XXVI Campeonato Brasileiro de Kendo, 12 e 13 de Julho de 2008, Conjunto
Desportivo Baby Barioni, Rua Germaine Buchard, Nº 451 – Água Branca – São Paulo/SP.
Tais campeonatos permitiram visualizar diacronicamente a temporalidade de eventos do Kendo no Brasil, desde as categorias de baixa idade às categorias adultas. A ordem de apresentação do capítulo procura metaforizar a temporalidade estrutural
146 Cito ainda algumas informações de outros campeonatos nos quais não realizei ‗pesquisa de campo‘, mas que foram de fundamental importância para algumas reflexões posteriores. Eles aparecerão com indicações ao longo do texto, referenciando o evento e ano de ocorrência da observação.
seguida pelos eventos durante os campeonatos. Sobre essa ‗temporalidade estrutural‘, cada campeonato oficial da Confederação Brasileira de Kendo compreende um dia nos quais são realizados seminários de práticas corporais e teóricos, ocorrendo notadamente às sextas-feiras ou nos sábados pela manhã. Os exames de graduação ocorrem nos sábados à tarde e nos domingos têm lugar os campeonatos propriamente ditos. Os eventos são realizados nos finais de semana e seguem um calendário pré-fixado anualmente pela Confederação Brasileira de Kendo em suas reuniões, nas quais participam representantes de academias de Kendo espalhadas pelo Brasil147 e levam em consideração uma agenda de campeonatos interclubes e seminários variados para as diversas graduações, além de visitas periódicas de professores em diversos locais para palestras, que ficam a cargo da Federação Paulista de Kendo. Os Campeonatos interclubes são mais compactos e ocorrem em um único dia, normalmente aos Domingos. Na primeira parte do capítulo falarei sobre os seminários. Na segunda parte, tomo os exames de graduação como ponto de análise e por fim, os campeonatos, demonstrando a atualização dessa temporalidade148.
Seminários – Profusão multiplicativa de “mito-ritos” – Universo potencial
Os seminários são parte integrante dos campeonatos e se apresentam enquanto peças estruturais de um processo de formalização de um discurso ‗mítico – ritual‘ sobre o Japão, sobre a ‗moral‘ e sobre modelos de esgrima. Tais seminários são tomados enquanto ‗mito-ritos‘ uma vez não ser possível fazer uma distinção absoluta sobre essas duas inflexões, embora em determinados momentos uma possua preeminência e em outros, a complementar prevaleça. Esses seminários são efetuados em uma ordem hierárquica de acordo com a classificação interna aos praticantes, ou seja, os seminários seguem a lógica do sistema de graduação do Kendo dado pelo sistema de Dan149 e são de diversos tipos, desde os seminários voltados a baixas graduações e seminários
147 Pode-se consultar o apêndice 2: ―Algumas estatísticas‖, no qual relacionamos as Associações de Kendo e o apêndice 5, para os contatos, no setor de anexos.
148 Tomo o conceito de ―temporalidade‖ um pouco conforme trabalhado por Viveiros de Castro e Manuela Carneiro da Cunha em ―Vingança e temporalidade entre os Tupinambá‖ (1985). A temporalidade aqui é a ‗relação‘ entre o ciclo de eventos fornecidos pelos campeonatos, através da qual se mantém a lembrança, a memória mítica. Em suma, para os tupinambá a ‗vingança‘ marcaria sua memória. Para os Kendocas – no mais das vezes, descendentes de japoneses – os campeonatos ativam a temporalidade e dizem sobre o passado, o presente e o futuro. Em questão não está a ‗função social‘ dessa modalidade de ‗guerra‘ para os Kendocas, mas sim o que significa uma socialidade fundada nessa circulação de mortes virtuais – a memória dessa virtualidade. Sobre o conceito de temporalidade em Deleuze e Guatari consultar (DELEUZE-GUATARI: 1997, P. 48-50)
destinados a instrutores, nos quais o nível de 3º Dan é exigido como requisito para participação. Estes seminários em específico tratam de regras de arbitragem. Não obstante, neste trabalho seleciono os seminários voltados a iniciantes, pois tem por foco presumido o ‗englobamento da diferença‘ ou melhor, gerar afectos, ‗potências japonesas‘ conforme argumentamos no primeiro capítulo, ou seja, ensinar aos novatos as formas de pensar sobre temas correntes do Kendo ao mesmo tempo em que esses neófitos são inseridos em sua cadeia hierárquica. Esse processo é mutuamente realimentado. Os seminários podem ser divididos de acordo com dois – deduzidos – objetivos nativos:
Em primeiro lugar, os Seminários de ‗iniciação‘ e palestras e em segundo os Seminários chamados de kihon ou treino técnico-básico. Os dois seminários se constituem enquanto partes de um mesmo discurso ‗mítico-ritual‘ sobre o Japão, embora nos primeiros a inflexão se dê sobre a ‗ética‘ e sobre o caráter mítico e nos segundos, sobre temas importantes nessa socialidade, articulando-se aos movimentos corporais uma reflexão sobre aspectos mais gerais, como a morte – e sua produção em outrem – e sobre a vida. A espada e sua significância em se tratando da produção de um produto específico – o ‗espírito japonês‘.
Seminários de iniciação - é nessa modalidade que temos uma reflexão sobre os modos
de ‗subjetivação‘ e ‗objetivação‘ (ORTIZ: 1983, P. 46-81) da ‗ética japonesa‘ e de como essa ética deve [ou deveria] ser atualizada. Em suma, gerar um habitus, ou seja, um sistema de disposições – enquanto resultado de uma ação organizadora e enquanto uma maneira de ‗ser‘, uma ‗inclinação‘ – duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, como princípio gerador e estruturador das práticas – corporais, éticas e reflexivas – e das vivências150 que podem ser objetiva e
subjetivamente orientadas, sem ser necessariamente o produto da obediência a regras, mas que no mais das vezes pressupõe um acordo tácito e uma obediência estratégica a essas regras. O habitus produz práticas, individuais e coletivas; produz ‗ação‘ (ibdem, P.76), orientada por esquemas de percepção (ibdem, P. 79), de concepção e motiva- ação, que são comuns a um dado coletivo [atual ou virtual] e funcionando enquanto objetividades praticáveis, univocamente garantindo uma dada visão de mundo, coerente no geral e centrada em uma conjuntura fornecida pela estrutura da prática, na
150 Substituo o conceito de ‗representação‘ pelo de ‗vivência‘, para ressaltar o aspecto de efetividade e atualidade das práticas.
temporalidade real ou fictícia passível de ser praticada e na ‗ação‘ coletivamente ativada e orientada.
De início, desde a chegada no ‗dojo‘ já conduz a uma percepção espaço- temporal distinta, como se só houvesse o momento presente. A entrada, a mesura feita – conforme argumentamos no primeiro capítulo – e o início. Nesses eventos ‗ritualizados‘ é postada uma mesa com as ‗autoridades‘ – professores (sensei) mais idosos e que não faltam a tais momentos (vide abaixo). Feita a ‗abertura‘, tem-se início o seminário ou palestra. As palestras são então realizadas nos ‗dojo‘, em frente à mesa de autoridades onde os kenshi se sentam ao redor do palestrante para o ensinamento. A própria dinâmica é importante. Antes do início, conversas e encontros com pessoas que não se vê faz tempo, a sensação de ser bem recebido, momentos de piadas e risadas. No início de fato, silêncio. O sentar-se ‗formal151‘ ou pelo menos sentar-se com a coluna ereta,
fixando a atenção no palestrante. A vestimenta utilizada ilustra e oferece um aspecto de antiga serenidade – o hakama e keikogi – ao ensinamento. Após a apresentação, o treinamento, pois os participantes são convidados a fazer exercícios físicos de aplicação dos ensinamentos. Tomo essas palestras como aspectos de constituição de ‗mitos‘ mas não só. São constituintes de uma ‗eficácia simbólica‘ que tem o corpo como objeto (LEVI-STRAUSS: 1996, P. 215 e seguintes).
Lévi-Strauss, ao comparar o papel do xamã152 no auxílio a um parto difícil entre os Cunas, no Panamá, valendo-se da ‗eficácia‘ de sua agência através da re-ordenação da experiência sensível oferecendo o devido termo às perturbações e aflições da parturiente. O papel do xamã – enquanto ‗mediador‘ – que reorganiza a ‗ordem‘ do parto – e da criança no interior do útero – foi possível pelo ‗canto‘, enquanto um processo de ‗nomeação‘ dos objetos da aflição, uma forma de apresentar à suplicante uma perspectiva na qual pudesse tornar-se apreendida e conhecida. Em suma, mediante variadas técnicas, o xamã oferece uma linguagem, que auxilia na resolução do problema. O importante a ser notado é que essa cura é comparada ao papel
151 Lembremo-nos que o sentar formal – seiza – é feito sentando-se sobre os calcanhares, com os joelhos paralelos.
152 Sobre o termo ‗Xamanismo‘, trata-se de fenômenos que poderiam ser classificados enquanto ‗religiosos‘ característicos dos povos siberianos e uralo-altaicos. A palavra ‗xamã‘ é de origem tungue [saman] e, por intermédio do russo entrou para a terminologia científica européia, de acordo com Eliade (1995, P.253 e seguintes). Eliade classifica a prática xamânica de forma funcionalista enquanto uma posição de ‗sacerdote e condutor de almas‘, cujo papel seria curar doenças e entre outras capacidades, acompanhar os mortos ao outro mundo. Atente-se ao fato de subsumir a capacidade de tal potência mediante suas ‗técnicas de êxtase‘, ou seja, um poder de sua alma sair do corpo e retornar. Sobre o xamanismo e uma boa revisão bibliográfica sobre o tema, pode-se consultar o artigo de Jane Monnig Atkinson (1992): Shamanisms Today, Annu. Rev. Anthropol. 1992.21:307-330.
desempenhado pelo psicanalista (Idem, P. 229) Em síntese, o xamã é o simétrico inverso do psicanalista em seus termos: o primeiro fala, o segundo ouve. No primeiro caso – fornecimento da ‗cura‘ – a reconstrução do mito é social, que a doente recebe do exterior e não corresponde a um antigo estado pessoal; no segundo, busca-se reconstruir um mito individual que o doente constrói com a ajuda de elementos tirados de seu passado. Ambos provocam uma experiência. E ambos chegam a isso, reconstruindo um mito que o doente deve viver, ou reviver (Ibdem, P. 230).
O papel desempenhado pelo sensei é comparável ora ao xamã ora ao psicanalista. Em seus ‗dojo‘, falam e ouvem, ajudando mediante a aparente formulação de‗ordem‘ interna a tais espaços, a organizar ‗um mundo‘ demasiado caótico encontrado alhures. Em segundo, nas palestras, sobressai sua vocação à ‗palavra‘, a qual tem o mesmo status, de organizar, oferecer um esquema ordenado do ‗mundo‘, embora tal mundo se situe cada vez mais distante ou cada vez mais interiorizado em relação ao sujeito cognoscente. Em terceiro, o papel outorgado a tal tipo social o aproxima do xamã, pois o que ele faz também é uma espécie de mediação cósmica, ou uma
diplomacia cosmogônica, ao mediar a ‗fabricação‘ (VIVEIROS DE CASTRO: 1979) do
espírito japonês153. Sua ‗arte‘ reside na habilidade manifesta de cruzar deliberadamente
– ou ocasionalmente – as barreiras corporais e adotar a perspectiva de outrem ou fornecer ‗uma perspectiva‘ a outrem. Ora, Viveiros de Castro (2002b, P. 358) acredita que esta é uma arte presente apenas nas sociedades indígenas sul-americanas, quando adotar a ‗perspectiva de outrem‘ é um processo encontrado com certa regularidade em religiões ‗orientais‘, a exemplo o Zen-budismo154 japonês155. A diferença reside mais na
amplitude social da ‗política cósmica‘ do que numa diferença de ‗natureza‘, ou ainda de ‗cultura‘156. Diz-nos Viveiros de Castro que o xamanismo ameríndio é guiado pelo ideal
de conhecimento no qual conhecer é personificar, tomar o ponto de vista daquilo que deve ser conhecido – daquilo, ou antes, daquele; pois tal conhecimento visa um ‗algo‘ que é um alguém, um outro sujeito, na qual a forma é a ‗pessoa‘. Homologamente, o conhecimento ‗xamânico‘ do ‗sensei‘ reside justamente em sua capacidade de conhecer
153Falaremos sobre os termos desse ‗processo‘ no terceiro capítulo.
154 O ‗Budismo‘ foi importado do continente e re-significado no Japão. Vide a seguir.
155 Ver em específico o capítulo 7 chamado ―Satori ou a aquisição de outro ponto de vista‖ no livro de SUZUKI (198-, P. 112 e seguintes), Suzuki, Takeshi. Budismo: do primitivo ao japonês. São Paulo: Editora do Escritor. (Coleção Ensaio; v.18, Sem data). Neste capítulo, a tese defendida por Suzuki é a de que a ‗iluminação‘ – que é uma busca praxiológica – ativa ou fornece outro ponto de vista ao caminhante; não se coloca uma ‗diplomacia política‘, mas uma ―teoria da relatividade geral‖ donde tudo e todos os entes podem se tornar conhecidos.
‗o outro‘ através da personificação de seu ponto de vista. Esse ‗ponto de vista‘ pode ser capturado na luta, na conversa ou na meditação e ainda ser compartilhado, mesmo que de forma minorada, pois o que se transmite nas conversas é ‗conhecimento‘; ‗sabedoria‘, por outro lado, se vive. Em suma, penso que no ‗sensei‘ há mais do que uma metáfora do ‗chefe de família‘ conforme argumentado no primeiro capítulo; há uma habilidade política, uma arte política (Ibdem, P. 359) através da forma de ver cada evento como uma ‗ação‘, mas uma ação na qual se atualiza o ‗espírito japonês‘157. Mas
não é só. Essa capacidade de ocupar um ponto de vista, de atualizar, encobre também a criação de um mundo possível, e o trânsito entre esses mundos, entre um possível e o observado. Denominando, penso talvez que em questão esteja o papel do ‗sensei‘ enquanto um worldmaker, de acordo com Overing (1990).
Apresentemos algumas notas de palestras.
―Em 05 de Abril de 2008, assisti a palestra158 do Prof. Dr.
Yashiro Yamamoto – ocorrida em uma sala do ICMC, no campus
da USP São Carlos – denominada ―Bushido, o caminho do guerreiro‖159. Nesta palestra, ele trabalha suas experiências de
vida, principalmente sua trajetória no Kendo possibilitada e iniciada por seu falecido pai – Sr. Zenzo Yamamoto – e experiências outras articuladas ao livro de Inazo Nitobe denominado ―Bushido, The Soul of Japan‖.
O professor Yamamoto abre o kanji de samurai ―侍‖
significando-o ao ‗homem no templo‘ [conotação religiosa] e ao kanji de ‗servir‘ – tsukaeru ―仕‖. Em suma, diz que o ‗samurai‘ é ‗aquele que serve‘. Mas ‗servir a outra pessoa‘ instituição ou empresa tem diferentes formatos e usos. No contexto do Kendo –
157 Em um artigo de Koichi Mori presente em Chioko (2007), objetiva-se a temática do ‗xamanismo transcultural‘ – no qual o autor toma ‗xamanização‘ como um processo de ‗iniciação‘ além mar. No contexto de pesquisa de Mori, há uma marcada ‗etnicidade okinawana‘(Idem, P. 279) que colaboraria para a ocorrência de processos que ele argumenta como xamânicos, ou seja, sonhos e ligações das emigradas (iniciadas, bem observado) com Okinawa. Impressionante são os dados sobre os gatilhos de ocorrências dessas ‗iniciações‘, notadamente o exemplo da Sra. N (Ibdem, P. 281) através da qual foi ‗ativada‘, atenção, em um terreiro de umbanda. Mas Mori não é o único. Em Takiguchi (1990), temos uma análise de práticas xamânicas em Miyako, uma ilha cerca de 300 km ao sul de Okinawa. O autor indica e relata longamente o diário de um xamã, desde o período de ‗iniciação‘ ocorrido em 1974, até 1981, citando suas experiências com as divindades e suas crises decorrentes de incompatibilidade entre o oficio e sua vida social. Interessante de se notar no artigo é a abertura a uma análise a partir de Turner, ou seja, tomar o xamã enquanto um agenciador posicionado em um estado perpétuo de ‗liminaridade‘ (TURNER, 1967, P. 93-111), mas o autor não explora devidamente as implicações de tal vinculação teórica, limitando-se a descrever o diário da personagem. Liminal Experiences of Miyako Shamans: Reading a Shaman's Diary, Naoko Takiguchi, Asian Folklore Studies, Vol. 49, 1990: 1-38
158 Segue a palestra na integra.
159―Bu-shi-do means literally Military-Knight-Ways—the ways which fighting nobles should observe in
their daily life as well as in their vocation; in a word, the "Precepts of Knighthood," the noblesse oblige of the warrior class.‖
―Bushido, then, is the code of moral principles which the knights were required or instructed to observe. It is not a written code; at best it consists of a few maxims handed down from mouth to mouth or coming from the pen of some well-known warrior or savant.‖ (INAZO NITOBE, 2004 [1899], P. 7)
caminho da espada – desenvolvemos as seguintes virtudes, pensando em nos tornar pessoas melhores, mais úteis, segundo Yamamoto:
1- GUI – RETIDÃO, INTEGRIDADE “義”
―Sem retidão, nem o talento e nem o conhecimento podem fazer do homem um samurai‖ – Inazo Nitobe. Em decorrência do ‗Gui‘, temos o ‗Guimu‘, que é o sentido de ‗Dever, obrigação‘; também o ‗Guiri‘160, sentimento de dívida, gratidão. A pessoa
cumpridora dos deveres sociais, dizemos ―Guiri gatai hito‖. ‗Seigui é a justiça, ou o caminho da verdade que o homem deve seguir.
2- YUU – CORAGEM “勇”
―Tem coragem quem faz o que é certo‖ – Inazo Nitobe. Ter coragem é ter o espírito destemido e paciente. Temos a palavra ―Isamashii‖, que significa ter energia e não desistir.
―Um verdadeiro bravo está sempre sereno; ele nunca é surpreendido; nada perturba a serenidade de seu espírito. No calor da batalha ele permanece frio; no meio de catástrofes ele mantém o seu nível mental‖161– Inazo Nitobe