Marc Bloch recebeu pelo menos três excelentes textos biográficos, de Carole Fink, de Nicole Barthèlemy e de Olivier Dumoulin. Na primeira obra, um estudo rigoroso e detalhado, descortina-se um personagem singular do qual se busca encontrar uma identidade e simetria, harmonizando o cidadão francês, o soldado e o historiador. A autora aponta que o próprio Bloch reconhecia que sua obra estava sujeita a reações e a revisões, mas se colocava como o precursor de uma nova história, gestada a partir da criação de uma revista que seria tomada como modelo por várias outras, como a
Past and Present (1952), ou o Journal of Social History (1966), cujo triunfo generalizado de sua
história social e das mentalidades saldou-se, “quase inevitavelmente, num processo de fragmentação, competição e contestação”[428]. Mas a autora esquece-se de que a revista Annales reproduzia modelos anteriores, como os da Historische Zeitschrift (1859) ou da Revue Historique (1876). Segundo Carole Fink,
Bloch era um judeu assimilado da Terceira República, da Europa Ocidental capitalista e imperialista, que passou pela experiência pessoal de duas guerras mundiais, do bolchevismo, do fascismo e do antissemitismo militante. O seu mundo
mental abrangeu centenas de anos e vários continentes, paisagens e idiomas. Era um patriota que amava a França e um cosmopolita convicto que media a história e realizações de seu país em comparação com um mundo mais vasto[429].
Olivier Dumoulin, por seu turno, traça um olhar mais crítico sobre Bloch. Segundo esse autor, após sua morte trágica ao ser fuzilado pelos nazistas em 1944, teria ocorrido um processo de beatificação sobre ele e sua obra, de modo que raros eram os autores que dirigiam críticas ou objeções ao seu legado. Nesse ponto acompanha Peter Schöttler[430], para quem o advento da Segunda Guerra Mundial revelou fortes diferenças entre os fundadores dos Annales, fazendo surgir rusgas que seriam apagadas por Febvre após a morte do amigo, ao construir uma mitologia positiva em torno de Bloch, como já se vê em seu artigo “Da história ao martírio” publicado na revista
Annales, em 1945, no seu Curso Honra e Pátria, que lecionou na Sorbonne entre 1945-1946 – no qual
leu vários trechos de A sociedade feudal, e no texto “Marc Bloch e Estrasburgo: lembranças de uma grande história”, que publicaria em 1947[431]. Em seu Combates pela história Febvre dedica um capítulo ao amigo, revelando como se deu o encontro de ambos em uma das reuniões inaugurais da Universidade de Estrasburgo, em outubro de 1920, quando, apesar de seus 32 anos, Bloch parecia ter 40. Mas, antes disso, Febvre já havia escrito a Henri Berr dizendo ter visto Bloch, confessando: “acredito que nós nos entenderemos muito bem”[432]. Seus gabinetes eram contíguos e ambos deixavam as portas sempre abertas, de modo que os estudantes “passavam de uma sala a outra”[433]. Além daqueles dois biógrafos, em estudo recente Dominique Barthèlemy também oscila entre o tom apologético e o crítico, quando revela: “por admiráveis que sejam, o seu estilo e o seu pensamento permanecem os de um professor da Terceira República”[434]. No retrato que configura a respeito de Bloch indica que:
A preocupação com a erudição, com as discussões críticas, surge notadamente como um dos valores partilhados por todos os historiadores da Terceira República (positivistas ou não). A organização coletiva do trabalho, orquestrada nos Annales para o campo econômico e social, também é uma palavra de ordem herdada da geração precedente, a da grande profissionalização[435].
Carole Fink analisa minuciosamente a trajetória biográfica e intelectual de Marc Bloch. Revela que descendia de judeus da França Oriental e que seu avô – Marc (1816-1880) – e seu pai – Gustave (1848-1923) também foram professores. O primeiro lecionou e dirigiu na Escola Israelita de Estrasburgo, tendo vivido o drama da guerra, da destruição da biblioteca municipal e da ocupação alemã após 1871, quando foi obrigado a lecionar em alemão e teve suas faculdades afetadas[436]. Gustave Bloch, seu pai, foi um renomado professor de História Antiga, tendo lecionado nas Escolas Francesas de Atenas e de Roma, dez anos em Lyon, depois na Escola Normal Superior, em 1888, e na Sorbonne a partir de 1894. Discípulo de Fustel de Coulanges (1830-1889), Gustave fazia parte do círculo de judeus assimilados que, no ambiente liberal e reformista da Terceira República francesa, fez-se dreyfusard[437] e membro da Liga dos Direitos do Homem, ao lado de figuras eminentes como o filósofo Henri Bergson (1859-1941). Durante a Primeira Guerra Mundial integrou o Comitê da Liga Cívica e representou a Sorbonne na cerimônia de reabertura da Universidade de Estrasburgo, para a qual seu filho, Marc Bloch, foi nomeado professor.
O jovem Marc Bloch acompanhou de perto o drama em torno do Caso Dreyfus, que envolvia questões relacionadas com o nacionalismo, o antissemitismo e a divulgação de falsas notícias sobre o episódio, por uma imprensa que jogava com a opinião francesa. O Caso Dreyfus o fez perceber
como falsas notícias distorcem a verdade dos fatos, algo que se repetiu na Primeira Guerra Mundial[438]. Segundo Fink, isso teria despertado no jovem historiador uma preocupação com as falsificações na história[439]. Bloch estudou no Liceu Louis- Le-Grand, tendo se formado em instrução clássica (letras e filosofia) passou no baccalauréat em 1903, e depois ingressou na Escola Normal Superior, em 1904, mesmo ano em que ela foi anexada à Universidade de Paris (Sorbonne). Bloch adquiriu sua licença em 1905, mediante um estudo sobre os termos vassi e vassali nas capitulares de Carlos Magno. No segundo ano passou à orientação de Christian Pfister, um dos diretores da Revue Historique, ao lado de Monod, quando obteve seu diploma de estudos superiores com uma pesquisa “sobre a história econômica e social da região sul de Paris”[440].
Naqueles seus anos de formação os dois jovens foram influenciados por uma série de correntes intelectuais e científicas, algumas contraditórias, outras às quais se sentiam ligados de modo diferente, mas que marcaram seus trabalhos e suas orientações nos Annales. Resumidas a número de três: a escola geográfica de Vidal de La Blache, o movimento criado em torno da Revue de Synthèse por Henri Berr, enfim a sociologia durkheimiana[441].
A essas eu acrescentaria a influência dos historiadores metódicos. Em 1905 a maioria dos normalistas era protestante, situação que foi mudando bastante a partir de então com o ingresso de judeus e católicos[442]. No Collège de France ocorria o inverso: a maioria dos docentes era católica. Tal situação teria peso enorme no seu destino acadêmico futuro. Em 1908 Bloch ganhou uma bolsa da Fundação Thiers e foi passar uma temporada de estudos na Alemanha. Foi lá que começou sua pesquisa de conclusão de curso, concluída sob a orientação de Christian Pfister, tratando do desaparecimento da servidão nos arredores de Paris entre os séculos XII e XIII. Bloch fez um exaustivo estudo dos registros eclesiásticos disponíveis, realizando uma análise detalhada dos aspectos socioeconômicos da manumissão. Ou seja, dedicou-se a estudar transformações da economia rural, sobretudo nas relações senhor-camponês, tema que era bastante estudado na Alemanha, mas pouco na França. Pfister era amigo próximo de Langlois e ambos tinham relações estreitas com Bloch. As inspirações para a tese vieram dos estudos de Karl Bücher (1847-1930), amigo de Jacob Burckhardt (1818-1897) e professor em Leipzig, um dos difusores da estatística e da história econômica na Alemanha e, também, do sociólogo Émile Durkheim (1858-1917). O primeiro, em sua obra, Die Entstehung der Volkwirtschaft (A ascensão da economia nacional) trouxe um novo olhar sobre a análise da economia pré-capitalista. O segundo generalizou o recurso aos estudos comparativos e dirigiu a revista de sociologia que era lida sistematicamente por historiadores: a
Année Sociologique. Ali se aproximou de temas que o acompanhariam por toda a vida:
as formas e práticas de justiça feudal; o fim da antiga escravatura; as primeiras origens do feudalismo; o desenvolvimento dos dízimos; as características da nobreza; o papel do clero na sociedade e na economia; o desenvolvimento do comércio, da moeda e do crédito; a história da sociedade urbana de Roma à Idade Média; e os aspectos sociais e políticos da arte, literatura e arquitetura medievais[443].
Esse primeiro trabalho foi publicado na Revue de Synthèse Historique de Henri Berr, em partes, de 1903 a 1913, na coleção intitulada Les régions de la France. Ao findar a bolsa da Fundação Thiers, em 1912, obteve seu primeiro emprego no Liceu de Montpellier. Naquele momento começou a interessar-se pela formação do povo e da monarquia francesa. Outra leitura alemã teria lhe motivado alguma inspiração para essa pesquisa: Die rechtlichen Grundgedanken der franzöischen
Königskröning mit besonderer Rücksicht auf die deutschen Verhältnisse (O conceito jurídico de
1931), publicada em 1911[444], trabalho em que os ritos de coroação franceses e alemães eram investigados à luz do desenvolvimento do poder real. Bloch leu e discutiu essa obra em Montpellier, cujos apontamentos ficaram guardados em uma pasta intitulada “Notas sobre os reinados sagrados”[445]. Dela surgiu o interesse de redigir Os reis taumaturgos, de 1924, onde apontou suas divergências com Schreuer em relação ao surgimento e às características da monarquia francesa, e introduziu uma abordagem inovadora, nos estudos históricos então vigentes, a respeito das representações coletivas, conceito extraído da sociologia durkheimiana. No começo do ano seguinte lecionou também em Amiens[446], onde deu a aula sobre o texto que circulou entre os alunos, “Crítica histórica e crítica de testemunho”, um breve ensaio de metodologia da história, que realiza a tentativa de estabelecer a diferença entre o falso, o provável e o verdadeiro, assunto, diga-se de passagem, que remete à questão da crítica do perspectivismo realizada séculos antes por Johann Martin Chladenius (1710-1759) em seu Algemeine Geschichtswissenchaften, de 1752, o qual havia dedicado vários capítulos à discussão do conceito de Sehepunkt (ponto de vista). Deve-se ainda registrar que o debate sobre os testemunhos havia conhecido enormes avanços na França, em particular na Escola de Chartres, desde a publicação da obra de Jean Mabilon (1632-1707), De res
diplomática, em 1681, como reconhece o próprio Bloch[447].
Em 1914 Bloch resenhou o livro daquele que, no futuro, viria a ser seu grande amigo e parceiro, Lucien Febvre, que versava sobre sua terra natal, a Histoire de Franche-Comté. Criticou seu estilo e linguagens exuberantes, sua abordagem superficial durante o medievo e a desconsideração da identidade social na região[448]. O troco de Febvre viria no futuro, em sua ácida resenha sobre A
sociedade feudal.
A atmosfera acadêmica francesa passava por um rico momento de transformação, com a emergência de novos campos e abordagens. Com destaque tanto para a sociologia, para a filosofia, quanto para a geografia, que passaram a desenvolver inovadoras propostas que se firmaram no ambiente intelectual. Comte (1798-1857), Durkheim, François Simiand (1873-1935) e Marcel Mauss (1872-1950) se destacaram nos estudos sociológicos que tiveram forte impacto sobre toda uma geração de historiadores. Bloch e Febvre, igualmente, tiveram como leitura obrigatória o livro de economia política de Simiand[449]. Esse grupo conseguiu desvencilhar-se da forte hegemonia teutônica exercida sobre o campo. Estrasburgo sintetizava esse espírito de renovação do pensamento francês e da influência científica exercida pelos alemães. Naquele momento, Simiand desferiu um ataque mortal à historiografia tradicional, condenando os chamados ídolos dos historiadores (cronológico, individual e político)[450]. O debate acalorou-se e contou, inclusive, com intervenções de Gustave Bloch, que condenou tanto a contingência na história quanto a existência de uma objetividade absoluta. Para Carole Fink, “Bloch assumiu uma posição intermédia entre Seignobos e Durkheim, objectando contra a ‘falsa’ distinção entre o indivíduo e a sociedade, visto esta ser, simplesmente, um grupo de ‘indivíduos’”[451]. Ele valorizava o estilo de Coulanges, cuja fotografia ficava sobre a mesa do gabinete de estudos do pai. De outro, Vidal de La Blache (1845- 1918), cofundador da revista Annales de Géographie, rejeitava o determinismo geográfico alemão. Por fim, no campo da Filosofia, o pensamento do amigo de seu pai, Henri Bergson, inaugurou um forte debate com o positivismo filosófico, propondo categorias de duração, movimento,
simultaneidade, percepção e memória que teve influência em vários estudiosos e discípulos[452]. Com o início da Primeira Guerra Mundial, Bloch deixou Paris a 4 de agosto, sendo destacado como sargento no 272º Regimento, 18ª Companhia, 4º Pelotão. Embora tenha passado a maior parte do tempo longe do front, viveu alguns momentos de grande risco em Montmédy, em Larzincourt no Marne, nas trincheiras de Gurerie, estando adoentado várias vezes, tendo contraído disenteria e depois tifo, quando hospitalizou-se por mais de cinco meses, em 1915. Deslocou-se para Argonne, onde permaneceu até 1916. A 14 de dezembro seu destacamento foi transferido para a Argélia, quando percorreu Philippeville, Biskra, Constantine e Argel, tendo regressado à França somente em março de 1917[453]. Em 24 de novembro retornou para sua terra natal, na Alsácia, agora libertada em meio a calorosa e patriótica recepção, indo depois para Paris encontrar-se com sua família.