6. MATERIALS AND METHODS
6.2. H OUSEHOLD SAMPLING AND SAMPLE SIZE
A discussão sobre o conceito de verdade tem uma longa trajetória, extraordinariamente em sua expressão ocidental. Heidegger, em grande medida, vinculado a essa tradição, dá um grande valor a essa discussão, ocupando-se contundentemente na abordagem sobre a verdade.
Sabe-se que o filósofo Platão (427 – 374 a.C.), discípulo de Sócrates, suscitou, no seu diálogo A República, um confronto que se tornou decisivo, pelas implicações filosóficas que encerra, entre arte e realidade. Levando em conta o caráter representativo da pintura e da escultura, o filósofo conclui, nesse diálogo, não só que essas artes estão muito abaixo da verdadeira beleza que a inteligência humana se destina a conhecer, como também que, em comparação com os objetivos da ciência é supérflua a atividade daqueles que pintam e esculpem. “Portanto, a arte de imitar está bem longe da verdade, e, se executa tudo, ao que parece, é pelo fato de atingir apenas uma pequena porção de cada coisa, que não passa de uma aparição”242. Deste modo, a pintura não é a imitação da realidade, mas uma imitação da aparência. Platão dá aos poetas uma posição privilegiada, separando-os dos artífices, tanto os artesãos, propriamente ditos, quanto os pintores e escultores, que trabalham com as mãos, usando a matéria. De todas as artes, a poesia é a que maior afinidade tem com a inteligência e a que mais se aproxima do objeto da atividade teórica do espírito.
A arte, nesta estrutura de pensamento, é vista como a imagem de uma imagem. Ela transmite apenas impressões, não conduzindo mais ao verdadeiro. Fato que o leva a separar tais atividades da própria poesia, já que, segundo Platão, a poesia toma uma forma privilegiada, se situando no domínio das revelações místicas e filosóficas. Pintura e escultura, por outro lado, seduzem os indivíduos pela sua falsa beleza, desviando-os da contemplação intelectual do verdadeiro e do bem. Nunes assinala que Platão suscitou três ordens de problemas acerca das artes em geral. A primeira abrange a questão da essência das obras pictóricas e escultóricas, comparadas com a própria realidade; a segunda, a
241 LUZ, A. Op. cit., p. 99. 242 PLATÃO. A república, p. 296.
relação entre elas e a beleza; e a terceira, finalmente, diz respeito aos efeitos morais e psicológicos da música e da poesia243. Dentro de tal contexto, para Nunes, a atividade artística não fica isolada do problema mais geral da realidade e do conhecimento, isto é, do sentido da beleza e da vida psicológica e moral. Vale explicitar a importância de Platão, posto que teve o mérito de transformar em problema filosófico a existência e a finalidade das artes. Com efeito, já não bastava mais a simples fruição da pintura, da escultura e da poesia. Agora, elas também passam a construir o objeto de investigação teórica. É o pensamento racional que as interpela sobre o seu valor, sua razão de ser e o seu lugar na existência humana. “A forma como a estética considera antecipadamente a obra de arte está sob o domínio da interpretação tradicional de todo o ente enquanto tal”244. Os ilusórios conceitos habituais devem ser postos de lado.
A verdade, para Platão, é concebida como adequação do enunciado à coisa, materializando, desta maneira, a teoria da verdade como correspondência. Esta é a conceituação tradicional da verdade. Tal maneira de entender a verdade é determinada pela proximidade com o objeto a que o ser humano se refere e ao qual ele pensa. Heidegger tenta superar essa visão, mostrando que só é possível a aplicação do sentido de adequação do enunciado à coisa, quando a coisa já se desvelou para nós. A verdade não é algo do qual o indivíduo pode estar certo num sentido cartesiano; a verdade válida para todos os tempos e lugares. O Cogito, então, como certeza se aplica para todos os lugares e todos os tempos. Dizia René Descartes: “todo o meu intuito tendia, ao contrário, a me certificar, a afastar a terra movediça e a areia, para descobrir a rocha e a argila”245. Assim, depois de passar por todo um processo de dúvida, Descartes chega ao Cogito como fundamento de tudo: penso,
logo existo. Esse é o ponto principal para as suas construções e a base para se fazer ciência.
Em Ser e tempo (Sein und Zeit), Heidegger sintetiza o conceito tradicional da essência da verdade, a saber: 1 - o “lugar” da verdade é a proposição (o juízo); 2 - a essência da verdade reside na “concordância” entre o juízo e seu objeto e; 3 - Aristóteles, o pai da lógica, não só indicou o juízo como o lugar originário da verdade, como também colocou em voga a definição da verdade como concordância. Para o filósofo, a proposição é verdadeira quando descobre o ente em si mesmo, ou seja, quando “deixa ver” o ente em seu ser ao estar descoberto. A verdade não possui a estrutura de uma concordância entre
243 NUNES, B. Introdução à filosofia da arte, p. 8. 244 HEIDEGGER, M. A origem da obra de arte, p. 30. 245 DESCARTES, R. Discurso do método, p. 39.
conhecimento e objeto, no sentido de uma adequação entre um ente (sujeito) e um outro ente (objeto)246. Heidegger propõe, por conseguinte, a volta à tradição mais antiga do pensamento grego de alétheia – desocultação. Com efeito, a verdade, para Heidegger, não se mostra no juízo, mas no Seinlassen des Seienden – no “deixar-ser” do ente.
Assim, o verdadeiro, seja uma coisa verdadeira ou uma proposição verdadeira, é aquilo que está de acordo, que concorda. Se verdadeiro e verdade significam, aqui, estar de acordo, podemos pensar nesta dinâmica de duas maneiras. De um lado, a concordância entre uma coisa e o que dela previamente se presume, e de outro lado, a conformidade entre o que é significado pela enunciação e a coisa. Este duplo caráter da concordância traz à luz a definição tradicional da essência da verdade, Veritas est
adaequatio rei et intellectus. Isto pode significar: verdade é a adequação da coisa com o
conhecimento. Mas pode se entender também assim: verdade é a adequação do conhecimento com a coisa. Ordinariamente, a mencionada definição é apenas apresentada pela fórmula: veritas est adaequatio intellectus ad rem247. Contudo a verdade assim entendida, a verdade da proposição, somente é possível quando fundada na verdade da coisa, a adaequatio rei ad intellectum. Estas duas concepções da essência da veritas significam um conformar-se com, ou seja, a verdade é pensada como conformidade.
Este tratamento do termo, como assinala Heidegger, incorre num duplo erro. Primeiro, que o sujeito, enquanto condicionado historicamente e encoberto pela história da compreensão do ser na tradição filosófica, não pode se estabelecer como medida da verdade. O segundo erro da compreensão de verdade vigente na metafísica tradicional reside no fato de que ela ignora a ocultação como sendo essência da verdade. Para Heidegger, a verdade não deve ser discutida nem concebida apenas como qualidade de proposições verdadeiras ou falsas, enunciadas pelo sujeito sobre o objeto, mas numa perspectiva muito mais ampla, como condição de possibilidade de tais proposições, como “verdade originaria”248. A essência da verdade, concebida nesta construção, é antepredicativa, antecedendo e possibilitando enunciados falsos e verdadeiros. A busca pela verdade, para Heidegger, “não é uma busca pela certeza sobre aquilo que já sabemos
246 HEIDEGGER, M. Ser e tempo, p. 287. 247 Idem. Sobre a essência da verdade, p. 22.
248 Cf. STEIN, Ernildo. Seminário sobre a verdade: lições preliminares sobre o parágrafo 44 de Sein und
ou cremos, mas uma busca pela descoberta de âmbitos ainda desconhecidos”249. O que designamos por verdadeiro é apenas um ponto de vista parcial sobre a ve rdade. Não há verdade imutável, há somente verdades temporais que se nos constituem e que descobrimos na história.
Neste aspecto, verdade já não contrasta com falsidade, uma vez que proposições podem ser verdadeiras ou falsas. Todavia, as proposições consideradas falsas trazem em si um âmbito de verdade aberto, tanto quanto as proposições verdadeiras. Por isso, “verdade deve pensar-se no sentido da essência do verdadeiro. Pensamo-la, diz Heidegger, a partir da evocação da palavra dos gregos alétheia, que quer dizer a desocultação (Unverborgenheit)”250. Fica claro, neste ponto, que ‘verdade’ não é uma característica de uma proposição, conforme enunciada por um ‘sujeito’ relativamente a um ‘objeto’ e que, então, ‘vale’ não se sabe em que âmbito: a verdade é o desvelamento do ente graças ao qual se realiza uma abertura. Por outro lado, a não-verdade é o velamento do ente. A não-verdade parte da mesma essência da verdade, já que o desvelar traz em seu bojo a dissimulação. Se o ente não fosse dissimulado, não erraríamos na visão das coisas e na nossa ação sobre elas. “Desvelamento do ser é o que primeiramente possibilita o grau
de revelação do ser. Este desvelamento como verdade sobre é chamada verdade
ontológica”251. Sob o império da evidência deste conceito de essência de verdade, mal meditada em seus fundamentos essenciais, admite-se como igualmente evidente que a verdade tem um contrário e que há a não-verdade.
A não-verdade da proposição (não-conformidade) é a não-concordância da enunciação com a coisa (inautenticidade) significa o desacordo de um ente com sua essência. A não-verdade pode ser compreendida cada vez como não estar de acordo. Isto significa estar excluído da essência da verdade. É por isso, que a não-verdade, enquanto pensada como parte contrária da verdade, pode ser negligenciada quando se trata de apreender a pura essência da verdade 252.
Logo, para Heidegger, a não-verdade deve, antes pelo contrário, derivar da essência da verdade. É pelo fato de a verdade e a não-verdade não serem indiferentes uma à outra em suas essências, mas copertencerem, que, no fundo, uma proposição verdadeira
249 INWOOD, M. Dicionário Heidegger, p. 197. 250 HEIDEGGER, M. A origem da obra de arte, p. 40.
251 Idem. Sobre a essência do fundamento; a determinação do ser do ente segundo Leibniz; Hegel e os
gregos, p. 37.
pode se encontrar em extrema oposição com a correlativa proposição não-verdadeira253. Por isso, a questão da essência da verdade atinge, somente, o domínio original do que realmente é perguntado, quando à vista prévia da plena essência da verdade permite englobar também a reflexão sobre a não-verdade no desvelamento da essência da verdade. Vale salientar que, para Heidegger, só há verdade até onde e enquanto o Dasein existe – do mesmo modo que só há ser havendo Dasein. pode-se interpretar essa correlação no sentido de que o ser humano, como sujeito, cria e constitui o verdadeiro. Onde a arte se encaixa nesta teoria? De acordo com Heidegger, a arte é verdadeira no sentido de revelação. Ela nos contrasta, colocando em suspensão um mundo dado e desvela outras possibilidades de compreensão do mundo. Segundo Gianni Vattimo,
É necessário substituir a noção de verdade como conformidade da proposição à coisa por uma noção mais abrangente, que se funda no conceito de Erfahrung, de experiência como modificação que o sujeito sofre quando encontra algo que tem de fato relevância para si. Pode-se dizer que a arte é experiência de verdade se é experiência autêntica, isto é, se o encontro com a obra modifica realmente o observador254.
Neste aspecto, a experiência estética é só um efeito derivado da verdade da obra que os seres humanos participam, já que ela força-os a ver o mundo através do que ela abre.