3 R&D at individual GLU milieus
3.3 HiOA: Oslo and Akershus University College of Applied Sciences
• Uma boa infância é a que teve G., num bairro da Zona Sul de São Paulo, com as melhores roupas e boa educação em casa e nas escolas – públicas no ensino fundamental e particular no ensino médio, no qual estudou até o segundo ano. “Tive de tudo, na medida de uma pessoa pobre”, conta. Os pais metalúrgicos sempre trabalharam, “nunca fizeram nada de errado”, diz G.
“Moramos em casa de aluguel. Na frente morava um casal que não tinha filhos. Eles pegaram amor pela gente e foram como avós pra mim. Cuidavam de mim enquanto meus pais trabalhavam. Desde que fui presa a primeira vez, não vi mais a minha avó. Tenho vergonha de visitar ela.”
Apesar de ter sido cuidada pela “avó”, o cárcere as distanciou, pelo que relata G., devido ao possível medo de desaprovação da entrevistada. Morou com a mãe, a partir dos 19 anos, quando os pais se separaram, na casa que o pai construiu. Sempre se envolveu com o crime, esteve ao lado de parceiros criminosos, usou drogas, morou em favela, segundo ela. Trabalhou antes e entre uma prisão e outra:
“Antes da primeira cadeia, trabalhei de faxineira, ganhava R$ 350,00. Entre a primeira e a segunda cadeia trabalhei numa fábrica de resina, durante dois meses, ganhando um salário mínimo, mas eu tinha que levar de comer e segurar meu vício, aí voltei para o crime.”
• Gostar de morar em São Paulo não basta para R., pois a cidade é traiçoeira pra quem quer se livrar do tráfico.
“Vou pro interior (...). Se eu ficar aqui, volto novamente para cadeia, porque eu tenho cinco filhos, logo de cara não vou ter como sustentar eles, não vou conseguir. Às vezes a mulher que está aqui não tem família e tem responsabilidade de cuidar dos filhos. (...) Não tem muita opção...”
Apesar de afirmar que sempre teve de tudo, perdeu a mãe, costureira, aos três anos, e o pai, borracheiro, – que já não a criava - aos 12. Criada pela avó e outros parentes, morou na Zona Norte de São Paulo. Diz que no período que estudou, até o oitavo ano do ensino fundamental, foi em ensino privado. Tinha bicicleta, bonecas, coleção da Barbie, roupas.
Aos 18 anos a vida de R. tomou outro percurso. “Fiquei meio rebelde, com amizades erradas. Não ia estudar, saia com amigos e voltava depois de três dias, ia pra balada, shopping. Não faria nada igual, perdi muito com isso”, reflete.
“Com 21 descobri que estava grávida da N., nunca mais voltei pra casa. Minha madrinha me mandou embora. Minha família não aceitou. Fiquei dos três meses até cinco meses [de gravidez] morando na rua, no centro de São Paulo. Ligava para minha avó, ela ligou para o meu padrinho e ele foi me buscar. Minha avó foi morar comigo na casa do padrinho, ficamos lá até ela morrer, em 2003. Sai de lá para morar com as crianças e minha madrinha ajudou a pagar o aluguel até eu mesma poder.”
Trabalhou como auxiliar de limpeza em mercado e atendente de bar, com ganho – nas duas funções - de um salário mínimo, R$ 465,00, em 2009. Optou por ser “ponte”, se comprometeu com o tráfico de drogas e por um dia recebeu R$ 500,00: foi sentenciada a quatro anos e 10 meses de prisão.
É um ciclo que parece não ter fim. Faz parte do estágio atual da globalização, segundo Santos (2002), que produz as tais desigualdades, com o crescimento do desemprego, da pobreza, da fome, da insegurança do cotidiano, num mundo fragmentado e cheio de fraturas sociais.
• Obstáculos não houve, na opinião de L., durante a infância, em Guarulhos, onde nasceu. Criada pela mãe, empregada doméstica, e pelo padrasto, funileiro e técnico de eletrodoméstico, lembra-se dos brinquedos e do gosto que tinha em ir à escola. A avó teve participação na sua criação e na dos sete irmãos, pois os pais trabalhavam.
L., porém, se contradiz quanto à inexistência de “obstáculos” quando diz:
“Minha mãe não podia comprar material de escola e roupa para todo mundo. Era mais economizado. Minha família também já passou fome, principalmente quando minha mãe ficou grávida dos gêmeos. Muita gente ajudou ela, a Pastoral da Criança, a assistente social, as mulher que ela fazia faxina.”
Há a presença e importância de redes assistenciais no tange a infância de L. Sobre trabalho, demonstra diferentes experiências e precocidade:
“Comecei a trabalhar com 11 anos, vendendo bala no farol. Com 13, cuidava de criança, com 15, trabalhei em lanchonete, com 17, em padaria e em telemarketing com 19, onde fiquei até seis meses antes de ser presa. Depois voltei a vender bala em faróis.”
O ganho de vendedora de balas chegava, conforme L., a R$ 200,00, se trabalhasse até 23h, 24h.
Assim que o marido cumpriu a pena mais alta das que já teve, cinco anos e seis meses, foram para o interior, onde ele passou a trabalhar na roça e ficaram por
quatro meses. Quando voltaram, passaram dois meses em Guarulhos e foram presos por tráfico de entorpecentes.
• As irmãs L.C. e M. são do interior de São Paulo, estudaram até o sexto ano do ensino fundamental. M. diz que “dói até o coração de falar de família”, pois já teve, porém não a tem mais. Não sabe como estão os três filhos, perdeu o contato com a sogra, que é quem cuida deles. “A infância para mim foi meio cruel. Fui ter infância junto com meus filhos, com 15, 16 anos. Quando casei tive meu primeiro filho. Com 16, 17 anos brincava com ele como se fosse uma criança também”, relata M.
Quando pequenas, com cinco e seis anos, o pai, “guarda de posto”, morreu. A mãe trabalhava, as filhas cuidavam da casa. Era um total de nove irmãos.
“A gente colocava tijolo para alcançar a pia para lavar a louça. Minha mãe chegava cansada do trabalho. Ela era doméstica, cozinheira, fazia de tudo na casa que trabalhava. (...) A gente era pobre, faltava gás, mas a patroa da minha mãe dava. Dava roupa, sapato, comida...”
L.C. diz: “a mãe ficava dias sem se alimentar pra dar pra gente. (...) As assistentes sociais da cidade ajudaram sempre”. No entanto devido ao alcoolismo, a mãe ficou internada. L.C. e M. contam que juntamente a dois irmãos mais novos eram abrigadas com freqüência, até que o caçula foi adotado. Após anos de idas e vindas em abrigo, a irmã mais velha ficou com a guarda das irmãs L.C., M. e V., a mais nova.
Mesmo abrigadas, faziam visitas à mãe internada. “A gente se sentia sozinha, porque minha mãe não podia ficar junto (...)”, relata L.C. Segundo M., também havia alegrias enquanto estavam abrigadas:
“Numa parte era bom morar no orfanato, porque a gente brincava, ia família buscar a gente para ir para a casa deles
passar o dia. A parte que não era boa era ir para a escola. O juiz falava que se eu não fosse para a escola, ele ia me mandar para a Febem, longe dos meus irmãos [lembra-se sorrindo]. Todo mundo tratava a gente bem. Tinha bastante criança, bebê. Quando tinha festa, a gente ganhava presente. Nunca vou me esquecer. O lado ruim de ficar lá é que parecia que tava presa, não podia sair, ver outras pessoas. Os irmãos tudo espalhado, era triste. Quando a minha mãe morreu a gente estava no orfanato. O guarda era muito chato. A gente pedia para comprar bala, chiclete e ele não comprava. Tinha um da noite que comprava.”
Entre 15 e 16 anos M. afirma ter sido foi balconista e faxineira na cidade, com salário de R$ 250, 00.
L.C. antes de ser presa buscava especialização num curso para cabeleireiros. “Fazia cabelo na minha casa. Fazia tiarinha, trança. Fazia escola, comecei a fazer curso de cabelo, parei porque fui presa. Às vezes, na semana, fazia quase R$ 400,00, antes de ser presa. Trançado inteiro, R$ 60, R$ 70.”
• De Camaçari, Bahia, T. foi mandada a São Paulo com um ano. Voltou para a cidade natal e aos 11 anos retornou à capital paulistana para viver com o pai.
“(...) Ele me batia, fiz até BO. Duas irmãs veio antes que eu. Ele deixava nós com fome. Comecei a trabalhar com 11, 12 anos, era vendedora de rifa. Cada rifa que deixava, ganhava R$ 3,00, só tinha direito a almoço. Com 12 anos resolvi sair de casa com uma amiga, morei em ponto de ônibus, caminhão de lixo, tudo quanto é favela. A gente fez um pacto de não deixar a escola. Morei por um ano com 12 meninos e uma amiga minha numa favela, sem ter problemas, indo pra escola, fazendo judô e vôlei. Eles mexiam com seqüestro, fui presa uma vez de laranja, com 14 anos, fiquei 45 dias.”
Morou com um namorado, pai de sua filha, durante a gravidez e o primeiro ano da criança. “A primeira vez que ele me bateu mandei ele ralar peito. Ele tava começando a usar cocaína, maconha já usava. Comecei a catar resto de feira e olhava carro, na feira do Morumbi, pedia nas casas, tudo com minha filha no colo”, relata.
Uma boa infância, para T., é aquela “que tenha pais presentes, condições financeiras e saúde”. Com ares de brincadeira, quando questionada sobre o que entende como uma boa família, responde: “rica, mas que dê amor e considere as pessoas a sua volta importantes”.
Com estas vivências, quais as alternativas de T. e das demais enquanto egressas? Para Bauman (1999), sob o sociólogo Thomas Mathiesen, “em toda a história a prisão jamais reabilitou pessoas na prática, jamais possibilitou a reintegração”. O autor afirma que há o que se denomina “prisonizar”, ou seja, encorajar a absorver e adotar hábitos e costumes típicos do ambiente penitenciário, o que é um obstáculo no “caminho de volta à integração”.