Em 1981, Éolo Maia, Jô Vasconcellos e Sylvio de Podestá efetivam uma profícua parceria iniciada com as publicações de Vão Livre e Pampulha no final da década anterior, que ficou conhecida como “Três Arquitetos”. As obras deste período procuram combater diretamente as formas e os princípios estruturais da arquitetura moderna em favor da liberdade de criação arquitetônica inaugurando a arquitetura pós-moderna14 no
Brasil.
[O desenho do edifício] Contraria a estética moderna orientada por parâmetros pré-estabelecidos onde o objeto arquitetônico adquire, como expressão principal, a função interna, seus processos estruturais e a glória do autor (MAIA; PODESTÁ; VASCONCELLOS, 1983:13).
Desde a Residência Marcos Bicalho (1980), percebe-se uma mudança de atitude do arquiteto em favor da autonomia da composição epidérmica do edifício em relação às demandas técnicas e funcionais. Neste projeto, a complexidade formal advém da
14 Segundo Jencks (1991:6), o termo “pós-moderno” começou a ser utilizado no campo da arte em
1976 e logo passou a designar as manifestações artísticas que se opunham ao movimento moderno ortodoxo.
variação do perímetro do pavimento sob o prisma triangular elevado e do regime de aberturas e não mais corresponderem diretamente às necessidades do programa.
A partir desse projeto, observa-se que as referências a Kahn e aos demais mestres modernos dão lugar ao trabalho que privilegia as formas puras e geométricas, as composições simétricas, a utilização de materiais e elementos regionais, e as citações e colagens tomadas de outras arquiteturas. Seus projetos passam a espelhar as idéias e formas presentes nas obras de Robert Venturi, Aldo Rossi e James Stirling, dentre outros arquitetos em evidência naquela época.
A Residência Hélio e Joana (1981-82) (Fig. 2.26) em Ipatinga, realizada em parceria com Podestá, é ilustrativa desta mudança de paradigma. O projeto resulta da disposição dos espaços internos ao longo de uma circulação longitudinal dominante que define o eixo de simetria de toda a composição. No entanto, a própria lógica deste esquema é subvertida pela disposição assimétrica das funções internas. Tanto as áreas sociais quanto os serviços ocupam espaços equivalentes dentro do esquema compositivo, revelando um abandono da lógica estrutural racionalista em que pesavam de maneira equânime as formas e as funções por elas abrigadas. Este desequilíbrio é expresso externamente através dos volumes desiguais que se projetam do prisma triangular maior. Do corpo principal da casa destaca-se o bloco dos quartos, situado no final do percurso central. A proposta de edificá-los com cúpulas de tijolos, técnica utilizada na construção de fornos da região, viria a ser utilizada posteriormente com sucesso no Grupo Escolar Vale Verde. Além destes aspectos, é de se notar a grande semelhança entre Residência Hélio e Joana, o Hotel Classe A (1977-78) (Fig. 2.27), em Ouro Branco, e o projeto de Venturi para a Residência Vanna Venturi (1962), em Chestnut Hill (Fig. 2.28).
Essa etapa da obra de Éolo marca a continuidade do exercício profissional através da participação em concursos de arquitetura, sozinho ou em parcerias com Sylvio e Jô. Dentre estes, obtiveram êxito os projetos para o Parque de Lazer da Gameleira (1981, 5o lugar) (Fig. 2.29), a Reforma do Teatro Francisco Nunes (1981, menção
honrosa) (Fig. 2.30) e o Edifício Sede do Sindicato dos Jornalistas (1982, menção honrosa) (Fig. 2.31). Destaca-se, ainda, a participação simultânea em cinco concursos públicos para Grupos Escolares Rurais e em Periferias Urbanas (1981), a partir de propostas de autoconstrução e industrialização dos componentes, que concedeu aos arquitetos dois primeiros lugares e uma menção honrosa.
Um dos projetos vencedores deu origem ao Grupo Escolar Cachoeira do Vale (1983-5) (Fig. 2.32), em Timóteo, no qual os arquitetos exploram as qualidades técnicas e
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plásticas permitidas pelo sistema construtivo semi-industrializado em estrutura metálica. Neste projeto os arquitetos lograram conciliar a complexidade do espaço interior e a coordenação modular demandada pelo sistema construtivo eleito. A estratégia dos arquitetos consiste na definição de um esqueleto metálico por repetição dos elementos portantes, a ordenar a disposição dos itens do programa. A esta ordenação sobrepõe-se a setorização das funções internas organizadas horizontal e verticalmente de modo a gerar variações na ambiência, escala e conexões entre os espaços. No entanto, este projeto guarda uma contradição evidente entre seus pressupostos tecnológicos e sua forma edificada. Segundo Kroll (1986), o emprego das inovações tecnológicas e construtivas em arquitetura evitaria a permanência dos valores tradicionais. De fato, observa-se que no Grupo Escolar Cachoeira do Vale a adoção de um sistema construtivo não convencional motiva os arquitetos a buscarem nova linguagem arquitetônica, a ser extraída das qualidades plásticas e materiais dos elementos que compõem o próprio sistema. No entanto, os arquitetos não se furtam a estabelecer vínculos com as formas mais tradicionais para este tipo de programa, como a cobertura de duas águas e o frontão triangular que sustenta um relógio.
O segundo projeto vencedor do concurso para grupos escolares explorava as qualidades plásticas e construtivas permitidas pelo uso extensivo do tijolo como componente das fundações, estrutura, pisos, vedações e coberturas15. A partir destes
elementos, os arquitetos propuseram um sistema construtivo que pudesse aproveitar a mão-de-obra das regiões com tradição construtiva em fornos de carvão vegetal. Acreditava-se que a adaptação de formas familiares a novos usos, poderia ativar a utilização de materiais e mão-de-obra locais barateando as construções pela eliminação do uso extensivo do ferro e do cimento. Neste projeto, Éolo demonstra familiaridade com as pesquisas desenvolvidas pelo arquiteto egípcio Hassan Fahty.16
Ainda que este projeto não tenha sido levado a cabo, estas investigações motivaram o prefeito da cidade de Timóteo a encarregar o arquiteto de projetar o Grupo Escolar Vale Verde (1983-5) (Fig. 2.33). Desenvolvido horizontalmente em andar único, o edifício reproduz a organização espacial recorrente em projetos desta natureza, com o pátio central a articular os blocos de aulas, recreio e administração. De fato, o caráter excepcional do projeto reside nas conquistas técnicas e plásticas permitidas pela
15 Está técnica construtiva foi primeiramente proposta por Sylvio de Podestá em seu projeto para a
Residência Rogério Franco (1981).
16 Fathy empreende uma pesquisa para recuperar a tradição construtiva autóctone de seu país
que, segundo acredita, seria capaz de solucionar o problema de custo e qualidade das habitações. E, de fato, a técnica das abóbadas autoportantes em blocos de adobe se mostrou bastante eficiente. Cf. FATHY (1973).
utilização racional do tijolo cerâmico. Além das alvenarias portantes, as coberturas abobadadas permitem que no edifício só existam os esforços de compressão tirando proveito das propriedades físicas do material e eliminando o aço da sua construção. A racionalização dos sistemas construtivos estende-se ao emprego das instalações prediais típicas deixadas aparentes, eliminando os cortes na alvenaria e facilitando sua manutenção. A utilização de um material de baixa condutividade e grande inércia térmica vinha a garantir o conforto ambiental durante todo o ano, reforçado pelas soluções de ventilação natural através de torres de exaustão e de cobogós feitos com os mesmos blocos cerâmicos. Neste projeto, Éolo se vale das qualidades materiais do tijolo aparente na composição volumétrica do edifício. Alterando a disposição, o sentido e a densidade do assentamento dos blocos, produz variações de sombra e textura que remete à linguagem do arquiteto suíço Mario Botta.
As propostas de intervenções em sítios e edificações históricos iniciadas com sucesso na década anterior com a Fazenda do Pé do Morro (1977-78) e a Fazenda das Carreiras (1979), tiveram continuidade nos projeto para a Fazenda da Cachoeira (1982- 83) para a Residência do Arcebispo de Mariana (1982-87) (Fig. 2.34) e para o Sítio Barão do Botafogo (1986). Estas intervenções primavam pelo respeito à arquitetura e à técnica construtiva pregressas, tendo como único pressuposto a diferenciação clara entre o novo e o antigo através do emprego de formas e materiais contemporâneos.
Acreditamos que o respeito pela arquitetura atual e antiga, desde que autêntica, é a atitude primordial para se tentar executar uma restauração ou intervenção. As verdades construtivas de cada metodologia e época devem ser bem caracterizadas, pois fazem parte de um história dinâmica e viva (MAIA; VASCONCELLOS, 1981. In MAIA; VASCONCELLOS; PODESTÁ, 1981: 107 e 1985:53).
Dentre os projetos enumerados, a Residência do Arcebispo de Mariana é sem dúvida o mais significativo pela utilização inventiva dos materiais e técnicas contemporâneos, bem como por sua inserção harmônica no ambiente físico e histórico. Projetado em parceria com Jô Vasconcellos e Sylvio de Podestá, o edifício reproduz a tipologia, o alinhamento, a escala e o ritmo das aberturas das edificações vizinhas, resultando em um volume discreto para suas proporções. Contrapondo a sobriedade do aspecto externo da edificação, o espaço interno é pictoricamente elaborado através do uso de cores, formas e materiais diversos. A ordenação espacial do edifício em torno de um pátio central reproduz o claustro dos conventos religiosos, gerando um espaço de encontro e qualificação das circulações internas. No entanto, o maior logro desta obra encontra-se na solução de conciliação entre a técnica construtiva contemporânea e o
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lugar histórico. A partir da releitura dos umbrais e padieiras de madeira das casas coloniais, os arquitetos dispõem pilares e vigas metálicos nas esquinas e no arremate superior da cobertura, conferindo-lhes a cor marrom a contrastar com o branco das alvenarias. A solução ainda resulta leve pela utilização de perfis abertos, a produzir sombras na própria estrutura.
Sem dúvida, o projeto mais emblemático do período de crítica pós-moderna na obra de Éolo é o Centro de Apoio Turístico Tancredo Neves (1985-92)17 (Fig. 2.35),
elaborado em parceria com Podestá. Implantado em plena Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, berço do poder constituído do Estado e de sua representação, o edifício dialoga de maneira irônica e irreverente com seu entorno. Nesse projeto, colagens, citações e alegorias compõem um projeto de grande expressão imagética. O sexto capítulo buscará avaliar mais detalhadamente esse edifício.
De acordo com a classificação proposta, a segunda fase da obra de Éolo se encerra com o fim da parceria com Sylvio de Podestá e a dissolução do Três Arquitetos no ano de 1989.