2 eks mulige ut
3.2 Helseprofil på sesjon del 2
Na matéria do dia 29 de maio de 1996, encontra-se a seguinte afirmação acerca da venda da empresa de energia do Rio de Janeiro para uma empresa francesa e dois grupos americanos: “a Light voltou à iniciativa privada, depois de quase vinte anos de 'clausura estatal'” (RIBEIRO, 1996, p. 106). Já a concepção sobre as estatais está bem expressa no trechinho “Como toda estatal, colecionou funcionários demais ineficiência de sobra” (RIBEIRO, 1996, p. 108). Entretanto, a ideia de que o Estado é uma clausura ainda não esclarece o conceito de privatização em Veja. A passagem do dia 9 de abril de 1997 permite melhor compreensão, embora também não cumpra este papel:
A venda de empresas estatais está ocorrendo em todos os países por motivos muito simples. Em primeiro lugar, ela libera o poder público – e os recursos públicos – para investimentos mais produtivos, na área social, por exemplo. Por outro lado, as empresas estatais tendem a ficar muito mais eficientes (e, portanto, mais úteis) quando passam à iniciativa privada. O governo brasileiro anda sem dinheiro para investir nas suas estatais, e a qualidade dos serviços que elas prestam se deteriorou. Finamente, na maioria dos casos a empresa estatal brasileira ou é deficitária ou rende pouquíssimo para seu principal acionista, o governo. (NETO, 1997, p. 108). Ou seja, o discurso presente na revista Veja avalia as estatais como ineficientes e geradoras de déficits, e a privatização significa o Estado se libertar deste problema e ainda liberar – e também receber – recursos para outros investimentos e ações. Como bônus, as
empresas ficam mais eficientes, o que aquece a economia, gera empregos e melhores serviços para o consumidor final.
A linha fina da matéria da Carta Capital que expressa o posicionamento da revista sobre o processo de privatização em curso naquele 19 de março, é bastante sucinta: “O governo embala o país com venda que traria ganho efêmero e perda duradoura” (ANALISTAS DA LAFIS, 1997, p. 70). Tratava-se da privatização da Vale, mas a curta ideia é válida para todos os outros processos de venda de estatais em questão na presente análise.
A questão da concorrência também é uma constante quando se trata de privatização. Em matéria publicada em 24 de julho de 1997, Veja alerta para um cuidado que os “hermanos” argentinos não tomaram: “Para cada consórcio, serão feitas apenas duas concessões. Com isso, evita-se a formação de um monopólio pertencente a uma empresa privada e estimula-se a concorrência. Na Argentina, não houve esse cuidado e as tarifas acabaram aumentando com a privatização” (A LINHA..., 1997, p. 119).
A matéria da Carta Capital de 22 de julho de 1998 relata que os mesmo grupos internacionais que privatizaram a telefônica argentina querem comprar ações da estatal brasileira e que eles não cumpriram diversas metas. O caso argentino é dissecado para demostrar os riscos do modelo de privatização adotado também no Brasil. A conclusão é que falta competição: “Segundo mostra o exemplo da Argentina, a privatização não resulta necessariamente em competição. O prazo de 10 anos de exclusividade para as concessionárias de telefonia está para terminar e as empresas já se preparam para barrar novos concorrentes, buscando regras para favorecer suas posições...” (DRUMMOND, 1998, p. 29).
Carta Capital também apresenta um discurso preocupado com a regulamentação do processo de privatização, mas enquanto Veja tem como uma tarefa criticar eventuais restrições à limitação do capital estrangeiro, a revista da editora Confiança adota outra linha, tendo publicado o seguinte trecho em 29 de março de 1996:
A conclusão é que a futura rentabilidade das empresas eventualmente privatizadas dependerá muito mais das condições de tarifação e concorrência estabelecidas pela futura regulamentação do setor do que de questões que tem recebido grande atenção da maioria da imprensa, como a possível limitação da participação de estrangeiros nas empresas do setor. (COSTA; KOTANI, 1996, p. 53).
Esta preocupação com a questão nacional acaba se tornando uma marca do discurso da revista Carta Capital: “Privatizando-se há risco de empresas concorrentes comprarem o
controle e esvaziarem a liderança do Brasil no mercado de minério” (SAFATLE, 1996, p. 60). Mas a referência mais clara é no seguinte trecho publicado em 25 de junho de 1997:
Se a necessidade de vastos investimentos para ampliar e modernizar os serviços de uma administração moderna e agressiva torna a privatização uma alternativa conveniente, essa não precisa ser acompanhada da partilha e entrega do mercado a empresas estrangeiras. A privatização poderia ser encaminhada no sentido de criar um controle colegiado e eficaz, capaz de inspirar confiança aos investidores privados, mas também afinado com os interesses do desenvolvimento nacional. (ANALISTAS DA LAFIS, 1997, p. 42).
Outro traço das reportagens de Carta Capital é a crítica ao governo FHC. Nessas críticas, o processo de privatização em curso naquele momento é associado com algumas ideias negativas, entre as quais, a de uso político dos cargos das estatais pelo governo, como é denunciado na matéria da revista publicada em 29 de março de 1996. A argumentação é que tal problema, inclusive, complica o processo de privatização: “(...) o governo, para obter a quebra do monopólio nessa área, cedeu aos partidos que o apoiavam diversas direções e cargos de confiança das companhias telefônicas do sistema Telebrás, complicando a reorganização das estatais e a sua privatização” (COSTA; KOTANI, 1996, p. 52).
Apesar dos alertas sobre regulamentações necessárias feitas nas matérias de Carta Capital, há convicção expressa no discurso de Veja de que a privatização gera empregos (ao invés de ter por consequência apenas demissões, uma das críticas mais comuns, conforme identificado pela própria revista). No dia 17 de junho de 1998, o seguinte trecho foi publicado: “A privatização da telefonia brasileira envolve outro aspecto importante para o país, que é a geração de investimentos e de empregos no setor” (NETO, 1998, p. 129).
Os dados dos críticos ao processo de privatizações não chegaram a aparecer na revista Veja (aliás, nem na Carta Capital), mas Borges (2002) apresenta o quadro negativo de empregos provocado pelo processo de privatização – que chegam a aparecer em algumas reportagens de Veja ao descrever processos do que a revista considera melhorias na gestão de estatais pelo enxugamento do número de servidores:
O processo de privatização, por exemplo, resultou num saldo negativo de 545 mil empregos nos anos 90. De cada cinco empregos perdidos nessa década, um pertencia ao setor estatal. Já a taxa de rotatividade no setor estatal pulou de 7,3% em 1989 para 24,8% em 1999; e a queda da massa de rendimento no setor foi de 34,5%. (BORGES, 2002, p. 107).
A referência nos países “desenvolvidos” e o desejo de se igualar a eles também está presente nos discursos das duas revistas, que enxergam nas privatizações – ambas, embora com modelos diferentes – um caminho para a modernidade e a globalização. Assim Veja
publicou em 29 de julho de 1998: “O Brasil, que tem alguns de seus Estados com padrão africano de distribuição de telefones, estará em patamar quase europeu num prazo máximo de nove anos” (NETO; PATURY, 1998, p. 104).
No dia 19 de março de 1997 Carta Capital combate a visão de Estado do governo FHC:
Assim, resta muito pouco da propaganda do governo: só o grito de guerra neoliberal – 'o Estado no lugar certo' – com o qual se espera comover os financistas internacionais. Basta para justificar a transferência de controle, por R$ 2,7 bilhões, da principal alavanca de comando de nossa economia real, junto com reservas de minérios capazes de satisfazer o apetite insaciável dos países industrializados, carentes dos principais metais estratégicos, por décadas, talvez séculos? (ANALISTAS DA LAFIS, 1997, p. 73-74).
Além de uma provocação direta ao presidente Fernando Henrique Cardoso, o trecho seguinte, publicado em 19 de março de 1997, defende um modelo de privatização diferente daquele que está em curso:
Essas transnacionais provavelmente se associarão com capitais nacionais. Seria mais lógico se estes últimos se associassem aos investimentos do governo criando um grupo mineral e industrial capaz de agir segundo uma estratégia nacional coerente, mais flexível e com maior capacidade de investimento que uma empresa puramente estatal: seria uma zaibatsu ou chaebol tropical que inspiraria respeito – ainda que contrariasse a tese do desenvolvimento dependente, defendido por um sociólogo bem conhecido. (ANALISTAS DA LAFIS, 1997, p. 74).
Trata-se do modelo europeu, como será explicado em algumas matérias desta revista: grupos nacionais fortes compraram estatais em seus próprios países e as transformaram em empresas potentes e com atuação em diversos países (inclusive o Brasil).
A defesa deste modelo europeu para o Brasil é bastante explícita na reportagem da Carta Capital de 22 de julho de 1998:
Não tivesse sido subdividida, a Telebrás poderia percorrer uma trajetória de crescimento parecida com a de empresas europeias e se apropriaria de ganhos de escala semelhantes aos que proporciona aos grupos estrangeiros.
As empresas de telefonia da Inglaterra e da Espanha foram privatizadas e se expandiram em outros países. A França e a Alemanha abriram seus mercados e iniciaram a privatização gradual das empresas de telefonia. A Itália agrupou cinco estatais numa empresa 50% maior que a Telebrás. A Espanha desestatizou pouco a pouco e hoje tem participações acionárias em empresas do setor na maioria dos países latino-americanos.(DRUMMOND, 1998, p. 25)
É também em 1998 que explodem as denúncias de corrupção no processo de privatização das teles. Além de criticar o governo, o discurso de Carta Capital critica também
o papel da própria imprensa e chega a citar Veja em matéria publicada em 25 de novembro daquele ano:
A Revista Carta Capital ouviu fitas gravadas na presidência do BNDES. A revista Veja conta ter tido acesso às duas fitas que o governo enviou para a Polícia Federal. São muitas as fitas. Fala-se em 27, mas certeza só tem quem participou dos grampos. As fitas ouvidas por Carta Capital tem trechos – os explosivos fragmentos acima – que, pelo relato de Veja, não constam das fitas repassadas pelo governo à Polícia Federal. (…) Legalmente, não há problema algum em tais associações, mas, num instante em que surgem severas suspeitas em relação à privatização da Telebrás – onde também estão empresas de comunicação –, como esperar que poderosos setores da mídia investiguem, com o devido apuro e a apropriada isenção, um processo ao qual todos estão, direta ou indiretamente, associados? (FERNANDES, 1998, p. 20-21).