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Historical  background

5.   STUDY  SITE  Description  –Kjelsrud  CATCHMENT

5.2   The  Location:  Kjelsrud

5.2.1   Historical  background

Em resumo, numa análise baudrillariana, o CQC aborda de forma irônica e sedutora o hiper-real ao promover um jogo de signos. O interesse inicial pelo programa se deveu à constatação de que o CQC conjuga signos típicos da ficção, um discurso voltado a representar o real, com signos jornalísticos, cujo projeto é o de interpelar diretamente e revelar o real. Ao aplicar a teoria de Baudrillard, percebemos que o programa se enquadra na ordem da simulação, marcada pela indistinção entre verdade e mentira, real e aparência; constituída de simulacros puros, signos sem nexo com seus referentes; e que origina um real transmutado em hiper-real.

O CQC não apenas reflete o estatuto da hiper-realidade, como adota uma estratégia irônica que parodia, entre outras coisas, o traço simulado de objetos midiáticos contemporâneos, especialmente o telejornalismo. Bem observado, o telejornalismo trafega em uma fronteira indistinta de verdade e mentira, realidade e ficção. Os repórteres parecem atores e as reportagens se assemelham a narrativas ficcionais. Além disso, os truques de edição, a entonação das falas, o figurino: é tudo muito parecido, padronizado. Reportagens-simulacro de repórteres hiper-reais relatando um real que, exibido na tela, inevitavelmente parecerá hiper-real.

Os quadros do CQC fazem uma imitação caricatural do telejornalismo. Saturam exatamente os signos do jornalismo que revelam aquilo que este tem de encenado e de falseador. Acentuam o paradoxo do projeto jornalístico e da vontade de verdade contida neste. O programa aproxima o jornalismo do discurso ficcional e produz um discurso indistinto que denuncia o telejornalismo como espetáculo. A vontade de verdade perceptível em seus quadros vincula-se a signos inseridos em um jogo de aparências. Não há uma vontade de verdade, de fato. Não há um projeto de transparência do real, mas signos que remetem ironicamente à transparência e à vontade de verdade. Nesta perspectiva, todos os signos do jornalismo, inclusive os da reportagem investigativa, cumprem uma única função: significar ironicamente o jornalismo.

Além de ironizar o jornalismo – ou exatamente por isso – o CQC também faz

desaparecer os objetos do seu jornalismo irônico. Nos quadros em que aborda políticos, só faz concluir que a política virou simulacro, destituída de ideias e projetos coletivos, tomada de discursos vazios e repetitivos. Quando trata da própria mídia e do mundo das celebridades, mostra a banalização do midiático e a multiplicação das celebridades em tempos de reality shows. Mesmo as pessoas comuns, o povo da rua entrevistado no quadro sobre o teste de honestidade, exibe uma performance midiática.

O CQC ainda irá concluir que o povo é igual aos políticos. Na realidade, o grande tema do CQC é a mídia, principalmente a televisão, corroborando a afirmativa baudrillariana de que a televisão vira para dentro de si. Quando trata de política, o programa não remete à política, mas à cobertura política dos telejornais.

E, ao ironizar os vícios, distorções e encenações desta cobertura, faz desaparecer o seu referente (o telejornalismo) e a pretensa realidade a qual esse telejornalismo, como signo, remete: a política – que, por sua vez, já não se vincula ao seu referente original, o povo.

Em dois dos objetos analisados, os quadros “Proteste Já”, a imitação do jornalismo produz um efeito enganoso. Ficamos com a indagação: trata-se ou não de jornalismo? O quadro sobre o desvio do aparelho de LCD doado pelo próprio

CQC gerou um processo judicial e uma liminar que impediu a veiculação das cenas.

O desembargador que cassou a liminar (ou pelo menos nos trechos lidos pelo Marcelo Tas) trata o quadro exibido pelo CQC como uma reportagem jornalística convencional e anuncia que os responsáveis pelo desvio serão investigados.

Ora, o desvio foi originalmente provocado pelo CQC, a partir de um sorteio que, aleatoriamente, selecionou a cidade de Barueri (ora, a iniciativa do programa não constitui algum tipo de crime?). O quadro sobre o metrô de Salvador também tem o caráter de denúncia, aproxima-se bastante da linguagem do jornalismo. Em ambos, a denúncia objetiva ou é irrisória, no caso do desvio do aparelho de TV, ou é

malfeita – e repete uma informação que a imprensa já vem noticiando há bastante

tempo – no quadro sobre o metrô de Salvador, que não revela nem o nome do prefeito acusado.

Este efeito enganoso, esta indistinção entre um discurso humorístico- ficcional e um discurso jornalístico, é perceptível nos demais quadros analisados: nestes, também paira a dúvida sobre se estamos diante de jornalismo ou de uma atividade ficcional. A exceção são os quadros “Em Foco”, que mimetizam os signos jornalísticos visando a enganar os entrevistados. O público é cúmplice da farsa. Acompanha, em on e em off, a encenação do falso jornalista e falso consultor de imagem. Nos demais quadros, o jogo de falsidade do CQC confunde o próprio público que, algumas vezes mais, outras menos, crê estar diante de um programa humorístico, por certo, mas que parece preocupado em interpelar o real de maneira a revelar qualquer coisa que seja.

Insistimos: se há intenção de transparecer verdades nos quadros do CQC, a empresa fracassa. A força sedutora do programa está na ambiguidade, no efeito de dúvida causado pelo jogo irônico de signos. É jornalismo? É ficção? É encenado? É espontâneo? É real? Trata-se de um movimento que se contrapõe ao processo de transparência. Em vez de iluminar ainda mais o real com racionalidade e sentido, o

CQC mistura signos ficcionais que, por um lado, acentuam o traço simulado do

jornalismo e a hiper-realidade do real que o jornalismo cobre, mas, por outro, produz um discurso indistinto e ambíguo. Desta forma, o CQC alcança o efeito de reversibilidade no nível do signo, a ambiguidade do programa abre uma fresta que caracteriza a ironia e a sedução tais quais descritas pelo autor.

Portanto, concluímos que o CQC, visto em um contexto de simulação, pós- Sociedade do Espetáculo, é um objeto midiático que reflete a hiper-realidade (o que é bastante óbvio, dado que todo o produto midiático situado em uma ordem de simulação irá refletir a ordem na qual se situa), mas, sobretudo – e aqui está um ponto interessante – o CQC incorpora no seu fazer, o discurso da simulação. E o faz com artifícios irônicos.