Para abordarmos a evolução da família até aos nossos dias, o seu papel, bem como os cuidados parentais, sentimos necessidade de reflectir sobre o nascimento da família de hoje.
O amor nasce quando nasce o Homem. O Homem desde que tomou consciência de si, tomou consciência de que pode amar e ser amado. A vida não teria sentido e a grande maioria das pessoas ainda casa por amor, como demonstram vários estudos (Neto, 2000, in Oliveira, 2002).
Como salienta Oliveira (2002), a pessoa humana é incapaz de viver sozinha e isolada. Há diversas teorias sobre a atracção interpessoal: teoria do reforço (gosta-se das pessoas mais compensadoras); teoria da troca social (gosta-se das pessoas que oferecem mais garantias com menos custos); teoria da equidade (equilíbrio entre recompensas e custos); teoria sociobiológica (a atracção é influenciada por objectivos sociobiológicos, como a perpetuação dos próprios genes). Alguns autores acrescentam ainda diversas determinantes da atracção interpessoal, como a familiaridade, a proximidade, a semelhança, a complementaridade, a reciprocidade,
as qualidades positivas, como a sinceridade ou a honestidade, ou a atracção física (Neto, 2000).
Cada casal tem a sua história pessoal onde pesam de maneira diferente algumas determinantes, sendo necessário não esquecer que o homem e a mulher podem reger- se por ideias e afectos diferentes. Como afirma Kaufmann (1999) o amor tem muito de ilusão, mas também de realidade (Oliveira, 2002).
Segundo Skinner (1976), o motivo principal por que se escolhe um parceiro tem a ver com afinidades psicológicas, essencialmente a partir de antecedentes familiares. Outras razões também estão presentes, tais como: o aspecto físico, a atracção sexual, os dotes intelectuais, a situação financeira, afinidades religiosas ou étnicas, o modelo de beleza ou de ideal de homem ou mulher. No entanto, também acontecem casamentos entre personalidades opostas, sendo uma complementaridade, como afirma o ditado “os extremos tocam-se” (Oliveira, 2002).
A atracção amorosa mantém-se como um mistério e, em certo modo, fruto do acaso ou de um momento de encontro, dum sorriso, dum gesto tímido, dum olhar, duma característica física. Nem sempre se trata de uma escolha, mas de ser escolhido(a), não é um acto verdadeiramente livre e racional.Trata-se sim de um acto afectivo e instintivo, mais fruto de uma expectativa ou de uma busca, onde há uma mistura de motivações conscientes e inconscientes mais ou menos incontroláveis (Oliveira, 2002).
O mesmo autor acrescenta ainda que todos estes processos cognitivo-afectivos são muito influenciados pelas figuras parentais ou pessoas representativas da infância, podendo ser por namoros da infância, ou ainda pela própria psicologia e auto- conceito do amante que se busca no outro ou nele procura realizar a sua imagem ideal. Pode aceitar-se que muitas das escolhas têm uma componente neurótica mais ou menos acentuada.
Saraceno (1997) salienta que na relação do casal contemporâneo pressupõe-se uma paridade e reciprocidade a nível afectivo, mas em oposição, pressupõe-se uma subalternidade de interesses, uma assimetria de poder entre os sexos. Atribuindo um
valor diferente às escolhas e destinos individuais de cada um, à submissão dos dela aos dele na ideologia da intimidade e da unidade, facilitando a afirmação do homem no mundo social do trabalho e das carreiras, o autor subordina a identidade social da mulher à de esposa.
A ideologia do amor constitui uma passagem forçada por uma cultura e organização social, em que as relações familiares e parentais não podem valer institucionalmente como forma de colocação social. Apaixonar-se, por escolha livre e autónoma, e casar-se por amor fornecem o código legítimo e consensual da separação e autonomização necessária dos próprios pais, sendo quase um moderno rito da passagem à idade adulta (Saraceno, 1997).
A ideologia do amor romântico, de que fazem parte aspectos eróticos e sensuais, pode constituir um reforço da esfera de liberdade concedida aos jovens e adolescentes nas sociedades e nas famílias ocidentais contemporâneas (Saraceno, 1997).
Ao nos casarmos, damos origem a um novo sistema, a nossa nova família, formando um sub-sistema particular, o conjugal (Alarcão, 2000).
A mesma autora acrescenta que quando casamos, levamos na bagagem muito mais do que pensamos. Transportamos heranças familiares e aquisições que fomos fazendo ao longo dos anos, numa melodia mais ou menos harmónica. Através do contacto com os nossos pais e das vivências que com eles tivemos, assim como das ilações que tiramos acerca das suas próprias vidas (conjugal, familiar e individual), cada um constrói um modelo de vida pessoal (afectiva, profissional e social), conjugal e familiar que, no sub-sistema conjugal, vai ter que ser confrontado e negociado com o nosso parceiro (Alarcão, 2000).
De acordo com Wall (2005), a formação de um casal pode ser fabricada de maneiras consideravelmente distintas. Partindo do princípio de que uma relação, para ser conjugal, implica a coabitação dos dois parceiros, uma primeira diferença reside na maneira como se iniciou a vida em conjunto – se pelo casamento, se pelo simples acto informal de começar a partilhar a mesma casa.
Nos anos 50, a pesquisa de Girard (1964-1981) revelou a importância decisiva da proximidade espacial. Em metade dos casais inquiridos, os cônjuges residiam no mesmo município antes do casamento. Com o aumento da mobilidade geográfica e o decréscimo das actividades ligadas ao campo, Bozon e Héran (1987) consideram que a proximidade geográfica se impõe com menos vigor na década de 80 (Wall, 2005).
A definição de família tem evoluído na sociedade portuguesa – à família alargada de outrora corresponde actualmente o agregado familiar restrito, constituído por pai, mãe, um ou dois filhos. Esta mudança já pode hoje ser conferida no próprio dicionário. Para a definição de família, o Dicionário do Português Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, apresenta a seguinte definição de família:
“1. Conjunto de pessoas ligadas por laços de consanguinidade, que vivem na mesma casa, especialmente o casal e os filhos. 2.Conjunto de todas as pessoas aparentadas ou não, que vivem na mesma casa, incluindo mãe, pai, filhos, empregados…3. Conjunto de pessoas ligadas por quaisquer laços de parentesco, vivendo ou não na mesma casa” (Dicionário do Português Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, 2001 :1688).
No caso concreto deste estudo, é o sentido de família registado em 1. que assumimos, uma vez que consideramos como pertencentes ao núcleo familiar o pai, mãe, os filhos, os avós paternos e maternos, os tios direitos e os primos em 1º grau. Continuamos a encontrar em Portugal um núcleo familiar alargado, que não se restringe aos pais e aos filhos, como pudemos verificar nos Inquéritos por entrevistas e nas entrevistas abertas.