Durante os últimos quatro séculos, a ciência moderna impôs-se como o único caminho possível para chegar-se ao conhecimento, a verdade passa a existir enquanto verdade científica. Nessa perspectiva, a ciência criou a sua hegemonia, que se fundamenta na razão pura, na comprovação e na negação histórica dos saberes que não se encaixam nos padrões e métodos científicos, tido como saberes não-científicos (não-hegemônicos).
A hegemonia contemporânea é forjada como uma tradição universal, cuja visão de mundo, sustentada pelo poder econômico e político, serve de parâmetro para a escrita da narrativa histórica oficial. Portanto, para o olhar científico, o que não é moderno não existe (SANTOS, B., 2006), o passado é uma simples lembrança (SARAMAGO, 1997), tudo é passível de quantificação e ordenação. A realidade é dividida e categorizada, como se o mundo fosse estático, como se não houvesse contradições nas relações sociais. Este olhar mecanicista nos impõe um mundo-máquina (SANTOS, B., 2004), um mundo simplista, passível de ser representado em um modelo matemático.
A modernidade ambiciona apagar a história da humanidade para afirmar novos tempos, visto que ―os modos de vida produzidos pela modernidade nos desvencilharam de todos os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira que não tem precedentes‖ (GIDDENS, 1991, p. 14). São novas tendências sem velhas essências, modernidade sem antiguidade, a promessa de um novo mundo, cujo presente renovado não permite ao passado antiquado se encontrar com o futuro.
A ciência não é propriedade particular, é de todo cidadão, todos fazem ciências, seja em um laboratório de pesquisa, seja na vida cotidiana. Visto que ―a fonte principal de uma parte dos nossos saberes são saberes que vêm da população em geral, não dos cientistas‖ (CLAVAL et al, 2011, p. 309). Esta indignação à dicotomia de saberes também faz-se presente na poesia ―Os sabiás divinam‖ de Manuel Barros:
A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir seus encantos. A ciência não pode calcular quantos cavalos de força Existem nos cantos de um sabiá. Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. Os sabiás divinam.
(BARROS, 2000, p. 53) Dessa forma, a ruptura com os saberes não-hegemônicos promoveu a fragmentação do conhecimento científico em múltiplas disciplinas, a ciência foi dividida em disciplinas e a realidade é recortada em objetos de estudo, culminando, assim, na compartimentação do conhecimento (HISSA, 2002). A ideia é de que a excessiva fragmentação do conhecimento possa viabilizar interpretações mais precisas e profundas da realidade, de forma que o mundo possa ser modelado linearmente por normas e regras padronizadas, congeladas.
Neste aspecto, cada disciplina demarca sua fronteira conceitual, esgotando em si mesma o seu objeto de estudo recolhido do mundo, sem espaço para o diálogo entre os saberes (HISSA, 2011). Por estarem isoladas, as disciplinas tornam-se frágeis (HISSA, 2002),
este processo de ―especialização radical pode trazer poucos e excepcionais benefícios, mas inevitavelmente, no geral, é limitadora e esvazia a criatividade e a liberdade‖ (HISSA, 2011, p. 14), ―reduz a migalhas‖ o saber científico (MORIN, 2003, p. 119).
Percebemos, dessa forma, que a dicotomização entre Ciência e Arte, corpo e alma, matéria e consciência, ainda representam o paradigma do conhecimento humano, que se estende ao campo educacional, o qual está dividido nas áreas de humanas e exatas. Supondo, assim, que a área de humanas é desprovida de razão, enquanto a área de exatas é desprovida de emoção. Para Morin (2002), a ausência de emoção pode comprometer ou até mesmo destruir a faculdade do raciocínio. Não existe um valor superior da razão sobre a emoção, mas um eixo entre intelecto e afeto. Quando despedaçamos nossa afetividade e nossa realidade, despedaçamos também a interpretação que fazemos delas.
Porém, os limites dessa fragmentação do conhecimento tornaram-se evidentes, surgem novas práticas na produção do conhecimento científico, na qual inclui-se a ruptura com as fronteiras disciplinares. Estas novas práticas estão desvelando a complexidade dos fenômenos e impulsionando estudos capazes de instaurar o diálogo entre as ciências naturais e as humanas, a filosofia e as artes (CLAVAL, 2011).
Assim, ensinar e aprender exige novas capacidades para compreender um mundo complexo, em que conhecimentos diversos apresentam-se em processo de interação profunda, pensamento e conhecimento operam em uma estruturação complexa, tudo está misturado, remixado. Exige-se, dessa forma, uma ―uma visão que mistura as ciências, uma visão híbrida‖, que tenha ―a noção clara de que as coisas, no início, não estavam separadas. As coisas estão juntas. O normal, é as coisas estarem juntas‖ (TAVARES e HISSA, 2011, p. 143).
O não-hegemônico é habitado por sujeitos que experimentam contextos diversos de maneira plural, produzem cultura e conhecimentos enquanto produzem a si mesmos. Diante desta ótica, percebemos o outro lado da ciência, o seu caráter cultural. O não-hegemônico não se extinguiu com a imensa opressão da ―Roda Viva‖, pelo contrário ele propaga-se no silêncio, na camuflagem, pois, mesmo desprovido de voz, resta-lhe a essência dos sujeitos: ―o coração‖. Enquanto o hegemônico propagou-se no Ocidente, o não-hegemônico propagou-se no mundo.
O mistério, a incompletude humana, nossa alma, nosso corpo, clamam pelo movimento da vida, pela desterritorialização3, pelo rompimento dos casulos disciplinares do conhecimento contemporâneo para que possamos migrar, atravessar fronteiras e frequentar outras linguagens, num processo de criação a partir de suas próprias linguagens, de suas próprias imagens. A ciência é arte, ela só deixa de ser arte quando nega suas subjetividades. Ao compreendermos que ―a arte é irmã da ciência‖ (GIL, 2001), libertaremos a criatividade e a intuição para inventar um futuro mais belo e humano.
O mundo está impregnado de subjetividades e de autores que fazem arte e ciência à sua maneira. São autores e artistas do cotidiano, que clamam reconhecimento, ―voz ativa‖ e liberdade para construir sua história viva. Povo guerreiro, ―trabalhador brasileiro‖, que nunca deixará de lutar, nunca deixará de criar, mesmo que chegue ―a roda-viva e carregue o destino pra lá‖4 (BUARQUE, 1983). Eis o clamor do povo: ―A gente quer ter voz ativa, no nosso
destino mandar‖ (idem), eis a emergência da coletividade e da horizontalidade de saberes. O saber surge da busca pelo sentido, está alicerçado no desconhecido, no complexo, na incerteza, no mistério. Todo e qualquer sentido é híbrido, é atravessado por interpretações científicas e artísticas, é tecido no diálogo. Os saberes circulam horizontalmente entre os sujeitos, neste processo todos interpretam e são interpretados, todos tecem saberes e hibridismos conceituais, todos são autores e co-autores simultaneamente, ―mesmo que seja uma autoria coletiva; ela imprime, na sua significação, o olhar do sujeito que a enuncia‖ (HISSA; MARQUEZ, 2005, p. 17).
É no movimento do diálogo, da permanente busca pelo saber inacabado, em constante movimento, que os sujeitos se entrelaçam, que as identidade e saberes se mesclam formando sujeitos e saberes híbridos. Neste movimento, experiências do cotidiano são compartilhadas, percepções são revividas, memórias são reavivadas, saberes dialogam e hibridizam-se, sem hierarquias, sem imposições, sem colonizações. Neste sentido, sempre seremos misteriosos para nós mesmo, somente no encontro dialógico com o outro podem-se preencher vazios, que sempre existirão.
3 Compreendemos que a desterritorialização vai além das ―mobilidades na relação espaço-tempo, mas, principalmente, à possibilidade de o sujeito se deslocar em seus territórios existenciais, reconhecendo neles a finitude e a necessidade (ou o desejo) de outras experimentações que possam dar vazão aos fluxos que afetam a subjetividade no presente [...] Portanto, tudo isso diz respeito ao devir. Essa discussão se situa, em termos epistemológicos, numa perspectiva em que o sujeito e a história são percebidos em constante movimento‖. (HISSA et al, 2011, p.56)
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Portanto, é nesta dimensão híbrida e inacabada que a perspectiva de Benjamin e Bakhtin procuram investir. Nesta visão, os saberes igualam-se, mas não se homogeneízam, reinventam-se, misturam-se, expandindo e povoando as fronteiras da nossa contemporaneidade por meio da arte de narrar.