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5.3. HARD DISK DRIVE 2 ZFS Properties

Além de Mont eiro Lobat o, diversos escrit ores consagrados f oram crít icos do seu t empo,

t ransmit indo mensagens at ravés de t ext os que ref let em valores, crenças, mit os e ideologias das sociedades em que at uaram.

Aut ores como Aldous Huxley (Brave New Worl d — Admirável Mundo Novo), Júlio Verne

(Vingt Mil l e Lieues Sous l ês Mers — Vint e Mil Léguas Submarinas e Le Tour du Monde en Quat r e-vingt s Jours — A Volt a ao Mundo em 80 Dias), Miguel de Cervant es (El Ingenioso Hidal go Don Quij ot e de l a Mancha — Don Quixot e), Guimarães Rosa (Grande Sert ão:

Veredas e Sagarana), Lewis Carroll (Al ice in Wonderl and — Alice no País das Maravilhas),

George Orwell (Animal Farm: a Fairy St ory — A Revolução dos Bichos), William Gibson

(Neuromancer), J. K Rowling (Harry Pot t er), C.S. Lewis (The Chronicl es of Narnia — As

26 capazes de invadir a imaginação dos seus leit ores at ravés do senso crít ico e criaram f icções que cont ribuíram para a t ransf ormação do mundo moderno.

A indúst ria cinemat ográf ica, principalment e a part ir dos anos 80 com o avanço t ecnológico nas áreas de ef eit os visuais e especiais, t em buscado nos livros a inspiração necessária para criar produções ext raordinárias, como a f ant ást ica avent ura The Neverending St ory

(Hist ória Sem Fim), baseada no livro de Michael Ende e dirigida por Wolf gang Pet ersen, e a t rilogia ciber-f ilosóf ica The Mat rix, dirigida pelos irmãos Wachowski e que, nit idament e,

est abelece relações com o pensament o e com o livro — não-f iccional, é bom lembrar —

Simul at ions and Simul acra (Simulações e Simulacros) do f ilósof o pós-moderno e crít ico da

cibercult ura Jean Baudrillard, além das inquest ionáveis semelhanças com o clássico cyberpunk Neuromancer.

Port ant o, a obra lit erária f iccional pode, num primeiro est ágio de “ evolução” , t ornar-se uma produção cinemat ográf ica capaz de conquist ar a at enção do público não apenas pelo

enredo, f ot ograf ia e demais recursos imagét icos e cinemát icos que o meio permit e, mas t ambém, e principalment e, pela possibilidade de provocar uma ref lexão sinérgica capaz de romper os limit es f ísicos do espaço de exibição. Em um segundo est ágio de “ evolução” , a

indúst ria do ent ret eniment o digit al agrega a est es f at ores a int erf erência do usuário na const rução da narrat iva, at ravés da int erat ividade, adequando as produções ao f ormat o dos games de comput ador, de console e dos disposit ivos móveis.

O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien é um exemplo de obra int erdisciplinar “ evoluída” ,

pois surpreende e f ascina o público independent e do suport e em que é apresent ada — livro, cinema ou game. Ronald Kyrmse (2003, p. 24-27), na análise que realiza acerca dest a

27 ou modalidades do saber, onde est ão inseridos os element os que compõem a narrat iva, como povos, paisagens, cost umes, línguas e crenças; Prof undidade de abordagem dos assunt os, onde cada element o é analisado minuciosament e; Dimensão t emporal, a qual

inf orma quando acont ecem os event os da narrat iva.

Sob o pont o de vist a analít ico, o aspect o t ridimensional da obra de Tolkien pode ser

ident if icado, t ambém, no Sít io do Picapau Amarel o, mas com uma dif erença: a dimensão

t emporal, por não ser delineada por Lobat o, é subst it uída pela imersão l údica, onde a

f luidez da narrat iva t orna-se capaz de “ hipnot izar” o leit or.

A diversidade encont rada no Sít io do Picapau Amarel o rompe com a est rut ura lit erária

inf ant il t radicional e t ransf orma cada volume de Obras Compl et as em uma viagem

mult idisciplinar rumo ao conheciment o. De acordo com Bignot t o (1999, p. 149):

O Sít io t orna-se uma escola sem f ront eiras; em Viagem ao céu (1932), as

crianças aprendem ast ronomia perambulando pelo espaço; em Geografia de Dona Bent a (1935), viaj am pelo mundo para conhecer as caract eríst icas de cada cont inent e; em O Poço do Visconde: Geologia para Crianças (1937), depois de aprender geologia em serões com Dona Bent a, t erminam por encont rar pet róleo no Sít io. Nada parece t er f icado de f ora no

“ currículo” da escola do Sít io: mat emát ica (Arit mét ica da Emília, 1935), hist ória (Hist ória do Mundo para Crianças, 1933), ciências exat as (Hist ória das Invenções, 1935; Serões de Dona Bent a: Lições de física e ast ronomia, 1937; ciências biológicas — incluindo ecologia — (A ref orma da nat ureza e O espant o das gent es, 1941), polít ica (A chave do t amanho, 1942), lit erat ura ( Dom Quixot e das crianças, 1936; Fábulas, lançado em 1922 e reedit ado em 1934 dent ro do volume Reinações de Narizinho), f olclore (Hist órias de t ia Nast ácia, 1937), mit ologia grega, f ilosof ia (O minot auro, 1939; Os doze t rabalhos de Hércules, 1944) e at é um pouquinho de inglês (Memórias da Emília, 1936).

A abordagem de Lobat o t orna-se int erdisciplinar a part ir do moment o em que insere, no cont ext o de suas narrat ivas replet as de incident es, surpresas, casos f ant ást icos e imaginários, t emas nacionalist as ou assunt os do cot idiano, criando, dest a f orma, muit as

28 vezes, mais de uma hist ória dent ro da hist ória, mais de um mundo dent ro de out ro mundo.

O Poço do Visconde é, t alvez, o melhor exemplo dessa int erdisciplinaridade. Ao mesmo

t empo em que discut e a quest ão da exploração do pet róleo no Brasil, ensina química,

geograf ia e geologia:

Geologia? Pois o Visconde andava a est udar geologia?

Verdade, sim. O Visconde descobrira ent re os livros de Dona Bent a um t rat ado dessa ciência e pusera-se a est udá-la — a ciência que cont a a hist ória da t erra, não da t erra-mundo, mas da t erra-t erra, da t erra-chão. E de t ant o est udar f icou com um permanent e sorriso de superioridade nos lábios — sorriso de dó da ignorância dos out ros. “ Ele j á ent ende de t erra mais que t at u” , dizia a boneca [ Emília].

[...] Naquele dia Pedrinho começou a ler o j ornal [...]. Em cert o moment o int errompeu a leit ura para dizer em voz alt a f alando consigo mesmo: — Bolas! Todos os dias os j ornais falam em pet róleo e nada do pet róleo aparecer. Est ou vendo que se nós aqui no sít io não resolvermos o problema o Brasil ficará t oda a vida sem pet róleo. Com um sábio da marca do Visconde para nos guiar, com as idéias da Emília e com uma f orça brut a como a do [ rinoceront e] Quindim, é bem provável que possamos abrir no past o um formidável poço de pet róleo. Por que não?

[...]

- Primeiro — disse o grande sábio — t emos de abrir um curso de geologia. Sem que t odos saibam alguma coisa da hist ória da t erra, não podemos pensar em poço. Como j á li est a Geologia int eira, proponho-me a ser o prof essor.

— Ót imo! — exclamou Pedrinho levant ando-se. Vou avisar o pessoal que as aulas começam hoj e mesmo. Ot imíssimo. . .

Foi assim que começou o pet róleo no Brasil (LOBATO, 1977, v.6A, p.71-72).

Lobat o recorre, port ant o, à inst ância mít ica para criar personagens arquet ípicos capazes de f alar de algo que est á mais al ém, pois, sendo o arquét ipo uma t endência do

inconscient e e do inst int o, não da razão e revelada mais f ort ement e pela f ant asia, não pela realidade, adquire uma f orma que passa a ser mais f acilment e assumida e aceit a por t oda a sociedade. O mit o se t orna, port ant o, a verdade dessa sociedade e nela sobrevive

29 não porque lhe explique a sua realidade, mas por ref let ir um aspect o real dessa mesma sociedade: os mit os ref let em sempre um medo de mudança (FEIJÓ, 1984, p. 13).

O carát er int erdisciplinar na obra de Lobat o revela-se pela primeira vez em j aneiro de 1917, quando, pret endendo resgat ar a import ância dos mit os populares na sociedade brasileira — o medo de mudança —, o aut or permit iu, pela primeira vez, a int eração dos

leit ores com sua obra, lançando o “ Inquérit o sobre o Saci” . Nele, Lobat o propunha um est udo do “ duendezinho” , est imulando o t rabalho colaborat ivo, f ormando uma est rut ura ret icular, onde há a part icipação de co-aut ores que se t ornam, ao mesmo t empo, agent es

criadores e t ransf ormadores da obra. O sucesso do Inquérit o f oi t ant o que out ras f ormas de

expressão art íst ica, como pint uras, escult uras e ilust rações f oram criadas e incorporadas na produção f inal. O cont eúdo se t ransf ormou, t ambém, numa exposição na qual Lobat o

esperava que os art ist as brasileiros percebessem a f ont e que a mit ologia local poderia t ornar-se para que suas produções ganhassem carát er mais nacional (CHIARELLI, 1995, p. 185).