As contribuições teóricas e a análise documental apresentadas nas seções anteriores procuraram situar as teorias e pesquisas sobre homossexualidade,
identidade e preconceito, bem como dar uma visão de como o universo educacional brasileiro, através de suas diretrizes, trata desta questão.
Para contextualizar este estudo, realizei um levantamento bibliográfico sobre teses e dissertações que abordam a temática da homossexualidade disponíveis nas bibliotecas das seguintes instituições: FIOCRUZ, PUCRS, UFRGS, UFSM, PUC-PR, Fundação Carlos Chagas, Unicamp, USP, UNESP, PUC-SP, UFRJ, PUC-MG, UFMG e UNB. Analisando essa produção, percebi que a maioria delas restringe-se aos campos da Medicina, da Psicologia, do Direito, da História, da Antropologia, da Comunicação, da Literatura e da Filosofia. Evidente que, comparando-se a décadas passadas, esta é uma produção bastante volumosa. Percebi, entretanto, que pouco tem sido estudado sobre o tema no campo educacional. Acredito que este estudo pode colaborar no preenchimento desta lacuna.
Historicamente, percebe-se, em nossa sociedade, uma grande necessidade de estabelecer a heterossexualidade como orientação afetivo-sexual normal, fazendo com que, muitas vezes, os indivíduos que têm uma sexualidade diferente desta sejam considerados anormais. Nossa cultura utiliza todos os mecanismos dos quais dispõe para garantir essa normalidade. Somos informados, desde a infância, através da família, da igreja, dos meios de comunicação e, também, da escola que toda orientação sexual que não for heterossexual é errada, é desviante. Como foi discutido anteriormente, algumas famílias preferem ter um filho ladrão a ter um filho homossexual. As igrejas ensinam que essa condição é pecado e procuram curá-la através da penitência e oração. Os meios de comunicação nos mostram, através de comerciais, um ideal de relacionamento que é o heterossexual, desconsiderando totalmente as outras formas de amor. Quando uma novela apresenta um casal homossexual, torna-se alvo de curiosidade, aumenta os índices de audiência, mas causa uma polêmica nacional. Na escola, na maioria das vezes, esses sujeitos são ignorados pelos professores, mas, certamente, não passam despercebidos pelos colegas. Essa orientação sexual não aparece em livros didáticos e, por não saberem lidar com uma identidade sexual diferente da heterossexual, quase sempre, esses sujeitos são considerados um problema pelos educadores. Todos esses espaços nos ensinam a ser preconceituosos em relação aos homossexuais.
Dessa forma, muitas vezes, esses indivíduos são expostos, desde a infância, às mais diferentes formas de discriminação. Se considerarmos que a identidade é um conjunto de representações que o sujeito tem sobre si mesmo e que
essas representações são construídas especialmente na relação com os outros - em função das expectativas que os outros depositam nele - essas vivências de preconceito e discriminação podem influir na forma como esse sujeito se vê e na maneira como se relaciona com o mundo.
A identidade é constituída no contexto histórico social em que os indivíduos estão inseridos. Entretanto, esse contexto não é estático, tampouco as relações dos sujeitos entre si e com o mundo. Posso entender, então que, ao nos referirmos à identidade, estamos fazendo-o no plural – identidades. Em decorrência, a identidade homossexual também é concebida no plural, sendo possível pensar a existência de homossexualidades, ou seja, vivências únicas, particulares e irrepetíveis da sexualidade (SANTOS, 1997). Existem formas distintas de viver a homossexualidade, que correspondem a várias identidades e a várias homossexualidades.
Entendo que o preconceito é uma atitude negativa em relação a uma determinada pessoa ou grupo. Essa atitude é baseada em representações mentais deformadas e incompletas, os estereótipos. Na maioria das vezes, o preconceito gera discriminação. A discriminação é a transformação do preconceito em atos: um olhar diferenciado, a hostilidade, um ato de violência.
No que tange aos espaços educativos, distingo os seguintes: formais, não- formais e informais. Por educação formal entendo toda educação oferecida em instituições educacionais formais de ensino, públicas ou privadas, tais como escolas, faculdades, universidades, cursos técnicos. A educação informal é a educação que cada indivíduo recebe, fora do esquema formal e não-formal de ensino, durante toda a sua vida ao adotar atitudes, aceitar valores e adquirir conhecimentos e habilidades da vida diária com o meio que o rodeia: na família, na vizinhança, no trabalho, nos esportes, na biblioteca, na rua, nos jornais, na televisão. A educação não formal envolve todas as atividades organizadas fora do sistema formal de ensino, com objetivos educacionais bem definidos. É toda atividade educacional organizada e estruturada que não corresponda exatamente à definição de educação formal, por exemplo, alfabetização de adultos, catequese.
Neste estudo, problematizo a relação entre as vivências dos homossexuais em espaços educacionais formais, não formais e informais e a constituição de suas identidades, focalizando as percepções e sentimentos envolvidos nestas vivências. Considero que as experiências vivenciadas por tais indivíduos, especialmente as
que envolvem preconceito e discriminação, podem ser marcantes para a constituição de sua identidade homossexual, refletindo-se na forma como eles se relacionam com outras pessoas e na imagem que têm de si mesmos. Além disso, o esforço de superação dessa condição de discriminação e preconceito, o qual configura movimentos de resistência nos planos individuais e sociais, poderá imprimir um significado distinto na constituição das identidades desses sujeitos.
Como ponto de partida para o desenvolvimento do estudo, tracei as seguintes questões norteadoras:
- Que percepções e sentimentos um homem adulto, que se identifica como homossexual, experiencia em relação a si próprio e a outros?
- Como essas percepções e sentimentos podem estar relacionadas com vivências em espaços educativos formais, não formais e informais? - Que vivências de discriminação e de resistência são consideradas
mais significativas para a constituição das identidades homossexuais? Os objetivos desta pesquisa, portanto, são: compreender a constituição das identidades homossexuais de homens adultos a partir das experiências em espaços educativos formais, não formais e, informais; analisar como esses sujeitos sofrem e/ou resistem à discriminação e ao preconceito.
2 PRESSUPOSTOS E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Neste capítulo, exponho o método de pesquisa e explicito seus fundamentos epistemológicos. Apresento também o modo como busquei o material empírico e elaborei a compreensão do fenômeno em estudo.