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Chapter 5: Aftermath

5.3 Historians after the Brexit referendum

Hoje, Rafael, um preso bem asseado que limpava o setor de educação, muito gentil e educado, me contou que matou a mulher e por isso estava preso, mas que não era do crime e suas boas notas tinham garantido um lugar no raio de trabalho privilegiado pela comida de melhor qualidade e por ter água todos os dias da semana. Depois do almoço assisti os professores da escola da cadeia conversando sobre os planos de imprimir imagens com temas da páscoa “para eles pintarem”. Uma professora dizia para outro “é bom que eles podem cortar com a tesoura as orelhinhas” [dos coelhos] “e pintar os olhos e a boquinha com canetinha”. Me interessei por aquela conversa, aos meus olhos, absurda. Considerando o ambiente ao meu redor e meu pequeno mas intenso saber a respeito de quem eram seus alunos, puxei assunto com outra professora que me disse “os alunos aqui são muito dedicados, aqui eles têm interesse, na rua não”. Curioso pela postura e olhares dóceis dessa professora em oposição aos relatos violentos que ouvi nesse dia e, sabendo que a maioria dos presos nessa prisão agora são artigos, perguntei se ela procurava saber dos crimes que seus alunos tinham cometido. Ela respondeu que preferia não ouvir sobre o que eles fizeram, seus crimes, “não quero saber se eles mataram a mulher, essas coisas, pra não ficar pensando durante as aulas”, nesse momento Rafael entrou na sala e sorriu para a professora que retribuiu o sorriso de maneira dócil. Como tratar antropologicamente a ironia? (Trecho de anotação do caderno de campo, 17/03/2016)

O raio de trabalho era onde habitavam os presos que trabalhavam na limpeza e organização dos setores administrativos da prisão e se localizava próximo ao setor de

privilegiado com recursos mais abundantes do que os pavilhões “normais”, eram considerados de bom comportamento e “presos modelo” da penitenciária, presos de confiança que acompanhavam reuniões, ficavam próximos de autoridades, brincavam com os funcionários. Um motivo importante residia no fato de serem mantidos apartados dos presos e presas dos pavilhões “normais”: era preciso evitar que informações importantes vazassem dos setores administrativos para a população. Esses presos sabiam antes dos outros dos dias de blitz, de transferências surpresa de presos e presas para outras penitenciárias e outras ações planejadas pela administração que não poderiam ser conhecidas nos pavilhões. Lembro como uma das

monas com quem conversei disse ter recusado um emprego na administração porque isso a separaria de seu marido, que ainda residiria no pavilhão 3 da cadeia, “eu nunca mais ia ver ele”, disse ela.43 O isolamento do raio de trabalho se justifica, em outro sentido, pelos presos que o

habitam serem acusados por aqueles que ficam nos pavilhões convencionais de delatores,

caguetas, conhecidos no interior da prisão pelo rumor de terem exposto os segredos internos do convívio para o diretor, pela posse de drogas, celulares e apontado os canais pelos quais o fluxo de objetos ocorria. Dessa forma a existência do raio de trabalho permite à administração trocar o saber interno da vida da prisão pelos privilégios permitidos aos presos “modelo”, tornados visíveis na “frente”44 da prisão e invisíveis aos presos e presas dos pavilhões.

A configuração dos prédios da prisão pode ser vista pela maneira como matiza o grau de informações que podem passar de uma parte a outra, pois da mesma forma que a caguetagem permitia à administração um saber estratégico da vida dentro dos pavilhões, o saber dos planejamentos e dinâmicas da administração poderiam ser apropriados pelos presos e presas dos pavilhões de maneiras insuspeitas. A administração captura a caguetagem, mas não permite que o fluxo de informação siga no vetor oposto, para dentro das celas, e por isso torna invisíveis os “presos modelo” dos outros(as), privilegiando a condição de suas existências e

43 É bom relembrar nesse momento que entre as motivações de minhas interlocutoras de participarem de nossos

encontros, muito contava a proximidade que estariam dos setores administrativos representados ainda na minha figura e no espaço do setor de atendimento (Cf. Introdução). É importante notar que há uma diferença entre os presos que trabalham nas empresas e os presos que trabalham na administração, os primeiros habitam no pavilhão I, os segundos no raio de trabalho.

44 Lembremos como a organização dos pavilhões foi modificada no decorrer do tempo, vide a linha temporal

expressa na sessão 1.1.2 dessa dissertação, produzindo uma relação entre o espaço e o vetor político (o pavilhão um mais próximo da administração e por isso o mais “calmo”, o pavilhão três mais distante e mais “agitado”).

simultaneamente torna-os visíveis para as “autoridades” e funcionários técnicos administrativos.

Considero que essa relação entre espaço e fluxo de informação exige uma análise detalhada, pois ela atravessa todas as relações de intimidade que ocorrem na prisão. Vimos nesse exemplo o que considero uma intimidade da instituição, um jogo de trocas entre o que é secreto e público e que ocorre simultaneamente à produção de visíveis e invisíveis. Os segredos do pavilhão caguetados para o diretor, fazem produzir o raio de trabalho como um espaço de visibilidade, onde se ilumina um saber sobre a cadeia. Já o que é público no raio de trabalho e na administração é secreto na perspectiva de quem está nos pavilhões, pois os presos do raio de trabalho são invisíveis do ponto de vista dos pavilhões.

O jogo entre os opostos secreto-invisível/público-visível está presente em várias formas de intimidade que pretendo abordar nesse capítulo. Ele se expressa na forma como se apreende e se resiste à arquitetura da prisão – distribuição de espaços quadriculados, matizados entre pontos visíveis e invisíveis – o que como vimos, produz uma intimidade institucional. É o caso também de se considerar a presença desses pares na construção de uma intimidade da pesquisa, marcada pelo isolamento de nossa sala dos pavilhões e na possibilidade de que as monas me contassem segredos sem estar sob o escrutínio de outros presos presas; intimidade que é base para construção desse capítulo, pois o que foi visto a partir do ponto focal do capítulo um (o que era público e visível nos pavilhões) é reformulado agora, momento no qual regularemos o enquadramento analítico na perspectiva íntima (do secreto e do invisível) do convívio prisional. Como veremos, o jogo entre os pares de opostos se apresentava nos segredos que elas me contavam e nas dinâmicas dos relacionamentos nas celas, pois o público e o secreto se delimitam na confluência entre o que os sujeitos pensam e sabem a respeito de outrem e o que as pessoas dizem sobre si mesmas.

Para abordar a relação entre visível-público/invisível-secreto, retomemos o que nos diz Foucault (1975) quando aborda o famoso modelo de Bentham, o panóptico, como uma figura arquitetural dos jogos de forças na prisão45. Não custará lembrar de que se trata essa arquitetura.

45 Se o modelo arquitetônico da Penitenciária José Parada Neto diverge muito do modelo do panóptico,

Resumidamente, um conjunto de prisioneiros confinados em uma estrutura circular, de onde não veriam a si mesmos, mas estariam circundados e expostos à vigilância contínua, de vigilantes que por sua vez não seriam vistos pelos prisioneiros. Nessa forma de olhar, um jogo de luz e sombra constitui a prisão, no que torna visível e no que oculta, aquele que vê e aquele que observa. É nesse sentido que para Foucault a “forma-prisão” é uma arquitetura que “faz ver” a “delinquência”. É importante salientar que a prisão, surgida das técnicas disciplinares, se torna o ponto de visualização da noção de delinquência, mas que ela foi inventada no discurso jurídico do séc. XVIII, o que se demonstra como um entrelaçar de termos de naturezas distintas, pois os discursos e as visibilidades se encontram, mas não são isomórficos: o que se fala não se confunde com o que se vê, mas é por meio dessa não-relação que se capturam mutuamente. Quando relaciono visível/invisível e público/secreto não o faço no nível genealógico que Foucault propõe, pois, o autor trata de relações discursivas e visíveis que permitem a análise de uma “formação histórica” e o encontro entre prisão e sistema jurídico trata das condições de surgimento de determinados comportamentos e ideias, mas não trata os comportamentos e ideias como expressão direta do discurso e do visível (Deleuze, 1985: 9-35). No entanto, para dar tom a minha análise, tomarei desse método a relação de captura entre o visível e o dizível, mas para tratar especialmente da forma como se produzem espaços, ideias e comportamentos na prisão.

Com isso, pretendo reduzir a imagem proposta por Foucault de seu fim metodológico, para rearticular outro nível ótico-discursivo, que envereda relações de dupla captura entre visível-público/invisível-secreto que abranja também ideias e comportamentos. Dessa forma, trata-se de olhar a maneira como o visível é capturado pelo público, e o invisível pelo secreto em distintas relações de captura que, a meu modo de ver, são base para a construção das intimidades. Como nos diz Deleuze (1998), “a captura é sempre uma dupla captura, o roubo, um duplo-roubo, e é isso que faz, não de algo mútuo, mas um bloco assimétrico, uma evolução a-paralela, núpcias, sempre 'fora', e 'entre'”. (:6-7) A preocupação em fazer essa espécie de subtração analítica reside em não dar a entender que a relação entre visível e público e invisível

como na introdução dessa dissertação abordei meu primeiro contato visual com as monas na cadeia olhando pelo “aquário”, um pequeno buraco no vidro pintado de preto nos corredores da prisão).

e secreto se dão por se tratarem de termos confluentes, mas que a confluência entre eles se produz e no caso da prisão, se tornam visíveis na intimidade, nos arranjos de comportamentos e ideias que são produzidos no convívio.

Para evidenciar esses aspectos, ou melhor, para ver o que esse enquadramento analítico torna evidente, falemos um pouco do tipo de intimidade produzida em nossas conversas no setor de atendimento. Considero que o local isolado do pavilhão é o centro de insurgência de uma nova gama de relações e demonstra uma forma de dupla captura entre o invisível e o secreto. Ainda que a separação do raio de trabalho dos pavilhões e o isolamento de minhas entrevistas sejam ocorrências de naturezas distintas, o que focalizo no momento são justamente as similaridades entre elas. É justamente o isolamento do raio de trabalho que permite aos presos que o habitam um saber exclusivo a respeito da administração da prisão, desejado pelos outros presos. É também o deslocamento dos pavilhões que possibilitou que as pessoas com quem conversei abordassem suas vidas íntimas sem correr o risco de que tais informações fossem postas contra elas nos pavilhões, pois meu encontro com as monas, marcado pela materialidade de mesas que expressam nossa separação institucional, não prevê de nenhum modo que minha posição no jogo de forças da prisão servia a algum interesse interno aos pavilhões, mas pelo contrário, remetia a uma posição privilegiada de alguém da rua e com conexões que permitiram meu acesso à prisão (cf. introdução).

No entremeio de políticas intensivas de intimidade, minhas entrevistas surgiram na invisibilidade de uma sala com decorações monótonas e longe das celas e das burras, ponto de escape do convívio que compõe o sigilo que possibilitava conversas em que eu sabia de ladrões que pediam para bichas comerem seus cus, ou que pediam para chupar seus paus nos momentos íntimos. Em uma mesma conversa, monas e bichas que haviam detalhadamente explicado o código moral que regulava a vida íntima dos ladrões e separava talheres, canecas e cigarros, abordavam como os ladrões se portavam de maneiras que escapavam em muito às prescrições, trazendo à tona elementos da vida deles que se localizavam no ponto em que tangenciavam a metamorfose existencial, ou no qual transgrediam os limites postulados para a sua ação, e com isso, suas narrativas produziam uma metodologia específica, passava-se de um plano ao outro, do público ao íntimo. É por isso que passamos da cristalização ao movimento nessa dissertação, que propõe visualizar os efeitos dessas diferentes formas narrativas na imagem das relações na

PJPN. Em determinado momento foi justamente a distância dos pavilhões que se tornou uma peça essencial para a compreensão de aspectos da vida prisional que dependem do sigilo e do segredo. Se a inserção no cotidiano poderia me dar a noção subjetiva do téte à téte da vida na prisão, os encontros deslocados dos pavilhões propiciavam um raro momento em que minhas interlocutoras e interlocutores podiam falar a respeito das suas vidas sem estarem sob o escrutínio dos(as) outros(as). A emergência de um exercício narrativo, deslocado da vida em clausura, aparecia como vetor da intimidade que fundamentou a escrita dessa pesquisa, pois no sigilo de nossos encontros as monas e os envolvidos encontraram um meio para explicitar o que na efervescência da intimidade nos pavilhões era secreto e delicado de ser dito em público, mas que era constantemente partilhado entre as bichas e monas na galeria rosa.

Nesse sentido, o exercício narrativo de minhas interlocutoras era produzido como o que Strathern (2011) denomina uma “interpretação da realidade”, que sempre releva uma figura e dispõe um fundo, sendo que a figura depende do contraste com o fundo para se tornar figura e vice-versa, mas nunca em uma configuração fixa, pois o que é figura e o que é fundo se modificam de acordo com a mudança de escala da qual se olha. É possível dizer que a produção do exercício narrativo pelas monas consistia em uma metodologia que alternava aspectos produzidos como figura e outros como fundo, pois as mesmas monas que tratavam das regras de convívio com ênfase na cristalização dos padrões de comportamentos dos ladrões por uma perspectiva do que era público na prisão, logo após remetiam as ações dos ladrões que iam na contramão do que deviam fazer. Nesse sentido, o exercício narrativo conduz uma interpretação da realidade que produz movimento. Para Strathern:

O efeito de qualquer intenção interpretativa é, a partir disto, fazer estas coisas parecerem se mover subsequentemente, ou seja, como resultado da atenção dada a elas. Discriminação e distinção, conexão e relação, tudo isto faz o objeto de atenção se movimentar. (id: 245)

Nesse sentido, a passagem da cristalização para o movimento nada mais é do que a imagem produzida pela metodologia narrativa de minhas interlocutoras de onde se produzem os movimentos dessa etnografia, e nesse sentido, pode-se dizer que nesse segundo capítulo inverteremos a relação figura e fundo da etnografia. Dito de outro modo, a maneira como as

monas e envolvidos enquadravam a vida no cárcere compunha em nosso encontro uma imagem analítica da prisão, como em uma fotografia em que o mundo o mundo se torna figura, e o

espaço, antes tridimensional, se compõe da ilusão provocada pela sensação de figura e pelo fundo. A vida na prisão não se divide entre a cristalização e o movimento, mas os elementos que se separa analiticamente são expressões de um fluxo na vida e carregam consigo uma percepção da realidade. Dessa maneira, considerar as estratégias narrativas das monas é produzir no texto etnográfico a expressão da perspectiva delas sobre a prisão e as relações em que se engajam.

Compreender esse tipo de relação na pesquisa é dar inteligibilidade à relação de intimidade que produzimos em nossos encontros. Ainda assim, um problema de método persiste: anteriormente delimitei a relação entre os pares de opostos visível-público/invisível- secreto como casos de dupla captura, para não prescrever uma relação intrínseca entre os termos das dualidades, pois assim como Foucault (2008) o demonstra em sua análise do quadro icônico de Magritte, “Isso não é um Cachimbo”46, o que se fala não se confunde com o que se vê, mas

a relação produzida “entre” o discursivo e o visível é marcada justamente pela “não relação” entre os termos. Ora, se nessa obra pictórica a separação entre o visível e o discursivo se torna clara na pressuposição da dupla captura entre os termos, da perspectiva do setor de

atendimentos, de onde era impossível visualizar o que as monas me descreviam, uma outra pergunta se insinua: que relação pode existir entre o que é descrito na narrativa de minhas interlocutoras e o invisível que descrevem?

Considero que a resposta para essa pergunta reside na absorção de como o visível e o invisível e o plano discursivo do secreto e do público apareciam nas metodologias narrativas de minhas interlocutoras. Essa abordagem se baseia no pressuposto de que existe reflexividade (Garfinkel, 1967) entre a produção de metodologias narrativas e a produção de estratégias na vida.47 Nesse sentido, considero que foi por meio da criação de uma intimidade de pesquisa que

pude compreender a intimidade de dentro das celas e, somente por meio da análise de como a intimidade era narrada, será possível compreender as forças envolvidas em nossos encontros no

46 O quadro de Magritte retrata a figura facilmente reconhecível como um cachimbo, mas é acompanhado

pelo texto “isso não é o cachimbo”. Segundo Foucault, trata-se de uma versão do autor de um caligrama, que demonstra uma relação específica entre o visível e o discursivo. A imagem se produz como representação, mas se desloca em contraposição ao texto. Produz-se no encontro entre as duas um paradoxo linguístico e visual.

setor de atendimento. Uma intimidade dá luz a visibilidade de outra, e assim véus se tornam translúcidos. Para isso, no que se segue, abordarei a descrição analítica se deterá no domínio das políticas de intimidade nas celas da PJPN, especialmente como são compostas por relações que perpassam o jogo de relações entre visível-público e invisível-secreto.