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LOURENÇÃO: 2009

Até aqui, nada de muito novo; mas em cada componente opera o cálculo da japonesidade, que fornece densidade às unidades-valores que ativam os sujeitos. Isso é importante. E existem conseqüências. Em primeiro lugar, a própria idéia de ‗identidade‘ é um atual em um virtual no qual só há ‗diferença‘, de cima a baixo e ortogonalmente. Em segundo, não há senso de ‗totalidade‘ pois nunca se tem o domínio do todo, o que é o corolário da operação hierárquica. Em suma, no gráfico, temos relações dadas entre séries de agenciamentos hierárquicos. Resumindo em forma escolar o precedente conforme se ‗sobe‘ relativamente, mais imbuído o ‗pensamento‘ sobre os japoneses se fica e conseqüentemente capturada se torna a singularidade, que é o efeito evidente do processo. Ora, a aproximação hierárquica tem por corolário domesticar a diferença fenotípica, ao mesmo tempo em que a distância social se torna mínima, o que poderíamos conceituar como uma espécie de ‗reciprocidade hierárquica‘ (LANNA: 1996, P 1-2) em um caso e hierarquia de ‗diferencial‘, em outro, através das quais seriam moduladas pelo cálculo na geometria de japonesidade. Outro exemplo instrutivo

sobre o ‗englobamento da diferença‘ é do professor Constantino Messinis145. Esse Sr.

teve e tem importante papel na divulgação do Kendo no Brasil pelo seu trabalho junto à Federação Paulista de Kendo. O professor Yashiro constantemente lembra-se de sua influência quando reiniciou os treinos em Brasília. O Sr. Constantino, pela graduação e ação de divulgação, é um exemplo de ‗englobado diferencial‘, e pelos conhecimentos que possui é ‗mais japonês‘ que muitos japoneses, quando está ativado pelo Kendo.

Uma constatação: não é muito fácil identificar um ‗japonês‘...

***

145 50 anos, começou a prática do Kendo com 13 anos, em Taquatinga, Brasilia/DF. 6º Dan. Atualmente presidente da Federação Paulista de Kendo.

Da mesma forma que na esgrima existiam as diversas posições e as regras de procedimento, o cerimonial do chá também era rígido, Musashi ouvira dizer. E agora, observando Myoshu com atenção, ele considerou suas maneiras soberbas.

―Não vejo brechas em sua postura‖, pensou Musashi, interpretando-a uma vez mais à luz da esgrima. Quando um magistral espadachim se põe em pé, empunhando sua espada, sua aparência distancia-o dos simples mortais. E Musashi percebia a mesma impressionante solenidade na figura dessa anciã de quase 70 anos preparando o chá.

―Caminhos... A essência da arte... Todas as coisas assumem idênticas formas quando atingem a excelência‖, pensou, contemplando embevecido os gestos da idosa mulher.

Logo, porém, caiu em si e percebeu que haviam depositado à sua frente uma chávena sobre um pequeno retalho quadrangular de crepe. Musashi nunca havia participado de uma cerimônia do chá e hesitou, sem saber como segurar a chávena ou beber o chá.

A chávena era tosca, desgraciosa como uma tigela de barro moldada por uma criança. No entanto, dentro dela, a espuma do chá tinha um tom verde escuro mais profundo e sereno que o céu.

Musashi voltou-se em silêncio para observar Koetsu. Este já comia o seu confeito. Apanhou em seguida a chávena, envolveu-a com as duas mãos — como se estivesse aquecendo-as numa noite fria — e esgotou o seu conteúdo com dois ou três goles.

— Senhor Koetsu — disse Musashi, tomando coragem —, sou apenas um rústico guerreiro. Para ser sincero, jamais participei deste tipo de cerimônia. Não conheço as regras e nem sei como tomar o chá. Ao ouvir isso, Myoshu voltou um olhar gentil em que havia uma leve censura e disse carinhosamente, como se falasse a um neto:

— Que é isso! Não existem regras na cerimônia do chá. Falar delas é pura impertinência, é falsa intelectualidade. Se você é um rude guerreiro, tome o chá como um rude guerreiro.

— Realmente?

— A arte do chá não consiste em etiqueta. Boas maneiras são uma questão mental. O mesmo se dá na esgrima, não é verdade?

— Sim, senhora.

— Não desperdice tempo pensando em boas maneiras ou perderá a oportunidade de saborear o chá. Se esta situação fosse transposta para a esgrima, seu corpo se enrijeceria e impediria a livre comunicação do espírito com a espada, não é verdade?

— Sim!

Cabisbaixo, Musashi esperou as próximas palavras da idosa mulher. Myoshu no entanto soltou uma risada cristalina e desculpou-se:

— Que digo eu! Nada sei de esgrima!

— Muito obrigado, senhora! Vou-me servir — disse Musashi. Ele desfez a postura formalizada que lhe provocava dores nas pernas e sentou-se como um guerreiro, cruzando os pés. Apanhou a chávena, tomou a infusão de um só gole e repôs o recipiente vazio sobre o retalho, descontraído como se estivesse tomando o chá habitual, depois de uma refeição.

―Amargo!‖, pensou. Não podia dizer que apreciara o sabor, nem por delicadeza.

(...)Tanto alvoroço por aquilo? Que havia de mais nesse líquido amargo? Por que o serviço era objeto de sérias considerações e provocava comentários do tipo ―gosto refinado‖, ―requinte da simplicidade‖, e dava origem a termos como ―cerimonial do chá‖? Musashi não conseguia compreender, mas nem por isso se sentia capaz de ir embora desprezando aquelas duas pessoas que desde o início haviam atraído sua atenção pela estranheza do seu comportamento. Yagyu Sekishusai buscara refúgio nesse caminho em sua velhice. Pensando melhor, o próprio monge Takuan referia-se constantemente à cerimônia.

Enquanto contemplava a chávena à sua frente pensando em Sekishusai, Musashi lembrou-se de chofre do galho de peônia cortado pelo idoso suserano.

Não! Não era a flor, a peônia branca — era o corte no galho! O estremecimento, o arrepio que sentira

naquele momento!...

―Que é isso?‖ Partindo da chávena, algo violento atingiu-lhe o espírito, a ponto de fazê-lo imaginar que dissera as palavras em voz alta. Estendeu a mão, depôs a chávena sobre as pernas dobradas, e contemplou-a de perto, quase envolvendo-a nos braços.

O jovem já não parecia o mesmo: seu olhar febril examinava minuciosamente o fundo da chávena, os sinais deixados pela espátula no recipiente.

―As marcas que a espada de Sekishusai deixou no galho da peônia — a agressividade destas marcas, deixadas pela espátula do artista quando recortou a argila... São expressões artísticas refinadas, produzidas por pessoas incomuns!‖

Não era capaz de explicar a razão. Quando muito, podia dizer que sentia o poder de uma habilidade magistral ali oculta. Sensações que dificilmente conseguiria exprimir em palavras vinham penetrando em sua alma, silenciosas, comoventes. E Musashi, mais que qualquer um, possuía a capacidade de perceber tais sensações, não restava dúvida.

―Quem terá sido o artesão?‖

Tomou-a nas mãos e não se sentiu capaz de separar-se dela. Musashi não se conteve e perguntou: — Senhor Koetsu: como eu disse há pouco, nada entendo de cerâmica. Mas esta chávena deve ser obra de um grande artesão...

— Acha? Por quê?

As palavras de Koetsu eram suaves, como a expressão do rosto. Seus lábios eram grossos mas sabiam sorrir, charmosos como os de uma mulher. Os olhos, rasgados, ligeiramente caídos nas extremidades, eram graves, mas apresentavam rugas que lhe imprimiam um ar trocista.

— É difícil explicar. Apenas senti que assim era.

— Mas deve ter visto ou sentido algo. Explique-me isso — disse Koetsu, com maldosa insistência. — Bem... — disse Musashi, pensativo. — Tentarei explicar, embora não esteja certo de conseguir. Este sinal vigoroso deixado pela espátula na argila...

— Hum! — fez Koetsu, limpando a garganta. O artista, certo de que seu interlocutor pouco entendia de arte, o havia menosprezado. Mas agora percebeu que, contrariamente ao conceito que dele fazia, iria ouvir um comentário nada desprezível. Os lábios grossos, gentis como os de uma mulher, descreveram um brusco movimento e se apertaram, severos:

— E que acha o senhor das marcas deixadas pela espátula? — inquiriu. — Contundentes!

— Só isso?

— Não, é mais complexo que isso. O artista deve ser um indivíduo audacioso. — Que mais?

— Esta chávena lembra uma espada saída das mãos de um forjador de Soshu, cortante até o fim, mas ainda assim envolta em graciosidade. De um modo geral, ela transmite a impressão de ser rústica, mas é elegante, tem um ar soberbo, majestoso, parece até desdenhosa em certo aspecto.

— Hum!... Muito interessante.

— De modo que, em minha opinião, o criador desta peça deve ser um indivíduo complexo, difícil de ser decifrado. Seja como for, é, sem dúvida, um artista magistral. Perdoe a indiscrição, mas diga-me: quem foi o artesão que criou esta peça de cerâmica?

Koetsu então descontraiu os lábios que lembravam grossas bordas de uma taça de saque, e riu, quase babando: — Fui eu! Eu a fiz, como um passatempo!

Espantou-o a versatilidade de Koetsu, e mais ainda, chegou a sentir algo inquietante nesse indivíduo de aparência rústica como a da chávena, mas profundamente humano. Tentou sondar a profundeza dessa personalidade apelando para a lógica da esgrima, de que muito se orgulhava. No entanto, logo percebeu que seus conhecimentos não serviriam de parâmetro. Quando se sentia assim, Musashi tornava-se totalmente vulnerável. Era de sua natureza curvar-se com humildade, entrevendo a própria imaturidade, transformando-se num simples jovem acanhado, rígido na presença do experiente adulto.

— Vejo que sabe apreciar uma cerâmica. Aliás, é capaz de analisar a fundo uma obra — observou Koetsu.

— Pelo contrário, não entendo absolutamente nada do assunto. Apenas conjeturei a esmo. Desculpe-me se fui impertinente, por favor.

— É natural que não entenda. Esta arte não é simples, exige que o artista empenhe toda sua vida para criar uma única chávena valiosa. Noto, contudo, que você tem uma sensibilidade aguda que o faz compreender a arte. Deve tê-la desenvolvido naturalmente por causa da esgrima.

Musashi também subira no conceito de Koetsu como ser humano.

[Depois de se despedir] ...Musashi voltou-se uma vez mais e contemplou o pequeno mundo sobre o tapete, onde Myoshu e Koetsu se entretinham.

Seu próprio caminho era árido, estreito, sempre reto. Nem havia como compará-lo ao mundo amplo e luminoso em que Koetsu se divertia. Musashi prosseguiu em silêncio rumo ao extremo da campina, passo a passo, cabisbaixo, do mesmo modo como chegara até ali.