O conhecimento, em Spinoza, opera a passagem das paixões às ações, pois permite conhecer as causas do que convém ou não ao nosso corpo e ao nosso espírito, e organizar encontros que potencializem nossa força de existir. A questão do conhecimento é de fundamental importância no pensamento de Spinoza e, para compreendê-la, serão considerados, aqui, dois momentos: 1. o conhecimento em relação ao corpo e ao espírito; 2. a distinção dos três gêneros de conhecimento: por imaginação, por noções comuns, por intuição ou conhecimento das essências.
Como se conhece o corpo e a alma? Como se conhece o que pode o corpo? Como se conhece o que pode o espírito? Como se conhece os outros corpos e os outros espíritos?
Lembrando que o objeto da ideia que constitui a alma é o corpo existente em ato (ESPINOSA, 1992), duas proposições no livro II da Ética marcam o “paralelismo” do conhecimento:
PROPOSIÇÃO XIX
A alma humana não conhece o próprio corpo humano nem sabe que este existe, senão pelas idéias das afecções de que o corpo é afetado. (ESPINOSA, 1992, p. 225- 226)
PROPOSIÇÃO XXIII
A alma não se conhece a si mesma, a não ser enquanto percebe as idéias das afecções do corpo. (Id Ibid, p. 228)
A alma humana não conhece o corpo humano, e também não conhece a si mesma, a não ser pelas afecções do corpo e pelas ideias dessas afecções, ou seja, a alma só conhece a si mesma na medida em que conhece o corpo pelas suas afecções; e o corpo só é conhecido pelas ideias das afecções que o espírito forma.
No entanto, são ideias confusas ou inadequadas, uma vez que toda afecção se dá pela ação de um corpo exterior sendo, pois, uma passividade, uma paixão.
Assim, quando o corpo é afetado por outro corpo exterior, no espírito se dá uma ideia que envolve a natureza do corpo afetado e do corpo afetante – ideia confusa, inadequada ou mutilada, e o afeto é uma paixão. Por outro lado, uma ideia é adequada quando envolve a natureza ativa do próprio corpo de que é ideia. Sendo a ideia que constitui a alma a ideia do corpo atual e singular que lhe é correspondente, quando esse corpo for causa adequada de uma afecção, isto é, de uma auto-afecção, também a ideia será adequada, e o afeto será uma ação. A toda paixão corresponde, portanto ideias inadequadas; a toda ação, ideias adequadas.
A ideia inadequada não é, no entanto, uma ideia falsa; é uma ideia confusa ou mutilada, separada da causa e limitada ao efeito produzido pela ação de outro corpo exterior, o qual não chega a conhecer. Mesmo que o corpo tenha sido afetado por uma paixão alegre, que aumenta seu poder de agir, ainda assim é uma paixão; e o espírito terá ideias inadequadas, ainda que tenha aumentado seu poder de pensar.
O primeiro gênero de conhecimento é um encadeamento de ideias inadequadas, formadas pelas imagens-afecções.
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Enquanto o corpo está submetido às paixões, ao acaso dos encontros, o espírito formará ideias confusas impregnadas pelas imagens das coisas dadas a partir das afecções do corpo. É um conhecimento pelos efeitos, que não envolve as causas do que acontece ao corpo; que desconhece o que há de comum entre os corpos.
O segundo gênero é chamado noções comuns, não por ser comum a todos os seres, mas por ser conhecimento do que convém ou do que compõe com determinada coisa singular existente em ato, ou seja, do que convém a um corpo ou a um modo de pensar. Passa-se, assim, das imagens-afecções e das ideias-afecções às ideias-conceitos e aos afetos ativos, sendo causa adequada do que acontece ao corpo e ao espírito, e dos bons encontros; é dizer: sendo causa adequada de si e do grau de perfeição que lhe é próprio, isto é, que é próprio à natureza atual da coisa singular existente. Apesar de apresentar as noções universais como idéias confusas ou abstrações, Spinoza considera que elas podem ser formadas, pelas noções comuns.
O terceiro gênero de conhecimento, que denomina ciência intuitiva, é o conhecimento da essência de Deus em todas as coisas e em todas as ações. É o conhecimento da alegria e da eternidade de todos os instantes; de todos os acontecimentos; do “sempre-já”.
A essência da alma consiste no conhecimento (pela proposição 11 da Parte II); portanto, quanto maior é o número de coisas que a alma conhece pelo segundo e terceiro gêneros de conhecimento, tanto maior é a parte dela que permanece (pelas
proposições 23 e 29 desta parte), e, conseqüentemente (pela proposição
precedente), tanto maior é a sua parte que não é atingida pelas afecções que são contrárias à nossa natureza, isto é (pela proposição 30 da Parte IV), que são más. Portanto, quanto maior é o número de coisas que a alma compreende pelo segundo e terceiro gêneros de conhecimento, tanto maior é a sua parte que permanece ilesa e, conseqüentemente, tanto menos sofre por parte das afecções, etc. Q. e. d. (ESPINOSA, 1992, p. 476)
O que se torna eterno é o ato que se efetua como potência; é a atualização das intensidades como acontecimento - o acontecimento como corpo e pensamento; não a suposta imortalidade da alma de um sujeito que reivindica o bem moral de seus atos. Eternas são as partículas de intensidades que despregam da guitarra de BB King, os “hermetismos” de Hermeto Pascoal, as velocidades do grave de Clementina de Jesus e Louis Armstrong, as “miltonalidades” de Milton Nascimento e os “tons-poéticos” de Tom Zé. Mas, também, as partículas intensas das irrevogáveis ordens fascistas, das dores dos torturados e da crueldade do torturador. Eterno é o devir-intenso que se efetua na duração efêmera, não a consciência do nome, ou, em nome da qual se formaliza o acontecimento: “O que tu quiseres, queira-o de tal modo que queiras também seu eterno retorno.” (DELEUZE, 1976, p.33)