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GLOBAL PERSPECTIVE

2.   BACKGROUND

2.2   Climate  change

2.2.1 GLOBAL PERSPECTIVE

Como coloca Russel (2001), René Descartes é considerado o fundador da filosofia moderna. É também, conforme o Dicionário de Filosofia de Cambridge (2006), um dos principais representantes da corrente do realismo. Mais precisamente, ainda segundo este dicionário, Descartes é um realista representativo. Isto é: para o autor francês, existe uma realidade independente externa ao ser humano. Mas esta realidade física não é apreendida diretamente. A partir da percepção, construímos uma representação da realidade na nossa consciência.

Nas Meditações (2000), principal obra metafísica de Descartes, o autor realiza uma longa reflexão sobre como alcançar a verdade e o conhecimento. E, ao mesmo tempo, reflete sobre a existência de uma realidade exterior à consciência humana. O primeiro passo de Descartes em busca da ciência, como o autor descreve na Primeira Meditação, é duvidar de tudo o que sabe e aprendeu durante a vida. Conforme Kirk (1999), trata-se do famoso método da dúvida, descrito principalmente na obra Discurso do Método (2000) e uma das grandes contribuições cartesianas à ciência. O principal motivo que leva o autor a duvidar de todo o

aprendizado é o fato de este aprendizado ter sido propiciado principalmente pelos sentidos. Aqui já aparece a desconfiança do autor quanto às percepções originadas pelos sentidos, repetindo a cautela de Platão. Ainda neste exercício inicial de dúvida, Descartes (2000) também admite a possibilidade de que toda a vida humana seja um sonho, de que nada acontece fora da nossa consciência. Nesta reflexão, Descartes (2000) imagina que há um gênio do mal que o engana e o impede de chegar à verdade a partir do pensamento.

A primeira conclusão a que o filósofo chega nesta reflexão é de que pelo menos uma coisa existe: ele próprio, que reflete sobre sua existência e de todas as outras coisas. Esta conclusão está condensada na famosa frase: “Penso, logo existo”. Afinal, se existe um pensamento, existe alguém que pensa, um ser pensante. A partir desta descoberta, Descartes (2000) vai desenvolver uma linha de raciocínio para provar a existência das outras coisas. Para isso, replica nas questões filosóficas um mesmo modo de pensar utilizado nos procedimentos matemáticos: conhecendo-se um termo é possível, seguindo uma cadeia de razões, conhecer os termos ainda desconhecidos. Uma primeira certeza, a de que ele próprio existe como ser pensante, é suficiente para se elaborar uma série de outras certezas subseqüentes.

A próxima certeza é de que há um Deus, um ser perfeito criador do mundo e da natureza. Afinal, se há um ser pensante que reflete sobre a própria existência, alguém criou este ser. Ocorre que este ser pensante é falível, capaz de enganos e, por isso, imperfeito. Portanto, não pode ter gerado a si próprio, nem pode ter criado autonomamente a ideia de um ser perfeito. Logo, deduz-se que algo maior e mais perfeito originou o ser pensante: Deus. E Deus, ao contrário de um suposto gênio maligno, é bondoso e justo. Não faz sentido um Deus dominado pelo bem estimular o erro entre os seres pensantes. Desta forma, Descartes conclui que tudo o que for elaborado pela razão de forma clara e distinta é verdadeiro. Este é outro ponto extremamente relevante do método cartesiano, como o próprio pensador (2000) reforça em várias passagens de suas Meditações: uma vez que algo é conhecido racionalmente de forma distinta e clara, pode-se concluir que é verdade.

Depois de concluir que ele próprio existe enquanto ser pensante e que há um Deus criador dele próprio, ser que pensa, Descartes (2000) dedica-se aos objetos e corpos externos ao seu pensamento, de cuja existência no passado ele teve certeza mas sobre o qual recaiu também a dúvida, uma vez que esta certeza resultara, em outros tempos, da percepção sensitiva. Ou seja, a primeira condição que torna possível a existência do mundo físico já está provada: há um Deus que pode ter criado este mundo material. Em seguida, Descartes (2000) demonstra, primeiro, que a competência da imaginação torna provável a existência dos objetos e dos corpos e, segundo, que a competência da sensação propicia a certeza de que o mundo físico existe.

Para tanto, o autor (2000) defende que há uma distinção entre a alma (ou a mente ou o espírito), e o corpo. A faculdade de pensar, o ser pensante, está na alma. A esta alma vincula-se um corpo, que, conjugado a ela, forma um todo. O corpo é composto de partes e é divisível. A alma é uma substância indivisível. Só a alma é capaz do entendimento das coisas e, desta forma, de alcançar a verdade. Há, no entanto, duas outras formas de pensar que surgem da vinculação da alma e do corpo: as faculdades de sentir e de imaginar. Através dos sentidos, o corpo sente (vê, toca etc.) e fornece as sensações que vão formar as idéias dessas coisas no espírito, no ser pensante. A mente também pode imaginar as coisas, o que significa ver algo “com os olhos do meu espírito” (Descartes, 2000, p. 314). Ou seja, imaginar significa criar uma representação ou imagem mental de alguma coisa (embora o autor não utilize a expressão imagem mental).

Na sexta e última das Meditações, Descartes (2000) usa uma figura geométrica para exemplificar a diferença entre o entendimento e a imaginação. Quando o espírito pensa em um triângulo, ele concebe uma figura de três lados e, também, imagina esta figura de três lados. O espírito tem um entendimento racional do que seja uma figura de três lados, mas ele também imagina esta figura, enxerga mentalmente a imagem do triângulo. No caso de um quiliógono (um polígono de mil lados), o espírito consegue conceber e entender esta figura, mas é incapaz de imaginá-la com precisão, porque não consegue criar mentalmente uma imagem de um polígono com tantos lados.

Descartes (2000) mostra, ainda, que o espírito pode perfeitamente existir

sem a faculdade de imaginar – mas não seria real se não tivesse a competência de

pensar. Daí deduz-se que a imaginação depende de algo externo ao espírito, o corpo. Neste ponto, a existência do mundo físico é provável. Para provar definitivamente esta existência, o autor analisa a faculdade de sentir.

Inicialmente, o autor (2000) lembra que sempre sentiu que era dotado de um corpo e que este corpo estava rodeado de outros corpos e outros objetos. Também percebia que estes corpos e objetos externos transmitiam ideias que chegavam ao seu pensamento (mas que se originavam de coisas que estavam fora do pensamento). E, ainda, constatava que estas idéias adentravam seu pensamento independentemente da sua vontade. Ao adotar o método da dúvida, passou a questionar todas as percepções sensitivas. No entanto, como coloca Descartes (2000, p. 320):

Agora que começo a conhecer melhor a mim mesmo e a descobrir mais claramente o autor de minha origem, não penso, na verdade, que deva atrever-me a admitir todas as coisas que os sentidos parecem ensinar-nos, mas também não creio que deva duvidar de todas em geral.

Para chegar à verdade, mais uma vez Descartes (2000) recorre à bondade divina. Depois de, através da razão, mostrar clara e distintamente que provavelmente existe um corpo separado do espírito e que este corpo interage com outros corpos e outros objetos, ele conclui que Deus não o faria pensar desta forma se o mundo não fosse assim (a menos que Deus fosse um embusteiro, o que já havia sido provado impossível).

Desta forma, a conclusão é de que há uma realidade exterior à consciência.

No entanto, esta realidade não pode ser percebida diretamente. O corpo humano –

separado da alma, com a qual forma um todo – transmite para a consciência do ser

pensante os dados obtidos pelos sentidos e o que a mente cria são representações destes objetos e corpos do mundo material. Mas o verdadeiro conhecimento sobre o mundo físico não se dará pelos sentidos, mas pelo entendimento, pela razão. As sensações do corpo, isoladas, seriam incapazes de formular uma ideia do mundo físico com o qual o corpo interage. A ideia se forma porque há uma mente vinculada ao corpo, que elabora uma representação dos objetos e corpos externos.

Descartes (2000) argumenta, porém, que a verdade sobre as coisas físicas não resulta das impressões dos sentidos, mas do entendimento. É a razão que vai obter o verdadeiro conhecimento sobre a realidade externa, depois de refletir e concluir de forma clara e distinta sobre as coisas.

Não vejo que ela (a natureza) me ensine que dessas diferentes percepções dos sentidos devêssemos concluir alguma coisa acerca das coisas que existem fora de nós, sem que o espírito as tenha analisado cuidadosamente. Pois é, ao que me parece, apenas ao espírito, e não ao composto de espírito e corpo, que cabe conhecer a verdade dessas coisas. (DESCARTES, 2000, p. 325)

Como Platão, Descartes (2000) acreditava que os sentidos eram enganosos, transmitiam ideias que poderiam levar ao erro e ao engano. E a razão estava apta a corrigir os erros dos sentidos e conhecer a verdade das coisas. Portanto, em resumo, Descartes (2000) defendia a existência de um mundo físico exterior e independente da mente humana. O que os sentidos nos permitem é formar uma representação mental de todos estes objetos e corpos. E só por meio da razão ou entendimento somos capazes de conhecer a verdade sobre o que todas as coisas que formam o mundo físico são independentemente da mente humana.

Duas formulações do filósofo iniciam uma alteração na perspectiva vigente desde Platão, com significativo impacto nas teorias posteriores. Primeiro, a concepção de que a mente representa o real, isto é, de que as ideias que temos das coisas não são as próprias coisas, mas representações. Segundo, a possibilidade de conhecer as coisas em si mesmas por meio da razão, gerando uma associação entre o real, aquilo que a coisa é, e o pensamento racional apto a conhecer este real. Como exposto, trata-se de um pensamento que persegue uma verdade distinta e clara.