Dentro do Projeto, essas características de protagonismo e empoderamento são muito incentivadas pela metodologia dialógica e solicitadas aos estudantes um encaminhamento para uma efetiva participação das demandas comunitárias. É um processo pedagógico de elaboração coletiva dos sentidos dados ao trabalho social e aos compromissos com a causa dos pobres, oprimidos e marginalizados. São reflexões feitas em grupo para a problematização das experiências estudantis, no sentido de se trabalhar, junto com os estudantes, a perspectiva de conscientização de seu papel como sujeitos e protagonistas de transformações sociais, voltadas para a igualdade e a justiça de direitos para a população pobre. É um processo de construção de conhecimento que vai sendo elaborado pelos estudantes, a partir de sua prática dentro da comunidade e em outros espaços de atuação política. Esse encaminhamento passa por um processo que vai transformando o estudante ao longo de sua trajetória no Projeto, como bem destaca esta estudante do Curso de Enfermagem ao ressaltar que, para o estudante ser um protagonista ativo de um grupo com as características do PEPASF, é preciso um processo de desenvolvimento em etapas, passando pelo aprendizado do modo de lidar com suas inseguranças pessoais, como também aprendendo a dialogar com diferentes posicionamentos e, mesmo assim, manter-se focado no que é fundamental diante de diversas possibilidades (LEITE, 2011, p. 187).
Essas características explicitadas pela estudante falam de um processo interior que precisa ser desenvolvido, em cada estudante, de superar suas dificuldades e limitações subjetivas para o engajamento político maior com a causa do pobre. E ter consciência de qual a motivação que o anima na busca de sentido de sua atuação para sua proposta de vida. É uma mobilização interior que exige uma disponibilidade para a mudança de posturas diante das demandas, como aprender a conviver com a posição e opinião diferente do outro, relacionar- se com ele de maneira respeitosa e compreensiva e saber manter sua autenticidade e autoestima relacionadas aos seus valores e crenças diante desse outro, sem se deixar cooptar ou manipular. Por isso, é necessário um amadurecimento interior para o estudante que tenha, além da intenção, uma habilidade para lidar com essa dimensão política, pautada por elaborações tanto cognitivas, quanto emocionais, intuitivas e espirituais e, muitas vezes, pela racionalidade dos debates, com uma exigência de mais criticidade e capacidade argumentativa. Outras vezes, é permeada de sensibilidade e acolhimento solidário, marcados por dimensões mais emocionais, intuitivas e afetivas diante das questões postas.
Como parte do processo de transformação transcorrido com o engajamento do estudante nas lutas comunitárias, alguns deles compreendem, a partir da sua experiência dentro do Projeto, que precisam desenvolver capacidades subjetivas específicas para atuar nesta dimensão política, como continua a mencionar a estudante Leite, em outra parte de seu depoimento. Nesse trecho, ela reflete sobre essas habilidades necessárias para o estudante se manter animado na militância. Para ela, esse tipo de engajamento exige alguns elementos que ajudam o educando a se inserir na dimensão política comunitária e ir se transformando nela: mais habilidade no trabalho social, mais capacidade de abstração e de flexibilidade nas relações interpessoais. Esses aspectos são necessários, segundo ela, devido à fluidez e ao dinamismo da atuação dos grupos e movimentos da comunidade. Esses elementos dizem respeito às condições subjetivas relacionadas ao amadurecimento e à transformação dos estudantes para esse trabalho comunitário. Essa habilidade referida é alcançada com o tempo de convivência no meio comunitário e com o acúmulo de experiências vividas, possibilitando ao estudante desenvolver, em seu tempo particular de amadurecimento, essa capacidade de diálogo coletivo em prol da comunidade. Outro elemento importante, citado pela estudante, é a capacidade de abstração para se relacionar nesse meio, com uma visão mais abrangente e crítica da complexidade das dinâmicas que envolvem as questões sociais e políticas inseridas naquele contexto. E, por fim, a flexibilidade no convívio e no diálogo com os grupos diferentes ligados à organização comunitária. Nesse sentido, essa flexibilidade trata da possibilidade de dialogar com diversos posicionamentos, sabendo respeitar as diferenças de opiniões e interpretações dos envolvidos no processo dialógico.
Um exemplo que pode ser citado a esse respeito é o de um estudante do Curso de Psicologia que fazia parte do Projeto de Educação Popular e Atenção à Saúde do Trabalhador (PEPAST). Além do seu envolvimento com o PEPASF, desenvolvia ações voltadas para um grupo de atenção à saúde do trabalhador, formado dentro da comunidade. Outra frente mais ampla, na qual ele se inseria, era nas articulações do Centro de Referência Estadual de Saúde do Trabalhador (CEREST). Assim, esse estudante se mostrava interessado e envolvido com as questões políticas na comunidade, participando ativamente das reuniões com a associação comunitária, principalmente, relacionadas aos aspectos ligados à saúde dos trabalhadores. Também participava das reuniões do Orçamento Democrático Municipal, apoiando os movimentos das lideranças comunitárias locais. Um dos contextos de inserção do referido estudante eram as práticas desenvolvidas pela equipe da Unidade de Saúde da Família (USF) Maria de Nazaré. Em uma das reuniões do PEPASF, que foi organizada pelos estudantes do PEPAST, e coordenada pelo referido estudante, ele provocou uma discussão aprofundada
sobre as questões políticas envolvidas na saúde do trabalhador na sociedade capitalista. Esse debate foi desencadeado a partir da exibição de um vídeo produzido pelos próprios estudantes, para dinamizar e facilitar o diálogo sobre a questão, entre os participantes do Projeto. Nessa ocasião, o mencionado estudante demonstrou uma maturidade e profundidade na capacidade argumentativa e crítica, incentivando os colegas a refletirem sobre as questões trazidas no debate, ao mesmo tempo em que se mostrava respeitoso, afetuoso, cuidadoso e acolhedor relacionado às opiniões e as posturas divergentes das suas visões de mundo.
Todos esses elementos apresentados vão acontecendo dentro desse processo de transformação do estudante no desenvolvimento de uma conscientização e engajamento maior, com a disponibilidade à participação e aos aprendizados nesses espaços, permeados de disputas e conflitos. Assim, a inserção dos estudantes em espaços políticos possibilita o aprendizado subjetivo e uma transformação interior voltada para a percepção maior das dinâmicas de interlocução dos diferentes sujeitos envolvidos nos embates, que aprendem a conviver com tensionamentos, enfrentamentos e conflitos no debate político e a observar as estratégias de conciliação, consenso e acordos possíveis. Essa vivência pode ser exemplificada pela experiência de acompanhamento da participação de duas estudantes do Projeto – uma do Curso de Enfermagem e outra do Curso de Serviço Social - como integrantes de uma comissão eleitoral, para coordenar a eleição para uma nova diretoria da Associação Comunitária Maria de Nazaré (ACOMAN). Foi um momento político, dentro da comunidade, que se apresentou muito tenso, cheio de rivalidades e conflitos entre facções contrárias, interessadas na gestão da associação comunitária local, o que exigiu muita habilidade pessoal dos integrantes da citada comissão, para o acompanhamento de todo o processo eleitoral. Ao mencionar seus aprendizados e sentimentos relacionados às situações vividas, em uma reunião do Projeto, a referida estudante de Serviço Social afirmou que, no momento em que escolheu participar da comissão, tinha consciência dos tensionamentos que iria enfrentar, que se sentiu bem em poder estar com a colega de Enfermagem para viver essa nova situação e ficou feliz porque uma jovem moradora da comunidade se animou em participar com elas. Essa colocação demonstrou-lhe a importância de estar na companhia de colegas do Projeto em quem confiava e de membros da comunidade com os quais se identificava. Segundo ela, durante o processo, aprendeu a dialogar e a ponderar sobre os trâmites de um processo como aquele e aprendeu sobre a dinâmica da política local, o que foi considerado por ela um grande aprendizado.
Esse envolvimento dos estudantes, como o de participar de uma comissão eleitoral, acontece com o tempo de convívio dentro da comunidade e com a ampliação da identificação
dos estudantes com as diversas demandas comunitárias, como também nos fala outra estudante do Curso de Fisioterapia: “É interessante como o envolvimento, dia após dia, na comunidade instiga os extensionistas a se unirem mais e a participarem de outros espaços coletivos ligados à luta comunitária (...) ganhando um pouco mais de habilidade para manejar o jogo das políticas de saúde e lutar por seus direitos” (CARVALHO, 2011, p. 132).
Esse envolvimento aparece no estudante também por influência dos colegas extensionistas mais engajados e dos professores do Projeto. Existe um estímulo vindo da metodologia do PEPASF, que encoraja e apoia os estudantes a se fazerem presentes e a participarem dessas instâncias políticas comunitárias. Muitos estudantes vão se engajando, também, por esse forte incentivo dos colegas do Projeto, tornando-se mais seguros e confiantes no trabalho do grupo. Em várias reuniões, aconteceu esse estímulo para a iniciativa dos estudantes de sua participação. Nesse sentido, inclusive, existe uma comissão interna, dentro do Projeto, justamente de articulação política, em que uma equipe tornava-se mais próxima e ativa na mobilização do grupo para a ação na comunidade.