O artista tem a capacidade de ler o invisível. É como se escutasse as mensagens do universo mítico da sociedade onde está inserido; percebe, por meio da sua intuitiva sensibilidade o que vaga no inconsciente. Comprova a veracidade de suas intuições por meio da ressonância que sua obra encontra no meio do povo, daqueles milhares que recitam a poesia e entoam a melodia das suas músicas.
Mergulhar nesse mundo mítico da música popular brasileira (MPB) é, sem dúvida, conhecer os medos, as aspirações, enfim, é submergir nos desejos mais íntimos e mais velados do nosso povo. Procuramos, pelos caminhos do rico material fornecido pela nossa MPB, demonstrar que ela desvela como o envelhecer é percebido, não pela observação direta da realidade, mas, indiretamente, por meio dele, do seu imaginário, do imaginário emergido da sociedade e da cultura de um povo ou lugar.
Várias são as poesias cantadas que abordam o tema do abandono em um asilo. Desse universo escolhemos a música Carpe Diem do grupo musical FRESNO. Estes jovens deixam emergir o medo da velhice, o medo de ficar internado “num asilo”, o medo de ficar sempre no “mesmo lugar”. Ai está o recorrente tema: o medo da morte – “eu quero morrer dormindo/eu devia morrer/daí eu já posso morrer/eu já posso morrer” - e a consciência que o tempo vai se encarregar de nos levar até este momento. Estes jovens, já estão percebendo que “ela é parte da vida, ela orquestra a nossa existência de forma harmônica ou sem harmonia, colocando-nos no compasso ou descompasso da vida “(LOUREIRO, 2008, p. 856).
G. Durand (2002) postula que o imaginário é a condição que nos foi dada para, conscientes dessa realidade insofismável, poder nos relacionar com esse novo mundo, mundo que se abriu a todos àqueles descendentes dos que provaram do fruto da sabedoria. Nascido desse temor, e também da realidade observada em muitas das ILPIs que se espalham pelo país, o asilo de velhos é visto como um local de depósito daqueles idosos, que imóveis aguardam a morte, “Todos chegaremos à velhice, se não morrermos antes, mas difícil fazer o jovem pensar nesta realidade e, mais ainda, na possibilidade de uma institucionalização” (LOUREIRO in LOUREIRO coord., 2009, p. 80). Vamos observar a letra:
Carpe Diem – FRESNO
Eu não sei porque vou envelhecer/Se é bem assim que eu quero morrer /Dormindo não vou me desfalecer /Pois quando eu for velho eu não vou mais ter /Razão pra viver, um amor pra sofrer
Pernas pra correr, uma missão pra ter
E não dá /E não dá pra imaginar /Como eu vou viver no mesmo lugar /Num asilo sem ter amigos pra contar
As coisas que eu fiz e não vou mais fazer /Porque eu envelheci /Eu devia morrer /Mas eu me esqueci /De avisar a deus
E agora eu sei que eu devo viver intensamente /Viver pra um dia eu não /Me arrepender das coisas que eu fiz /E não vou mais fazer
Daí eu já posso morrer /e agora eu sei que eu devo viver intensamente /Viver pra um dia eu não
Me arrepender das coisas que eu fiz /E não vou mais fazer Eu já posso morrer
Foi Horácio (68 a.C.) em seu poema Ode, que deu luz ao termo Carpe Diem, do qual transcrevemos o primeiro verso: “Carpe Diem quem minumum crédula
póstero”10 Esta primeira frase do poema indica que é muito mais importante viver o
instante do que ficar pensando neste futuro, considerado, preconceituosamente pelos autores, como sombrio, que é a velhice. Na letra da música eles demonstram que a “melhor idade” é um momento de perda dos sentimentos, perda de uma “razão para viver”, das capacidades físicas e que a velhice é o tempo de uma grande imobilidade e que sendo assim é melhor morrer. Com o Rock, que é movimento e energia, convida todos, a viver intensamente o momento. Mas a realidade é muito mais complexa que esta visão preconceituosa e temerosa da velhice; muito mais plural. Existem velhos que vivem muito bem, e a aparente imobilidade pode representar a dinâmica do mergulho em direção ao “vórtice”. E a morte é a nossa grande companheira de jornada, nos é apresentada já dentro do útero materno.
Mas cada época apresenta uma postura diante da morte e, em cada lugar, a mentalidade forma-se e se expressa conforme a sociedade e a cultura. De uma aceitação resignada do destino mortal, vai-se ao desespero da finitude, chegando, hoje, no Ocidente, ao quase silêncio: ao proibido (LOUREIRO, 2008, p. 857).
O Asilo, sem dúvida, é local onde a morte é vista com freqüência. Muitos asilados esperam apenas o momento de, como dizem os que vivem no Lar dos velhinhos Maria de Madalena: deitar na pedra. Pedra esta, mesa mortuária que
convenientemente está colocada em uma sala logo atrás do temido bloco C , onde estão os idosos que mais precisam de assistência à sua saúde.
Ainda com relação à presença real da morte e no imaginário do grupo, chama atenção a localização do necrotério, do prédio com a “pedra”, onde são colocados os falecidos a serem velados. Este pavilhão fica em um espaço transversal a um dos três blocos do asilo, o bloco onde estão os doentes, acamados e muitos em fase terminal da vida, em cuidados paliativos. Esta localização traz os idosos amedrontados diante do referido bloco. Para eles, o corredor do bloco dos doentes é o inevitável corredor que leva ao final. Eles pensam ou constatam que quem entra naquele bloco dificilmente volta para os seus aposentos nos outros dois blocos, sai direto para a “pedra”. Isto representa o “monstro” no seu imaginário (LOUREIRO in LOUREIRO coord., 2009, p. 80).
Hoje, há instituições que não se adéquam ao que os nossos jovens expressaram. Podemos então contrariamente ao imaginado, na música dizer que
a ILPI é uma morada especializada com as funções básicas de proporcionar assistência gerontogeriátrica conforme as necessidades de seus residentes. Ao mesmo tempo, oferece um ambiente doméstico e aconchegante capaz de preservar a identidade de seus residentes. A missão da ILPI seria manter um equilíbrio, sem haver negligências (BOECHAT; BORN, 2006 apud LOUREIRO, 2007, p. 55).
Infelizmente, muitas instituições estão longe de atingir esta meta.
Sem algo a que pertençamos, não temos um eu estável; apesar disso, o compromisso e a ligação total com qualquer unidade social supõem uma espécie de ausência do eu. Nosso sentimento de ser uma pessoa pode decorrer do fato de estarmos colocados numa unidade social maior; nosso sentimento de ter um eu pode surgir através das pequenas formas de resistência a essa atração. Nosso status se apóia nas construções sólidas do mundo, enquanto nosso sentimento de identidade pessoal reside, freqüentemente, em suas fendas (GOFFMAN, 2001, p. 259).
Colhemos no relatório da pesquisa IATO a fala, ali transcrita, de um dos asilados daquela ILPI:
Em cativeiro ninguém é feliz e tranquilo; a gente só é feliz em liberdade, eu me sinto no cativeiro, isso aqui é uma cadeia sindicalizada. (PERNIN, 2008).
Seu Cadu fala do asilo como uma prisão: Toda vez que quero sair tenho que
pedir permissão [...]. Ele diz:Se eu soubesse que aqui era asilo nem aqui eu pisava, eu não sabia o que era. [...] Eu não conhecia essa coisa Lar dos Velhinhos, só tinha ouvido falar.[..] Cadu refere-se ao asilo como: lar dos doidinhos” (LOUREIRO in LOUREIRO coord., 2009, p. 67-68.)
Reforçando o argumento do Seu Cadu “Dona Tatá”, outro sujeito da pesquisa IATO, diz: Não gosto daqui, não entrei porque eu quis, tô doida para sair daqui (LOUREIRO in LOUREIRO coord., 2009, p. 69). Da nossa intervenção coloco aqui também o relato do Sr. João de Barro: Moradia, para morar com pessoas. Quando
chove não se molhar. Não considero o asilo como casa, só moradia.
O Lar Maria Madalena foi o nosso dia-a-dia, mas estamos conscientes de que, no trânsito entre as duas pontas da realidade encontramos uma enorme diversidade de instituições, com suas realidades muito singulares.
Quando o idoso sofre o processo de internação surgem algumas dificuldades. Zimerman (2000) aponta cinco problemas criados com esta internação; Mudança Interna de Parâmetros; Convivência; Perdas; Falta de Convivência com o Sexo Oposto; Abandono.
A ruptura no contato com os familiares deixou-os soltos no tempo e no espaço sem as âncoras da emoção e do coração a firmá-los e mesmo localizá-los na existência [...] o imaginário de um grupo de idosos asilados que se encontra longe da sua família, afastados dos seus amores, tendo cortados os vínculos que os ligavam para fora da situação asilar e que têm a sua liberdade minimizada pelas regras do asilo (LOUREIRO coord., 2009, p. 6).
A velhice nos coloca mais perto do sentimento de medo de morrer, ainda mais quando vivemos em uma comunidade em que, como disse, a morte se impõe como realidade freqüente.
Por outro lado, podemos ser desencorajados ao contemplar o futuro, porque em certos momentos, no ápice da idade, por exemplo, percebemos que já não podemos deixar para manhã a guarda de nossas esperanças. A amargura da vida é o desgosto de não poder esperar, de já não ouvir os ritmos que nos exortam a tocar nossa parte na sinfonia do devir. É então que a “lamentação risonha” nos aconselha a convidar a Morte e a aceitar, como uma canção que acalenta, os ritmos monótonos da Matéria” (BACHELARD, 2007, p. 98).
“O homem sabe-se mortal, mas se considera imortal. Quem morre é outro, não eu! Postura despropositada, pois, nesta era de incertezas profundas, nossa única certeza é a da morte” (LUOREIRO, 2008, p. 855). Quando o velho vive com seus familiares e tem uma vida social ativa é razoável supor que seu sentimento com relação à presença da morte seja diferente do idoso asilado.
Neste mundo racional, que esmaga as emoções e nega a alteridade, a velhice vem sendo confundida com doença e relacionada com a morte,
quando se sabe que a morte não escolhe idade sempre que resolve satisfazer - como metaforicamente colocada - sua gula insaciável com mais uma presa humana (LOUREIRO, 2008, p. 854.)
Mas, como diz o dito popular: “a vida continua”. Continua em um espaço em que a “indesejada das gentes”, como se refere à morte Manoel Bandeira (2010), ronda toda a noite e todo o dia, tendo a pedra fria do necrotério, que está ali, no final do corredor do temido
pavilhão ‘C’, depósito de esqueletos vivos seguido do necrotério, na proximidade cômoda do ritual funerário: o corredor final, o fim da linha, o monstro para todos os dali, a presença da morte. A morte por ali ronda mais feia que tudo, mais presente que nos outros lugares. A gula metafórica da mesa já devorou, neste um ano, conta dona Góia, 54 dos asilados do pavilhão ‘C’, o temido (LOUREIRO, 2004, p. 7)!
Diante dessa dura realidade o imaginário daqueles videntes pode começar a se desestruturar. “O velho asilado, abandonado, como qualquer homem com sua identidade destruída, auto-estima em baixa, pode desejar a própria morte” (LOUREIRO, 2008, p. 858).
O relatório IATO demonstrou que de uma amostra de 19 (100%) sujeitos em apenas 7 (36,84%) casos o imaginário apresentou-se estruturado. Incluímos os resultados dos protocolos dos idosos que freqüentaram a oficina de canto aos 19 já analisados anteriormente e chegamos a um universo de 23 protocolos, os quais estão compondo a tabela 1.
Tabela 1
Imaginário Emergido Sujeitos Sujeitos Percentagem
Estruturado 7 30.44 % Pseudoestruturado 11 47.84 % Tendência à desestrutura 1 4.34 % Desestruturado 1 4.34 % Não identificado 3 13.04 % TOTAL 23 100 %
Com base na tabela 1, concluímos que 56.52% dos sujeitos que foram avaliados apresentam um imaginário com problemas, quando da análise dos resultados do teste AT-9 realizados com eles. A estrutura característica do
imaginário desse grupo de idosos asilados – universo mítico – ficou evidenciada como pseudoestruturado e desestruturado, com tendência mística, isto quer dizer que não discutem o preestabelecido. “A desestrutura evidenciada no imaginário do grupo pode estar relacionada às situações denunciadas pelos idosos. É bom deixar evidente que este imaginário pode ser reestruturado, mas que o espaço exerce uma influência capital neste afã” (LOUREIRO in LOUREIRO coord., 2009, p. 88).
Como o imaginário é o conjunto relacional de imagens (DURAND, G., 2002) que se forma no trajeto antropológico, como condição dada ao homem frente a angústia do passar do tempo e o medo da morte, e como este imaginário suporta as nossas ações, fazendo com que cada um de nós perceba o espaço que habita de uma maneira singular, muito própria, cada velho vive o seu asilo e tão diversa é essa vivência como é diverso o ser humano. O que chama a atenção são as reclamações constantes de alguns daqueles viventes daquele espaço, mas também a apatia e a falta de comunicação entre eles, de outros asilados já esmorecidos pela situação. Estas queixas, esta apatia e a não interação merecem especial atenção daqueles que tem a missão de cuidar. “Ao se fragilizarem com a doença ou a dependência, os velhos precisam, como todos nós em qualquer idade, em idênticas circunstâncias, de cuidados especiais, do convívio dependente com quem os cuide” (LOUREIRO, 2008, p. 859).
Muitas vezes estes asilados não conseguem, neste espaço, vivendo estas intensas emoções, encontrar a felicidade, a paz e a tão almejada qualidade de vida. As relações cotidianas em uma ILPI, com o passar do tempo, retiram o véu, automaticamente e inevitavelmente, que encobriam aqueles comportamentos mal- adaptados, legados de uma longa vida, repleta de histórias, de vivências alegres e tristes. “Não é necessário que os indivíduos descrevam ou dêem um histórico detalhado de sua patologia: mais cedo ou mais tarde, elas a apresentarão ante os
olhos dos membros do grupo. [grifo do autor]” (YALOM; LESZCZ, 2005, p. 46).
Aprender a conviver; viver com pessoas que simplesmente dividem o mesmo espaço, pois não tem para onde ir, é um grande desafio.
Desafio este que agora, já na idade avançada, não era esperado, pois sempre imaginamos uma velhice onde estamos colhendo o que a vida tem de melhor, rodeados, sempre, das pessoas que amamos. Dona Pomba Rola, com uma voz muito rouca, que embora tenha 70 anos de idade, diz: Eu queria ser uma velhinha,
para contar histórias para os netinhos. Quando eu ficasse velhinha que eu tivesse os netos tudo pertinho de mim para eu contar histórias. Historinhas, muitas histórias.
Esta fala nos remete ao desejo de um dos sujeitos - aluno de uma escola fundamental do DF -, de uma outra pesquisa de Loureiro (2006), que quando perguntado sobre ficar velho diz: “[...] depende [...] só se for para ensinar meninos da minha idade, contar histórias, anseio muito ser velho”(LOUREIRO In FALEIROS; LOUREIRO, 2006, p 35).
Oportunizar a um grupo de idosos asilados o necessário compartilhar de saberes e sentimentos pode ser fator reorganizador do imaginário sem estrutura. Essa reorganização do imaginário pode também integrar o idoso àquele novo espaço, ressiginificado por esse renovado olhar, integração esta que pode levá-lo a querer participar da gerência, imposta pela organização, de sua vida e da dos outros que lá habitam.
Sobrepujar as estruturas organizacionais que não incluem a voz do idoso, encontrando um novo modo de gerir aquele espaço, de todos, apesar da “interligação dos afazeres cotidianos na instituição [estar] estruturada por normas e objetivos feitos para os internos e não com os internos” (FALEIROS in LOUREIRO coord., 2009, p. 94), pode fazer emergir um espaço onde os asilados podem almejar encontrar a felicidade, pois “essa potência de felicidade, sendo real, apesar de oculta, pode ser explorada no sentido de sobrepujar os complexos de cultura” (LOUREIRO, 2000, p. 44). Embora o espaço físico continue o mesmo, ele poderá ser ressignificado (BACHELARD, 2008). Aquela cultura organizacional poderá ser sobrepujada, dando espaço ao novo. Por meio das inevitáveis trocas o Asilo poderá transformar-se em um local diferente daquele imaginado pelo grupo FRESNO. Poderá acontecer a bachelardiana “topofilia” (2008), um lugar feliz.
Infelizmente não são todos os que ali chegam que estão com as capacidades cognitivas preservadas. Os que estão em boas condições de saúde, muitas vezes, se recusam a abandonar os antigos hábitos, os antigos sofrimentos, as antigas lamúrias, para se lançarem, ainda mais uma vez, em direção ao sabor das novas experiências, de um novo aprendizado. Simplesmente aprender a ser feliz. O relatório da pesquisa IATO, mostra a dificuldade dos asilados em aprender novos hábitos, de abandonar o tabagismo:
Quanto ao tabagismo presente no asilo, a equipe da saúde, valendo-se do uso do espirômetro e do monoxímetro, na tarefa avaliativa da capacidade respiratória dos fumantes, detectou o grau de comprometimento dos pulmões pelo uso do tabaco. Medicamentos inibidores do vício/hábito do cigarro foram oferecidos aos asilados fumantes desejosos de interromper tal prática nociva à sua saúde. Nem todos aceitaram se submeter ao tratamento, pois alegam que fumam por não ter o que fazer e o vício do cigarro é o único prazer que lhes sobrou (LOUREIRO in LOUREIRO coord., 2009, p. 86).
Quando estamos envolvidos em um processo de aprendizagem, entendendo que aprender é mudar, mesmo que este seja inconsciente, “segundo Pichon-Rivière [...] estamos abandonado formas estereotipadas de ver o mundo ou a mesma realidade, tal qual ocorre em um processo terapêutico” (OSÓRIO, 2003, p. 29). Este abandono de formas estereotipadas, este aprendizado, esta mudança, resultante do trânsito entre os desejos internos e as pressões do “meio cósmico e social” – trajeto antropológico - (DURAND, G., 2002) se apresenta, quando simplesmente entoamos aquela canção de natal que marcou nossa infância, que deixou lembranças indeléveis no tempo.
A velhice, como a música, pertence ao tempo. Um tempo que marca o corpo e constrói a memória. As músicas de nossas vidas fazem parte dessa construção. São canções de ninar, as músicas da escola, os brinquedos cantados, as canções cívicas, as canções de amor, de amizade, enfim, de todos os tempos e sentimentos. [...] Ao marcar um tempo, a canção, por seu vínculo afetivo, pode resgatar o fio melódico da vida do indivíduo, ao retratar todas as suas idades no contexto sonoro-musical. [...] Ao restituir esta capacidade de crença em si mesmo, de sua potência como sujeito, o idoso restabelece o crédito diante do social, alterando para melhor o conceito que a sociedade tem dele e ele de si mesmo (SOUZA in FREITAS et al., 2006, p.1218).
Como o imaginário dá suporte a todos os nossos diversos fazeres e está presente, conseqüentemente, nas relações entre aqueles que compõem o meio ambiente asilar, o universo mítico do asilo tende a mudar, quando alguns idosos abandonam a letargia e começam a levar para os espaços, antes ociosos, uma nova “vibração”. Às vezes pelo simples fato daquela determinada sala ser chamada de a
sala do coral, acontece uma ressignificação do espaço. Uma nova organização e
gestão de funcionamento asilar podem surgir, não impostos de uma maneira técnica, mas sim pela retirada das invisíveis cortinas que nos impedem de ver o ser humano
como tal; com a consideração da dimensão simbólica na reorganização do asilo, neste caso uma “organizacionalidade antropolítica”11 .
Em síntese, conforme Faleiros (2007), as instituições são espaços contraditórios com temporalidades e histórias entrecruzadas onde existem normas não escolhidas pelos residentes com um espaço estruturado por funções coletivas, relações hierarquizadas de poder, numa separação do espaço institucional da vida sociocomunitária e da vida familiar, com restrições à autonomia, mas com expressões de resistência como desejos, insatisfações, discordâncias, invenção de espaços e imaginários próprios (FALEIROS in LOUREIRO coord., 2009, p. 93-94).
O importante é deixá-los falar, proferir a última palavra, permitir-lhes vida até o final; nada lhes esconder e ver neles, mesmo ao morrer, a dignidade de ser humano. [...] E a vida continua até a 'próxima vítima' ser escolhida pela 'gulosa insaciável’. [...] Como cantava Gonzaguinha e ainda hoje se ouve, "ninguém quer a morte, só saúde e sorte" (LOUREIRO, 2008, p. 861).
11
Organizacionalidade por estar sempre se fazendo e refazendo com a presença neotênica do ser humano nela e antropolítica por ser centrada no antropos, no ser humano.