2. Moderniteten som eit mislykka forsøk på kollektiv danning
2.2 Hegel sin påstand om at fridom kan bli verkeleggjort ut i frå fellesskapsmoralen
Um dogma onipresente nas abordagens afirmativas é o de que há um processo algorítmico de decisão para o término das discussões. A idéia corrente é a de que, havendo um conflito de idéias contraditórias, haverá um ganhador — a expressão ganhar discussões é bastante comum em livros populares sobre as argumentações — e um perdedor. Um dos argumentadores será triunfante na discussão e o outro, convencido do seu erro, reconhecerá que perdeu o embate — isto é bastante nítido, por exemplo, na abordagem da Pragma-Dialética, na qual temos um estágio da argumentação chamado de estágio de conclusão.
Quando, entretanto, falamos das possibilidades de contra-argumentação quando expusemos a abordagem afirmativa, não dissemos que qualquer uma daquelas possibilidades — relembrando-as: (i) questionamento da definição ou significado de algum termo envolvido na argumentação; (ii) questionamento da verdade de alguma premissa; (iii) questionamento do vínculo entre o conjunto de conclusões e o conjunto de premissas, afirmando-se que aquele não decorre deste — pode ser sempre trazida à tona em qualquer momento da argumentação. Em princípio, é sempre possível, em um confronto argumentativo, dizer-se que o conjunto de conclusões não pode ser inferido do conjunto de premissas — um modo de sempre operar este procedimento, que admitimos ser artificial, é questionar a lógica subjacente à argumentação, pois sistemas distintos, tendo regras distintas, deduzem conjuntos de verdades diferentes.
Para questionar-se a verdade das premissas, basta alegar-se que a teoria da verdade em questão não é a mais adequada, assim como é sempre possível levantar questionamentos acerca dos significados de termos e de expressões40. No momento em que qualquer uma dessas
objeções fosse feita, ter-se-ia de empreender novas argumentações que teriam por escopo outros conjuntos de premissas e de conclusões que estariam sujeitas às mesmas possibilidades de contra-argumentação que tratamos até aqui.
Falamos aqui, obviamente, de argumentos construídos de maneira, minimante, adequada dentro de certos padrões previamente estabelecidos. Em outras palavras, supomos aqui que estamos tratando de debatedores que dominem as ferramentas da argumentação. Em outras
40 O questionamento da verdade das premissas pode ser feito sem que se mude a teoria da verdade em questão.
Quando, no método dos seis passos, dissemos que o passo 4 envolve o questionamento do valor de verdade das premissas, falávamos sobre a mera possibilidade de uma premissa ser tida por falsa a partir da aceitação da mesma teoria da verdade entre os discutidores.
43 palavras, se aceito jogar xadrez com outra pessoa, nossos movimentos estarão limitados pelas regras que aceitamos previamente.
Por falar no xadrez, é importante que ressaltemos que se poderia objetar que os passos de I a III que indicamos seriam possibilidades meta-argumentativas e não argumentativas em si mesmas. Com isso, estamos dizendo que duas pessoas, quando aceitam engendrar-se em um debate, de antemão, ao menos idealmente, já estabeleceriam qual o sistema de inferências com que trabalhariam, qual a teoria da verdade estaria em jogo e quais seriam as semânticas dos termos e conceitos envolvidos.
O que teríamos a dizer sobre tal objeção é que a grande maioria das discussões dá-se em um âmbito informal. Quando fazemos deduções em um sistema formal, sabemos, explicitamente, quais são as regras de inferência que darão condições para que façamos deduções de modo correto e quais são os axiomas envolvidos — considerando-se sistemas axiomáticos, embora sistemas formais tenham outras apresentações como na forma de dedução natural, cálculo de seqüentes, resolução etc. . Em contextos informais, não temos informações claras sobre estes aspectos. Mesmo em contextos científicos, geralmente, não se sabe, explicitamente, quais são as bases que possibilitam as argumentações — à problemática de justificação do sistema lógico subjacente a uma teoria científica, o professor Newton da Costa chama de problema da dedução.
Poder-se-ia, também, objetar-se que as discussões, de fato, terminam. Não vemos pessoas argumentando indefinidamente até que sejam acometidas pela morte. As argumentações terminam realmente, mas não por conta da superioridade de um argumento ou por conta da aniquilação de um argumento por outro, mas por razões meramente pragmáticas. Fazemos outras coisas além de argumentarmos. Precisamos dar seguimento às nossas vidas; desse modo, correntemente, as argumentações acabam sendo interrompidas não pela via do convencimento, mas pela via das limitações humanas. Além do mais, o afeto aqui ganha contornos de especial importância. Nem todos estamos dispostos, fazendo paródia de um dito popular, a perder um amigo para não perder a argumentação. Não são raras as situações nas quais somos caridosos em embates, relevamos toda sorte de diferenças para não perdemos amizades. Quando falamos, portanto, que as argumentações são intermináveis, não estamos falando que elas não terminam, mas que os seus términos não se dão pelas razões que costumeiramente são pressupostas na abordagem afirmativa.
Mesmo que aceitemos a possibilidade de que, como num jogo de xadrez, os debatedores aceitassem regras que norteiem o embate — relembrando que acreditamos que as
44 argumentações não se dão apenas quando os debatedores possuem teses opostas —, teríamos de supor que ambos têm a mesma perspectiva sobre as peças do jogo. A título de exemplificação, tenhamos em mente uma pesquisa recente promovida pelo IPEA. Uma das perguntas feitas foi a seguinte: “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas?”. O problema com a pergunta é que o termo atacadas apresenta dezesseis acepções dicionarizadas41. Não se poderia saber, com precisão, qual das acepções aqueles que
responderam à pergunta tinham em mente. Na verdade, aqui se trata apenas de um caso de polissemia, mas defenderemos e mostraremos que as argumentações estão perpassadas por algo mais grave que a mera polissemia que costuma envolver os termos e conceitos em âmbitos informais.
Um exemplo histórico sempre bastante interessante de ser observado neste sentido é aquele dos antigos céticos gregos. O ceticismo, contemporaneamente, está restrito a teorias determinadas, sendo, portanto, chamado de ceticismo local; contudo, o cético grego era, tipicamente, um cético global. Ele sempre colocava todas as argumentações em dúvida porque, de fato, é sempre possível que se possa efetuar este procedimento.
Enfatizamos que o fato de que as argumentações terminem, de fato, não é devido a um critério objetivo e algorítmico que tenha sido aplicado a elas, mas ao fato de que, como compreendia bem Rousseau, somos seres não apenas racionais, mas passionais. Somos sujeitos ao cansaço, à irritação, ao medo de perder amizades ou à suscetibilidade de dar ouvidos a quem amamos, sendo extremamente caridosos com alguns, enquanto nos recusamos, por vezes, a dar ouvidos a quem, de antemão, não nos afeiçoamos.
Neste momento, voltaremos ao método dos seis passos. Quando o expusemos, enfatizamos que o método, em si mesmo, não era nem afirmativo e nem negativo. Mostraremos que, na verdade, a abordagem negativa encontra-se embutida na própria abordagem afirmativa se ela fosse levada a sério, pelo menos no que diz respeito a este dogma que estamos discutindo. No primeiro passo, quando vamos verificar se há ou não um argumento, podemos ver que a própria constatação da sua existência pode ser submetida ao campo da argumentação. Deste modo, antes mesmo que tivéssemos a chance de iniciarmos, de fato, a argumentação que
41 O dicionário Houaiss apresenta as seguintes acepções: 1. executar uma ação ofensiva; efetuar um ataque;
investir; 2. usar de agressão física contra; golpear ou morder, com o intuito de ferir ou matar; 3. lançar injúrias contra, ofender; 4. reprovar moralmente; censurar, criticar; 5. Contagiar, acometer; 6. Acorrer a, iniciar subitamente em; acometer; 7. Causar danos; desgastar, corroer; 8. Dar início a, ger. com ímpeto ou grande disposição; 9. atirar-se à comida com grande apetite; 10. arremessar, jogar, atirar; 11. atingir com, dar pontapé, esmurrar, estapear com força e determinação; bater, tacar, virar; 12. incendiar, queimar; 13. dar, disparar; 14. usar de muito empenho para obter algo; 15. exercer uma atividade ou um papel; 16. tomar a iniciativa; procurar marcar ponto, deixando o adversário na defensiva.
45 queremos engendrar, poderíamos passar o resto de nossas vidas discutindo se há ou não, de fato, um argumento, pois esta nova discussão estaria submetida aos mesmos procedimentos de contra-argumentação que explicamos até o momento.
Quando fôssemos determinar de quem é a responsabilidade de argumentar, poderíamos iniciar uma outra discussão e, igualmente, passarmos a eternidade a discutir quem terá o ônus da prova. Na reconstrução do argumento, a determinação daquilo que é uma premissa oculta, de quais são as premissas efetivamente, quais são as conclusões e quais seriam as relações entre as linhas argumentativas está submetida ao mesmo processo argumentativo. Os passos quatro, cinco e seis, também, podem sugar-nos para argumentações intermináveis, sem que conseguíssemos argumentar sobre aquilo que pretendíamos discutir de início. Quantas vezes não nos pegamos discutindo um determinado assunto e, por conta das várias intervenções contra-argumentativas, quando menos esperamos, estamos tendo discussões que nem sabemos ao certo como poderiam relacionar-se com o tema original. Isto não ocorre por uma fuga ao tema ou missing the point, mas pelas próprias características da argumentação.
Inspirado em um conto de Edgar Allan Poe chamado Uma descida no Maelström, Cabrera compara o fenômeno do redemoinho narrado no conto com o fato de como somos sugados pelas argumentações sem nos darmos conta. Em qualquer um dos passos, podemos ser absorvidos pela argumentação sem conseguir sair dela.