CHAPTER 1: INTRODUCTION
1.3 PROFILE OF TANZANIA
1.3.6 Health services
1.3.6.3 Health human resources
da chuva, segundo a tradição camponesa do sertão de Pernambuco. Mendonça/SP, 12.10.09, Foto de Rafael Aroni.
A forma feminina de apropriação do espaço pode ser traduzida pelo monopólio do afeto aos objetos de produção da sobrevivência. As panelas trazidas na
viagem pelas esposas era justificado pelo alto preço na compra novo, além de serem “mais fortes” em relação às encontradas nos territórios migratórios de destino. Elas são dispostas como artefatos decorativos, ostentando a limpeza e arrumação, o aconchego ao espaço que não lhe pertence. O brilho delas é conseguido pela prática em areá-las com água da chuva, recolhida em cisternas improvisadas em tambores de plástico. Para além da economia nos custos com água, reforça-se o “habitus” dos ensinamentos que essas mulheres adquiriram durante suas vidas, uma vez que todas começaram a trabalhar nas atividades domésticas não remuneradas em média quanto tinham 10 anos.
Neste processo os saberes das práticas culinárias femininas fazem com que elas passem a desempenhar novos papéis dentro dos rearranjos e na divisão sexual do trabalho. Passam a ser remuneradas pelos demais trabalhadores, estando estes juntos ou em alojamentos próximos. Ação que inicia o processo de apresentar fissuras a dominação patriarcal, uma vez que elas eram remuneradas em pequenas quantias, em geral R$1,00 para o preparo das duas refeições, e R$0.50 para lavar peças de roupas, por quinzena. A próxima etapa na reconfiguração dos papéis de gênero era a recusa e negociação para que os homens lavassem as roupas de trabalho, conhecidas como “carvão”.
Ainda para a atividade de cozinhar novos saberes eram apreendidos na experiência de acompanhar temporariamente os maridos. A responsabilidade no preparo da comida para muitos trabalhadores modifica a utilização dos temperos. O leite não era utilizado em refogados, substituído pela manteiga. A cebola também não era utilizada na salada ou para se refogar o arroz, feijão e mistura (geralmente salsicha ou frango). Ela azedaria rapidamente a comida em razão do longo tempo de espera para ser consumida. Contudo, os sabores não eram, esquecidos, reforçavam- se os traços culturais, com a utilização do sabor forte de cominho. Tempero típico do nordeste e que era trazido semanalmente por ônibus de empresas clandestinas, as quais faziam o itinerários por diversas cidades canavieiras do interior paulista. Mantinha-se, assim, o contato permanente dos migrantes com pessoas, informações e comidas não encontradas em São Paulo. Outro exemplo foram os biscoitos de rapadura, o feijão de arranque ou de corda e latinhas de pinga, os quais eram vendidas num bar aberto por uma das esposas dos cortadores.
Outro ponto da pesquisa etnográfica reporta-se às rocinhas existentes nos quintais das casas dos migrantes. Neste aspecto, objetivou-se problematizar o quanto próximo os membros das famílias migrantes estavam das atividades presentes no cotidiano dos sítios de origem. Eram práticas de resistência simbólica frente à condição contingente de não poderem cuidar dos roçados colocados nas terras de origem, antes da partida, em virtude do processo parcial ou total de expropriação pelo qual passaram. Esta prática também lhes possibilita a diminuição dos custos econômicos na reprodução da família, agora numa área urbana. Portanto, estes registros fotográficos são fragmentos da imaginação desses trabalhadores, os quais desde muitos jovens trazem marcados na alma traços simbólicos nas “hexis corporais” (BOURDIEU, 2006: 86), ou seja são elementos do jeito de ser que permanecem como os valores, normas e hierarquias referendadas a origem camponesa. De forma complementar, a conformação do “hábitus corporal camponês”(BOURDIEU, 2006), ou seja, princípios que organizam inconscientemente gestos, atitudes e comportamentos e atuam como dispositivos nos próprios camponeses, “consiste naquilo que se vive como mais natural, aquilo sobre o que a ação consciente não tem controle” (BOURDIEU, 2006: 86). Porém a prática desta linguagem corporal e simbólica, no contexto do território migratório de destino é ressignificada pela situação do assalariamento, e cria a distinção social entre os membros da família com a comunidade do entorno.
Na análise das rocinhas é importante remeter a etnografia da dinâmica de oposição entre “casa-roçado-roçadinho” de HEREDIA (1979:15), nas quais a unidade doméstica era articulada a unidade produtiva a qual estruturava as relações econômicas e familiares. Nessa figuração social, as atividades do roçado remetiam ao lugar masculino na estrutura familiar, no qual o processo de trabalho, além de ser a prática de socialização dos membros da família, era controlado e decidido pelo homem, patriarca da família. Nele eram providos “os meios de vida”, os “mínimos vitais e sociais” (CANDIDO, 2003) para o consumo coletivo do grupo. Já o “roçadinho e a casa”, compreendem a esfera dos filhos e da mulher. Primeiro, enquanto espaço de provimento dos recursos para o consumo de itens secundários (roupas), os quais a autoridade patriarcal não poderia arcar, bem como a iniciação dos filhos ao trabalho agrícola. A casa estava em oposição ao roçado, enquanto espaço feminino, lugar do
não trabalho (provedor de renda), da ajuda no preparo do consumo para a reprodução do grupo doméstico.
A prática do cultivo de temperos anteriormente determinados aos papéis femininos, para os espaços dos territórios migratórios de destino, apontou para esse tipo de cultivo realizado e cuidado pelos homens, nas cidades paulistas. Desta forma, dinâmica de oposição extrapola a esfera doméstica e está em relação a roça, ou seja, o eito do canavial, lugar do trabalho não agrícola, onde não é acompanhado pelos “habitus corporal camponês” o desenvolvimento da diversidade e ciclo dos vegetais (milho e feijão), historicamente cultivado pelos migrantes. Esta nova figuração dos papéis de gênero aponta para fissuras e possibilidades de rupturas com o poder patriarcal, sobretudo nos casos em que as mulheres buscam trabalhos remunerados. Este fato demonstra que o homem não era mais o único provedor da família camponesa agora rearranjada entre o assalariamento e a produção de subsistência interrompida.
Foto 6 – Rocinha no quintal da casa de fundos com núcleo familiar, temperos: cebolinha e
coentro. Migrante ocupa atualmente a posição de auxiliar de bombeiro, possui uma casa na cidade de origem, Princesa Isabel/PB e ajudava o pai no cultivo de milho e feijão, em sítio de oito hectares. Mendonça/SP, 21.04.09, Foto: Rafael Aroni.
A experiência do cultivo provisório na vida permanentemente temporária produz novos saberes e práticas que são incutidos ao “hábitus camponês”. Além dos cultivos de temperos, o acesso a água encanada possibilita o aprendizado de novas
técnicas, como por exemplo, o cultivo de hortaliças com sistema de irrigação por aspersor, como mostra a documentação imagética abaixo. O preço baixo das sementes, em geral R$0,50 em casas especializadas, favorece a articulação entre produção para minorar os custos de vida, e a aprendizagem de novos cultivos.