METODOLOGIA e INSTRUMENTOS DA PESQUISA DE CAMPO
5.1 FUNDAMENTAÇÃO METODOLÓGICA E MÉTODOS DE PESQUISA
A presente dissertação se inscreve no processo de uma pesquisa descritiva e qualitativa. Soriano (2004, p. 26) assinala que o objetivo principal dos estudos descritivos é o de obter um panorama mais acurado da magnitude do problema ou da situação, hierarquizar os problemas, extrair os problemas de juízo para estruturas políticas ou estratégias operacionais, conhecer as variáveis associadas e fixar as orientações para a prova de hipóteses. A pesquisa qualitativa implica a busca da compreensão de um fenômeno a partir da visão ou do significado que lhe dão os atores envolvidos. Mais que uma explicação “de fora”, a pesquisa qualitativa busca levantar e construir pontes e pontos de vista sobre uma questão em evidência. Em relação a essa pesquisa, busca-se compreender como a questão da integração da rede de proteção social é vista ou percebida tanto por gestores como por usuários idosos.
Para a coleta de dados junto aos gestores e pessoas usuárias, a entrevista foi a técnica mais adequada a ser utilizada (anexo D).
A investigação foi realizada em agosto de 2009, com os gestores desses serviços, por meio de entrevistas que tratavam da sua integração e efetividade e se havia ou não desenvolvimento de ações em lógica de rede.
Minayo (1992) percebe que ao lado da observação participante, a entrevista – tomada no sentido extenso de comunicação verbal, e no sentido restrito de coleta de informações sobre determinado tema científico – é a técnica mais empregada no processo de trabalho de campo. Traduz-se ainda em fonte de dados secundários e primários, referentes
a fatos, ideias, crenças, maneira de pensar, opiniões, sentimentos, maneiras de sentir, maneiras de atuar, conduta ou comportamento presente ou futuro, razões conscientes ou inconscientes de determinadas crenças, sentimentos, maneiras de atuar ou comportamentos.
Para tratar das falas e expressões coletadas é necessário um método de análise das mesmas e por isso escolhemos a análise de conteúdo que implica o tratamento temático das expressões e falas.
Assim, para o tratamento de conteúdo dos dados, utilizaremos a técnica da análise temática ou categorial, estruturada por Laurence Bardin (2008), e que se baseia em operações de desmembramento do texto em unidades, no sentido de descobrir os diferentes núcleos de sentido que constituem a comunicação, e posteriormente, realizar o seu reagrupamento em classes ou categorias.
Para a expressão das relações de rede no território, a pesquisa também foi embasada na cartografia, localizando os serviços da rede no território e considerando as instituições públicas, a Secretaria Municipal de Saúde e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Trabalho.
Para a expressão da integração da rede no território, também elaboramos um mapa dos serviços de saúde e assistência e sua integração com uma pesquisa embasada na cartografia, localizando os serviços da rede no território e considerando as instituições públicas, a Secretaria Municipal de Saúde e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Trabalho.
Nessa perspectiva buscamos uma triangulação metodológica, articulando os dados das entrevistas com o mapeamento do território e realização de grupos focais. Spink (apud Palos, 2000) atribui a introdução do processo de análise através da triangulação de dados a Denzin na década de 70. Segundo os autores, esse desenho de procedimento metodológico procura articular diferentes visões da questão de forma complementar.
A estratégia de triangulação vem perdendo a conotação de estratégia de validação ou validade, por meio da aferição de índices, ou da expressão estatística da coerência entre desiguais recortes do objeto dentro da pesquisa, emergindo como alternativa à validação, ou seja, como aprofundamento da análise e não como caminho para chegar à verdade objetiva (Adorno et al., 1994).
Continua os mesmos autores:
A proposta da triangulação, atualmente, propõe a sobreposição de uma análise unidimensional, alicerçada em índices da realidade, a uma análise multidimensional, ou do contexto. A análise realizada através desses pressupostos permite o estabelecimento de inter-relação entre os fatos, as falas e as ações dos indivíduos, o que permite uma compreensão mais
abrangente dos significados construídos socialmente na relação dos sujeitos com o meio (p. 85).
Assim, vamos considerar os dados das entrevistas com o levantamento de dados no território, a realização de grupos focais e levantamento da legislação.
Para a coleta de dados com os gestores, privilegiamos as entrevistas, mas para melhor expressão dos usuários e usuárias, privilegiamos o grupo focal.
Segundo Powell e Single (1996, p. 449), um grupo focal é um conjunto de pessoas selecionadas e reunidas por pesquisadores para discutir e comentar um tema, que é objeto de pesquisa, a partir de sua experiência pessoal.
Kitzinger (1994, p. 103) diz que o grupo é “focalizado”, no sentido de que envolve algum tipo de atividade coletiva – como assistir a um filme e conversar sobre ele, examinar algum texto sobre um assunto ou debater um conjunto particular de questões.
Como técnica de pesquisa, um grupo focal tem sua constituição e desenvolvimento em função do problema da pesquisa. O problema precisa estar claramente exposto, e questões que dele decorrem devem ser levadas ao grupo para discussão. Nesse sentido, há certo grau de teorização sobre o tema em foco, que o pesquisador deve ter elaborado para os seus propósitos. Essa teorização permite que o pesquisador levante questões relevantes e contextualizadas, bem como oriente a construção de um roteiro preliminar de trabalho com o grupo: o que se vai solicitar dele, tendo claro o que se está buscando compreender (GATTI, 2005, p.17).
O roteiro elaborado (anexo B), como forma de orientar e estimular a discussão, foi utilizado com flexibilidade, de modo que ajustes no decorrer do trabalho – com a abordagem de tópicos não previstos ou relevando esta ou aquela questão de roteiro, em função do processo grupal – foram maleáveis, sem, contudo, perder de vista os objetivos da pesquisa (GATTI, 2005).
O grupo foi composto a partir de alguns critérios associados aos objetivos da pesquisa. Teve uma composição que se baseou em algumas características homogêneas dos participantes, mas com suficiente variação entre eles para que aparecessem opiniões diferentes ou divergentes. Por homogeneidade, entende-se aqui alguma característica comum aos participantes que interesse ao estudo do problema. A característica comum foi relativa à idade, às condições
socioeconômicas, ao tipo de atividade, à frequência do uso do serviço da saúde e da assistência social7.
Visando abordar questões de maior profundidade, pela interação grupal, o grupo focal não pode ser grande, mas também não pode ser excessivamente pequeno, ficando sua dimensão preferencialmente entre seis e doze pessoas8.
Ao iniciar os procedimentos de análise dos dados obtidos, a primeira atitude foi retomar aos objetivos do estudo e do uso do grupo focal para realizá-los. Os objetivos foram os guias, tanto para o processo de análise do material coletado escolhido, como para as interpretações subseqüentes. Na análise dos dados levantados com o grupo focal, os procedimentos gerais foram os mesmos de qualquer análise de dados qualitativos nas Ciências Sociais e Humanas9.
O Grupo focal foi realizado da seguinte forma:
2 grupos de freqüentadores das unidades básicas de saúde, sendo um grupo com 8 participantes e um com 12 participantes, de ambos os sexos.
2 grupos focais com idosos atendidos nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS). Sendo um aplicado com 10 participantes e outro com 8 participantes, de ambos os sexos.
Foi aplicado um roteiro com três perguntas (anexo B): 1 na dimensão da assistência social;
1 na dimensão da saúde; 1 na dimensão de rede.
Além disso, foi utilizada uma ficha individual de identificação para caracterização sociodemográfica dos participantes (anexo C).
Antes da realização da pesquisa, foi aplicado o termo de consentimento livre e esclarecido (anexo A).
Para levantamento da legislação sobre redes, realizamos uma investigação da legislação estadual e municipal no Estado de Roraima do município de Boa Vista.
7
Ibid., p.18. 8Ibid., p. 22. 9Ibid., p. 43.
5.2 PARTICIPANTES DA PESQUISA
Os participantes da pesquisa são, portanto oriundos de três segmentos: a) gestores que ofertam serviços à pessoa idosa em Boa Vista/RR, no âmbito da saúde e da assistência social;
b) pessoas com 60 ou mais freqüentadoras das unidades básicas de saúde;
c) pessoas com 60 ou mais freqüentadores dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS). Assim as informações foram coletadas junto a esses dois segmentos diretamente ligados à Rede de Atenção à Saúde e à Assistência Social à Pessoa Idosa em Boa Vista/RR.
Dentre os idosos atendidos pelos serviços públicos ofertados em Boa Vista, foram entrevistados os freqüentadores dos Centros de Saúde que têm a cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF). Já no âmbito da assistência social, os entrevistados foram os idosos freqüentadores dos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS).