2. Teori og empiri om emnet
2.3 Hovedmetoder for overskuddsflytting
Em 1898, Freud publica um pequeno artigo oriundo de uma experiência pessoal: o esquecimento do nome do pintor Signorelli durante uma conversa corriqueira com um companheiro de viagem, no trem que o leva pela costa da Dalmácia. Esse artigo será retomado no capítulo primeiro de A Psicopatologia da vida cotidiana, publicado em 1902, onde Freud evoca os diversos lapsos de linguagem, esquecimentos, erros e atos nos quais se pode postular uma manifestação do inconsciente na descontinuidade de uma frase ou de uma ação56. Esse caso nos parece exemplar sob mais de um aspecto. Ele demonstra a estrutura do inconsciente como uma hiância, na qual vem se alojar a posteriori a rede dos significantes, a partir da decisão do sujeito de habitar por certo tempo essa fenda na persecução da causa do que aí claudica. Além disso, ele demonstra que essa causa obedece a uma condição formal: a emergência dos pensamentos (Gedanken) inconscientes depende da possibilidade de que se estabeleça uma associação externa — expressão freudiana que nos remete imediatamente à sincronia significante — entre o termo sob o qual incide o esquecimento e aquilo a que se visava suprimir. Da mesma forma, as conexões observadas entre o termo esquecido e aqueles que emergem insistentemente como seus nomes substitutos parecem obedecer às leis do processo primário.
O que diferencia o esquecimento em questão de um esquecimento comum, sujeito ao desgaste natural da memória, e o que lhe confere um valor sintomático? Segundo Freud, um esquecimento que caracteriza um processo inconsciente é aquele em relação ao qual estamos
56 FREUD, Sigmund. A Psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras Completas de S. Freud. Rio de Janeiro:
certos de que sabemos qual é o nome esquecido que contingencialmente não conseguimos lembrar, e que permanece, por assim dizer, na ponta da língua. Por isso rejeitamos prontamente os nomes substitutos que se apresentam para obturar o lugar vazio do que se queria dizer. Além do mais, ele nos intriga de uma forma peculiar, tomando parte naquilo que chamamos uma questão de sujeito.
No exemplo freudiano, o esquecimento do nome Signorelli ocorre em um ponto da conversa com o companheiro de viagem, um estrangeiro, no momento que Freud lhe pergunta se “já conhecia Orvieto e se já havia visto os afrescos famosos de lá, pintados por....” (FREUD 1902/1969, p. 21). Em geral, essa hiância e o incômodo que se segue são logo superados assim que recompomos a lembrança do nome esquecido. Freud, no entanto, “introduz no domínio da causa a lei do significante, no lugar onde essa hiância se produz” (LACAN 1964/1985, p. 28). Em sua análise, ele insere o nome esquecido Signorelli e os nomes substitutos Botticelli e Boltraffio na cadeia significante formada por Bósnia,
Herzegovina e Herr-Signor, aludindo ao tema da conversa imediatamente anterior ao
esquecimento: o costume dos turcos que vivem na Bósnia e Herzegovina, sua resignação diante da morte e sua irrestrita confiança no médico. “Se somos obrigados a lhes dizer que nada pode ser feito por um doente, respondem: ‘Herr [Senhor], o que hei de dizer?’” (FREUD 1902/1969, p. 21).
Em seguida, Freud recorda o ponto em que essa seqüência de pensamentos foi interrompida: ele havia desejado falar ao seu interlocutor do contraste entre essa resignação diante da morte e o desespero dos mesmos turcos diante de perturbações sexuais: “Saiba,
Herr, se aquilo acabar a vida não vale mais nada”; mas “evitei comentar essa peculiaridade
dos turcos para não tocar naquele tema numa conversa com um estranho” (ibid, p. 21). Mais ainda, assim procedendo, Freud conclui que ele se desvia de um curso de pensamentos que poderia tê-lo levado, em conexão com o tema morte e sexualidade, a lembrar-se de uma notícia que recebera algumas semanas antes, em Trafoi: “um paciente, a quem me havia dedicado muito, suicidara-se por causa de uma perturbação sexual incurável” (ibid, p. 22). Esse desvio não é consciente no momento da conversa, mas deduzido através das conexões do significante, Bósnia-Boltraffio-Trafoi. Assim, graças a uma conexão associativa, diz Freud, “esqueci uma coisa contra minha vontade quando tive a intenção de esquecer outra coisa” (ibid). Nesse processo, continua Freud, “os nomes foram manipulados como imagens de um texto que deve ser transformado em um jogo de enigma visual (ou logogrifo)” (ibid, p. 24). A
análise freudiana leva em conta uma operação complexa que envolve o corte, a supressão, o deslocamento, a condensação e a recomposição dos fonemas para formar um outro nome, assim como a tradução de uma palavra de uma língua a outra, operação que nada ficaria a dever ao empreendimento joyceano em Finnegans Wake.
O nome Signorelli foi dividido em duas partes. Um dos pares de sílabas (elli) reaparece sem modificação em um dos nomes substitutos, enquanto o outro, através da tradução de Signor em Herr, obteve numerosas e variadas relações com os nomes contidos no tema reprimido, mas, por esse motivo, não está disponível para a reprodução [consciente]. O substituto [para Signor] foi criado como se tivesse sido feito um deslocamento ao longo dos nomes Herzegovina e Bósnia, sem levar em conta o significado ou os limites acústicos das sílabas (ibid, p. 21).
Signor elli Botti celli Bol traffio
Her zegovina Bós nia
Herr, … Trafoi
Nesse simples exemplo, temos uma amostra da incidência retroativa do significante no campo do discurso mais banal, pela qual alguma coisa toma a função de apagar uma outra coisa, a partir de múltiplos deslocamentos, cortes e reescritas. O esquecimento não é senão a manifestação contingente e o efeito final do entrecruzamento do significante, ligado ao trabalho realizado, cuja finalidade parece ter sido a de evitar o desprazer associado a uma lembrança desagradável. Havia, de fato, o desejo de Freud de esquecer alguma coisa. Essa manifestação da subjetividade e o processo econômico que a acompanha não esgotam, no entanto, o interesse pela articulação teórica entre discurso e sujeito. O inconsciente não se reduz à dimensão de uma particularidade — que legitimamente, em sua especificidade, o
discurso analítico buscará apreender — fazendo emergência na ordem do discurso. Para
sermos mais incisivos: o sujeito que nos interessa, na interface possível entre psicanálise e análise do discurso, não é uma subjetividade. Sabemos o quanto Pêcheux lutou teoricamente
contra essa assimilação do sujeito à subjetividade, mediante a qual se resvala inexoravelmente para o psicologismo.
É preciso, então, pensar o inconsciente na dimensão da língua. No próprio exemplo freudiano, torna-se patente a função da censura designando a presença daquilo que pode e
deve ser dito em um dado contexto e, ao mesmo tempo, o que ultrapassa a intenção do falante, o que se diz por detrás do que se diz, na hiância que se abre com o esquecimento. Em outros
termos, o sujeito fala aí na medida mesma em que é interpelado a se calar. O interesse pela dimensão do sujeito no discurso aponta, assim, para aquilo que, na fala, excede o que se quer
dizer no interior de uma dada formação discursiva “que determina o que pode e deve ser dito
[...] a partir de uma posição dada em uma conjuntura dada” (PÊCHEUX 1971, p. 102). O inconsciente emerge no discurso como um signo de resistência à objetivação discursiva. Veremos, a partir da análise do Witz, aflorar essa manifestação política do inconsciente, que tanto interessou a Pêcheux, e que podemos acrescentar à sua função social, da qual fala Freud. É essa potencialidade criativa da língua como um desdobramento intradiscursivo das manifestações do inconsciente — ali onde algo falha na tentativa de absorver o interdiscurso no intradiscurso — que buscamos destacar.
Isso nos leva a trabalhar em torno da distinção entre o real do inconsciente, que buscamos destacar, a partir do Seminário, livro 11, pela estrutura de uma hiância ― aonde algo de não-nascido vem se manifestar na dimensão da enunciação ―, e o discurso do
inconsciente, que podemos remeter ao já inscrito, ao retorno insistente dos mesmos signos ―
onde se acentua a vertente imemorial do que Freud chama realidade psíquica, na qual se depositam os restos dos atravessamentos do Discurso do Outro na experiência do sujeito. Nosso próximo passo será, pois, voltado para essa distinção. Buscaremos acentuá-la a partir da estrutura temporal da sessão analítica, artifício de discurso cuja homologia com o inconsciente nos permite uma visão esclarecedora dessa distinção.
3.3 O artifício psicanalítico: a sessão analítica como acontecimento de