5.2 Yr
6.1.2 Brukbarhetstester
Como pudemos perceber, o envolvimento das elites japonesas com os jesuítas só foi minimamente significativo a partir do segundo superiorato. Contudo, é essencial frisar que os missionários só conseguiram se aproximar da elite guerreira, denominada
buke. A nobreza cortesã, denominada kuge200, teve pouco contato com os jesuítas e não
196 Chegou ao Japão em 1579 pela primeira vez. 197 Seu nome de batismo é Protásio.
198 RIBEIRO, Madalena Teotónio Pereira Bourbon, op. cit.
199 Francisco Xavier encontrara-se com Yoshishige durante sua estadia no Japão, mas acabou por não
fundar nenhuma missão em seu território por falta de missionários. Acabou dando preferência para a fundação da missão em Yamaguchi que fechou em 1557 pela invasão de Mori Motonari e só foi recuperada temporariamente em 1586.
200 Os jesuítas tinham total noção dessa divisão entre as elites japonesas. No “Vocabulario da Lingoa de
Iapam com adeclaração em Portugues, feito por alguns padres e irmãos da Companhia de Iesu”, de 1603, o verbete cugue tem como definição “Família dos cugues que servem a Dairi [imperador]”, já o
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se envolveu com o cristianismo. A distância física, consequencia do seu confinamento na corte imperial, assim como a indiferença para com a religião cristã – que negava a descendência divina de tal nobreza – acabou por mantê-los distantes de qualquer negócio com os jesuítas. Mesmo em troca de favores, os kuge sempre se recusaram a interceder a favor dos cristãos. Em carta de 1571, Fróis201 conta que pediu através de
Vatadono – um samurai influente da região de Miyako – para que alguns nobres ajudassem-no a ser recebido pelo imperador e em troca Vatadono teria oferecido o restabelecimento de alguns impostos que lhes foram tirados anteriormente por Nobunaga, mas os nobres recusaram-se a fazê-lo.202
Contudo, era inegável que o favorecimento por parte da elite guerreira seria bem mais proveitoso para o fortalecimento da missão, uma vez que possuíam um poder político muito maior. A recusa por parte da nobreza kuge em recebê-los não se tornou, portanto, um obstáculo para a evangelização no Japão.
Por outro lado, a estratégia em se aproximar das elites guerreiras foi bastante presente no caso japonês, principalmente a partir do superiorato de Cabral. Já na sua carta de 1571 ao Geral da ordem, ele deixara clara tal orientação:
Quanto ao proceder da Christandade destas partes como ja tenho escrito a Vossa Reverencia os milhores apostolos que qua há são os Senhores e tonos203 porque como
cummumente vivão das terras e rendas que lhes elles dão e todos sejão tão pobres que não tem mais que ho que a terra lhes da com se cultivar dependem tanto dos senhores que não conhecem outro deus e por isso se lhes dizem que sejam de huma lei ho são facilmente e deixão commumente há que tinhão e se ho senhor não lhes da licença para tomarem outra por muito que o desejasem não a tomão.204
Além disso, ele afirmava que, com exceção de alguns escolhidos por Deus, os pobres facilmente abandonavam sua fé caso seu senhor pedisse, já as pessoas da elite,
buqe tem como definição: “Família de soldados ou cavaleiros cuja cabeça é o [ilegível] que tembém se diz xogum, e é capitão geral da milícia del Rei de Japão”.
201 Luis Fróis. Carta ao provincial da Índia Antônio Quadros. 28 de setembro de 1571. In: GARCIA, José
Manuel (ed.), op. cit., p. 313v.
202 PINTO, Ana Fernandes. Japanese Elites as Seen by Jesuit Missionaries: Perceptions of social and
political inequality among the elites. Bulletin of Portugueses/Japanese Studies, Universidade Nova de Lisboa, vol. 1, dez-2001, p. 29-43.
203 Refere-se aos fidalgos possuidores de terras. No “Vocabulario da Lingoa de Iapam com adeclaração
em Portugues, feito por alguns padres e irmãos da Companhia de Iesu” (1603) a definição de tono é dada como: “Senhor de alguma terra, ou que tem criados ou renda”.
204 Francisco Cabral. Carta ao Geral da Companhia. 05 de setembro de 1571. In: CORREIA, Pedro Lages
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“como tem mais intendimento jeralmente e tomão mais gerais as cousas de Deus tem
muito mais dificuldade de os fazer retroceder”205. Assim sendo, os jesuítas deveriam dar uma prioridade estratégica à conversão da elite guerreira ou ao menos à manutenção de uma boa relação com os mesmos.
O Padre Vsitador das Índias Orientais, Alexandre Valignano, já na sua primeira visita ao arquipélago confirmou tal orientação e estratégia, apelando para o mesmo argumento que Cabral. Na sua obra Cerimonial206que escreveu para os jesuítas que trabalhavam na missão japonesa (terminado ao fim da visita em 1583), afirmava que os padres e irmãos: “principalmente ham de trabalhar pera fazer familiares e bons
Christãos as cabeças e pessoas principaes, porque, como estes forem amorosos e bons, o serão facilmente todos os outros”.207
O método de conversão vertical, baseado nos batismos em massa autorizados ou até ordenados pelos daimyō conversos acabou prevalecendo e foi corroborado
posteriormente pelo Visitador na Consulta promovida em Nagasaki no ano de 1581. As primeiras conversões em massa ocorreram somente na década de 1570, no superiorato de Cabral, nos domínios de mura e Arima.
Mesmo adepto de tal método, Cabral não foi ingênuo quanto às verdadeiras intenções dos daimyō conversos. Nesta mesma carta ao Geral da ordem ele afirmou:
(...) a principal causa destes senhores quererem a lei de Deus em sua terra e desejarem padres he ho interese temporal que tem en especial os que tem portos por onde venhão navios com cujos direitos e frequência de mercadores se vai emposando sua terra.208
O próprio Visitador Valignano sabia disso e, como veremos, procurará dar preferência à missão da região de Miyako, mesmo sendo esta a menor do Japão, pelos senhores de lá não terem interesses temporais na conversão, uma vez que os navios portugueses não chegavam até lá.
Tal estratégia de aproximação da elite não foi, contudo, orientação exclusiva de Cabral ou de Valignano. O próprio fundador da Companhia de Jesus, Ignacio de Loyola
205 Francisco Cabral. Carta ao Geral da Companhia. 05 de setembro de 1571. In: ibid., p. 70.
206 Alexandre Valignano. Advertimentos e Avisos Acerca dos Costumes e Catangues do Jappão. 1583. In:
SCHÜTTE S.J., Giuseppe Franz. Il Cerimoniale per i missionari Del Giappone, Roma: Instituto Grafico Tiberino, 1946.
207 Idem, pag. 168.
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(1491-1556), delineou tal estratégia. Nas Constituições, tal orientação aparece explicitamente:
(...) sendo o bem tanto mais divino quanto mais universal, devem-se preferir as pessoas e os lugares cujo aproveitamento possa ser causa de que o bem se estenda a muitos outros sob a sua influência ou autoridade. Por este mesmo motivo do bem universal, deve-se ter como mais importante o auxílio espiritual aos homens de influência, ou que exercem funções públicas (quer sejam leigos, como os príncipes, senhores, magistrados, e juízes, quer ser sejam eclesiásticos, como os prelados), bem como as pessoas eminentes pelo saber e autoridade.209
Assim, a orientação para toda a Companhia, independente do seu local de ação, era justamente a aproximação com a elite local, não por um maior peso espiritual destas pessoas, mas sim por uma maior influência temporal dos mesmos, capaz de auxiliar o crescimento da missão.