Exemplo 09
2 [Lembrei-me disso ao ler a reportagem da revista Veja sobre as misérias da pós-graduação no Brasil. Quando o professor Newton Sucupira escreveu seu histórico e lúcido parecer a respeito do assunto, advertiu as universidades para o perigo que podia transformar a pós-graduação num fracasso: o de contaminar-se com a impostura do chamado ensino superior entre nós.
Como a voz do Batista, a de meu amigo Sucupira foi vox clamantis in deserto, porque as universidades não fizeram outra coisa senão abastardarem os graus de mestre e doutor. Temos, aliás, no Brasil, a triste tradição de desmoralizar palavras que, no estrangeiro, são quase sagradas. Já me referi, neste jornal, ao que acontece com filósofo, historiador, antropólogo e sociólogo, títulos com os quais são brindados entre nós, simples professores de filosofia, história, antropologia e filosofia.]
3 [Para que serve a pós-graduação? Para fazer com que as universidades sejam não apenas transmissoras, mas produtoras de cultura, contribuindo para o desenvolvimento da filosofia, da ciência, das letras e das artes.]
(Artigo de opinião)
Para Pinheiro (2003), a pergunta retórica “Para que serve a pós-graduação?” realiza a articulação entre os tópicos Parecer de Newton Santos, segmento 2, e Princípios da Pós-graduação, segmento 3.
3.2.1.5 Paráfrase
O quinto e último processo que promove a articulação tópica apontado por Pinheiro se baseia no emprego de paráfrases. Conforme Hilgert (1999), a paráfrase consiste no estabelecimento de uma relação de equivalência de sentido entre um enunciado de origem e um enunciado reformulador. A relação é de equivalência semântica, uma vez que a paráfrase retoma, em alguma medida, a dimensão significativa do enunciado de origem. Para Hilgert (1999), ocorre um grau de equivalência semântica na relação parafrástica forte, se a paráfrase explicita os mesmos traços semânticos do enunciado de origem, denominado de matriz. Por outro lado, é fraca se os traços semânticos forem reduzidos.
Pinheiro explica que o emprego de paráfrases constitui mais um mecanismo de articulação tópica, identificado no corpus de sua pesquisa. Afirma que as autoparáfrases são as mais recorrentes e ocorrem em contextos de sequenciação e mudança tópica, articulando tópicos e enunciados e assinalando diferentes objetivos interacionais do produtor do texto. A autoparáfrase é empregada pelo locutor para
106
favorecer o aporte de um novo tópico, inserir informações novas dentro de um mesmo segmento tópico e destacar avaliação sobre o que ele enuncia, além de realizar o movimento textual articulador.
No exemplo 10, Pinheiro (2003, p. 183) aborda a ocorrência de uma paráfrase que prepara o leitor para a introdução de um novo subtópico, no movimento de articulação intertópica em um artigo científico, conforme apresentamos a seguir:
Exemplo 10
DESBLOQUEIO DO DISCURSO (...)
Em resumo: malgrado a forte oposição dos setores mais moralistas de nossa sociedade, notadamente da CNBB, informações detalhadas sobre o sexo sem risco passaram a fazer parte integrante de todas campanhas contra a Aids tornando a sexualidade tema muito mais frequente de conversa e discurso do que no período da decantada estória da revolução sexual. Nunca se falou tanto de sexo como depois da Aids: nas prateleiras das livrarias os livros sobre sexo aumentam dia a dia; cursos e conferências sobre educação sexual tornaram-se moda; o sexo por telefone, ou através do computador ganha mais adeptos nos países mais modernos. Finalmente, a língua travada por tantos séculos, foi liberada. Somos contemporâneos da "desnefandização" da sexualidade: o que era proibido falar tornou-se tema de conversas, músicas, manchete dos jornais. Com a Aids, a scientia sexualis tornou-se objeto de consumo universal: falar abertamente sobre sexo faz parte da profilaxia da epidemia do século. Nos Estados Unidos, campanhas enfatizam a urgência de dialogar sobre sexualidade com todos os grupos, inclusive com as crianças e adolescentes: “Você está falando sobre Aids com as crianças?” é a frase de um broche (botton) muito distribuído na última Conferência Internacional de Aids em S. Francisco.
LIBERAÇAO DO VISUAL
Com o alastramento da Aids presenciamos não apenas um significativo incremento do discurso sobre a sexualidade, como também uma gradativa exibição de imagens relacionadas ao sexo sem risco. A camisinha, até então escondida nas prateleiras das farmácias e nos recônditos das gavetas, passou a ser exposta em lugar de destaque dos supermercados. Cartazes, panfletos e filmetes oficiais passaram a mostrar o preservativo em sua nudez, fora da embalagem, manipulado como se fosse uma luva de proteção. Para ensinar como usá-lo, utilizaram-se primeiro objetos fálicos- a aeromoça que enfiava a camisinha no dedo, ou numa banana - o que levou os grandes empresários desta fruta a protestar na televisão norte-americana. Hoje, sobretudo nos países mais desenvolvidos, cartazes e folders mostram com todo realismo corpos dos entrelaçados e membros eretos protegidos pelo profilático, material destinado tanto às clientelas heteros quanto homossexuais. (...)
(Artigo científico)
O enunciado parafrástico, segundo Pinheiro, contempla toda a dimensão semântica da matriz, condensando-a, o que caracteriza uma paráfrase, do ponto de vista estrutural, redutora. Parafraseando o tópico anterior, o autor do texto o retoma como um aporte cujo objetivo é orientar a atenção do leitor para a introdução do tópico seguinte,
107 Visualização do sexo. O autor, em sua análise, afirma que, ao empregar, no enunciado parafrástico, a expressão “não apenas”, estabelece também a relação de adição entre os tópicos, ou seja, o tópico Visualização do sexo constitui mais um aspecto, que se soma ao tópico Liberação do discurso, acerca do tópico Modificações de padrões e práticas sociais provocadas pela Aids.
Em sua conclusão, Pinheiro destaca que os resultados da análise realizada promovem o entendimento da paráfrase como um mecanismo que faz parte de uma estratégia de construção do texto, a articulação tópica. A presença de paráfrases em textos escritos mostra que esse recurso não está relacionado a problemas na construção do texto e precisa ser reformulado, contrariando o que sugere Hilgert (1993). Para justificar seu ponto de vista, Pinheiro afirma que, se fosse verdadeira a conclusão de Hilgert (1993), não haveria paráfrases no texto escrito, uma vez que, na modalidade escrita, as marcas de planejamento linguístico não são perceptíveis.
Pinheiro (2003) acrescenta, por fim, que algumas propostas discutidas na análise sobre paráfrase vão ao encontro de diversos estudos como os de Hilgert (1993), Galembeck (1999) e Nogueira (1999), os quais abordaram a função interacional das paráfrases. Entretanto, Pinheiro se distancia de todos eles ao incluir a paráfrase no conjunto de recursos responsáveis pela articulação textual e a relação mútua que mostra haver entre as funções interacionais e as textuais, fato que contribui diretamente para um entendimento mais amplo dos processos de organização textual.
Descrevemos um apanhado do que foi a proposta de Pinheiro (2003) sobre os cinco mecanismos de articulação tópica, pautando-nos em seus aspectos mais gerais e, a seguir, retomamos a proposta de Koch (1991) sobre coesão para, em seguida, demonstrar como concebemos a relação entre elas.