Após ter sido prisioneiro de guerra em 1939, Ricoeur encontra o tema do mal radical, que pode ser entendido também como mal moral, numa escala de desastre coletivo. O autor sugere que o mal não está privado somente aos pequenos pecados. Ele afirma, ainda, que é preciso vê-lo como uma perversão global de todas as dimensões. Sendo assim, a guerra foi fundamental para o seu pensamento. Sem tal experiência não seria possível compreender sua obsessiva reinterpretação da problemática do mal.
O autor afirma, no artigo ―Connaissance de soi et éthique de l'action‖:
Je suis très kantien, à savoir que le mal est radical, certes, mais moins que la bonté de l'homme. Emmanuel Kant oppose la « destination au bien », qui est constitutive de l'homme, et le « penchant au mal », qui se manifeste comme une constitution acquise. Dès lors, on peut dire que le mal est radical, mais parce qu'on ne met jamais la main sur son commencement. Il est toujours déjà présent, et on en observe seulement des manifestations.
Une grande découverte du xxe siècle à ce sujet, c'est que la culture ne met pas à l'abri de la barbarie (RICOEUR, 1996b, p. 4, grifo do autor).
O mal invoca, antes de uma interpretação em que se anula ou qualquer pretensão exata. Assim como a tentativa de explicação do tempo, o mal não pode ser totalmente explicado ou pensado. Existem pontos aos quais ele só pode ser relatado por meio da história e das ficções. Tal argumentação constitui, no sujeito, o sentimento de agir e de atribuir o sentimento de ser responsável por alguém. Além disso, o mal invoca uma ação que ultrapassa qualquer pretensão prática em puni-lo, repará-lo, eliminá-lo. Na opinião de Ricoeur (1999) ele sempre existiu e continuará existindo em nosso meio, permanecendo até o último dia da história humana (RICOEUR, 1999).
Diante dessa perspectiva, o mal gera uma experiêncial fundamental: o caráter irreversível e irreparável do mal cometido ou sofrido. Diante de um ―pequeno mal‖, surge a tentação de aumentá-lo como para crer que, ainda, é dominado, ou seja, racionalizá-lo como uma consequência de uma fala anterior, gerando, assim, um mal maior a outrem ou a si mesmo. ―A segunda experiência do trágico surge quando nos encontramos divididos entre dois deveres igualmente imperativos, mas radicalmente incompatíveis‖ (ABEL, 1996, p. 21). É importante ter presente, neste momento, que o percurso elaborado por Ricoeur consegue reunir o pensamento contemporâneo com a tradição clássica, identificando na tragédia o caráter próprio da decisão ética (CUCCI, 2007). Como se verá no próximo capítulo, esta indicação constitui também um momento de síntese do percurso, uma vez que, por meio do tema da narrativa e do trágico, Ricoeur alimentou outros elementos fundamentais do agir, como os sentimentos, a propria história pessoal, a identidade narrativa, a componente poética da existência, a relação à instituição, mas, igualmente, a exigência de superar o nível do dever, abrindo-se a componente mais inefável do agir, como o amor, o desejo, o dom e o perdão, indicando em tal modo a sua potencialidade mais profunda e sobreabundante (CUCCI, 2007).
Ricoeur destaca, em seu pensamento, a abertura ao mundo, solidificado em vista do futuro e ligado, consequentemente, à implicação e ao compromisso com a recusa do mal. A respeito desse compromisso em direção ao futuro, destaca o autor:
[...] o que é, então, pensar para a frente, em direção ao futuro, com o preço do silêncio sobre o que está antes, sobre a origem? É, antes de tudo, [...] manter o mal na dimensão prática. O mal, ainda uma vez mais, é aquilo contra o qual nós lutamos; nesse sentido, não temos outra relação com o mal a não ser esta relação de ―contra‖. O mal é o que não deveria ser, mas do qual não podemos dizer porque é que é. É o não dever-ser (RICOEUR, 1988e, p. 60).
Diante desses pressupostos, é possível atestar que não é possível sair ileso diante das escolhas. Todas as grandes obras humanas que englobam textos, monumentos, construções, sonhos podem ser alvo de interpretações rivais que, provavelmente, sejam legítimas dentro de suas leituras específicas. Assim, é preciso encontrar no próprio conflito a circularidade reverente, surgindo, assim, um terceiro que pode ser chamado de juiz.
Para Tavares (2006, p. 141),
o problema do mal situa-se entre uma visão ética (o mal como uma realidade que é possível em função do ser humano e que, por isso, aponta para a sua responsabilidade) e uma visão trágica do mal, uma consideração do mesmo como algo ―já-aí‖, previamente dado, inevitável; esta última consideração implicaria a ausência de responsabilidade humana no que diz respeito à sua origem, mas não à sua prática. Nesta perspectiva, pode dizer-se que a visão ética do mal, tal como a questão da liberdade, tem limites que lhe são impostos pela visão trágica do mal.
Nesse caso, pode-se fazer referência ao próximo capítulo da tese, no que se refere ao conceito de instituição, que marca o elemento ―neutro‖ da ética ricoeuriana. A questão é saber se cada juiz gera uma visão suplementar com um estilo particular, se é possível estabelecer uma imparcialidade. Creio que a resposta só pode ser expressa se entender que cada ser humano existe apenas à medida que interpreta aquilo que o precede, pois é isso que o torna pertencente ao mundo de suas interpretações.
Neste segundo, capítulo verificou-se aquilo que se acredita ser o elemento de ligação entre o reconhecimento e a vida ética, a saber, o conceito de intersubjetividade. A proposta de uma fenomenologia hermenêutica fundamenta, por sua vez, a teoria ricoeuriana do ―mundo do texto‖. É essa proposta, ainda, que contém os elementos teóricos que possibilitam fazer a ponte entre fenomenologia, hermenêutica e teoria da ação, posto que Ricoeur entende que esse conceito carrega em si várias possibilidades de reconhecer a si por meio das narrativas que, por serem a própria explicitação do eu de cada um em outro, representam a grande obra aberta a ser interpretada. Em último caso, é o texto que serve de mediação
para a descoberta de um si mais amplo do que o ―eu‖ procedente das modernas filosofias do cogito.
Mostrou-se, ainda, que a tentativa de ―enxertar‖ a hermenêutica na fenomenologia permite que se compreenda melhor a necessidade de Ricoeur retornar ao trabalho de Edmund Husserl, aquele contido em suas últimas obras. Esse procedimento possibilitou encontrar, na própria fenomenologia, as bases da demonstração de que a consciência, contrariamente ao que pretendia a fenomenologia, possui como característica a tese da intencionalidade.
Como se observou, Ricoeur mostra que a consciência, antes de voltar-se para si-mesma na reflexão, está voltada ao exterior, ou seja, para as obras que a envolvem e que antecedem a própria existência individual. O que caracteriza a consciência, de fato, é que ela se encontra dirigida para fora, para o exterior. Ao invés de um indivíduo solipsista, um ego puro, ―idealista‖, o fato da consciência estar voltada para fora revela um sujeito dinâmico que mantém uma relação com o mundo e com os outros. É em virtude da necessidade de interpretação do sujeito, do mundo e da relação entre ambos que a hermenêutica insere-se na fenomenologia.
Apontou-se, de maneira inversa, que a relação de pertença entre o sujeito e o mundo não ocorre por meio de uma intuição clara e imediata. Partiu-se da questão: o que possibilita a mediação para compreender a si mesmo? Para Ricoeur, é o texto que possibilita essa mediação: o mundo é um grande texto a ser descoberto e interpretado. Nessa mediação, a linguagem constitui-se o meio no qual e pelo qual o sujeito se manifesta e o mundo mostra-se: compreender é compreender-se diante do texto. Verificou-se, além disso, que o próprio texto torna-se um modelo para a ação humana. Esta precisa ser compreendida como sendo um texto e se torna uma grande obra aberta, cuja significação e interpretação estão em suspenso. O modelo proposto é apresentado em oposição à filosofia do cogito, cuja ambição fundacional não possui como característica a mediação dos signos, dos símbolos e dos textos. Ele acredita que é graças ao conteúdo que foi trazido à linguagem, por exemplo, o amor, o ódio e os sentimentos éticos, por sua vez articulados pela literatura, que se pode compreendê-la de fato. Tomada como um texto, a ação é uma obra aberta dirigida a uma sequência ilimitada de leitores e intérpretes possíveis.
Um ano após a publicação de Soi-même comme un autre (1990b), Ricoeur declarou que, enquanto em Descartes o ponto de partida é o sujeito como eu e como eu pensante, na narração ―superamos‖ a primeira pessoa. Além disso, a
ampliação da tradição reflexiva consiste em haver passado do pensamento à ação, em haver abordado o homem como autor de seus atos. Dessa forma, o cogito cartesiano é um cogito solitário, no qual há uma só pessoa. Em troca, a ação é sempre uma ação com outros e, por isso, o problema do outro está implicado na narração. Assim, o autor considera que tanto a fenomenologia da intersubjetividade como a teoria da ação representam uma grande conquista na edificação da hermenêutica do si-mesmo (CLAVEL, 1992).
Verifica-se que o uso do texto é um meio privilegiado para interpretação da ação e para o conhecimento de si-mesmo. O texto confere ao indivíduo uma identidade dinâmica que se denomina identidade narrativa. A noção de identidade narrativa possui a intenção de elucidar o caráter temporal desse ―eu‖, que possui um início e um fim, e que se exprime por meio da linguagem. A identidade narrativa caracteriza a tentativa de Ricoeur de separar-se da filosofia do cogito. Dessa forma, a hermenêutica ricoeuriana do si-mesmo, produzida por intermédio do desvio pelo mundo das narrativas, tem como suporte a dialética entre mesmidade e ipseidade. Essas duas identidades conferem ao indivíduo, por sua vez, o caráter e a promessa. O primeiro permite reconhecer alguém ao longo do tempo; o segundo permite reconhecer a identidade no sentido forte, possuindo conexão com a ética, pois representa o movimento, a dinamicidade do indivíduo e o cumprimento de sua palavra no decorrer do tempo.
A relevância da linguagem e a noção de pertença ontológica do ser-no-mundo permitem que Ricoeur caracterize a consciência como ―tarefa‖. Para ele, a consciência não poderá ser mais intuição de si-mesma; entendida como interpretação, a consciência não será ponto de partida, mas ponto de chegada, mediante o trabalho de reapropriação dos signos e obras que se tornam material a ser trabalhado. Como, continuamente, repete Ricoeur: o símbolo dá o que pensar.
A narrativa, como meio de se reconhecer, possui ligação com a questão socrática da vida examinada. Ricoeur entende que, por meio de uma vida examinada, o sujeito pode tecer histórias verdadeiras, ou de ficção, sobre si-mesmo. A narração atua do mesmo modo que um mythos, possibilitando redescrever a realidade. Outro conceito fundamental é o de mímeses. Ricoeur o emprega por ser entendido como a configuradora de ações. A mímeses deverá ser compreendida como ação criadora de múltiplos acontecimentos que, por sua vez, são integrados narrativamente no tempo.
O relato e a intriga, tomados como meios que constituem e esclarecem a experiência temporal ontológica do ser-no-mundo, auxiliam na explicitação do sujeito ricoeuriano. O sujeito é um sujeito encarnado, ou seja, que participa do mundo. A narração permite aproximar o sujeito encarnado de sua esfera prática e subjetiva, ou seja, o de narrar seus atos. A história narrada autoriza dizer o quem da ação, e, por fim, relata o autor da ação. O relato possibilita identificar o agente: quem fala? Quem age? Quem é o sujeito moral de imputação? Ricoeur entende que a identidade do quem é uma identidade narrativa. Além disso, é pela narração que o autor compreende que a identidade é decorrente de uma vida examinada, contada e retomada pela reflexão aplicada às obras, aos textos e à cultura.
A figura do homem capaz é apresentada por Ricoeur como um fio sutil que rege sua obra. Com essa figura, ele pretende afirmar que a sua filosofia não é fechada em si-mesma, mas uma atividade aberta que auxilia na identificação do sujeito que age e que sofre. Pelo fato de narrar seus atos, o homem capaz identifica- se como sendo o quem da ação. Ele está capacitado a responder à questão: quem pode falar? Quem pode narrar? Quem pode fazer e quem é o sujeito de imputação? Esse percurso conduz o autor ao campo prático, em que aprofunda a questão da relação entre a ética e a moral, que será o tema de análise do próximo capítulo.
CAPÍTULO III