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Hand-on-training

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6.4 Hand-on-training

“Caminhar é ter falta de lugar. É o processo indefinido de estar ausente e à procura de

um próprio. A errância multiplicada e reunida pela cidade, faz dela uma imensa experiência social de privação de lugar – uma experiência, é verdade, esfarelada em deportações inumeráveis e ínfimas (deslocamentos e caminhadas), compensada pelas relações e os cruzamentos desses êxodos que se entrelaçam, criando um tecido urbano, e posta sob o signo do que deveria ser, enfim, o lugar, mas é apenas um nome, a Cidade.” (Certeau 1998, 183)

Quando questionamos a apropriação que as pessoas sem-abrigo fazem do espaço por onde passam torna-se interessante pensar como o fazem ao longo dos caminhos que tomam no seu dia-a-dia.

Assim, ao falar com os utentes do Refeitório Rosália Rendu encontrei as mais variadas formas de passar o tempo, de caminhar pela cidade, de escolha de sítios por onde passar conforme as circunstâncias em que se encontram no momento.

O senhor Marcelo, por exemplo, passa diariamente o tempo em função da sua doença (Transtorno Afetivo Bipolar, TAB), procurando espaços onde possa fazer atividade física e cultivar o lado intelectual:

“Sr. M: O meu dia-a-dia tem sido o trabalho em prol da minha saúde, atividade física

exaustiva, sempre que posso, sempre mesmo que posso então vou até lá, gosto muito da praia de Belém, gosto muito demais da praia de Belém para fazer atividade física. Tem lá parques com aparelhos de ginástica e eu faço bom uso daquele local. Bom e após, logo em seguida, eu continuo o trabalho da minha proteção de saúde, no sentido de estar numa biblioteca, num ambiente que condiz com a minha vida pessoal, com a minha personalidade. Então eu estou sempre ou numa loja de livros ou dentro de uma biblioteca a escrever e a ler alguns livros também e a meditar e mesmo a matar o tempo, matar o tempo porque envolver nessa espiral, nesse ciclo vicioso de sem-abrigo é muito prejudicial para qualquer pessoa e para mim tem o agravante da doença, pode

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até ser fatal se eu deixar essa espiral tomar conta da minha vida, não é?” (excerto da

entrevista ao senhor Marcelo)

Torna-se possível ver como, tendo esta rotina, o senhor Marcelo acaba por definir um conjunto de espaços dos quais usufrui diariamente não só para chegar aos pontos da cidade onde tem de ir para suprir necessidades (como o Refeitório, por exemplo) como também para praticar algumas atividades de lazer (desporto e leitura).

O relato do caminho que é percorrido a pé pelo senhor Marcelo permite-nos perceber como os espaços da cidade são utilizados tendo em conta as suas características, as suas potencialidades, sendo moldados por vezes para fazer face às necessidades destes indivíduos em situações vulneráveis.

Figura 6: Percurso do Senhor Marcelo

Outro percurso que é possível analisar é o do Francisco que, dormindo no Oriente aquando da entrevista, refere que tem vários mecanismos para “passar os

tempos livres”. Entre eles aponta a frequência de espaços públicos, tais como lojas de

produtos eletrónicos como a Fnac ou a Worten, bancos do jardim, estações de transportes e bibliotecas:

“F: (…) usufruo mais ou menos assim dos meus tempos livres, ou quer uma estação,

quer uma biblioteca, quer um banco do jardim. (…). Eu geralmente durante o dia frequento mais assim locais públicos para me distrair ou vou à Worten ou à Fnac,

pronto para estar entretido com um computador ou…passar os tempos livres (…)”

75 É interessante pensar aqui não só as distâncias percorridas a pé por este indivíduo (Oriente-Refeitório passando pelas lojas, bibliotecas e jardins) como também a escolha dos locais que frequenta.

Podemos, de igual modo, pensar na ideia transmitida por Francisco sobre estar entretido como sinónimo de passar o tempo, passar os dias que se fazem caminhando, indo a vários locais, experienciando os vários espaços da cidade até esgotar as horas do dia, uma vez que, ao ser sem-abrigo, não dispõe de uma casa para onde ir ao fim do dia, onde ter momentos de lazer, de privacidade, de repouso.

Ainda é possível equacionar a reação do cidadão “normal” na presença de uma pessoa sem-abrigo nestes espaços públicos. Por um lado, essa reação não deve ser excessivamente manifestada uma vez que Francisco continua a frequentar esses espaços públicos. Por outro lado, essas reações existem e fazem-se notar, pois, em conversa no Refeitório Francisco referiu várias vezes que sente que olham para ele com uma atitude de julgamento: “Hoje o Francisco falou muito sobre a forma como as pessoas o julgam

com base no seu aspeto.” (Diário de Campo, dia 29.12.2016).

Figura 7: Percurso do Francisco

Nicolay gere o seu dia-a-dia de acordo com a existência ou não de trabalho, indo do Campo Pequeno para o trabalho (que não indicou onde seria) ou para um escritório (que também não disse a localização) ou para o Refeitório.

Os espaços utilizados por este indivíduo são potenciados para a sua sobrevivência, principalmente a nível monetário, mencionando além desse facto que também passa bastante tempo em cafés, a beber café, o que nos leva a associar o

76 quotidiano de Nicolay não só ao trabalho como também a momentos de lazer, sempre experienciados fora de casa:

“N: A manhã eu vou beber café [risos], depois, depois o que é que eu faço? Não sei o

que é que eu faço…depois, quando me liga patrão, vou trabalhar, quando me não liga vou ajudar para escritório…e depois outra vez bebo café [risos] e depois vou dormir.”

(excerto de entrevista ao Nicolay)

Por sua vez, Igor que também vive numa casa no Campo Pequeno passa o dia a deambular pela cidade dizendo que não vale a pena sequer tentar procurar trabalho porque o custo que representaria para si trabalhar não compensa tendo em conta o salário que recebe:

“I: E quando trabalhas ordenado…melhor não trabalhar… [risos] acho eu ou trabalhar

e ganhar normal. (…) Eu, último trabalho trabalhar um ano e não resultar, ou trabalhas ou não trabalhas é igual, mais ou menos.” (excerto de entrevista ao Igor)

Refere também como vai vendo o tempo passar enquanto caminha pela cidade, registando-se, aqui, mais uma vez a questão do tempo e do caminhar como ocupação principal do quotidiano numa apropriação do espaço da cidade que se dá precisamente para ver o dia ir passando, entre passeios e atividades de lazer e convívio com amigos em caminhos e locais escolhidos para o efeito:

“I: Andar [risos] (…) Não faço nada…não muito procurar trabalho… (…) O tempo

passa…” (excerto de entrevista ao Igor)

Analisando o quotidiano do senhor Mário encontramos também a referência a alguns espaços que usufrui para ir passando o tempo, uma vez que também não tem um trabalho com que se ocupe.

Fala das distâncias percorridas e do convívio com vários “colegas” em locais como as Galinheiras e a Ameixoeira, refere como se entretém em espaços públicos como cafés, como vai até à farmácia e ao Pingo Doce e, tal como os outros utentes com quem falei foca também a questão de passar o tempo:

“Sr. M: Aaaaah convivo com um colega assim, às vezes vou à Ameixoeira, outras vezes

vou às Galinheiras. Convivo, passo o dia-a-dia, ou entretenho-me num café ou…não, bebidas alcoólicas não…não bebo, é muito difícil. Não quer dizer que às vezes não me

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junte com um amigo ou outro mas…passo o dia no café, assim a ver televisão, mais a passar o tempo.” (excerto da entrevista ao senhor Mário)

Figura 8: Percurso do senhor Mário

Jallah caminha todos os dias de Sete Rios (onde dorme) até ao Refeitório e diz que gosta de ir a bibliotecas para ler. Conseguimos ver no seu discurso que também costuma frequentar estações de metro e de autocarros e que já esteve em outros refeitórios antes, nomeadamente o Refeitório do Gerês e um outro no Cais do Sodré.

Neste quotidiano onde a deambulação por Lisboa está muito presente e onde, neste caso, a dormida se faz na rua é possível encontrar uma apropriação dos vários espaços por onde se passa para realizar as tarefas associadas à casa: no Refeitório toma banho e come e nos caminhos que vai fazendo vai passando o dia:

“J: Nada, sim como sempre: vai passear um pouco, depois vem à Irmã e aqui come,

janto, depois vai passear e arrumar e um pouco, como sempre…” (excerto da entrevista

a Jallah)

Continuando esta análise que interliga os caminhos quotidianos das pessoas sem-abrigo com a sua apropriação dos espaços da cidade numa relação de “habitar” a cidade, deparo-me com o dia-a-dia de mais um utente que vive na Vitae – o Yassine.

Todos os dias faz, a pé, o caminho entre Xabregas e o Refeitório (Campo Grande) passando sempre por um jardim e calculando sempre o tempo que demora a percorrer essa distância, de modo a não chegar atrasado ao Refeitório e a poder caminhar com calma:

78 “Y: Venho a pé, saio lá de Xabregas, vou calmamente dar uma volta até ao jardim e

depois venho aqui a pé, devagarinho, quando chegar aqui é 11h30, 12h, já está.

(excerto da entrevista a Yassine)

Yassine, ao manter uma rotina que o leva de um ponto da cidade ao outro consecutivamente, diariamente, quotidianamente acaba por demarcar a cidade face às suas necessidades, face à sua pessoa e ao caminho por si escolhido apropriando-se dos vários espaços envolventes a esse caminhar do dia-a-dia.

É ainda salientado por Yassine a procura diária de trabalho, bem como a ideia de que ao encontrar um trabalho e alguma estabilidade deixará de frequentar o Refeitório, tal como já aconteceu anteriormente quando se encontrava empregado.

Figura 9: Percurso de Yassine

Torna-se, assim, possível constatar a forma como estas pessoas sem-abrigo utilizam o espaço público para cumprir as funções que a casa teria. Encontramos claramente um conjunto de atividades que normalmente seriam realizadas em casa e que, ao não existir essa possibilidade, são realizadas nos espaços que a cidade dispõe e dos quais estes indivíduos se apropriam, moldando-os tendo em conta as necessidades que vão tendo e as atividades que vão desempenhando.

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