5. En analyse av overskuddsflytting basert på profittdifferanse mellom nasjonale og
5.2 Hovedresultater
Afirmar que “existe um real da língua” introduz uma dificuldade especial que concerne ao recorte do objeto que a Lingüística circunscreve para se constituir como uma ciência. Várias questões aqui se colocam, a começar pela definição problemática do que se entende por ciência, da qual depende esse recorte. Foge ao escopo desta tese adentrar nessa discussão pelo seu viés epistemológico. Contentaremos em reconhecer que o terreno no qual esse debate se instala nos é dado pela ciência moderna, nascida com Galileu, como um campo de observação definido pela possibilidade de conjunção de dois traços essenciais: a formalização matemática e o tratamento empírico de seu objeto96.
De acordo com essa definição de ciência, o real da língua seria da ordem do calculável. Isso implicaria, segundo J-C Milner, conceber o real da língua como “causa de si, afastando toda causa que não seja da sua ordem, fazendo-o causa apenas de sua ordem” (MILNER 1987, p. 7). A tese da arbitrariedade do signo é, nesse sentido, consoante com a autonomia do sistema da língua, na medida em que ela permite dizer que “o signo é mestre de si mesmo” (ibid). O real da língua poderia ser, a partir de então, representável para o cálculo, uma vez asseguradas as relações de identidade e diferença entre signos. Para essa definição de ciência, o sujeito se reduziria àquilo que o faz “suporte de um calculável, [...] ponto sem divisão nem extensão, sem passado nem futuro, sem consciente e sem inconsciente, sem corpo” (ibid), reduzido, portanto, à dimensão de pura enunciação. De forma equivalente, diremos que a comunicação, subtendida no funcionamento da língua e necessária à sua
96 De acordo com Jean-Claude Milner que, por sua vez, remete às teses centrais de Koiré . MILNER, J-C. O
finalidade constitutiva, apenas redobraria de forma simétrica esse sujeito pontual, localizando- o nos lugares de emissão e recepção da mensagem.
No entanto, a língua não é inteiramente recoberta pelo cálculo, de forma que é preciso distinguir que a lingüística não é como a lógica, pois “o real em que ela se sustenta não é suturado”, mas “percorrido por falhas” (MILNER 1987, p. 8). O real da língua designa, assim, o limite do calculável que se faz notar, “no lugar mesmo da ciência” (ibid), sem que a lingüística seja, por isso, excluída da definição moderna de ciência. Eis o paradoxo trazido pela noção de real da língua que percorre os últimos textos de Pêcheux: ele revela a presença de um impossível inerente à língua, apagando o traçado do limite entre o gramatical e o agramatical, o sentido e o não sentido, o uno e o múltiplo, o homogêneo e o heterogêneo.
O real da língua designa, assim, o ponto privilegiado onde a lingüística encontra a psicanálise, mostrando “os espaços onde o desejo se espelha e o gozo se deposita”, conforme assinala Milner (1987, p. 8), e a incidência do inconsciente nas chamadas línguas naturais, na medida em que “em toda língua falada por seres humanos, os traços significantes, [e] as marcas lingüísticas não se estruturam segundo a ordem lógico matemática” (PÊCHEUX 1981/2004, p. 24). A produção do equívoco é uma dimensão própria à língua. Essa também é a razão pela qual as línguas naturais permanecem, segundo Pêcheux, mais abertas à política, pois “as marcas sintáticas nelas são essencialmente capazes de deslocamento, de transgressões, de reorganizações” (ibid).
Assim como a psicanálise, à qual Freud atribui o ato imperdoável de ter deslocado o sujeito do lugar de centro que ele ocupava ao identificar-se com representação unitária da consciência, a lingüística é a ciência de uma divisão que afeta igualmente a língua e o sujeito, deslocando-o do lugar ilusório desde onde ele acredita ter o domínio sobre a língua. Em seu afã científico, a lingüística corre o risco de se esquecer das peripécias de seu nascimento, marcado por essa divisão constitutiva, tornando-se surda ao real da língua.
Essa surdez interna ganha terreno cada vez que a lingüística deixa o real da língua, seu objeto próprio, e sucumbe às realidades psicossociológicas dos atos de linguagem que — pelo viés da designação, do contrato, do imperativo ou do performativo — terminam em “histórias de maçãs” (ibid).
O real, como tal, é indiviso; e, por ser indiviso, não acompanha a divisão que caracteriza a apropriação simbólica do objeto lingüístico. Sejamos mais precisos para caracterizar o real da língua, conforme o compreende Pêcheux. Podemos dizer, parafraseando Lacan, que o real da língua é o que retorna sempre ao mesmo lugar como o impossível da língua. Para Pêcheux, no entanto, devemos distinguir o impossível que caracteriza o real da língua, pelo fato de que tudo não pode ser dito, da divisão que pesa sobre o objeto da lingüística. Retorno a um dado de origem, na medida em que essa divisão já se faz presente naquilo que constitui o interesse noturno da Saussure, os anagramas.
Em nome de Saussure, os lingüistas se dividem, porque o próprio Saussure carrega em si essa divisão, que transparece na dicotomia fácil que opõe o Saussure do Cours de linguistique générale (tanto mais claro e frio quanto for comentado segundo a leitura dos editores) ao dos Anagramas (em que vaga a obscura loucura da decodificação, das associações escondidas dos versos saturninos) (PÊCHEUX 1981/2004, p. 55).
Para Pêcheux, no entanto, “o saussurianismo não se divide assim” (1981/2004, p. 57). Apoiando-se na primazia da noção de valor em Saussure97, contra a primazia normalmente conferida ao arbitrário do signo, Pêcheux reafirma a concepção da língua como “rede de diferenças sem termo positivo”, o que equivale a “conceber o não dito, o efeito in absentia da associação, em seu primado teórico sobre a ‘presença’ do dizer e do sintagma” (ibid, p. 58).
[...] o não dito é constituinte do dizer, porque o todo da língua só existe sob a forma não finita do não todo [pas tout], efeito da lalíngua [lalangue]98; é pelo papel constitutivo da ausência que o pensamento saussuriano resiste às interpretações sistêmicas, funcionalistas, gestaltistas e fenomenológicas que, entretanto, elas não cessam de provocar. A revolução saussuriana provoca o esfacelamento da complementaridade (PÊCHEUX 1981/2004, p. 58).
[...] Diante das teorias que isolam o poético do conjunto da linguagem, como lugar de efeitos especiais, o trabalho de Saussure (tal como ele é comentado por Starobinski) faz do poético um deslizamento inerente a toda linguagem: o
97
Essa primazia é justificada a partir Benveniste, da leitura que Godel faz dos manuscritos do Cours, e dos trabalhos de Claudine Normand, conforme consta da nota ao capítulo 6 de “A língua inatingível” (PÊCHEUX, 1981/2004, p. 61).
98
Adotaremos aqui a sugestão de tradução feita por Haroldo de Campos do termo francês lalangue para o português lalíngua por considerar que o termo alíngua sugere uma negação da língua, acepção que escapa e contraria o termo francês.
que Saussure estabeleceu não é uma propriedade do verso saturnino, nem mesmo da poesia, mas uma propriedade da própria língua (ibid).
Dessa forma, Saussure torna patente, segundo Pêcheux, a contradição que une a língua à lalíngua, na medida em que “o diurno não suporta ser separado do noturno” (PÊCHEUX 1981/2004, p. 63). Este é o ponto logofílico99 em que a lingüística toca o real; ponto de retorno em que a língua, objeto do lingüista, torna-se objeto de amor; onde “a língua domina o pensamento, impondo-lhe a ordem do negativo, do absurdo e da metáfora”. É aí, continua Pêcheux, “que a ciência da linguagem relaciona-se com o registro do inconsciente” (ibid, p. 59).
Portanto, o real da língua não é costurado nas suas margens como uma língua lógica: ele é cortado por falhas, atestadas pela existência do lapso, do Witz e das séries associativas que o desestratificam sem apagá-lo. O não-idêntico que aí se manifesta pressupõe a lalíngua, enquanto lugar em que se realiza o retorno do idêntico sob outras formas; a repetição do significante na lalíngua não coincide com o espaço do repetível e que é próprio à língua, mas ela o fundamenta e, com ele, o equívoco que afeta esse espaço: o que faz com que, em toda língua, um segmento possa ser ao mesmo tempo ele mesmo e um outro, através da homofonia, da homossemia, da metáfora, dos deslizamentos do lapso e do jogo de palavras, e do bom relacionamento entre os efeitos discursivos (ibid, p. 55).
A expressão “língua materna” encarna, para Pêcheux, o essencial do conceito lacaniano de lalíngua, que vemos emergir, nos textos da terceira época da AAD, a partir de Jean-Claude Milner, especialmente em O amor da língua (PÊCHEUX 1981/2004, p. 52).
Lalíngua evoca a precedência da linguagem no atravessamento dos cuidados maternos e a inscrição do simbólico no corpo. O termo lalíngua, forjado por Lacan, enfatiza a linguagem em sua dimensão fonemática, integralmente sujeita ao equívoco. Ele reporta ao uso da língua antes que o aprendizado das regras venha impor, ao deslizamento homofônico do significante, a exigência lógica do corte demarcador da unidade do signo e a necessidade de falar igual a todos. Lalíngua não é nada mais que os equívocos que a história de cada um deixou persistir. Nesse sentido, lalíngua não serve à comunicação, pressupondo uma finalidade distinta desta.
99 A logofilia designa, segundo Michel Pierssens em La Tour de Babil, citado por Pêcheux, a paixão pela língua,
Em relação a lalíngua não se pode dizer que partilhamos regras ou que jogamos um jogo de
linguagem.
É preciso enfatizar que lalíngua não faz fronteira com a linguagem, isto é, que jamais saberíamos onde situar este limite. Seria mais apropriado dizer que lalíngua resulta de um investimento libidinal na linguagem, confundindo seus próprios limites. O termo demarca o investimento libidinal com que cada sujeito, em particular, cunhou sua relação com a linguagem, a forma como que cada um reteve esta particularidade no aprendizado da escritura. Seria preciso, então, diferenciar o que pertence a esta apreensão particular da
lalíngua da apreensão de um significante identificatório (S1 ou significante-mestre, conforme a escrita lacaniana). O primeiro seria um termo essencialmente privativo ao sujeito em sua oposição ao grande Outro (que tomaremos aqui como a alteridade própria ao campo da linguagem enquanto tal), assinalando um ponto de retenção de uma significação particular, de um modo de funcionamento infantil da linguagem e de resistência à sua assimilação passiva ao campo do Outro; o segundo, o resultado de um laço libidinal com o Outro, marca de sua inscrição a partir de um termo que o designa e o aliena na linguagem. Nesse sentido, devemos considerar que a dimensão de lalíngua torna-se mais evidente a partir das equivocações e
homofonias, dissolvendo e liberando a palavra de sua carga semântica, provocando “efeitos de
dispersão” e de “desenlaçamento” (MILNER 1999, p. 17)100 nas relações do sujeito com o discurso. “Todo discurso, certamente, conhece e encontra essa circunstância de confusão onde o que estava enlaçado, em um instante se desenlaça. Seu lugar está marcado e é nomeável: é a verdade, corte real que subverte as superfícies nas quais opera” (MILNER 1999, p. 18). No instante desse lapso, que separa um antes e um depois — e ao qual ligamos o acontecimento irruptivo —, podemos enfim dizer que “ao sujeito advém um real” (ibid).
Isso nos conduz a uma outra característica de lalíngua, segundo Lacan. Os elementos de lalíngua não fazem sistema, persistindo como peças soltas que parasitam a linguagem. Para Pêcheux, a divisão do objeto da lingüística mostra onde o “mistério da sexualidade surge em meio às problemáticas da ciência lingüística” (1981/2004, p. 51): no desdobramento logofílico de “dois gêneros de loucura, no sentido ao mesmo tempo gramatical e sexual: o ‘feminino’ da língua materna, língua mãe do fluxo oral das palavras, o ‘masculino’ da língua ideal, escritura em que o significante ausente domina a construção sintática” (ibid). Ora, podemos dizer, levando adiante a aproximação entre o sexual e o gramatical aqui esboçada por Pêcheux, que
100
esses dois gêneros buscam se relacionar ao mesmo tempo em que encontram o impossível da
não-relação. Esse impossível caracteriza tanto o real do inconsciente ― sob a forma da
realidade sexual que reconhece a oposição irredutível e não complementar entre os sexos ― quanto o real da língua ― sob a forma da divisão entre o gramatical e o agramatical, língua e
lalíngua, univocidade e equivocidade, assim como entre as duas formas de escritura trabalhadas por Pêcheux em “Matérialités discursives”, a escritura por encadeamento e a escritura por desligamento. “O real da língua é, portanto, o impossível que lhe é próprio”, diz Pêcheux (ibid, p. 52). Este impossível concerne ao fato de que essas divisões não são jamais integráveis; mas, ao mesmo tempo, jamais saberíamos situar a fronteira entre elas. Eis o que designa o real da língua: a língua, sistema de signos, é também substância, “matéria viva para os fantasmas” (MILNER 1987, p. 15); ela é tanto o objeto de uma ciência como o objeto de um amor. Nesse sentido, “a língua suporta o real da lalíngua” (ibid, p. 19). O seu real é portanto sua própria divisão constitutiva que opõe o diurno e o noturno, um Saussure a outro Saussure.
Para Pêcheux, é preciso também considerar que o equívoco aparece no ponto em que “o impossível (lingüístico) vem aliar-se à contradição (histórica); o ponto em que a língua atinge a história” (PÊCHEUX 2004, p. 64). Em outros termos, a contradição histórica irrompe como equívoco lingüístico; mas também retorna como absurdo. É o caso, por exemplo, da revolução russa de 1917: no momento de irrupção, “as massas tomam a palavra”, induzindo na língua “uma profusão de neologismos e de transcategorizações sintáticas” (ibid, p. 64), como uma espécie de aplicação prática da teoria saussuriana do valor, culminando em uma série de reflexões lingüísticas e de produções literárias. Mas a linguagem termina, nos anos 30, tomando a forma de uma questão de Estado, indo até a “anulação do jogo metafórico” que irá caracterizar a ideologia stalinista a partir do momento em que “a linguagem tende a se passar pelo real” (ibid, p. 98). Curiosa inversão, da irrupção própria ao equívoco que toca o real da história, modificando uma realidade contraditória, ao mito de uma coincidência entre a linguagem e o real alimentada pelo Estado, que pretende dizer objetivamente o que é a realidade, que ele apenas reflete em sua “cegueira”, na tentativa de eliminar a contradição intervindo sobre a língua.
É preciso lembrar que o ambiente no qual emerge a discussão em torno do real da
língua coincide com a “crise da lingüística”, após o declínio da onda estruturalista que a
1981, participa deste contexto. Ele é, ao mesmo tempo, uma reflexão epistemológica sobre a atualidade das ciências da linguagem, um retorno aos seus fundamentos e uma tentativa de intervenção política nos destinos da disciplina, projeto ao qual não faltam ares de arrogância e ambição teóricas, conforme assinala a co-autora do livro, Françoise Gadet, no prefácio redigido especialmente para a edição brasileira de 2004 (p. 12). Segundo Gadet, a história confirma o triunfo do formalismo que o livro prenuncia em 1981, com o desfalque da esperança que aí se depositava de que “a gramática gerativa ou qualquer outra teoria formalista seria susceptível de fornecer um esquema de descrição ou de modelização para as disciplinas do discurso” (ibid, p. 12 – 13).
Todo o esforço de Pêcheux em “La Langue introuvable” visa a introduzir a dimensão de lalíngua na consideração científica da língua, frente a uma modernidade sinistra que dissimula os equívocos da língua no patológico da linguagem ou que resvala na ignorância e, recusando o real da língua, sucumbe às realidades psicossociológicas dos atos de linguagem. A referência ao real da língua, introduzida por Milner, substitui assim, segundo Pêcheux, “o falso debate metodológico entre o racionalismo e o empirismo” (1981/2004, p. 32), convocando “a posição materialista em lingüística” (ibid). No entanto, como salienta Pêcheux, Milner recusa o real contraditório que caracteriza a história, tomando-a por um “puro efeito imaginário” (ibid, p. 35), eliminando, dessa forma, a questão política na qual se especifica o desejo que anima a lingüística e suas “revoluções palacianas”. Estas, segundo Pêcheux, acabam sempre ligadas à perpetuação da sociedade de classes. Nesse sentido,
liberar o non-sense e suportar sua irrupção no pensamento não é ceder a uma reivindicação em favor dos ‘direitos da poesia’, é responder a uma profunda necessidade política do movimento revolucionário e da reflexão marxista: o último remédio, talvez, contra a estupidez (PÊCHEUX 1981/2004, p. 117).