É hora do almoço. Sigo a trilha estreita do mato correndo até em casa. Macu não desvenda todos os mistérios. É difícil ter que esperar. Meu corpo está todo coberto de mel. Quero atrair as novidades-abelhas. Quero todas grudadas em mim.
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13 de maio. Estamos na Faculdade de Educação da UFC. São15 horas. Percebemos Rebeca apressada e cheia de pacotes e caixas. Como é o primeiro dia da pesquisadora com seu grupo-alvo de universitários, ela está com o coração batendo forte. Procura a chave da sala que irá ocupar durante seu período de pesquisa, em vários departamentos da faculdade e finalmente encontra. Sobe as escadarias que dão acesso ao segundo piso do prédio acadêmico e então encontra com alguns jovens sorridentes e ansiosos em iniciar aquela jornada de trabalho investigativo e de aprendizagem coletiva. Rebeca abre a porta. A sala é grande, porém os ventiladores sem funcionamento acarretam desconforto ao ambiente. Em uma das paredes há um grande espelho, o que originou o apelido da sala: “sala dos espelhos”, muitos colchonetes no chão dispostos no meio das cadeiras escolares organizadas em círculos.
Macu e eu nesse momento nos aproximamos de uma mesa retangular, comum em toda sala de aula conhecida como o canto do professor/a. Pois bem, aproximamo-nos curiosos para ver o que nossa elétrica pesquisadora retira das caixas e sacolas. Na primeira caixa há muitos pincéis ( pequenos, médios, grandes, finos e grossos) bem como várias bisnagas com tintas ( verde, marrom, preta, amarela, azul, vermelha). Agora ela desarruma as sacolas: um tecido branco enorme e muito grosso. Macu explica que se trata de uma tela preparada para ser pintada. Tudo sobre a mesa. Rebeca recebe suas co-pesquisadoras e co- pesquisadores que demonstram muita motivação e curiosidade em seus rostos. Chega também sua amiga Cláudia Robéria. Essa é uma bela jovem negra de cabelos crespos e bonitos. Ela será muito importante para essa pesquisa-curso, pois será a assistente, ou também conhecida como co-facilitadora pelos sociopoetas.
Quem chega acomoda-se nas cadeiras ou nos colchonetes. Cláudia e Rebeca agradecem pela presença do grupo de 28 participantes e iniciam o encontro. Primeiramente conversam sobre freqüência, pontualidade e sobre o compromisso de fazer uma pesquisa sociopoética. Alertam que é fundamental a assiduidade principalmente durante a produção
de dados, como também o conjunto das produções para o bom desempenho da pesquisa e que a falta de alguém deixará a pesquisa menos interessante, uma vez que não participará da produção dos conceitos e confetos. Cláudia entrega a cada participante um caderno brochura pequeno para que registre em casa o que observara no dia a dia de pesquisa e de curso. Esta questiona sobre dúvidas e todos afirmam inexistirem.
Cumprida esta etapa inicial Rebeca passa a vista no seu planejamento e combina começar o dispositivo do dia com a co-facilitadora Cláudia. Macu e eu demos uma espiadinha e o mesmo estava organizado da seguinte maneira:
TELA MULTICONCEITUAL - PLANEJAMENTO Data15/05/2006
1. Conversa com os co-pesquisadores.
2. Apresentação dos co-facilitadores através de expressão corporal. 3. Relaxamento com fundo musical instrumental.
4. Viagem ao lugar do ser negro. 5. Produção plástica coletiva.
6. Produção escrita analítica individual sobre a tela.
7. Socialização da produção escrita e das sensações provocadas pela técnica. 8. Fechamento com dança afro.
Macu e eu sentamos num banco de madeira grande, próximo ao espelho e atentamente observamos o grupo que já havia iniciado as apresentações. As cadeiras e os colchonetes foram colocados de lado. A sala ficou bem espaçosa e o grupo agora se coloca num grande círculo. Cláudia põe uma música de fundo, uma salsa, e um a um, os integrantes do grupo do ser negro dirige-se ao centro do círculo onde se apresenta enquanto cria um gesto com o corpo que expresse seu nome.
Os demais acompanham repetindo o gesto, bem como o nome em voz alta. Individualmente todos fazem sua exibição.
Apresentações realizadas, Cláudia pede que todos façam um grupo de exercícios inspirados na capoeira angola para baixar o nível de consciência do grupo e deixar os corpos mais envolvidos na técnica que acaba de começar. A energia vibrante de Claudinha, como Rebeca chama sua amiga co-facilitadora, contagia a cada integrante e todos parecem mais
facilitadoras. Rebeca pede que todos fechem os olhos e os convida a fazer uma viagem imaginária. Ela diz:
Gostaria de convidar você a fazer uma viagem em seu imaginário. Com os olhos fechados respire com calma, pois você está dentro de um balão colorido e gigantesco que voa cortando o céu de leste a oeste. Do alto, o vento sopra em seu rosto. O céu azul, o calor do sol. Aos poucos o vento vai conduzindo o balão colorido a um lugar, é o lugar do ser negro.
O balão vai tocando o solo e você se prepara para explorar o local. Salta do balão e passo a passo vai descobrindo inúmeras características
do lugar do ser negro.
Observe com bastante atenção os aspectos desse lugar. Então:
1. Como é esse lugar? 2. Lá tem cor? Tem cores?
3. Como são os habitantes deste lugar?
4. Como estes habitantes agem? 5. O que fazem nesse lugar? 6. O que eles sentem?
7. O que você sente ao deparar-se com estes habitantes? 8. Imagine cada detalhe com cuidado.
Agora você sente que está na hora de partir. O Sol, daqui a pouco irá se pôr. Você olha para trás para se certificar das imagens que estão retidas na sua lembrança. Observa mais uma vez todas as características do lugar do ser negro e de seus habitantes para finalmente voltar a voar a mercê do vento que sopra forte e que traz você de volta, bem lentamente até a quadra da FACED. Você salta do balão e vem caminhando para a sala 13, “a sala dos espelhos”.
Cláudia, aceitando o sinal no olhar da amiga Rebeca, toma a palavra e pede que cada co-pesquisador/a registre com pincel e tintas o lugar do ser negro que imaginou. Os co-pesquisadores tranquilamente abrem os olhos e aos poucos vão se apoderando dos pincéis, copos com água e tintas de várias cores. Aproximam-se da grande tela em branco e iniciam a pintura coletiva.
Tinta, tela, vai e vem, contudo não vale comentar, pois segundo elas, pode haver interferências nos desenhos.
Decorridos 40 minutos a imensa tela ganha muitas cores e formas diversas. Todos se sentam em torno da tela multiconceitual do ser negro enquanto Rebeca acresce:
Bem... Temos a tela multiconceitual do ser negro a nossa frente. Gostaria que cada um, inspirado pelas imagens, pegasse papel e caneta e registrasse o que a tela inspira.
Rebeca combina 15 minutos para que o grupo exerça a atividade, porém percebe que muitos ainda estão escrevendo e prorroga o prazo em mais dez minutos. Ao final deste prazo Rebeca interpela:
Pessoal, olha é assim o que nós vamos fazer agora, quem não quiser ler o texto não precisa. Vocês podem simplesmente falar um pouquinho do que viveram até agora no relaxamento, na viagem e principalmente a relação que fazem das imagens da tela com o ser negro.
Os co-pesquisadores decidem falar da experiência, mas também desejam ler o que escreveram há pouco.
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Esse momento é primordial Zica, os integrantes do grupo irão socializar o que escreveram sobre a tela. Acho esse um momento muito importante, pois é o confronto de idéias. Fulano pensa de um jeito, sicrano pensa de outro jeito e assim sucessivamente.
E se alguém disser algo totalmente diferente do que disse a maioria? Mesmo assim essa opinião é aceita, ou essa pessoa terá que reformular seu modo de ver as coisas?
A riqueza dos conceitos sobre a pesquisa reside exatamente nas diferenças de pensamento. O particular deve ser mantido e considerado. Veja, a co-pesquisadora está começando sua fala, vamos ouvir: