4.6 I NTERVJU MED EN SYKEPLEIER , EN HJELPEPLEIER OG EN ASSISTENT
4.6.4 Refleksjoner rundt nøkkelinformantenes beskrivelse av egen praktikk og av
O Padre Josimo Morais Tavares chegou à região do Bico do Papagaio em 1983, e começou a desenvolver um trabalho junto aos/as trabalhadores/as rurais, no sentido de conscientizá-los dos seus direitos, pelo direito à reforma agrária, inclusive com manifestações lideradas por ele na cidade de Augustinópolis, Tocantins, em 1984. O padre Josimo é lembrado como um lutador sempre a favor dos direito dos/as trabalhadores/as rurais, e como o padre que levou conhecimento e conscientização às pessoas expropriadas do campo, quando por meio de sua palavra, os/as camponeses/as tiveram acesso à informação e consciência dos seus direitos, pois denunciou a grilagem de terras e a opressão dos latifundiários.
Em 1986, padre Josimo escreveu seu testamento, consciente das ameaças de morte que estava sofrendo. No documento, reafirmou seus compromissos com os/as trabalhadores/as rurais:
151 Para resgatar a memória de luta pela posse da terra e pelo livre acesso ao babaçu, foi inaugurado no dia 08 de dezembro de 2010 o “Memorial Raimunda Gomes da Silva”, onde ficará arquivada boa parte dos documentos de sua trajetória de vida e de luta social. O Memorial tem sua sede na comunidade de comunidade de Sete Barracas, no município de São Miguel do Tocantis/TO. Disponível em: http://www.vozdobico.com.br/noticia.php?l=ea622a5e6c14995ebbd87f1f960138f2. Acesso em: 10 fev. 2012. 152 DOCUMENTÁRIO: RAIMUNDA, A QUEBRADEIRA. Produção de Public Propaganda e Marketing. Coprodução da Fundação Padre Anchieta – TV Cultura, RedeSat/ TV Palmas-TO. Edição III DOC TV. Cineasta: Marcelo Silva. Coordenação Louislene de Jesus P. Souza. Palmas: Public Propaganda e Marketing, 2007. DVD (51 min. e 55 seg.), son., color.
Tenho que assumir. Estou empenhado na luta pela causa dos lavradores indefesos, povo oprimido nas garras do latifúndio. Se eu me calar, quem os defenderá? Quem lutará em seu favor? Eu, pelo menos, nada tenho a perder. Não tenho mulher, filhos, riqueza... Só tenho pena de uma coisa: de minha mãe, que só tem a mim e ninguém mais por ela. Pobre. Viúva. Mas vocês ficam aí e cuidam dela. Nem o medo me detém. É hora de assumir. Morro por uma causa justa. Agora, quero que vocês entendam o seguinte: tudo isso que está acontecendo é uma consequência lógica do meu trabalho na luta e defesa dos pobres, em prol do Evangelho, que me levou a assumir essa luta até as últimas consequências. A minha vida nada vale em vista da morte de tantos lavradores assassinados, violentados, despejados de suas terras, deixando mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar153. Conforme conta a quebradeira de coco Maria Rita da Silva Lira, atual membro do Conselho Fiscal do MIQCB e, à época, coordenadora da Associação de Mulheres em Axixá, no Estado do Tocantins:
Mas ele nunca mandou a gente invadir terra de ninguém. Ele nunca disse assim: tu entra na terra e toma pra tu. Ele dizia assim: entra na terra pra trabalhar. Pra vocês arrumar melhor o futuro de vocês, pra dá pro filho de vocês. Ele ensinava e educava nós. Como era que a gente podia se livrar dos grileiros, dos pistoleiros. Tinha pistoleiro demais. A gente tinha até uns caminhos que era o caminho dos beato, com medo dos cara. E sempre a dona Raimunda e o padre Josimo nunca abandonou nós154.
De acordo com Lourdes Gói, o trabalho desenvolvido pelo padre Josimo era muito importante, pois através dele, o povo entrou na Igreja, pôde ser ouvido e reivindicar por reforma agrária.
Ele estudou filosofia, teologia, letras. Houve um resgate da população na sua celebração da fé. Antes as igrejas eram constituídas por quem dominava e de repente o povo começou a fazer parte da Igreja e trazer sua cultura pra dentro da Igreja, sua expressão de fé. Também nós fomos reprimidos dentro das igrejas. Fomos ameaçados dentro das igrejas. Tínhamos que fugir, andar à noite correndo pra poder escapar das perseguições e das balas155.
As ameaças eram constantes, assim como os atentados sofridos pelo padre. No município de Augustinópolis, o carro em que trafegava foi atingido por vários tiros, mas não o matou, no entanto, sua morte foi em Imperatriz, no Maranhão, quando estava subindo a escada para a sede da Comissão Pastoral da Terra - CPT.
153 Disponível em: http://www.mst.org.br/node/11724. Acesso em: 10 dez. 2011.
154 DOCUMENTÁRIO: RAIMUNDA, A QUEBRADEIRA. Produção de Public Propaganda e Marketing. Coprodução da Fundação Padre Anchieta – TV Cultura, RedeSat/ TV Palmas-TO. Edição III DOC TV. Cineasta: Marcelo Silva. Coordenação Louislene de Jesus P. Souza. Palmas: Public Propaganda e Marketing, 2007. DVD (51 min. e 55 seg.), son., color..
Ao relembrarem o trabalho do padre Josimo, as mulheres quebradeiras exaltam seus ensinamentos e sua luta em benefício dos/as camponeses/as, como ressaltam as palavras da quebradeira de coco Maria Rita da Silva Lira: “Josimo era bem novinho, só tinha 33 anos, com a idade de Jesus, ele foi se entregando, e se despedindo do povo, sua saudade deixando, mas sei não, mas no mundo não tem outro padre como ele. Pra nós não” 156!
De acordo com notícia publicada, em 06 de maio de 2006, no Jornal Pequeno, o pistoleiro Geraldo Rodrigues da Costa foi preso em Goiânia (GO), cerca de um mês depois de executar o padre Josimo. Ele indicou os irmãos Teodoro da Silva como os principais mandantes do crime, e em 1988, Geraldo foi condenado a 18 anos e seis meses de prisão, mas fugiu três vezes da cadeia e numa dessas fugas tentou assaltar um banco, sendo morto pela polícia, quando quatro mandantes também foram condenados: Osmar Teodoro da Silva, o “Neném”, principal mentor do assassinato do padre, condenado a 19 anos, em setembro de 2003; Geraldo Paulo Vieira, que morreu em Imperatriz, em 1997, e seu filho Adaílson Gomes Vieira foram condenados a 18 anos; Guiomar Teodoro da Silva e Vilson Nunes Cardoso, que deu fuga ao matador num Corcel 2 amarelo, foram condenados a 14 anos cada um; João Teodoro da Silva, também envolvido no assassinato, morreu antes do julgamento. Foram absolvidos, Nazaré Teodoro da Silva, o “Deca”, e Osvaldino Teodoro da Silva, também mentores do assassinato. O Tribunal de Justiça do Maranhão anulou o júri e os réus recorreram ao Supremo Tribunal Federal (STF), que ainda não pronunciou sua decisão157.
Dona Raimunda Nonata, atual presidenta da Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio - ASMUBIP, ao se reportar ao longo e violento processo de luta dos/as trabalhadores/as rurais e das mulheres quebradeiras de coco, lembrou que foi um tempo de intensas perseguições, ameaças e assassinatos, em que sucumbiram não apenas líderes comunitários, mas pessoas favoráveis à causa camponesa. Ao rememorar aqueles tempos, afirmou: “falar em sindicato de trabalhadores rurais ou associação era crime e perseguição na certa”158.
Na região de incidência dos babaçuais, a estrutura fundiária favorece a concentração de renda e de terra, além de gerar e reproduzir diferentes relações de sujeição. As relações de poder no contexto do babaçu abrangem vários sujeitos: mulheres quebradeiras de coco
156 DOCUMENTÁRIO: RAIMUNDA, A QUEBRADEIRA. Produção de Public Propaganda e Marketing. Coprodução da Fundação Padre Anchieta – TV Cultura, RedeSat/ TV Palmas-TO. Edição III DOC TV. Cineasta: Marcelo Silva. Coordenação Louislene de Jesus P. Souza. Palmas: Public Propaganda e Marketing, 2007. DVD (51 min. e 55 seg.), son., color.
157 Disponível em: http://www.jornalpequeno.com.br/2006/5/6/Pagina33704.htm. Acesso em: 10 dez. 2011. 158 Disponível em: http://www.vozdobico.com.br/noticia.php?l=ea622a5e6c14995ebbd87f1f960138f2. Acesso em: 10 fev. 2012.
babaçu, trabalhadores/as rurais, grandes latifundiários, empresários, atravessadores, que se incumbem de fornecer as amêndoas para abastecimento das empresas, proprietários de barracões, catadores de coco e funcionários de indústrias beneficiadoras o coco babaçu.
As modificações nas relações sociais e nas estratégias de luta das mulheres quebradeiras intensificam-se a partir da implantação de siderúrgicas e indústrias de óleo, denominadas por Alfredo Wagner Berno de Almeida, Joaquim Shiraishi Neto e Cynthia Carvalho Martins (2005, p. 98) de “novas estratégias empresariais”. O acirramento dos conflitos entre as mulheres quebradeiras e seus antagonistas acontece em razão da rivalidade existente contra múltiplos agentes e empresas diversas, quando ora, o processo de exploração não se dá apenas pelo latifundiário, mas por empresas que, camufladas pelo discurso ambientalista, conseguem aprovar projetos junto a organismos multilaterais (ALMEIDA et
al., 2005, p. 99), e essas novas estratégias subjugam as mulheres quebradeiras e as fazem
buscar novas formas de mobilização mais diretas e explícitas, como a luta pela aprovação de uma lei federal do babaçu e denúncias feitas pelo MIQCB contra as arbitrariedades cometidas pelas empresas e pelos latifundiários que atingem fortemente o meio ambiente e a extração do coco babaçu.
O MIQCB, no âmbito de sua atuação, identifica as práticas de sujeição e as denuncia como forma de chamar atenção para os conflitos fundiários que persistem na região. Por meio do MIQCB, as mulheres quebradeiras de coco babaçu ganham representatividade política e reivindicam a proteção das palmeiras, o direito à reforma agrária, à aprovação de uma lei federal do babaçu livre, à regularização das reservas extrativistas, à tecnologia socialmente apropriada e à transformação nas relações de gênero.