Bowe, Ball e Gold constroem um modelo analítico que se declinava em três grandes
contextos de leitura ou, três grandes linhas de força: um contexto da influência, um contexto da
produção dos textos da política e um contexto da prática que os autores classificam como «constituindo cada contexto um número de arenas de acção, algumas públicas, algumas privadas» (Bowe, Ball & Gold, 1992: 19). Como já referimos, dois anos depois, Ball aborda de novo a questão, completando o referencial analítico, e acrescentando, para que ele se tornasse
heuristicamente mais abrangente, o contexto dos resultados/efeitos e o contexto da estratégia
política. Jefferson Mainardes, analisa esta forma de compreender o alcance das políticas como tendo um cunho pós-estruturalista e referindo que a «abordagem destaca a natureza complexa e controversa da política educacional, enfatiza os processos micropolíticos e a acção dos profissionais que lidam com as políticas no nível local e indica a necessidade de se articularem os processos macro e micro na análise de políticas educacionais» (Mainardes, 2007: 27). Ora, é exactamente isto que temos estado a tentar fazer. Começando pelas influências das políticas supranacionais no campo nacional, passámos, em seguida, à leitura da forma como essas directivas são transpostas para o articulado normativo nacional e fizemo-lo no tocante ao currículo e à avaliação, dando conta também da forma como os docentes e os alunos gerem, no seu dia-a-dia, essas imposições normativas. No capítulo seguinte abordaremos as regras com que esses actores jogam o jogo da transição de ano por oposição ao da retenção e veremos que há claramente leituras e manifestações individualizadas dos normativos jurídicos que vão construindo o quotidiano escolar de uma dada escola portuguesa. Concordando neste particular com Ball, José Machado Pais mostra como é importante e necessário estabelecer cruzamentos entre «um plano microssociológico e um plano macrosssociológico» e não só na «sociologia da vida quotidiana» (Pais, 1986: 49).
Os autores definem o contexto da influência como aquele «onde as políticas públicas são
normalmente iniciadas. É aqui que as partes envolvidas lutam para influenciar a definição e as finalidades sociais da educação, o que significa a educação (Bowe, Ball & Gold, 1992: 19). Os limites temporais que nos foram impostos impediram que fizéssemos uma análise deste contexto que é de muito grande importância na definição de estratégias políticas subsequentes.
foram afloradas no segundo capítulo onde tentámos, inclusive, perceber, na esteira de Roger Dale, se será correcto falar de uma «agenda globalmente estruturada para a educação» (AGEE). Mas como se vêm processando essas influências traduzidas, a mais das vezes, em pressões?
O contexto da produção do texto das políticas é, como o próprio nome indica, o plano onde são redigidos os textos que transmitirão as directivas políticas aos profissionais no terreno.
Estes «textos das políticas (…) representam a política [educativa]. Estas representações podem
assumir várias formas: como é óbvio trata-se na maior parte dos casos de documentos legais “oficiais" e políticos; juntamente com comentários formal e informalmente produzidos que se
assumem como “explicações” aos textos oficiais108…» (Idem, ibidem: 20-1). Estes documentos
de índole normativa «são[, naturalmente,] intervenções textuais no domínio da prática109» (Ball,
2008: 18).
Esta indicação da intervenção da tutela no âmbito das escolas é de crucial importância para o nosso trabalho e para aquilo que queremos ir demonstrando. Tal como Bowe, Ball e Gold afirmam «a política não é feita e terminada no momento legislativo, ela evolui dentro e através dos textos que a representam, os textos têm quem ser lidos relativamente ao tempo e ao local da sua produção» (Bowe, Ball & Gold, 1992: 21). É curioso perceber que vamos encontrar em Portugal quem aponte no mesmo sentido – ainda que no tocante às políticas de organização da escola pública. Licínio Lima afirma, concomitantemente com Ball, que se «constitui uma realidade consistente, evidenciando (…) elementos arbitrários, produzidos e reproduzidos em termos históricos e socioculturais» (Lima, 1998: 581).
Outro dos aspectos centrais da produção dos textos políticos é que realmente eles dificilmente constituirão uma entidade completa, fechada e definitiva, uma vez que cada leitura e cada leitor reactualiza e reedita o texto e, à imagem do que sucede com a obra literária que os académicos referem só existir a partir do momento em que é lida, também aqui se pode dizer que o texto jurídico só tem existência quando os seus articulados são lidos, conhecidos, interpretados e postos em prática. Aliás, consideramos poder aqui chamar à colação o artº 6º do Código Civil para mostrar justamente que, nesta lógica, não pode haver lugar a desculpas sustentadas num qualquer desconhecimento da lei. O facto de, para um sujeito social, não existirem determinadas obrigações, por desconhecimento «não justifica a falta do seu
cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nelas estabelecidas» (Código Civil, artº 6º).
108 Itálico e aspas no original.
Ball afirma que «ver as políticas [educativas] como um texto fixo é uma falácia. De facto, elas constituem-se como uma série de textos em constante mudança cuja expressão e interpretação varia de acordo com o contexto no qual vão sendo postos em prática» (Bowe, Ball & Gold, 1992: i). E posteriormente, Ball afirma que esses mesmos textos políticos «são típicos produtos canibalizados por múltiplas (mas circunscritas) influências e agendas» (Ball, 2008: 16). Não resistimos a nacionalizar a opinião recorrendo de novo a Licínio Lima que explicita de forma mais completa o que se passa em termos de reinterpretação de diplomas legais por parte dos actores chamados a pô-los em prática: «não são apenas os modelos decretados que influenciam as práticas de gestão; estas práticas são influenciadas por múltiplos factores, objectivos, interesses, circunstâncias, etc., que, por sua vez, não deixam de influenciar o entendimento e até a produção dos modelos decretados» (Lima, 1998: 599).
Ora, na investigação sobre política educativa, alertam-nos Bowe, Ball e Gold, para a importância de ser uma tarefa central «entender o significado da política como um texto, ou série de textos, para os vários contextos em que são usados» (Bowe, Ball & Gold, 1992: 10). E a criação de textos legais sobre avaliação tem um efeito directo na forma como os actores se vêem forçados a proceder nesse sentido. Aquilo que temos vindo a mostrar é justamente a existência de toda uma série de diplomas que apontam para a construção de um tipo de sucesso que se preocupa mais com a quantidade e menos com a qualidade. A partir de uma Lei de Bases do Sistema Educativo têm vindo a ser concebidos textos de força jurídica, que a regulamentam e que impõe uma dada leitura desse texto base. Já cima a isso fizemos referência quando apontamos a existência da prática reiterada de produção de «comentários formal e
informalmente produzidos que se assumem como “explicações” aos textos oficiais110» (Bowe,
Ball & Gold, 1992: 21). No tocante a este contexto da produção do texto político, tal como Bowe
e seus colaboradoresno-lo apresentam, gostaríamos, ainda, de chamar a atenção para o facto
de que, apesar de termos vindo a considerar quase só exclusivamente a produção de textos legais como impositivos de uma política, sabermos que essa visão acaba por ser redutora. Realmente, apesar de a legislação, que é a base de todo o sistema de imposição de directivas do cimo (da tutela) para a base (para as escolas) – aquilo que a que os autores anglófonos designam por modelo “top-down” –, ter como base os articulados legais, estes «são apenas um
aspecto de um contínuo processo no qual os loci do poder estão em constante mudança na
medida em que os vários recursos implícitos e explícitos nos textos [legais] são
recontextualizados e utilizados na luta pela manutenção ou alteração das imagens da escola» (Bowe, Ball & Gold, 1992: 13).
De novo cotejamos os britânicos e Lima neste particular. Dizem aqueles que, «de facto, a [LBSE] vai sendo constantemente reescrita à medida em que diferentes tipos de textos e
opiniões “oficiais” são produzidas por actores–chave ou departamentos do governo111» (Idem,
ibidem: 12). O investigador luso mostra com clareza que «Um Decreto-Lei, por exemplo, representa uma referência legal essencial mas, só por si, está longe de esgotar e de poder substituir ou dispensar a miríade de regras formais produzidas ao longo dos anos, dinamicamente e que ainda regulam a maior parte das escolas do ensino básico e do ensino secundário. Por outro lado, um Decreto-Lei não se constitui isoladamente como «modelo decretado» no quadro da reforma educativa pois entretanto uma considerável quantidade de legislação e de outros normativos foi já produzida no seu seguimento e a partir dele engendrada» (Lima, 1996: 20-1).
A relevância que demos a este contexto da produção do texto político deve-se ao facto de esta ser uma das áreas privilegiadas do nosso estudo. Realmente, e de acordo com Mainardes (2007), a “Abordagem do Ciclo de Políticas” pode ser considerada como um todo ou usada parcelarmente recorrendo a um ou outro aspecto sem que se verifique ausência de coesão em cada um dos contextos analisados. Foi isso que fizemos. Usando apenas três dos cinco níveis propostos (sendo o contexto da produção do texto um deles) como estrutura conceptual, fundamentámo-los nos referenciais teóricos que nos fornecem a Sociologia da Experiência e a Sociologia da Juventude e a da Vida Quotidiana.
Temos vindo a mostrar que a criação legislativa tem repercussões ao nível da implementação pela dinâmica de forças contrastantes que se digladiam, uns impondo externamente e os outros resistindo internamente a essas imposições e transformando esse processo numa arena de luta política. Desta luta resultam práticas que se vão consolidando com o passar do tempo em atitudes mais ou menos legais, umas, e mais ou menos legalistas, outras. Daqui resulta uma tensão biunívoca em que não só as imposições superiores se fazem sentir ao nível micro, da sala de aula e dos conselhos de turma, mas também essas experiências têm influências em futuras decisões ao nível das políticas educativas. Assiste-se a um contínuo fluxo e refluxo cujas consequências importa estudar e compreender. É essa a nossa intenção. Ajudar a perceber esta “respiração” de forças complementares mas, ainda assim, frequentemente
antagónicas entre os «aparelhos administrativos centrais» e as periferias (constituídas pelas «organizações escolares»).
E, continuando com a metáfora respiratória, em que o ar (curiosamente ao contrário do que o senso comum ‘pensa’, o ar é muito mais rico em azoto (78%) do que em oxigénio (21%) e o restante 1% é dióxido de carbono e outros gases) passa do exterior para um local intermédio (os pulmões), onde o oxigénio se difunde para o sangue que depois o transporta às células, também na escola se passa um fenómeno de assimilação, de legislação neste caso, de onde é retirada, por interpretação, uma parte manifestamente mais pequena do que se entende ser relevante e que, por fenómenos não químicos, como os da respiração celular, mas de recontextualização, passam das instâncias intermédias (Conselhos Executivos/Directores das Escolas, Conselhos Pedagógicos) para as arenas da prática. E o que acaba por acontecer é que «Muitos daqueles a quem as indicações de carácter político se destinam confiam nestes relatos em segunda mão como principal fonte de informação e de entendimento da política [educativa] tal como ela é definida» (Bowe, Ball & Gold, 1992: 21).
É este nível que Bowe, Ball e Gold designam por contexto da prática e que também
usámos, de forma privilegiada, no nosso estudo. Como a palavra indica é aqui que se verifica a materialização, a implementação dos articulados normativos: «as políticas [educativas] são então intervenções textuais mas também contêm em si restrições materiais e possibilidades. As respostas a esses textos têm consequências “reais”. Essas consequências são sentidas no contexto da prática, a arena da prática, às quais as políticas dizem respeito, às quais se
destinam112» (Bowe, Ball & Gold, 1992: 21). Tal como já afirmámos, «o ponto determinante é
que as políticas não são simplesmente recebidas e implementadas no âmbito desta arena, além disso, elas são sujeitas a interpretação e, em seguida, “recriadas”» (Idem, ibidem: 22). Também neste particular encontramos equivalente em Portugal a estas constatações. De novo Lima, que afirma que «quando a recepção dos modelos decretados redunda numa interpretação não conforme às regras formais estabelecidas, ao ponto de se produzirem novas regras, distintas das primeiras, estamos em presença daquilo que designarei por modelos recriados. (…) se admitirmos que os actores escolares nem sempre se limitam a uma reprodução (perfeita e integral) das regras formais hierarquicamente produzidas, mas que em várias circunstâncias se assumem como produtores de novas regras, concorrentes e em oposição às primeiras, frequentemente inscritas em regulamentos, decididas por diversos órgãos, fixadas em actas, ou
circulando apenas informalmente (ou até clandestinamente), ficará mais claro que o corpus de regras disponíveis e convocáveis não se limita às regras formais decretadas e externamente produzidas» (Lima, 1998: 596-7).
Importa fazer aqui um ponto da situação para referir que o nosso estudo do contexto da
prática se deteve à porta da sala de aula. Não analisámos de que forma professores e alunos “actuam” nesse microcosmos riquíssimo de construção do «ofício de aluno» e da identidade docente. A nossa análise incidiu mais nos momentos extra sala de aula, quer por parte dos docentes em sede de conselho de turma e afirmação da forma como assumem o seu ofício de docentes, quer na interpretação que fizemos do que foram e são as práticas discentes em termos de aquisição de conhecimentos e de estratégias de estudo. Tentámos, com isso,
perceber de que forma, neste melting pot que é a escola, os actores seguem ou contornam as
imposições que lhes vão sendo feitas de acordo com os seus próprios critérios de isenção, de justiça e de honestidade profissional, nessa articulação entre si próprios e os seus valores e as contingências de heterogeneidade de todo o processo social que é o ‘ecossistema’ escolar. Para isso, seguimos os conselhos de Machado Pais que nos chama a atenção para a probabilidade de ser «até possível que, a partir da análise pormenorizada dos mecanismos da interacção social ao nível micro, se descubram algumas regras e ritos que caracterizam, no plano macro, os níveis normativos que, consciente ou inconscientemente, os indivíduos mais ou menos religiosamente seguem» (Pais, 1986: 46).
O quarto contexto proposto por Stephen Ball é o dos resultados ou efeitos. Nesta matéria
pretende permitir-se uma abordagem das consequências que as atitudes de interpretação e de apropriação (ler recontextualização) dos textos legais têm nas concepções da escola «a haver». Tal como no domínio da prática, também os «“efeitos” das políticas não podem, pura e simplesmente, ser entendidos na sua totalidade somente da leitura dos textos e são o resultado
de conflitos e lutas entre ‘interesses’ em contexto113» (Ball, 2008: 21). Interrelacionando os
vários níveis de análise e relembrando o que acima foi sendo dito, parece-nos, sempre com Ball, que «é bastante mais correcto, a propósito de políticas, falar de “efeitos” do que de “resultados”. Os processos de estabelecimento de políticas [educativas] são complexos, são processos de construção e de reconstrução das políticas. É, por vezes difícil, se não impossível, controlar ou prever os efeitos das políticas, ou, até, ser-se claro sobre o que são esses efeitos, o que
significam, quando acontecem114» (Ball, 2008: 23). Há, aqui, que equacionar esses efeitos em duas categorias. Uma, mais geral, reflecte-se na prática, na acção, na experiência de todos e de cada agente, de cada sujeito, de cada actor social e tem consequências no plano das redefinições, alterações, e recontextualizações. Têm, numa palavra, efeitos nas releituras práticas que se fazem sentir ao nível da materialização curricular e programática, das pedagogias inerentes a essas materializações, da avaliação daí decorrente (isto por parte dos
docentes), do estudo, do empenho e das representações da escola e da sua raison d’être, para
os alunos. A segunda categoria, mais específica, mas totalmente aglutinada àquela, remete para estratégias de construção da escola e da educação e passa por questões de justiça, de
igualdade e de liberdade individual. Entram, nestes efeitos de segunda ordem, problemáticas
como a da construção de lógicas de mercadorização da educação, de «quase-mercado», de gerencialismo. É central entender que tais lógicas se influenciam mutuamente, como mostrámos
nos capítulos precedentes, assumindo-se como tendo uma espécie de relação de perpetuum
mobile em que um dos efeitos influencia o outro, verificando-se, igualmente e ao mesmo tempo, o contrário.
O contexto da estratégia política, que não nos foi possível abordar, fecha um ciclo. Daqui
chegaríamos novamente ao contexto da influência. Ball e os restantes académicos que com ele
colaboraram são claros no que pretendem com a apresentação do seu modelo: «um contínuo ciclo de políticas (…) [passível de] representação heurística» (Bowe, Ball e Gold, 1992: 19) em que todos os contextos se interrelacionam e interdependem com consequências imprevisíveis: «mesmo com a existência de um texto legislativo altamente detalhado nos códigos legais, as
políticas educativas estariam continuamente a ser geradas e implementadas tanto no interior
como à volta do sistema educativo, de formas que teriam consequências pretendidas e não
pretendidas tanto para a educação quanto para o meio social circundante115» (Idem, ibidem:
19).
114 Aspas no original.
Figura nº 7: Representação heurística do Ciclo de Políticas, tal como o vemos, com os 5 contextos propostos por Stephen Ball e elaborado a partir do que fora proposto, em 1992, da responsabilidade de Bowe, Ball e Gold
Contexto da influência