CHAPTER 3: METHODOLOGY
3.10 DATA ANALYSIS
permanência da prática da agricultura aos finais de semana, frente a jornada dupla dele, no trabalho no corte e lanchonete. Novo Horizonte/SP, 07.05.09. Foto: Rafael Aroni (Ver Video1 – Pasta 7 CD-ROM).
Quarto Caso: Famílias Ampliadas, com trabalhador do corte – Novo Horizonte/ SP.
Figura 6 – Quarto caso: Famílias Ampliadas, com trabalhador do corte. Novo Horizonte/SP, 2009.
Perfil Biográfico dos casais entrevistados. Primeiro Casal
Nome: Luiz.
Ano nascimento: 1978.
Local de nascimento: Santana dos Garrotes – PB. Nível de Escolaridade: Analfabeto.
Idade que começou a trabalhar: 12 anos.
Atividade em que começou a trabalhar: Roçado e plantio com o pai. Atual ocupação: Cortador de Cana na 9ª Safra.
Há quanto tempo está na cidade de destino: 1 ano. Itinerário migratório para o corte:
2001- Irapuã/SP - Cortador de cana.
2002 até 2007- Novo Horizonte/SP – Cortador de cana. 2008- Irapuã/SP – Cortador de cana.
Nome: Naldiene.
Ano de nascimento: 1984.
Local de nascimento: Santana dos Garrotes – PB / Povoado Palestina. Nível de Escolaridade: Fundamental Incompleto 1ª série.
Idade que começou a trabalhar: 12 anos.
Atividade em que começou a trabalhar: Trabalho doméstico com a Mãe. Atual ocupação: Dona de Casa.
Há quanto tempo está na cidade de destino: 1 ano. Itinerário migratório:
2009 – Novo Horizonte/SP – Dona de Casa.
Origem do primeiro casal: Santana dos Garrotes - PB
Acesso a casa ou terra própria na origem ou no destino: Possuem uma casa de 5 cômodos na cidade de origem e uma pequena propriedade de 5 hectares.
Estado civil: Casados no civil e religioso há menos de um ano.
Quantas pessoas moram na casa: 8 (casal, irmão com esposa e filhos e irmão solteiro de Luiz).
Número de filhos: 1. Segundo Casal Nome: Márcio.
Ano de nascimento: 1982.
Local de nascimento: Santana dos Garrotes – PB. Nível de Escolaridade: Analfabeto.
Idade que começou a trabalhar: 12 anos.
Atividade em que começou a trabalhar: Roçado e plantio com o pai. Atual ocupação: Cortador de Cana na 8ª Safra.
Há quanto tempo está na cidade de destino: 1 ano. Itinerário migratório para o corte:
2002 até 2007- Novo Horizonte/SP – Cortador de cana. 2008- Irapuã/SP – Cortador de cana.
2009- Novo Horizonte/SP – Cortador de cana. Nome: Celma.
Ano de nascimento: 1979.
Local de nascimento: Santana dos Garrotes – PB. Nível de Escolaridade: Analfabeta.
Idade que começou a trabalhar: 12 anos.
Atividade em que começou a trabalhar: Trabalho doméstico com a Mãe. Atual ocupação: Dona de Casa.
Itinerário migratório:
2004 – Novo Horizonte/SP – Dona de casa. 2009 – Novo Horizonte/SP – Dona de casa. Origem do casal 2: Santana dos Garrotes - PB
Acesso a casa ou terra própria na origem ou no destino: Possuem um sítio de 12 hectares, migraram para viabilizar a construção da casa no sítio.
Estado civil: Casados no civil e religioso há três anos.
Quantas pessoas moram na casa: 8 (casal, irmão com esposa e filhos e irmão solteiro de Luiz).
Número de filhos: 2
Quadro 15 – Quarto caso, perfil Famílias Ampliadas, com trabalhador do corte, Novo Horizonte/SP, 2009.
Sexo Idade Escolaridade Profissão Estado Civil Local de Residência Onde está Alojado Relação de Parentes com o casal migrante
Masculino 4 meses - - - Santana dos Garrotes – PB
Mesma casa
dos pais Filho do primeiro casal Masculino 4 anos - - - Santana dos Garrotes –PB Mesma casa dos pais Filho do segundo casal Masculino 2 anos - - - Santana dos Garrotes – PB Mesma casa dos pais Filho do segundo casal Masculino 28 anos 6ª série Cortador 8ª Safra Solteiro Santana dos Garrotes - PB Mesma casa do irmão Irmão de Luiz
Fonte: Pesquisa de campo.
O caso deste rearranjo de famílias ampliadas inicia-se com a migração de Luiz, que soube do trabalho através de colegas que retornaram para Santana dos Garrotes/PB, no final de 2000. Em 2001 ele decidiu migrar, influenciado principalmente pelas notícias de um trabalhador que era contratado pelo arregimentado, de que o ordenado no corte era superior ao trabalho na roça que mantinha com o pai. Neste momento ele era solteiro e conseguiu dinheiro emprestado com um conhecido negociador de gado, num sítio próximo ao de seus pais. Não revelou o valor, apenas afirmou que saldou o empréstimo no final da safra com cobrança de juros. No ano seguinte (2002) Márcio, influenciado pelo cunhado também migrou. Passaram a safra no mesmo alojamento, onde revezavam entre todos os trabalhadores o preparo das refeições levadas para o eito. Lavavam a roupa de trabalho, “o carvão”, e pagavam para uma mulher lavar a roupa de uso cotidiano. Ela estava com o marido em outro alojamento. Recebia R$1,00 por peça de roupa. Somente no ano de 2003, Márcio conseguiu viabilizar o deslocamento da família,
motivado principalmente pelas dificuldades em manter as despesas da família no sítio de origem com seus custos em permanecer na cidade de destino.
Quando e por que a família migrou?
Luiz (31 anos, cortador de cana e paraibano) – A minha veio pela primeira vez agora em 2009.
Márcio (27 anos, cortador de cana e paraibano) – A minha veio em 2004, para cá [Novo Horizonte]. A gente foi morar no bairro Santo Clara. A família veio mais para que a despesa se tornasse uma só. Por que com a família lá eu tinha que mandar toda quinzena dinheiro para feira. (Compras de Supermercado) Além de ter as despesas aqui, como aluguel, contas e feira. Agora para trazer a família eu tive que economizar um dinheiro da cana, mas sabendo que ficaria uma despesa só. Só que para trazer a família o dinheiro foi economizado no trabalho da cana. (Entrevistados em 18/04/2009).
Neste ano que permaneceu sozinha, Celma revelou que passou a desempenhar o papel de agricultura ao cuidar do roçado de milho e feijão deixado pelo marido. Forma de assegurar a sobrevivência dos filhos, diante a incerteza do dinheiro remetido pelo marido, em sua ausência temporária. Portanto, não houve opções na renegociação dos papéis de gênero internos a unidade produtiva e unidade doméstica camponesa. Na etapa do desarranjo familiar, a reorganização intrafamiliar, diante da situação de contingência, lança as mulheres, idosos e crianças a assumirem a posição de agricultores, na tentativa de garantir a segurança alimentar do núcleo familiar que permaneceu. Salienta-se que o trabalho na roça passa a ser exercido coletivamente. Caracteriza momento de grande tensão, no qual ao prover incompletamente a família, o trabalhador recorre à estratégia de trazer a família, como uma forma de poupá-los do estigma de estarem passando precisão, ou seja, não conseguirem os mínimos vitais com os recursos monetários ou da roça de subsistência.
Mas você chegou a cuidar da roça quando ele veio para cá?
Celma (31 anos, dona de casa e paraibana) – No segundo ano ele deixou uma roça de milho lá. Aí eu cuidei. Eu fiz o serviço de quebrar e soprar, depois de debulhado para botar no silo. Só que este serviço eu não fiz sozinha. Tinha meu sogro, o pai dela, tinha também a mãe e irmão dela (aponta para cunhada). Todo mundo trabalhava junto. Outra coisa era catar o feijão que é feito na mão. Depois e debulhado no pau, com uma vara Teve época que ele chegou até a mandar R$400,00 por mês. Como a casa é no sítio, teve época também que a gente colhia milho e feijão. Além de ter a criação de galinha. (Entrevistada em 07/05/2009).
Na etapa posterior de rearranjo, a trajetória familiar apontou para permanência da antiga divisão sexual do trabalho, na qual as mulheres voltam a ocupar a posição do trabalho doméstico. No processo de deslocamento dela a
injunção foi que só poderia acompanhar marido se ficasse alojada com o irmão, naquele momento ainda solteiro. A mesma imposição ocorreu para Naldiene, que só pode acompanhar Luiz, após formalizar a união estável e permanecer na mesma residência provisória do irmão. Neste ponto, é possível inferir o deslocamento da dominação patriarcal para a figura dos filhos, em cuidar das respectivas irmãs nos territórios de destino.
Se vocês não estivessem casadas vocês poderiam ter vindo para cá?
Naldiene (25 anos, dona de casa e paraibana) – Não, por que é o costume de lá.
Celma (31 anos) – Tem que ter autorização do pai e da mãe.
Naldiente - Meus pais, mesmo, não deixavam. Só que meu irmão estava aqui, se eu viesse para ficar com ele, aí deixavam. Mas não poderia morar com o Luiz.
E para você Celma quais foram as dificuldades para poder vir?
Celma (31 anos) – Foi a mesma coisa. Eu precisei casar. Isso foi em 2007. (Entrevistadas em 07/05/2009).
Poderia se inferir que por se tratar de casais de irmãos casados entre si, a dominação masculina seria atenuada pelo convívio que essa outra posição de parentesco traria ao grupo. Porém, Naldiene ao relatar o desarranjo familiar de sua irmã, reforçou a perspectiva contrária de que, as mulheres ao migrarem buscam dentro do assujeitamento à dominação masculina, fortalecer os laços de afetividade, ao vigiar as possíveis rupturas com o desfecho de abandono. Portanto, as trajetórias sociais dessas esposas apontam para o assujeitamento aos papéis de gênero. Contudo, isso não significa a permanência ou ausência de estratégias de resistência dentro dos limites impostos pela subordinação a dominação masculina.
Naldiene (25 anos) – Eu conheci uma colega que ficou abandonada lá. O marido arranjou outra família aqui.
Quem é esse amigo?
Naldiente (25 anos) – É que ele era meu cunhado, marido de minha irmã. Não sei se ela sofre, é calada. Não sei se ela gosta dele ainda. Eu acho que o que ele fez é errado. Por que se o rapaz tira uma moça da casa do pai dela é para cuidar dela. Ela estava casada no civil e religioso. Ela veio por duas vezes para cá. Só que ninguém sabia se ele já tinha outra aqui.
E como foi que sua irmã descobriu?
Naldiene (25 anos) – Eles foram para lá e em menos de um mês ele voltou e ela ficou só lá. Ficou uma safra aqui e voltou no final do ano. Chegou e ficou novamente só um mês, foi tempo de botar roça lá. Aí minha irmã desconfiou. Ela tinha dois colegas aqui que depois de muito ela apertar falaram que ele tinha outra mulher aqui. Ela perguntou se ele iria casar com a outra aqui. Aí ele não respondeu, só veio para cá e manda o dinheiro dos filhos. Ele vive agora com essa mulher aqui, que também já tem filhos. (Entrevistada em 07/05/2009, grifos nossos).
Por fim, salienta-se que outra justificativa dada para o rearranjo com duas famílias alojadas numa mesma casa, foi a tentativa de minorar os gastos, com a divisão das contas de aluguel, energia e água. As compras eram feitas em separado, pelo custo mais elevado do primeiro casal ter um filho recém nascido. As esposas preparam as refeições dos respectivos maridos. Em função de apresentarem filhos pequenos, alegaram estarem impedidas, momentaneamente, de procurar emprego. Celma manifestou a vontade de trabalhar na “bituca” ou colheita do tomate do que no trabalho de doméstica. Quando indagados sobre o futuro que vislumbram diante da diminuição do emprego no corte manual da cana, a representação coletiva do grupo é pelo retorno às atividades agrícolas deixadas em suspenso. Luiz pretende continuar no corte de cana até quando ele existir, e passar essa fase dos gastos elevados com o filho, recém nascido, para tentar viabilizar a construção de sua casa, na propriedade de cinco hectares, herdada da partilha antecipada realizada pelo seu pai. Já o segundo casal, com o fim do corte pretende retornar para o sítio de 12 hectares, mas enquanto isso busca viabilizar melhorias sanitárias na casa que possuem no mesmo, ao realizar a instalação de banheiro e água encanada.