O desafio ricoeuriano de estabelecer um princípio de permanência no tempo que seja capaz de responder à pergunta ―Quem sou eu?‖ é visto e denominado de caráter (ipseidade-mesmidade), que, por sua vez, se diferencia da promessa (ipseidade). Estes dois termos estão intimamente ligados à problemática da identidade do ipse e do idem. Ao falar de si, todos dispõem, de fato, de dois modelos de permanência no tempo que Ricoeur resume em dois conceitos: o caráter e a palavra empenhada.
Ricoeur encontra no caráter e na promessa maneiras de reconhecer a si mesmo. Nesse sentido, a procura de estabelecer a constituição do sujeito pode ser colocada como o grande desafio a que se propõe Ricoeur. Essa procura segue, porém, o enredo de histórias individuais e coletivas e, sobretudo, narradas. Não há, portanto, sujeitos fundadores e humilhados. Há, sim, vidas narradas, conforme entende Hannah Arendt; e histórias de casos, conforme quer Sigmund Freud. E isso tudo faz sentido na expressão ―unidade narrativa de vida‖ (CORÁ, 2004).
Na interpretação de Lamarche (2002), Ricoeur considera dois polos da identidade como ipseidade: primeiro, o caráter, homogeneizado na mesmidade; e, segundo, a permanência no tempo. Na primeira compreensão, tanto o polo da identidade-idem quanto o polo da identidade-ipse se ocultam no caráter. Num segundo momento, no âmbito da palavra dada – há uma diferença entre parole donnée e parole tenue, pois a primeira refere-se ao ato de promessa e a segunda o de mantê-la –, a ipseidade libera-se da mesmidade, pois a componente narrativa, implicada na pura ipseidade, absorve a mesmidade.
Assim, a promessa ou a perseverança da palavra dada abandona a identidade do caráter. É sob esse processo que se institui a ética. Apresenta-se, dialeticamente, a pergunta: Quem é o sujeito moral de imputação? Essa passagem dialética entre o caráter e a ética torna-se possível graças à figura da identidade narrativa. Conforme Jardim (2005), a iniciativa ética e a identidade narrativa não se opõem, mas se completam, visto que o mundo que a narração conta é o mundo vivido no qual o agir é agir com outros. Assim, entre a compreensão narrativa e a compreensão prática há uma relação de pressupostos e de transformação. Esse é o ponto de instersecção em que a hermenêutica é aplicada a uma situação prática.
A identidade narrativa por meio da permanência do caráter auxilia na retomada da identidade idem e ipse que, por outro lado, na figura da promessa (manutenção da palavra), confere uma desvinculação entre ipseidade e mesmidade.
Ricoeur (1991b, p. 143) pergunta-se: ―que é preciso entender por caráter? Por que dizer que ele acumula a identidade do si e do outro?‖, e agrega: ―entendo por caráter o conjunto das marcas distintivas que permitem reidentificar um indivíduo humano como o mesmo‖. De acordo com o autor ―pelos traços descritivos que iremos arrolar, ele acumula a identidade numérica e qualitativa, a continuidade ininterrupta e a permanência no tempo. É por esse meio que ele designa de modo emblemático a mesmidade da pessoa‖ (RICOEUR, 1991b, p.144).
A análise da noção de caráter é proposta por Ricoeur numa trajetória ascendente dentro de suas obras. Assim, no “Voluntário e o Involuntário‖54, o caráter
é posto como ―involuntário absoluto‖. Já na obra “Homem Falível‖, Ricoeur (1991b, p. 145) define a noção de caráter ―como minha maneira de existir segundo uma perspectiva finita, afetando minha abertura ao mundo das coisas, das ideias, dos valores e das pessoas‖. Ao que acresce: ―todos os aspectos de finitude ‗prática‘ que podem compreender-se partindo da noção transcendental de perspectiva finita podem resumir-se na noção de caráter‖ (RICOEUR, 1982b, p. 70). Converge na direção dessas duas formas de interpretação do caráter uma terceira, nomeada pelo autor como dimensão temporal do caráter, que tenta aproximá-lo da problemática da identidade.
Por meio da identificação temporal do caráter, Ricoeur enfatiza a similaridade entre caráter e identidade narrativa. Segundo ele (1991b, p. 146), ―o caráter [...] designa o conjunto das disposições duráveis com que reconhecemos uma pessoa. É por essa razão que o caráter pode constituir o ponto limite em que a problemática do ipse torna-se indiscernível da do idem e leva a não distinguir entre uma e outra‖. Dessa forma, a atestação temporal do caráter provém de uma disposição adquirida e liga-se à ideia de hábito ―com sua dupla valência de hábito em via de ser, como dizemos, contraído e de hábito já adquirido‖ (RICOEUR, 1991b, p. 146). É importante salientar que, por meio do caráter, o autor vai construindo a estrutura da identidade pessoal, pela qual se identifica alguém como sendo ele mesmo e não
54 No final das páginas da ―Philosophie de la Volonté. I. Le Volontaire et l'Involontaire‖, Ricoeur critica a ilusão de autoposição do sujeito que, no momento em que se pretende origem absoluta de si mesmo, compreende a ligação com o outro no que diz respeito a senhor e a escravo. Pertence à ordem de uma "poética" compreender a ontologia do sujeito no acolhimento do ser como dono e no encontro com o outro, em aquela generosidade do amor que é uma espécie de criação recíproca. Como é sabido, Ricoeur não completou formalmente a sua "filosofia da vontade", embora, em suas obras posteriores, ―Metáfora Viva‖, de 1975, e ―Tempo e Narração‖, 1983-1985, emerja o horizonte de uma "poética" finalmente encontrada e, em seguida, os prolegômenos da "poética da liberdade", pesquisada no final da sua juventude. (JERVOLINO, 1996e, p. 10-11).
outra pessoa. O caráter é posto como conjunto de signos distintivos e sedimentos que possibilitam reconhecer alguém no tempo.
O reconhecimento de signos distintivos à pessoa diz respeito ao que Ricoeur (1991b, p. 147) denomina de identificações adquiridas, ―pelas quais o outro entra na composição do mesmo‖. As identificações adquiridas conferem à identidade de uma pessoa ou comunidade certos traços permanentes de identificações como valores, normas, ideais, modelos, heróis, nos quais a pessoa, a comunidade se reconhecem. Essa mediação por meio dos símbolos e dos signos assinala a identidade do si- mesmo. Por meio de figuras heroicas, de valores incorporados ao caráter, é que se estabelece a tarefa de manutenção de si-mesmo ou a manutenção da promessa.
A permanência no tempo, que define a mesmidade, somente é possível pela estabilidade emprestada dos hábitos, das identificações adquiridas e das disposições. Assim, de acordo com Ricoeur (1991b, p.147), ―o caráter assegura ao mesmo tempo a identidade numérica, a identidade qualitativa, a continuidade ininterrupta na mudança e, finalmente, a permanência no tempo que definem a mesmidade‖. Já a significação da promessa pode ser mais bem entendida se for ligada àquele que a pronunciou, pois isso implica manter a obrigação de cumpri-la. Por outro lado, uma promessa não mantida permanece, ainda, uma promessa. Ricoeur (1995e, p. 41) entende que ―a possibilidade de trair a sua própria palavra implica um ato suplementar que se exprime na obrigação de manter a palavra‖. É, portanto, preciso fazer intervir a injunção que combina: respeito de si, respeito do outro e respeito da própria instituição da linguagem, a qual reside inteiramente na pressuposição de que cada um ―means what he (or she) says” (significa o que ele (ou ela) diz) (RICOEURe, 1995, p. 42).
Dessa forma, ao prometer, o sujeito coloca-se intencionalmente na obrigação de fazer alguma coisa; dessa maneira, o compromisso a que se propôs possui o valor de uma fala que o prende. Nisso consiste exatamente a promessa. Por sua vez, pode ser associada à ideia de iniciativa, em que a intenção de fazer algo torna- se um compromisso a fazê-lo e, nesse caso, uma promessa que a pessoa faz a ela e a um outro, quer ele seja beneficiário ou testemunha.
Assim, a promessa torna-se a ética da iniciativa; portanto, ―o coração desta ética é a promessa de cumprir as minhas promessas. A fidelidade à palavra dada torna-se, assim, uma garantia de que o começo terá continuidade, de que a iniciativa inaugurará efetivamente um novo curso das coisas‖ (RICOEUR, 1989b, p. 269).
Outros fatores ligados à iniciativa parecem ser relevantes. Por isso, é oportuno citar as quatro fases atravessadas pela iniciativa e que repercutem na figura do homem capaz, cujo estudo é apresentado mais adiante. Ricoeur (1989b, p. 269) define-as em: a) eu posso, caracterizando a potencialidade, o poderio, o poder; b) eu faço, que demonstra que o meu ser é o meu ato; c) eu intervenho, ou seja, inscrevo o meu ato no curso do mundo em que o presente e o instante coincidem e, por último, d) eu cumpro a minha promessa, eu continuo a fazer, eu persevero, eu duro, eu mantenho a mim-mesmo perante a mudança, seja ela temporal seja biológica.
Por fim, cabe indicar os termos que fazem a mediação entre metafísica e moral e que, por intermédio do conceito ricoeuriano de fenomenologia hermenêutica do si-mesmo, auxiliaram em tal mediação. Tais termos podem ser assinalados da seguinte forma: a) pela figura do homem capaz; b) pela promessa efetivamente mantida e c) pela convicção íntima inseparável da sua modalidade altruísta, a equidade.