A primeira visita de Valignano ao Japão foi em 1579, tendo esta durado até 1582.227 Assim que chegou ao arquipélago decidiu promover algumas Consultas228. Elas aconteceram em Usuki (Bungo) em outubro de 1580, Azuchi (Miyako) em julho de 1581 e Nagasaki (Shimo) em dezembro de 1581. Essas Consultas foram documentadas em Atas e em janeiro de 1582, Valignano escreveu as “Resoluciones” para as vinte e uma perguntas discutidas nas mesmas e ordenou que tanto as perguntas quanto suas
Resoluciones deveriam ser guardadas em todas as casas de padres e irmãos e as ordens
obedecidas “hasta que nuestro Padre General mande sobre ellas outra cosa”229.
Já na primeira das consultas, em Usuki, o antagonismo entre as idéias do então superior do Japão – Francisco Cabral – e Valignano ficou claro. Estavam presentes na mesma, além dos dois, os padres: Lourenço de Mexia230, Fróis, Figueredo, Monte,
225 TALADRIZ, J. C. Alvarez, Monumenta Nipponica Monographs, Tóquio: Sophia University, v. 9,
1954.
226 MORAN, J. R..The Japanese and the Jesuits.Alessandro Valignano in sixteenth century Japan,
Londres, 1993.
227 Ele faz outra visita de 1590 a 1592 e uma terceira de 1598 a 1603. Trataremos somente da primeira das
visitas na presente dissertação.
228 Uma vez que a missão encontrava-se espalhada em diversos locais do arquipélago Valignano escolhe
três locais para promover as Consultas, de forma que todos os jesuítas pudessem estar presente em pelo menos uma delas.
229 Alexandre Valignano. Resoluções sobre a Consulta do Japão. 06 de Janeiro de 1582. In: TALADRIZ,
José Luis Alvarez (ed.), op. cit., p. 162*.
230 Lourenço de Mexia (1539-99). Foi para o Japão a pedido do Geral da Ordem para acompanhar
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Ramón, Prenestino, Rebello e Laguna. Trataram do governo interno da Companhia, de como reduzir ao máximo possível as residências distantes de colégios, de maneiras para suprir a falta de obreiros e com particular ênfase se considerou a necessidade de se implementar um método de adaptação do modo de proceder dos missionários à vida japonesa231, algo que já era desejado pelos missionários desde o primeiro superiorato, como vimos no capítulo anterior.
Valignano teria ficado tão preocupado com o andamento da missão sob a direção de Cabral, após tal consulta, que escreveu logo em seguida uma carta ao padre Geral da Companhia expondo cinco “princípios” que ameaçavam arruinar o trabalho da Companhia no Japão.
No primeiro desses princípios Valignano fez uma crítica contumaz à Cabral afirmando que o modo de governo da missão no Japão seria maléfico por deixar a Companhia e sua cristandade sob o arbítrio pessoal de apenas um: o superior. Este, por sua vez, não teria, nas palavras de Valignano: “conocimiento de las Constituiciones232, de las Reglas del Provincial, de las del Rector, de la ordenación del noviciado ni de otras reglas”.233Além disso, tal governo corria “sin consulta y con mucho império”, o que teria causado grandes desordens que não poderiam ser mais toleradas, principalmente agora que a cristandade havia crescido.
Além disso, Valignano reclamou da desunião presente entre pregadores europeus e os irmãos japoneses. Estes estariam sendo tratados com aspereza o que daria a impressão de que eram empregados pouco amados e não irmãos, mesmo sendo tão necessários para a propagação da fé no Japão. A união entre cristãos nativos e europeus foi uma preocupação constante na obra e correspondência do Visitador. No seu
Cerimonial Valignano dedicou um capítulo para tratar da maneira como os missionários
deveriam agir para que se fizessem familiares dentre os japoneses conversos234. Segundo ele, isso era de suma importância para o engrandecimento da missão.
A forma de recebê-los na Companhia estaria errada também, uma vez que não havia noviciado ou provação alguma para eles, muito embora fossem eles que
231 TALADRIZ, J. C. Alvarez, op. cit.
232 As referências às Constituições da Companhia de Jesus dentre os missionários atuantes no Japão
iniciam-se justamente com essa querela entre Cabral e Valignano.
233 Alexandre Valignano. Carta ao Geral da Companhia Claudio Acquaviva. 27 de outubro de 1580. In:
TALADRIZ, J. C. Alvarez, op. cit., p. 133*.
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pregassem e convertessem a população, não sabiam as Regras da Ordem nem o Instituto e não tinham acesso a livros. A única coisa que sabiam era um Catecismo que decoravam e repetiam “como papagaios”, nas palavras do próprio Visitador. A idéia de que eles não precisariam saber de ciência alguma era, contudo, corrente dentre os padres e Valignano criticou tal postura no quinto princípio que estaria ameaçando a Companhia e a cristandade no Japão.235
As mudanças propostas por Valignano iniciaram ainda durante sua primeira visita. Ele ordenou que se traduzisse para o japonês o Exame – segundo as Constituições da Companhia – suas Regras e os Exercícios Espirituais de Loyola, sendo que todo aquele que quisesse entrar na Companhia deveria fazê-los inteiramente. Além destes, Valignano indicou obras a serem traduzidas para uso tanto dos irmãos quanto leigos japoneses, estas eram Contemptus mundi e Imitación de Cristo, ambas de Fray Luis de Almeida. O aprendizado do idioma nativo por parte dos europeus foi enfatizado, tendo o Visitador ordenado a confecção de um Vocabulário e alguns Diálogos em japonês, além do aperfeiçoamento da Arte236 já existente.
A redação do Regimento para os Padres que estão nas residências de Japão,
feito ultimamente polo Pe. Visitador no mes de Novembre no anno de 1581, assim como
das Resoluções das Consultas, implementavam grandes mudanças que seriam seguidas pelos jesuítas nos anos seguintes. Tais mudanças foram defendidas e melhor explicadas na obra que Valignano escreveu após sua primeira visita ao Japão Sumario de las Cosas
de Japon (1583) e será analisada separadamente aqui.
Tais mudanças parecem ter dado uma orientação mais clara à missão, coisa que até então não havia acontecido, como nos conta Fróis em um trecho da sua História:
Deixou mais o Pe. Vizitador ordenado o modo que havíamos de ter acerca dos costumes e cerimônias e maneira de proceder da terra, couza muito desejada dos mesmos japões, para se guardar em nossas cazas e nos podermos melhor conformar com eles; e que não é de pouca importância para sermos bemquistos e tidos em boa opinião entre elles, porque, como os costumes e cerimônias desta terra são tão diferentes e contrários dos que se usam em Europa, e athé agora não tínhamos huma certa ordem que houvéssemos de guardar acerca delles, além de isto causar huma certa confusão entre nós, não
235 Alexandre Valignano. Carta ao Geral da Companhia. 27 de outubro de 1580. In: TALADRIZ, J. C.
Alvarez, op. cit.
84 sabendo como nos havíamos de haver nos costumes e modo de tratar com elles, se seguiam outros inconvenientes mayores, ficando muitas vezes os japões offendidos e cauzando huma certa divisão de ânimos e perda de muito frutto pela contrariedade que havia dos nossos e dos seos costumes.237