A maternidade foi socialmente construída, definindo, assim, a condição feminina durante muito tempo. Desde a antiguidade, a questão aparece como símbolo importante na definição do papel feminino e muitos autores debruçaram-se sobre o tema e discutiram sua função ao longo da história.
A tradição cristã enfatiza a imagem materna através de Maria, considerada o símbolo da maternidade, que concebeu sem pecados, portanto dissociada da sexualidade, em oposição à Eva que simboliza o pecado, a tentação, o sexo. Durante muitos séculos, a fecundidade foi considerada bênção e a infertilidade, castigo. O século XVIII enfatizava a importância da mãe
que passou a ser priorizada nos discursos filosófico, médico e político, posto que até então predominava um conduta de indiferença materna. O iluminismo culpabilizava a mulher que não queria amamentar ou que abortava, considerando-a criminosa (MALDONADO, 2002). A maternidade associada à ideia de mãe perfeita se deve a uma representação religiosa, pois “foi a figura de Maria que ajudou a consolidar um estereótipo de maternidade e de feminilidade” (VAZQUEZ, 2014b).
As mulheres eram consideradas por Aristóteles como natureza, desprovidas de razão, portanto sua contribuição era na família, ou seja, sua subordinação era de caráter biológico. Hobbes, por sua vez, considerava que a mulher necessitava de proteção. Já Rousseau fazia distinção entre sociedade política e sociedade familiar, sendo esta última regida pela Lei do Pai. Para Locke, pelo contrato do matrimônio, as esposas aceitavam ser submetidas à autoridade do marido (apud LUNA, 2003).
A maternidade foi socialmente construída e, desde a antiguidade, é símbolo importante e definidor da condição feminina. Tal condição legitima-se por meio dos discursos religioso, filosófico, médico, científico e político. Dessa forma, a maternidade é valorizada ou modificada no âmbito sociocultural a partir de interesses sociais, econômicos demográficos e políticos (BARBOSA; ROCHA-COUTINHO, 2007).
No Brasil colonial, houve um processo de domesticação da mulher e da maternidade, uma vez que a igreja e a sociedade estabeleceram os papéis femininos e determinaram comportamentos e valores ideais. Este discurso contribuiu para que a maternidade fosse considerada inerente à mulher e condição de ser mulher.
A sacralização do papel social das mães passava, portanto, pela construção do seu avesso: a mulher mundana, lasciva e luxuriosa, para quem a procriação não era dever, mas prazer. As mulheres que viviam em ambiguidade desses dois papéis foram sistematicamente perseguidas, pois o uso autônomo da sexualidade feminina era interpretado como revolucionário e contrariava o desejo da Igreja e do Estado de colocar o corpo feminino a serviço da sociedade patriarcal e do projeto colonizador (DEL PRIORI, 1995, p. 83)
Ao ditar normas e padrões de comportamento para as mulheres, o Estado, a Igreja e a sociedade fortaleciam a construção social da maternidade e esta mudança de papel, através do tempo, direciona Badinter (1985), a questionar o “amor materno”, conhecido como instinto, e a concluir que este é um mito, ou seja, algo socialmente construído e que os papéis sociais, como o de mãe, são determinados em função das necessidades e dos valores dominantes de uma sociedade. Ao caracterizar o amor materno como um mito, a autora aponta as influências históricas e culturais intrínsecas sofridas pela maternidade, pois as questões de ordem social
interferem na construção do que se compreende por amor materno, que depende não só da história da mãe como também da própria História. Conclui-se que ele não é instinto, mas um sentimento que está sujeito a imperfeições, oscilações e modificações.
Os aspectos históricos contribuíram para definir o ideal feminino de mulher-mãe. Badinter (1985) afirma que confunde-se determinismo social com determinismo biológico e a mulher ainda é vista pela sua capacidade de gerar filhos. Assim, no século XX, a maternidade ainda era vista como essência da mulher, afirma Engel (1997), e fazia parte do ideal feminino. Embora naquele período a maternidade tenha mantido um status social importante, foi no final do século XVIII que a imagem da mãe começou a fazer parte de forma mais significativa da sociedade, pois anteriormente era costume que os filhos fossem entregues aos cuidados de uma ama de leite, o que levava a uma grande taxa de mortalidade infantil. No século XIX, normas coletivas estabeleceram o papel de esposa e mãe como função social da mulher no século XX, assim a maternidade atestava a importância da mulher (MANSUR, 2003).
É difícil perceber a condição feminina enquanto construção social, uma vez que os discursos que a legitimam foram exercidos ao longo do tempo. Importante destacar a participação de diversos segmentos para consolidar o papel feminino e atender aos interesses políticos da época, como o da Igreja, patrulheira das almas e a Medicina, dos corpos, destaca Del Priore (1995). Toda esta construção ao longo da história contribuiu para validar a procriação como papel feminino no século XIX.
Com a valorização da maternidade, a reprodução e o controle da natalidade passaram a ser temas de interesse público também no Brasil. Na primeira metade do século XX, a mãe era responsabilizada pelo futuro do país. O controle da capacidade reprodutiva e as definições de natureza feminina estavam inseridos nos processos sociais e políticos em função da questão populacional. Era possível perceber, na segunda metade desse século, que dar um filho à sociedade era obrigação primeira da mulher, portanto tudo que se referia à reprodução era questão de interesse público e coletivo (ROHEN, 2003). Ainda nesse período, a explosão demográfica tornou-se objeto de preocupação, e mais uma vez as mulheres tornaram-se foco dos interesses políticos.
Nos países subdesenvolvidos, as mulheres “concentraram em seus corpos a responsabilidade pela superpopulação”, e exigiu-se o uso de métodos contraceptivos para o equilíbrio populacional, afirma Pedro (2003, p. 169). Para a autora, o corpo feminino surge como procriativo e os métodos contraceptivos começam então a ser conhecidos e os corpos a serem tratados, principalmente das mulheres pobres, consideradas “responsáveis” pelo fenômeno. A pílula anticoncepcional é divulgada inclusive pela mídia, por meio de jornais e
revistas, seguida pelo preservativo masculino, laqueadura, histerectomia, entre outras métodos contraceptivos. Embora a mídia também publicasse os questionamentos sobre os riscos da pílula, ela foi adotada por mulheres brasileiras.
A questão trazida pelo determinismo biológico que colocava a maternidade como instinto ou destino da mulher desencadeou uma problematização dentro do movimento feminino, chamado segunda onda, um movimento teórico, social e político. Questionaram-se temas relacionados à família, à sexualidade e ao trabalho. O pressuposto biologicista e a maternidade passaram a ser considerados sob a ótica da dominação/subordinação das relações de sexo. As discussões abordaram o modo como o poder utiliza os diversos conhecimentos na definição do que é maternidade, o que possibilita pensar as políticas e os programas de saúde como “instâncias que incorporam, ressignificam e veiculam, de forma ativa, estas (e outras) representações e identidades culturais” (MEYER, 2003, p. 41). Os programas educativos de saúde, assim como os preventivos, divulgam tantas vantagens da maternidade e seus elementos são tão repetidos que garantem a adesão das mulheres às práticas, contribuindo, assim, para a naturalização da condição feminina de mulher-mãe.
A ideia de que a maternidade definia a natureza da mulher permaneceu associada ao feminino, portanto é natural que este valor faça parte do imaginário da mulher. É difícil romper com padrões preestabelecidos para transformar uma realidade. Existem valores arcaicos enraizados que não desaparecem completamente. E a família tem uma função de reprodução ideológica devido ao seu funcionamento interno. Segundo Reis (1994), ela organiza a vida emocional de seus membros, permitindo transformar a ideologia dominante em uma visão de mundo, código de condutas e valores que serão assumidos posteriormente.
A família é reprodutora de ideologia, pois vai mediar a relação entre indivíduo e sociedade, formando a identidade social. Se o modelo de família é a burguesa no qual a mulher é responsável pela vida doméstica e pela educação dos filhos, ela é considerada menos capaz, mais emotiva e dependente do marido, portanto é este modelo que é reproduzido. O preconceito pode ter sido sutil, menos explícito, entretanto há uma tendência das mulheres a incorporar ideias preestabelecidas e se comportar de forma a endossá-las (REIS, 1994).O patriarcado foi reformulado e manteve a mulher excluída da política, redefinindo historicamente sua subordinação. As mulheres eram reconhecidas pela maternidade e não em igualdade aos homens. Havia um reconhecimento da mulher no espaço doméstico e em seu papel de mãe.
Na contemporaneidade, há uma transformação nos desejos e nas necessidades, portanto surgem novas configurações familiares, redefinem-se os espaços família e trabalho, o
que acarreta também uma mudança na sexualidade da mulher que não se fundamenta mais na maternidade (MANSUR, 2003).É uma época de liberdade, de novas possibilidades e novos desafios, e a feminilidade passa a ocupar outros espaços. Ela incide sobre as liberdades individuais e a maternidade deixa de ser uma condição para ser mulher, torna-se uma de suas perspectivas. Entretanto, existe ainda um modelo cristalizado de ideal feminino que discrimina a mulher contemporânea numa contradição de práticas e de discursos.
Muitas mulheres têm adiado a maternidade em função de uma carreira profissional. Outras se desobrigam de ser mães. Segundo Badinter (2011), o destino feminino muda porque surgem novas vias possíveis e desejáveis. Há uma possibilidade de escolha entre o desejo de ser mãe e os interesses da mulher. E a decisão de não ter filhos não se deve a um objetivo político, “na maior parte do tempo é o resultado do diálogo secreto entre si e si mesmo” (BADINTER, 2011, p. 161). A maternidade deixa de ser uma evidência natural a partir do momento que as mulheres controlam a reprodução, são independentes economicamente e estão no mercado de trabalho redefinindo a condição feminina.