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Chapter 3: Before the referendum

3.4 Other historian’s responses to the Brexit debate

3.4.1 Historians for history and other responses

Nessa sessão a descrição toma outro ponto focal em que nos aproximamos da PJPN, já observada na parte anterior como uma cadeia de oposição — o que como vimos singulariza a posição que os ladrões desta unidade têm em relação ao crime, como parâmetro ético. O processo de transição, iniciado no final de 2013 e que pude verificar até 2016, de transformação de uma cadeia de bichas e coisas para uma cadeia com maioria de artigos, é uma ocorrência arquitetada pela administração da prisão, mas somente possível dentro do universo moral de uma cadeia de oposição, o que era salientado na opinião de algumas interlocutoras, como Vivi, uma bicha que me disse “isso é cadeia de refugiado do comando”. Sendo assim, uma cadeia de contingente abjeto dentro do sistema prisional.

Em 2013 a presença do CRBC fazia surgir diversas divisões morais e espaciais, e o jogo de forças entre os presos era marcado pela presença dessa facção, que regulava o trânsito de presos entre os pavilhões e comercializava o crack. Naquele período, por exemplo, a galeria

rosa20, era localizada no pavilhão 1, considerado o mais calmo e próximo da administração, e

20 Galeria rosa é o termo que denomina simultaneamente o espaço designado para bichas, travestis e gays

tomava metade das celas, divididas entre celas de monas, envolvidos e monas casadas, e celas

cabaré, que continham em média 120 presos(as), sendo o restante das celas reservado aos presos com vínculo empregatício nas empresas que utilizam de mão-de-obra dos encarcerados e celas de evangélicos, presos de bom comportamento e que participavam das intervenções culturais promovidas pela administração. A conjuntura política mudava na medida em que se avançava para os pavilhões 2 e 3, onde gays, travestis e envolvidos não podiam morar e que eram reservados aos ladrões. Essa dinâmica impunha uma polarização da cadeia, na qual o pavilhão 3, onde ficavam majoritariamente os membros do CRBC e a liderança desta facção, era o mais distante da administração, tanto no sentido físico (os prédios administrativos se encontram próximos ao pavilhão 1), quanto no sentido político e por isso considerado mais tenso e problemático.

No final de 2013 a ocorrência de um assassinato envolvendo membros de uma facção

de seguro, o bonde do cerol fininho, conhecida por sua atuação violenta e aleatória e por conter

travestis e bichas em sua constituição, fez a administração da prisão ser trocada pela SAP (Secretária de Administração Penitenciária), o que resultou em um procedimento conhecido como rasgar a camisa, no qual todos os membros de facções criminais foram transferidos para outras unidades prisionais, resultando na nova configuração da PJPN como uma cadeia de

oposição neutra. Quando retornei ao campo, agora nos primeiros meses de 2014, nos quais visitei a penitenciária por um mês e meio (Boldrin, 2014), encontrei uma cadeia que ainda se acostumava ao novo ritmo, mais restrito e acelerado, imposto por uma administração que vinha de um CDP21. Começava aí um processo que sensibilizou o convívio entre os presos e provocou

uma relação distinta entre a população da cadeia e a administração.

Com a nova conjuntura, um novo conjunto de presos foi transferido para a PJPN e um

bonde foi trazido com um novo piloto para a prisão. As intenções desse remanejamento foram aos poucos sendo compreendidas por minhas interlocutoras e interlocutores como a transformação dessa penitenciária em uma cadeia de artigos. Uma cadeia de oposição neutra

21 Os CDPs, centros de detenção provisória, se caracterizam como unidades prisionais de passagem, sendo

assim, a administração lida com um fluxo de presos mais acentuado e veloz, além de que esse ritmo mais acelerado impede algumas territerializações mais características de penitenciárias, como a PJPN.

indica a ausência de facções criminais, mas como vimos, não significa a ausência do crime e consequentemente de ladrões. Dessa forma, a presença dos artigos, sujeitos considerados abjetos pelo crime em qualquer escala, e que ainda eram poucos e restritos ao pavilhão 1 da prisão em 2014, tinha que ser tolerada pelos ladrões. Nesse sentido, a presença do piloto geral no pavilhão 3 era de suma importância para a gestão da cadeia, o que remonta, como vimos, à situação de uma prisão “das antigas”, marcada pela gestão pessoalizada de um preso que assume papel de liderança.

O piloto geral, e o grupo de presos que faziam parte de seu círculo próximo, conseguiu uma posição privilegiada ao ser transferido para a PJPN. Com o intuito de tomar a cadeia no processo de rasgar a camisa, uma negociação foi armada com o diretor da prisão, e o piloto aceitou extinguir o crack e abrir espaço para a transformação desta cadeia em uma cadeia de

artigos. Ainda assim, em 2014 este processo não havia sido vislumbrado pelas monas, gays e

envolvidos com quem conversei. Havia uma nebulosidade quanto ao futuro da cadeia e as opiniões se divergiam entre aqueles(as) que comemoravam a saída do CRBC e do crack22, e

dos(as) que temiam pelos rumos que essa nova conjuntura daria à galeria rosa. No que condizia às monas e envolvidos pouco tinha mudado em relação ao CRBC, em termos morais, os parâmetros éticos que regulavam as relações amorosas tinham como base as concepções do

crime e nada havia mudado quanto às permissibilidades sexuais e amorosas.

Quando retornei ao campo, agora no mestrado em 2015, em visitas semanais no segundo semestre e finalmente por 3 meses no início de 2016, encontrei a cadeia novamente modificada. Se antes a presença dos artigos era pequena, ainda que sentida na aversão da maior parte dos presos e presas, agora dois pavilhões dos três que formam essa unidade prisional eram reservados aos artigos. A galeria rosa, agora muito menor e com apenas uma cela cabaré, se encontrava no pavilhão 3, antigamente reservado exclusivamente aos ladrões e considerado como o mais conturbado e problemático da prisão. Além disso, as conversas que tive, agora

22 O vício pelo consumo de crack é muito problemático para várias de minhas interlocutoras e interlocutores.

Eva, uma travesti que conheci em 2014, disse-me que uma travesti mais velha tinha lhe oferecido uma pedra quando estava na rua com o intuito de roubar a sua beleza “como a bruxa má deu a maçã para a bela adormecida”. O efeito do crack no corpo se configura como um grande problema para as travestis e a proibição engendrada pelo piloto da cadeia foi bem recebida por elas.

com casais de monas e envolvidos ou grupos, me deixaram saber que em Julho de 2014 a administração tentou mandar de bonde grande parte das bichas e travestis para outra cadeia de

oposição, em uma manobra conhecida pelos presos como sequestro, na qual são surpreendidos com a requisição de transferência e obrigados a mudarem de unidade. Esse processo, nunca simples, pois envolve a inclusão e adaptação dos(as) apenados(as) em um novo meio, foi recebido com protestos pelas bichas e travestis que se recusaram a sair do bonde e não entraram na nova cadeia, sendo encaminhadas logo em seguida para a PJPN. 23

De volta à PJPN, os meses que se seguiram foram de trânsito interno frequente da

galeria rosa, que do pavilhão 1 foi distribuída pela cadeia toda até finalmente, em meados de 2015, ser fixada no pavilhão 3. A diminuição da galeria rosa se deu pelo que foi sentido por minhas interlocutoras e interlocutores como uma aceleração dos processos criminais que levaram muitos presos e presas para unidades de semi-aberto ou para a rua. Essa aceleração dos processos jurídicos também era indicada como uma razão para que os ladrões aceitassem a presença dos artigos na prisão, adicionando-se ao fato de que eles eram protegidos pelo piloto

geral, a respeito de quem corriam boatos sobre crimes sexuais em seu histórico criminal. Com o recorte metodológico ocasionado pela construção de uma cronologia, descrevi esse processo para demonstrar como as dinâmicas prisionais são frutos de um encontro entre a atuação dos presos e da administração. Ademais, estas mudanças são parte inextricável dos relatos que ouvi e darão vigor às análises que se seguirão, pois as relações emocionais que são foco deste trabalho aconteciam em meio a confluências políticas que tinham efeito tanto no sentido moral, no convívio das monas e envolvidos com ladrões e artigos, quanto no plano material, da espacialidade da cadeia e dos fluxos que formam o sistema prisional. A presença dos artigos modifica as condições morais da prisão, cuja menção provocava reações abjetas na maior parte de minhas interlocutoras e interlocutores.

Vivi, uma travesti que era ligada ao PCC na rua, expressava uma visão dramática da situação dos artigos:

23 É importante notar que a resistência em relação a transferência foi marcada intensamente pela grande

quantidade de casais separados abruptamente no processo, sendo que os envolvidos ficaram na PJPN. Para uma análise desse tipo de movimento administrativo nas relações amorosas, conferir a sessão 2.2.3 dessa dissertação.

Eles são tudo pai de família, tio, pai que estuprou a filha. A maioria é tarado mesmo, gente doente. Às vezes uma bicha tá de shorts andando pelo pavilhão e você mira um artigo esfregando as partes, olhando pra ela, é nojento, eles foram presos por crimes sexuais, não se controlam. Tem muito velho, maricona [tradicionalmente, na rua, maricona é um termo que se refere a homens mais velhos que saem com travestis ou com michês], que não assume que é gay. Eles se comem entre si, ontem mesmo passei por uma cela e vi dois velhos se atracando no chão da cela, parece até que senti um cheiro de cova aberta subindo.

Como vemos, o tipo de opinião expressa por Vivi reverbera o que diria um ladrão, que deve odiar os artigos de maneira contundente. Os artigos, além do mais, eram considerados presos sem nenhum tipo de proceder, sem noção de cadeia, pais de família, como diz Vivi, que nunca tiveram contato com o crime e por isso são vistos pelos ladrões e pela população da cadeia como caguetas, que colaboram com a administração em troca de qualquer regalia e absolutamente não confiáveis.

De todo modo, a presença crescente de um contingente tão abjeto aos preceitos do crime, tomando dois pavilhões inteiros quando do final de minhas visitas ao campo, marcou a PJPN como um novo extremo de cadeia seguro. A galeria rosa, nesse sentido, foi aos poucos sendo transferida para uma espacialidade cada vez mais próxima dos ladrões, no pavilhão 3. Essa nova configuração pareceu, aos poucos, abrir espaço para que monas e gays pudessem dar maior ênfase a integridade de suas condutas em relação ao crime e a ter proceder. Um preso gay, me afirmou:

Tanto ladrão quanto artigo, se vier me cobrar, quero ver se fez na rua o tanto que eu fiz, atirar em polícia, roubar banco e maluco vai vir me dizer que não tenho proceder por que dou o cu? Você tá louco?

Carol, expressou uma opinião parecida ao comparar sua caminhada a de alguns artigos que, segundo ela, buscavam sobrepor-se enquanto sujeitos homens e chegavam até a “cantar os funks do PCC, como uns idiotas sem proceder”. Ela disse-me:

Se vier falar merda pra mim a questão é bem simples, eu fui presa por assalto a mão armada24, e artigo foi preso porque estuprou, matou criança, mulher. Eu sou do crime,

ele não, meu crime não foi dar o cu, foi roubar, e o dele?

24 O assalto a mão armada, conhecido pelo número de seu artigo, 157 é reconhecido como o crime por

Desta forma, vemos que a presença dos artigos, antes de ocasionar uma opressão em relação às monas e envolvidos, alavancou a posição delas em relação ao crime, a partir do extremo, os artigos, do que é contrário os preceitos do crime25. Na sessão 1.3, em que retornarei

a partir da galeria rosa, se esclarecerá que o tipo de posição expressa nos comentários supracitados é comum às monas na consolidação do que chamam de crime de calcinha, o que marca a posição que virei a definir como borda. Ainda que não sejam o crime incorporado, como no caso dos ladrões, a chamada máfia das bichas apresenta uma força reativa em relação as regulações morais que dizem respeito aos seus corpos. Na sessão seguinte o foco da descrição se reservará às regulações morais do crime e seus efeitos na PJPN, cujas singularidades políticas e existenciais espero ter esclarecido nas descrições antecedentes.