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Diante da realidade discutida nos capítulos anteriores, é praticamente impossível estudar a classe especial e a escola pública e não ficar indignado. Deparar-se com suas fragilidades e sua complexidade proporciona uma sensação de paralisia tamanha a intensidade de seus acontecimentos. A busca de uma saída, tão intensa quanto a movimentação, só é viável através do auxílio de referenciais teóricos que reconhecem a escola inserida na realidade social.

É nesse sentido que o materialismo histórico e seus referenciais de compreensão dos fenômenos sociais permite um olhar crítico, pois parte da premissa de que estudar a escola não é entendê-la como algo que está exterior ao homem, mas algo que faz parte da vida humana, sobre a qual recaem as próprias ações dos homens. Demo (1995) afirma que a dialética é a metodologia mais conveniente para a realidade social, e não se aplica à realidade natural porque está destituída do fenômeno histórico.

A realidade social é movida por condições objetivas, que são externas aos homens, e condições subjetivas, que dependem da ação do homem. Sendo assim, a análise de um fenômeno pela dialética se dá pela sua historicidade. Estudar a escola, nesse sentido, é partir da premissa de que a sua realidade atual é fruto de um processo histórico.

Além disso, o conflito social é inerente ao processo histórico, pois a dinâmica da história provém dos antagonismos e não reconhecê-los é não reconhecer o movimento vital da realidade. Demo (op.cit.) coloca que a estrutura do conflito é alimentada pelo que ele chama de ‘alma da dialética’: o conceito de antítese, a oposição dos contrários; isto é, toda realidade social gera por dinâmica interna própria o seu contrário, ou seja, as condições objetivas e subjetivas para sua superação.

O esquema básico da dialética é a trilogia: tese/antítese/síntese. A realidade social historicamente contextualizada é tomada como tese, reconhecida pelos contornos e conteúdos próprios de determinadas fases e resulta no processo de institucionalização. Desenvolve-se através do processo dinâmico o contrário dentro de si, a antítese, que é mola propulsora da superação. A outra fase é a síntese, que reinventa e revive os contrários, os antagonismos sem repetir a tese de onde se originou. É um processo dinâmico e contínuo, que Demo (op.cit.) diz ser na realidade uma duologia, pois toda síntese é a próxima tese.

Nesse foco, a explicação é sempre entendida como uma simplificação da realidade.

A realidade concreta é sempre uma totalidade dinâmica de múltiplos condicionamentos, onde a polarização dentro do todo lhe é constitutiva. Por isso, indivíduo em si não é realidade social, porque é gerado em sociedade, educado em sociedade, socializado em sociedade. Isolar é artifício ou patologia. É possível, por artifício metodológico, isolar um componente, para vê-lo em si, desde que não se perca a perspectiva de que ‘o todo é maior que a soma das partes’. (p.93).

O autor, também reconhece a importância do encontro entre prática e teoria, sendo que a primeira é a condição da historicidade, e a segunda a maneira de ver e não de ser. São reconhecidas dentro de suas importâncias e espaços:

A prática é um critério de verdade. A teoria social necessita de prática, mas a prática não a faz necessariamente verdadeira, pois da mesma teoria, pode se chegar a várias práticas, até mesmo contraditórias. (p.101).

A vinculação entre teoria e prática é essencial para a dialética, pois o estudo e o enfrentamento de problemas sociais caminham conjuntamente. Através da crítica teórica e da prática é que se constituem as condições fundamentais para a transformação da história. Atrás de toda prática, existe uma opção teórica e, conseqüentemente ideológica, que a define, pois é um traço concreto, mas não generalizante como a teoria. Demo (op.cit.) chega a afirmar que toda prática trai a

teoria, por não ter meios de ultrapassar a condição histórica de ser uma das possíveis versões dela26. É fundamental, que toda prática deva se voltar à teoria, de maneira crítica, oferecendo condições de realizar a autocrítica diante da tendência exclusivista própria do conteúdo ideológico nela embutido.

Outro teórico que vem contribuir para análise e compreensão da complexidade das relações estabelecidas na escola é Foucault (1993), quando fala das relações de poder. Pelo termo ‘poder’ entende que é algo que não deriva de um foco único, mas que é inerente e suporte móvel das correlações de força, que diante das desigualdades tendem a impulsionar os estados de poder, localizados e instáveis. O poder é produzido a todo momento, a cada instante em todas as relações.

Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistema ou ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam entre si; enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais. (Foucault,1993,p.88).

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As relações estabelecidas dentro da escola são relações de poder. São alimentadas e recriadas a todo momento, no cotidiano. Negá-las é não se permitir entrar na densidade da realidade escolar.

Acredito que é viável fazer uma pesquisa sobre a classe especial com esse referencial dialético, em que se reconhece a complexidade e a contraditoriedade existente na escola, marcada por relações de poder.

Nesse sentido Frigotto (1994) se propõe a sinalizar a possibilidade de pesquisar dialeticamente no plano da prática, indicando uma estratégia de condução muito próxima da estabelecida para a pesquisa aqui proposta. A estratégia contém cinco momentos fundamentais:

1º. É feito um recorte dentro de uma totalidade em que se reconhece uma problemática e não um problema. A problemática eleita não está situada “num patamar de ‘zero’ conhecimento” (p. 87), pois uma prática anterior, do próprio pesquisador ou de outros, é que pode suscitar a problemática escolhida.

2º. Na investigação é feito um levantamento teórico de toda a produção de conhecimento acerca da problemática. Tem-se como intuito resgatar as diferentes perspectivas de análise, as conclusões do conhecimento produzido e a identificação de premissas para o avanço do conhecimento proposto.

Definido o embate no plano teórico-metodológico, partindo do conhecimento já existente, começa a pesquisa dos múltiplos elementos e dimensões do problema que se está querendo desvendar. É importante ressaltar que quem conduz a investigação é o investigador e não os dados, sejam primários ou secundários. É o pesquisador que estrutura as questões e sua significação para conduzir a análise dos fatos, dos documentos etc. Com isso está-se afirmando que o investigador vai à realidade com uma postura teórica desde o início. A questão crucial é estabelecer o inventário crítico desta postura em face do objeto que está investigando, e não abstratamente.27(p. 88).

3º. Após o levantamento dos dados, é preciso definir um método de exposição e de análise. Identificar quais são as questões prioritárias que orientarão a análise e interpretação dos dados. Os referenciais teóricos, já colocados, reaparecem na produção de movimentação dos dados coletados. O movimento no plano teórico é o desafio ao pensamento em dar conta do movimento no plano do real, histórico. (p. 88)

4. Na análise dos dados o pesquisador busca reconhecer e identificar as

“conexões, mediações e contradições dos fatos que constituem a problemática

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pesquisada” (p. 88). É possível então, através da análise, produzir o conhecimento

apreendido da realidade.

5º. O último momento da pesquisa é a síntese: “exposição orgânica, coerente, concisa das ‘múltiplas determinações’ que explicam a problemática investigada” (p. 89). Surgem as novas descobertas, as contribuições ao conhecimento anterior, abrem-se novas questões e redefine-se alguns aspectos da problemática.

Repõe-se aqui, o ciclo da práxis, onde o conhecimento ampliado permite ou deveria permitir uma ação mais conseqüente, avançada, que por sua vez vai tornando o conhecimento ampliado base para uma nova ampliação. (p. 89).

Afirma o autor que essas não são etapas rígidas e estáticas da pesquisa, dependendo do momento do estudo há uma ênfase em determinada etapa.

Tendo como base as idéias expostas até aqui e a clareza de que pesquisar a escola não é uma tarefa fácil, é um pensar constante e ininterrupto, não pretendo esgotar todas as possibilidades de análise que estes referencias acima permitem. Mas penso que sua utilização norteando a pesquisa, aqui presente, permitirá um entendimento mais aprofundado e comprometido com a ética, sem que se faça uso de recursos explicativos reducionistas, permeados de preconceitos.