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Havneforholdene og v~nnforsyningen

In document Lofotfisket 1943 (sider 44-50)

Em sua dissertação A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos,

de 2000, a antropóloga Beatriz Labate formula uma análise ampla sobre a trajetória

percorrida pelos grupos ayahuasqueiros nos centros urbanos na sua empreitada de

legitimar o uso não só religioso, mas também em modalidades alternativas, como

em programas terapêuticos de cura individual, iniciados pelo que ela denomina de

neoayahuasqueiros10. Para isso, insere esse novo modelo no interior de

procedimentos de construção de identidades de manifestações sociais, culturais e

religiosas e dos conflitos individuais e coletivos dos sujeitos desse movimento com a

tradição, com a revisão de seus contornos e com a definição de novos parâmetros.

[...] os neoayahuasqueiros vivem uma tensão entre, por um lado, rejeitar os modelos tradicionais de consumo da bebida (sagrada) e, por outro, não cair no uso profano de drogas, associado por eles a objetivos menos nobres. São então fabricados novos tipos de rituais

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Tem-se chamado de buscadores, na pluralidade do contexto religioso atual, aqueles que, como peregrinos, constroem sua religiosidade a partir de experiências múltiplas com o sagrado e sem necessariamente ter uma pertença definida.

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Labate denomina de neoayahuasqueiros aqueles que fazem uso da bebida em um ambiente que renova total ou parcialmente os rituais desenvolvidos pelos tradicionais que iniciaram essa prática na primeira metade do século XX.

e são elaborados discursiva e simbolicamente referenciais filosóficos, existenciais, terapêuticos e mesmo religiosos comuns a cada nova unidade. Cada uma destas se relaciona direta ou indiretamente entre si e com o sistema maior. (LABATE, 2000, p. 48.)

MacRae verifica que, naquela época de tempos bicudos de repressão militar,

a juventude da classe média via escorrer pelas mãos as poucas possibilidades de

rearranjos sociais capazes de arejar e dar mais leveza à atmosfera de medo e

tensão que pairava sobre o país. A rota de saída encontrada por muito deles,

moradores dos grandes centros urbanos, foi engrossar as fileiras das vibrações de

“paz-e-amor” do movimento hippie em busca de uma revolução interna que

repercutisse talvez externamente. Saturados de valores com os quais não mais se

identificavam, sem afinidades religiosas que dessem maior pertinência à sua rotina,

decepcionados com posturas cristãs que não mais satisfaziam suas necessidades

de respostas, muitos desses jovens se aproximaram da filosofia mística oriental e de

preceitos afro-brasileiros e indígenas.

Dentre esses, alguns formaram comunidades, na maioria das vezes rurais, de

subsistência, baseadas na produção artesanal e artística, algumas das quais bem

distantes dos principais centros urbanos do país. Em certa medida, aproveitaram

também as iniciativas oficiais que estimulavam a ocupação mais intensa do território

brasileiro, incluindo a Amazônia, para se aventurarem em uma viagem interna pelo

país e em si mesmos. Alguns iam mais longe, atravessando a fronteira até os

vizinhos andinos. Foi nessa debandada que o Acre, o Daime e a doutrina dos

primeiros mestres ayahuasqueiros cruzaram os caminhos desses jovens de classe

Após alguns anos de iniciação experimentando a bebida e com o

arrefecimento dos desmandos políticos da ditadura, eles retornam aos seus locais

de origem e introduzem a ayahuasca para seus pares nas cidades, reelaborando

seu uso nos ambientes urbanos para pessoas bem mais enfurnadas no cerne do

pensamento racional, universo bem distinto do vivenciado com os povos da floresta

e com a população circunvizinha a ela. Essa primeira onda migratória é iniciada

pelos grupos tradicionais que, na migração para as cidades, apenas reproduziram

nas grandes metrópoles os ritos praticados nas cidades próximas da floresta sem

alterações simbólicas significativas.

As reinterpretações do uso da ayahuasca começaram a ser efetuadas

posteriormente, quando dissidentes dessa leva inicial, já chamados de

neoayahuasqueiros, criaram seus próprios grupos de uso da ayahuasca. Essa

segunda onda de expansão nos centros urbanos introduz novos elementos, próprios

do contexto urbano onde estão inseridos e que se identificam em grande parte com

os princípios da Nova Era. Segundo Labate, essa atualização do uso da ayahuasca

no centro urbano incorpora vivência do movimento Nova Era, das artes, do teatro, da

música, de técnicas psicoterapêuticas e de outras ferramentas de autoconhecimento

sem necessariamente estabelecer vínculos diretos com o universo religioso.

Atento ao que diz Montero (2006) sobre o uso e abuso do termo

secularização11 e da pretensão desmensurada de parte da intelectualidade de

querer quantificar o quanto de secular há aqui ou acolá, pode-se relacionar os usos

terapêuticos atuais da ayahuasca, em certa medida, a um processo de

secularização do uso da bebida. A evidência desse processo se mostra pelo

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Secularização aqui é entendida a partir da ideia weberiana, segundo o qual se trata da saída gradual e progressiva da religião do estado político oficial e da sua reacomodação, nessa nova configuração social, como mais um entre outros campos que formam a estrutura da sociedade.

crescente número de adeptos que recorrem a ela como instrumento de cura pessoal,

sem relacioná-la necessariamente ao sagrado.

Para parte desses retornados, a novidade religiosa é um veículo de

iluminação que, por meandros alheios à sua compreensão e explicados por mística

xamânica ainda pouco digerida, tem no êxtase um processo mais acelerado de

autoconhecimento.

Através do uso da ayahuasca, desde o início se poderia ter acesso a experiências de êxtase e iluminação que os seguidores de outras escolas espiritualistas só pensam em alcançar no fim de suas vidas [...] Frequentemente, após uma estadia mais ou menos prolongada na região, os visitantes retornavam aos seus locais de origem, levando consigo novos ideais de vida e fazendo proselitismo entre colegas, amigos e familiares da fé recém-adotada. (MACRAE, 1992, p. 78.)

Em ampla pesquisa que desenvolve entre 1999 e 2000, o antropólogo José

Guilherme Magnani posiciona esse processo de urbanização do xamanismo

inserindo-o no bojo do movimento de manifestações religiosas não institucionais

denominadas:

ora de místicos, ora de esotéricos, ou de Nova Era – e que incluem desde a oferta de livros de autoajuda, passando por uma ampla gama de oráculos e sistemas divinatórios, rituais ocultistas, práticas corporais de inspiração oriental, até as terapias alternativas, juntamente com o consumo de produtos naturais. (MAGNANI, 2005, p. 220.)

O autor reconhece que esse apanhado de propostas, embora resulte de livres

escolhas supostamente endossadas apenas por preceitos individuais, traz em si

uma base de sustentação alicerçada em ações coletivas que buscam por novas

neoesotérico, rede não-contígua no espaço reconhecível na paisagem da cidade.

Para ele, o xamanismo urbano não apenas é parte integrante desse circuito como

também constitui, ele próprio, uma espécie de circuito derivado em seu interior. Além

do que, trata-se de um campo que se configura em uma importante vertente ao lado

de práticas e sistemas religiosos enfeixados na ampla categoria de “filosofias

orientais”, das correntes teosófico-espiritualistas, das tradições do ocultismo europeu

e de alguns paradigmas do discurso ecológico.

O termo desenvolvido por Magnani dialoga com o que Labate, inspirada na

teoria de Pierre Bourdieu (1987), denomina “campo ayahuasqueiro” em sua

dissertação, quando, ao analisar a presença dos grupos ayahuasqueiros também

reconhecidos como xamânicos nas grandes metrópoles, enxerga o constructo de

uma rede de proteção institucional por meio da qual transitam bens materiais e

imateriais. Mas aponta que os neoayahuasqueiros mantêm relações ambíguas com

os grupos ayahuasqueiros tradicionais, porque, embora reconheçam e legitimem sua

origem, rejeitam sua rigidez disciplinar. Esses novos agentes ainda mantêm relações

com outras redes e subconjuntos urbanos que formam a Nova Era. Como escreve

Labate, os ayahuasqueiros alternativos são parte de uma rede urbana da ayahuasca

e integram ao mesmo tempo outras conexões urbanas. Disso, continua a

pesquisadora, resulta justaposições, entrecruzamentos e interseções múltiplas.

Parte dessa geração, que é concebida por Luis Eduardo Soares em suas

pesquisas no Instituto de Estudos da Religião (ISER), como integrante do que

denomina de nova consciência religiosa, enxerga as plantas de poder, usadas no

ambiente religioso, como uma ferramenta de autoconhecimento capaz de conduzir

processo revestido de atmosfera religiosa, bastante distante dos ambientes pouco

amistosos das drogas ilegais, na mira das políticas públicas antiviolência.

O campo ayahuasqueiro, somado às novas configurações de usos da

ayahuasca, implementa posturas e princípios que, embora não sejam unanimidades

nem tampouco impeçam a utilização profana da bebida, criou uma rede de proteção

institucional por meio de uma constante circulação de informações, conhecimentos,

pessoas, substâncias e capital. Labate considera ainda que é dessa fiação que se

forma a textura necessária para que seja criado o chamado universo ayahuasqueiro

brasileiro, que interliga os diversos grupos tidos como tradicionais (Alto Santo,

CEFLURIS, Barquinha e UDV), alcançando as práticas mais recentes, que priorizam

princípios terapêuticos e as de outros países e segmentos, como dos curandeiros

tanto os ligados a raízes mais tradicionais sul-americanas, como os adeptos no

primeiro mundo.

Esse movimento criou e difundiu a figura do neoxamã, que, segundo a

pesquisadora, é controversa e suscita diversas discussões sobre sua legitimidade,

principalmente no ambiente urbano desligado geograficamente dos ambientes

indígenas nativos de onde surgira. Labate esclarece que concorda que o

neoxamanismo idealiza o mundo indígena:

[...] mais do que discutir a validade deste tipo de argumentação, é possível captar por detrás desta um problema mais complexo, que tangencia questões caras à antropologia, tais como a noção de pureza, autenticidade, a dinâmica da mudança nos processos culturais, bem como a própria hegemonia do cientista enquanto observador. (LABATE, 2000, p. 26.)

A revisão do éthos proposta pelos neoayahuasqueiros, sem se desligar

pesquisadora. Isso porque para ela os usos religiosos modernos da ayahuasca no

Brasil, implementados no processo de urbanização de sua utilização, contrapõem-se

ao que vem ocorrendo em outros países do primeiro mundo. Lá, ao contrário do

caso brasileiro, as referências giram em torno das linhas tradicionais, que

carregariam as matrizes da tradição milenar. Do seu ponto de vista, os

neoayahuasqueiros são um “subproduto” da expansão nacional do Santo Daime e

da UDV. O uso do termo “subproduto” insere ainda esse movimento em um

dinâmica operacionalizada por agentes típicos do consumo profano de mercados e

serviços, dependentes de princípios econômicos universais, tais como oferta,

demanda, fidelização e segmentação. Labate também observa que, a propósito do

sincretismo, próprio da religiosidade brasileira, as religiões ayahuasqueiras

absorvem, como já foi dito, elementos de diversas outras vertentes religiosas, como

umbanda, candomblé, kardecismo, xamanismo indígena.

Labate reitera que a modernização do xamã traz consigo implicações que

modificam a leitura que essa figura faz do mundo indígena, incluindo conteúdos bem

distintos do exercício da função em seus primórdios, como apontam as pesquisas de

Mircea Eliade e Michael Harner. Essa ampliação absorve novos códigos e símbolos,

que habilitam sistemas de curas próprios. Nesse imbróglio de debate acadêmico, ela

se apoia em Joralemon, no texto The selling of the shaman and the problem of

informant legitimacy (1990), para quem a existência do xamanismo contemporâneo

reitera uma das principais marcas identitárias dessa tradição, que é sua capacidade

de adaptar-se às mudanças culturais – posição essa compartilhada também por

Eliade. Para Joralemon, a ampliação do campo de saber do xamã com as

interferências do mundo moderno não o desqualifica, porque ele mantém-se ligado à

Manuela Carneiro da Cunha (1998), para quem o xamanismo permite que cada

sujeito relativize sua posição no grupo e reúna em si mais de um ponto de vista,

habilidade que, na visão da pesquisadora, interliga mundos distintos ao mesmo

tempo que encarna o projeto de junção entre local e global.

Labate relaciona essa habilidade de adaptação dos sistemas ayahuasqueiros

a diferentes contextos à sua origem xamânica.

A existência de autorização do uso do daime em contextos experimentais pode ser interpretada de duas maneiras: o Santo Daime como um sistema que convive com a pluralidade, tolerando a diferença a ponto de permitir e até incentivar o aparecimento, no seu bojo, de um movimento que romperá com sua estrutura. Ou, inversamente: a estratégia do sucesso de expansão do Santo Daime pelo mundo se deu não em função da rejeição de elementos de outros contextos; mas, ao contrário, da sua capacidade de incorporar a diversidade, recodificando-a, mantendo-se um sistema coerente com uma diversidade interna controlada. (LABATE, 2000, p. 61.)

1.5 Mobilidade e trânsitos que sincretizam a paisagem religiosa no universo

In document Lofotfisket 1943 (sider 44-50)