3.2 Subsequent Security Council practice
3.2.5 Haiti
A proposta de Bisol (1992) é baseada no modelo métrico de Halle e Vergnaud (1987) e também na Fonologia Lexical. De acordo com Bisol, as regras do acento que operam sobre nomes são as mesmas que operam sobre os verbos, contudo, há diferença quanto ao domínio de aplicação destas pois, nos nomes o acento é cíclico mas nos verbos não, como afirma: (1992, p. 20):
Em não-verbos, as regras de acento operam a partir da palavra não- derivada e voltam a operar a cada introdução de um novo morfema, durante todo o processo derivativo, como regras cíclicas; em verbos, as regras somente operam quando a palavra já está pronta, caracterizando-se como não-cíclicas. (BISOL, 1992, p. 20)
Essas regras são descritas em forma de algoritmo por Bisol (1992, p. 69) da seguinte maneira:
Regra do Acento Primário: Domínio: a palavra
i. Atribua um asterisco (*) à sílaba pesada final, i.e., sílaba de rima ramificada. ii. Nos demais casos, forme um constituinte binário (não-iterativamente) com proeminência à esquerda, de tipo (* .), junto à borda direita da palavra.
Segundo o item i., o português brasileiro é uma língua sensível ao peso silábico, mas esse peso se restringe à sílaba final. Um dos argumentos que sustentam a tese de sensibilidade ao peso dado por Bisol (1992) é que 78% das palavras terminadas em consoantes são oxítonas6. Logo, as oxítonas terminadas em sílaba pesada atraem o acento e se constituem em formas não-marcadas.
Um outro padrão não-marcado, segundo Bisol (1992), são as palavras paroxítonas, sobre as quais incide o acento na segunda sílaba, partindo-se da borda direita da palavra – exceto se a primeira for pesada. Assim, temos os seguintes exemplos de formas não-marcadas segundo Bisol (1992, p. 71-3):
i. A sílaba pesada final atrai o acento: (*) (*)
po.mar tro.féu
ii. O acento incide na segunda sílaba, partindo da borda direita da palavra.
(* .) (* .) Ka za pa re de
Quanto às palavras oxítonas terminadas em vogal, a autora lhes dá um tratamento semelhante ao dado às oxítonas terminadas em consoante pois essas palavras, para a autora, são portadoras de uma consoante abstrata na sílaba final, o que as torna sensíveis ao peso.
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Assim, palavras como café, jacaré são interpretadas como cafeC, jacareC e exibem um comportamento semelhante ao das terminadas em consoantes no que concerne à aposição do sufixo diminutivo, ou seja, todas optam pela forma
-zinho em detrimento de –inho, como podemos ver nos exemplos abaixo: a) cafeC --- cafezinho b) pomar --- pomarzinho
Uma outra fonte de evidências de existência de uma consoante abstrata na sílaba final, segundo Bisol (1992), são palavras derivadas em que a consoante final, quando da ressilabação, deixa a posição de coda e se tornam ataques, como em cafeC / cafeteira, tricôC / tricotar.
Comportamento idêntico é exibido por palavras monossilábicas como pá, pé, fé, ré, nó etc. que são interpretadas como paC, péC, feC, reC, noC respectivamente.
Por outro lado, as formas marcadas são constituídas pelas palavras proparoxítonas e pelas paroxítonas terminadas em sílaba pesada, como em
(* .) (* .) Ar.vo.<re> e u. ti <l>
Observe que a autora marca com o diacrítico da extrametricidade a última sílaba da palavra árvore e a coda silábica da palavra útil. A extrametricidade é um recurso utilizado para tornar uma sílaba, mora ou segmento invisível à regra de acento e essa marca, nos nomes, indica uma exceção à regra.
No exemplo de ar.vo.<re>, com a última sílaba marcada como invisível à aplicação da regra do acento, é formado um constituinte binário com cabeça à esquerda, junto à borda direita da palavra que, neste caso, passa a ser a sílaba vo.
No exemplo de ú.ti.<l>, a coda silábica não é “enxergada” pela regra de acento e, sendo a primeira sílaba interpretada como leve, o acento incide sobre a segunda sílaba, partindo da borda direita.
Nos verbos, a extrametricidade é aplicada obedecendo-se à seguinte regra (BISOL, 1992, p. 78):
A extrametricidade em verbos Marque como extramétrica:
i. A sílaba final da primeira e da segunda pessoa.
ii. Nos demais casos, marque a consoante com status de flexão.
Como exemplo do item i., podemos citar a forma (* .)
Fa.la.va <mos>
E como exemplo do item ii., podemos citar (* .)
Fa.la.<N>
Como podemos ver, a autora se vale excessivamente da extrametricidade para garantir que as mesmas regras possam ser aplicadas tanto em não-verbos quanto em verbos.
Uma outra observação que fazemos aqui diz respeito à postulação de uma consoante abstrata que Bisol afirma existir em posição de coda em palavras oxítonas terminadas em vogal. Uma das evidências indicadas pela autora é o fato de palavras como café optarem pela forma –zinho no diminutivo ao invés de –inho.
No nosso entender, essa evidência mostrada pela autora não é cabal porque, como bem argumenta Lee (1995, p. 147), o sufixo –zinho é empregado em palavras possuidoras de marcador de palavra, como é o caso de número/numerozinho e pérola/perolazinha, e também em palavras desprovidas desse marcador, como é o caso de café/cafezinho e robô/robotizar. Lee também cita o exemplo de palavras terminadas em ditongo, como em judeu, plebeu cujo acento se localiza na última sílaba, mas que também empregam o sufixo –zinho quando da formação produtiva: judeuzinho, plebeuzinho.
Uma outra evidência postulada por Bisol é o fato de essas mesmas palavras oxítonas possuírem uma consoante abstrata quando elas derivam, como por exemplo as palavras cafeC – cafeteira e tricoC – tricotar. O par cafeC – cafeteira serve como evidência, porém, quanto ao segundo, podemos observar que a consoante t já existia na coda da palavra original francesa e foi aproveitada quando da criação do verbo tricotar em português. Portanto, ao invés de ser uma consoante abstrata, ela simplesmente foi aproveitada do próprio étimo, conforme o costume do aportuguesamento da tradição gramatical do português brasileiro.
Seguindo esse raciocínio, consideremos a palavra sofaC: certamente que existe sofazinho, mas dificilmente podemos aceitar sofazada, sofateiro, sofadeiro. Por outro lado, uma palavra derivada de cajuC não é cajuzeiro, conforme Bisol postula, mas sim cajueiro.
Por fim, Bisol (1992) também postula uma consoante abstrata na coda de palavras monossilábicas tônicas a fim de satisfazer a exigência da síndrome da palavra mínima segundo a qual os monossílabos são tônicos quando são constituídos por uma sílaba pesada. A autora cita a título de exemplo monossílabos como peC, feC, paC, noC, cuja consoante abstrata da coda se torna ataque na ressilabação.
Assim, segundo Bisol (1992),
paC – pazinha, pazada
peC – pezinho, pedal, pezada, pedestre Porém:
nuC – nuzinho, nuinho
Pelos exemplos dados acima, podemos concluir que alguns monossílabos aceitam os dois sufixos, como é o caso de nuC (–nuzinho, nuinho), o que nos permite afirmar que não existe consoante abstrata da coda que se torne ataque na ressilabação.