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Em termos sociais, nos últimos anos, verificaram-se enormes transformações que condicionaram as características da família actual: o aumento do número de divórcios, planeamento familiar, a mudança do papel da mulher, o maior poder dos filhos, a valorização do amor e a diminuição do número de descendentes.

Assim, encontramos: famílias monoparentais com um educador único, normalmente a mãe (só está presente um dos progenitores, ou porque a mãe é solteira, ou porque se separou e não voltou a casar, ou porque adoptou uma criança) e famílias reconstruídas após divórcio.

Para Saraceno (1997), uma família com um único progenitor convivente é apenas uma família parcial, cuja “falta” produz efeitos não só de ordem material, mas também de ordem simbólica: também os indivíduos compreendem e sentem de alguma forma a falta de um cônjuge, de um progenitor, da capacidade de o ter ou de o manter.

Segundo Saraceno (1997), as famílias com um progenitor único têm representado um fenómeno crescente em todos os países desenvolvidos, a ponto de ser considerado

um novo problema social. Contudo, os dados de diferentes países europeus, e não só, não podem ser comparáveis, já que a definição de família varia, no que diz respeito à idade dos filhos e à unidade de convivência.

Os dados da Comunidade Europeia indicam que, em todos os países, este tipo de família está a aumentar, e que, em 90% dos casos, o progenitor presente é a mãe. Nestes dados, a percentagem de famílias monoparentais deriva da viuvez, das separações e dos divórcios. A título de exemplo, em França estas famílias atingem os 52%, sendo a percentagem de famílias com mães / pais solteiros de 14% (Ramos, 1993).

Saraceno (1997), considera que, sendo a maior percentagem destas famílias constituída por chefe de família mulher, com filhos pequenos e adolescentes, se compreende que se trate de famílias que correm maior risco de se encontrarem na pobreza, pelas diferenças retributivas entre homens e mulheres no mercado de trabalho, e por se tratar de progenitor único com responsabilidades de cuidar dos menores.

Segundo Alarcão (2000), as dificuldades decorrentes da falta de outro adulto podem ser equacionadas a três níveis:

I) Ao nível do sub-sistema conjugal – na ausência de um dos cônjuges, a vivência da conjugalidade transforma-se e o sub-sistema conjugal perde-se, ou não chega a constituir-se.

Este sub-sistema tem enormes potencialidades para a vida familiar, que podem ficar perturbadas com a sua ausência, podendo constituir um espaço de distensão e suporte emocional para a resolução de problemas intra e extra familiares, um espaço de articulação da comunicação simétrica e complementar, um espaço de um sentimento de individualidade e de pertença, ou um espaço de modelação das relações heterossexuais dos filhos.

Pode até existir o perigo de um dos filhos ser investido de uma dimensão de “par conjugal”, o que perturbará o seu desenvolvimento individual, ao nível afectivo e/ou cognitivo.

II) Ao nível do sub-sistema parental – sobretudo pela impossibilidade de partilhar tarefas e de recorrer ao suporte que a complementaridade de papéis empresta à tarefa educativa que os pais assumem face aos filhos.

Nestas situações, a relação que se estabelece entre progenitor e filho é muito forte. O progenitor centra-se muito no seu papel educativo, tentando suprir a falta do elemento ausente do casal, tornando difíceis as separações, pelo emaranhado em que a família se estrutura.

A família reduz-se, nestes casos, à díade mãe-filho, e são frequentes as situações de parentificação, dado que um dos filhos pode assumir o papel do progenitor ausente.

III) Ao nível do sub-sistema fraternal – as alterações surgem no seu funcionamento, pois o filho parentificado tende a exercer funções de autoridade familiar respeitantes ao sub-sistema parental, comprometendo as relações de fraternidade, e o seu próprio desenvolvimento individual.

Ao nível do sub-sistema individual – para além das dificuldades de desenvolvimento inerentes ao assumir do papel de progenitor, surgem também dificuldades na edificação da identidade.

Na ausência de um progenitor, o filho do mesmo sexo terá mais dificuldade em construir a sua identidade, pela falta de um modelo de identificação. É muito importante a este nível a atitude do progenitor presente, quando se exprime em relação ao progenitor ausente, quando desenvolve expectativas relativamente ao comportamento e à identidade dos filhos, e se cria, ou não, oportunidades para que os filhos possam interagir e identificar-se com elementos do sexo do progenitor ausente.

São várias as situações em que o filho parentificado não conclui a formação académica, nem casou, ingressando cedo na vida activa, para cuidar do progenitor e

dos irmãos. Se esta opção familiar não lhe permitiu desenvolver as suas capacidades intelectuais e profissionais, permitiu-lhe adquirir um estatuto familiar diferente dos outros irmãos, com alguns ganhos secundários.

Outro aspecto a considerar, na ausência de um progenitor na família, é o sentimento de diferença vivido pela criança relativamente aos colegas, e aumentado pelos rituais sociais e escolares do dia da mãe, e do dia do pai, entre outros. Esta falha, nada, nem ninguém, parece colmatar. Porém, o aumento do número de famílias monoparentais tem contribuído para diminuir os sentimentos de vergonha e de estigmatização sentidos muitas vezes por essas crianças.

A atitude de ambos os progenitores é fundamental nestas situações. O progenitor, fisicamente ausente, deve encontrar formas de apoiar o filho, demonstrando-lhe interesse e disponibilidade, sendo vital que o progenitor presente não boicote essa relação, nem transmita uma imagem de rejeição do ex-parceiro. Ambos os pais devem cooperar, não utilizando os filhos e as relações que com eles estabelecem, como formas de resolver as suas desavenças.

Nas situações em que o progenitor ausente deixou de manter contactos, ou rejeitou a criança e a respectiva família, é importante que esta não transmita à criança uma imagem negativa do progenitor, nem negue o comportamento anterior deste para que a criança se vá confrontando com a realidade, o que lhe possibilitará desenvolver uma resistência individual que lhe permita enfrentar positivamente esse abandono.

Para além destas dificuldades, o desenvolvimento das famílias monoparentais regista diferenças relativamente à evolução do ciclo vital das famílias nucleares tradicionais.

A primeira etapa, formação do casal, muitas vezes não chega a ser vivenciada, pois não se pode criar o sub-sistema conjugal já que não existe outro parceiro. A ausência deste sub-sistema reflecte-se nas etapas seguintes.

Nas etapas, família com filhos pequenos e família com filhos na escola, as maiores diferenças surgem pelas dificuldades que o sub-sistema parental pode enfrentar, como sejam:

. sobrecarga de funções a cumprir, dificuldade em criar um sistema executivo claro, coerente, firme e democrático e ausência de articulação com o sub- sistema conjugal;

. problemas de construção da identidade vividos pela criança;

. alterações da experiência fraternal, decorrentes da parentificação de uma ou mais crianças.

Socialmente estas famílias são consideradas como tendo maiores dificuldades no seu processo de desenvolvimento, o que se mostra muito importante na comunicação entre este e outros sistemas, e dentro do próprio sistema familiar, permitindo avaliá- lo indirectamente, pelo cumprimento das suas funções.

As famílias monoparentais têm um ciclo de vida com particularidades. Dado que o desejo de felicidade e satisfação individual se sobrepõe hoje em dia a qualquer outro valor familiar, as situações de monoparentalidade podem prolongar-se ou interromper-se de acordo com as necessidades e os desejos do adulto presente.

Ramos salienta que a família constrói no seu espaço familiar laços de solidariedade e identidade, e acrescenta que:

“Apesar do aumento das separações, dos divórcios e do trabalho feminino, das exigências laborais, da distância e mobilidade geográfica das famílias, da valorização dos valores individualistas que acentuam a independência e a autonomia, os quais podem dificultar os papéis e as relações intergeracionais e contribuir para o aumento de idosos que vivem sozinhos, estes factores não eliminaram as

solidariedades familiares intergeracionais, nomeadamente nos cuidados às crianças ou aos idosos, no apoio na doença ou em momentos de crise ou mudança (…). De facto, não foi eliminado o “altruísmo participativo” (Moscovici, 2001, in Ramos, 2005: 202)

Podemos confirmar esse “altruísmo participativo” nos nossos Inquéritos por entrevista no que respeita em particular aos “cuidados com a criança” em que os avós, como primeiro apoio, surgem com elevadas percentagens.