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2.7 H EAT S OURCE : H EAT P UMP

Semiosessincrometabólicas é um termo híbrido inventado pelo autor deste trabalho sob a forma de teoria de artista. Conflui aspectos conceituais referenciados em campos distintos tais como a Biologia e a Semiótica para subsidiar a reflexão, a estetização interpretativa e a produção artística correlacionadas no processo de trabalho realizado nos últimos 15 anos desde os primeiros registros da idéia, intuída entre os anos de 1998 e 2000.

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Ao considerar-se a biossemiose como fenômeno inerente à vida, isso revela a interação na qual os signos produzem efeitos no substrato corporal. Trata-se inicialmente do processo de interpretação/tradução em organismos vivos, pressupondo que a vida possui, além do substrato corporal, um dinamismo semiótico que participa em algum sentido, das leis e funções biológicas por sua vez existentes no contínuo compreendido entre o surgimento, a funcionalidade e o encerramento dos ciclos sistêmicos.

A vida abrange a semiose como a ação de signos onde um signo é, como já visto nos termos peirceanos, o surgimento de um primeiro ou representamen que realiza (por um código ou hábito) uma relação com um segundo (seu objeto) a fim de determinar um terceiro, seu interpretante. Nesse ciclo, o interpretante (que por sua vez leva ao representamen) efetiva assim a ação significativa (potencial ou concretamente) para que o seu efeito afete (transforme ou modifique) algum organismo, em se tratando de biossemiótica. Embora esta noção de semiose esteja situada no campo mais estrito da ação significativa relativa ao organismo, ela diz respeito também à relação entre as partes do processo semiótico e a funcionalidade do organismo como um todo e a biofísioquímica das suas partes. O efeito ou afecção é a diferença que faz a diferença para o intérprete. O intérprete, sendo um organismo ou a parte de um organismo, é afetado pela diferença da diferença sendo nesse sentido um processo signific(ativo) ou seja, ao fazer a diferença significativamente, os efeitos sobre o organismo (ou partes) não podem ser meramente físicos porque a diferença quando acontece, manifesta-se enquanto conteúdo potencial que pode ser determinante para o organismo em questão, como no caso por exemplo, da busca pelo alimento ou pelo acasalamento, o que significa dizer enfim que as chances de sobrevivência e/ou reprodução desse organismo são afetadas pela sincronia do metabólico e do semiótico das semioticossincrometabólicas. Claro que, em níveis mais altos de organização, processos semióticos relacionados aos fenômenos mais cotidianos da existência propriamente humana - ou essencialmente (antropo)semióticos - podem ocorrer sobre determinadas funções que apenas indiretamente pressupõem a biofuncionalidade. Por exemplo, a internet e o exponencial crescente de suas funções conectando quase todos os computadores em enormes bibliotecas físicas e virtuais pode ser visto como uma extensão das semiosessincrometabólicas relativamente aos fatores biofuncionais pressupostos nas dimensões linguísticas, lógicas, sociológicas... plasmadas nos cérebros e organismos humanos ao interagirem com as redes. Nesse sentido semiosessincrometabólicas são extensíveis ao inumano.

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Se não houvessem as partes funcionais do organismo para contribuírem na sua manutenção como um todo (onde cada parte é resultado evolutivo que leva ao aprimoramento de si e das outras partes) não haveriam ações de signos. Neste sentido, o caráter funcional do signo e a biofuncionalidade dos organismos estão intrinsecamente encerrados num sistema relativamente aberto estabelecido enquanto fenômeno semiótico. Como um fenômeno emergente imperfeito, o encerramento (circunscrição) das operações entre partes de organismos é produtor das diferenças que fazem as diferenças para as partes, bem como para todo o organismo. Assim, ligações (endo)semióticas podem ser analisadas como ligações causais entre as peças de funcionamento que regulam a máquina orgânica do corpo pela ação semioticossincrometabólica que permeia o humano e o inumano.

Mas poderia surgir a objeção: porquê se pensar o caráter semiótico das propriedades sistêmicas dadas nas relações funcionais dos substratos inorgânicos que incorporam a vida? Inicialmente, é possível colocar outras questões que se pretendem respostas: Em qual(is) instância(s) a natureza assume hábitos tão complexos que permitem a existência do sentimento de vida? E outra: Como se mantêm estáveis as rotinas que sustentam qualquer complexidade mínima de um sistema, enquanto esse não se degenera espontaneamente mas ao contrário, se complexifica ainda mais pela evolução em aberto, como se houvesse um código-script interno capaz inclusive de dotar experiência estética ao organismo?

O filósofo dinamarquês Claus Emmeche (1956-) amplia esta problemática, enfocando a relação intervalar do contínuo evolutivo a partir do surgimento da vida, e de uma ‘codificação’ que revela o substrato semiótico que está relacionado ao que poder ser referido como a ‘organização do orgânico organísmico’ à qual segue o ponto de vista semioticossincrometabólico.

A natureza endossemiótica do código é o fato de que ele bioquimicamente encarna um mapeamento definido internamente, de um espaço de seqüência de nucleotídeos, para um espaço de seqüência de proteínas dentro do sistema. Se não houvesse nenhum código (e memória) deste tipo, não haveria suficiente especificidade bioquímica e informação na estrutura fechada das reações. Isto pode estar relacionado a aspectos desconhecidos da complexidade, devido à falta de conhecimentos atuais sobre os tipos primitivos de metabolismos cobrindo o continuum: sem vida - vida primordial - vida. (EMMECHE, 2000, p.11).

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Assim, nota-se que semiosessincrometabólicas pressupõem conceituações prévias do campo da biossemiose e condensam pressupostos tais como a funcionalidade, lembrando que funcionalidade aqui é vista no encerramento (ou conjunto sinérgico) das interações entre signos e susbstratos fisiológicos e/ou inorgânicos, o sinequismo (continuidade) a abdução (falibilidade) entre outros que, conjugados no sentido do termo, imprimem-lhe seu traço (a)sistêmico.

O organismo protótípico deste fenômeno é uma única célula. Suas partes formam a rede (endo)semiótica que a abrange enquanto conjunto encerrado por uma membrana capaz de de trocas sinergéticas pela ação dos signos.

1.1.10- Umwelt

Jakob von Uexküll (1864-1944) foi um biólogo e filósofo estoniano que criou o conceito de Umwelt, como uma espécie de mundo perceptivo próprio dos animais e que permite a eles interagirem semioticamente com o mundo exterior ou ‘ambiente’, percebido através de suas interações ‘fenomenais’ (UEXKÜLL, 1982). Criado em 1909, o conceito estabelece o espectro de posições que o organismo pode ocupar na esfera biológica, podendo ser definido como o seu mundo semiótico, ou o aspecto fenomenal do ambiente selecionado pelo seu equipamento sensório-motor, de acordo com suas necessidades e por extensão, das necessidades interativas da espécie. Sob o ponto de vista do Umwelt, o organismo constitui-se na tessitura semiótica que o compreende no ambiente.

Nas possíveis aproximações entre os conceitos de Umwelt, habitat e nicho, propõe-se a distinção pela qual o habitat objetivo (ambiente externo) do organismo possa ser descrito por um observador, enquanto o nicho do organismo se dá como função ecológica da espécie em dado ecossistema e o Umwelt - mundo por ele experienciado - se perfaz na ‘paisagem semiótica’ (EMMECHE, 2006) sobre a qual os ambientes são estruturados a partir de ‘nichos cognitivos’.

Em ecologia, o conceito de nicho ecológico é descrito como a posição que uma espécie, ou uma população, ocupa no ecossistema. Esse conceito inclui, além do espaço físico em que atua o organismo, seu papel funcional na comunidade e sua posição nos gradientes ambientais (temperatura, ph, solo, etc.). Estas ideias têm importantes implicações, se estiver correta a suposição de que estamos imersos em processos e estruturas semióticas (CLARK apud QUEIROZ, 2010, p. 8).

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Esse mundo particular ou Umwelt de acordo com Uexküll é como uma ‘bolha representacional’ invisível na qual os seres vivos estão inseridos. Ela é invisível para os observadores externos porém encerra o mapeamento que todo ser vivo precisa ter para se manter vivo (UEXKÜLL, 1982). Nesta ‘bolha’ são agenciados semioticamente os processos fenomênicos que fazem a mediação entre o organismo e o mundo objetivo. Assim, a teoria de Uexküll reconhece a realidade fenomênica externa ao organismo- sujeito e que atua influenciando-o. Por isso, nos animais que têm maior capacidade de aprendizagem, pode ser observada uma ‘dilatação’ do Umwelt (VIEIRA, 2010) que os levam a uma compreensão (ou maior capacidade de interação) da realidade cada vez mais complexa, mediante a qual aprimoram seus processos de adaptação. Isso significa potencialmente uma maior capacidade de sobrevivência em resposta às demandas adaptativas em um meio ambiente caracterizado por mudanças permanentes.

Ao imaginar-se o Umwelt de uma bactéria ou de uma samambaia segundo a perspectiva de Uexküll observa-se por exemplo, que seus níveis de complexidade são menores do que o Umwelt dos humanos. Contudo, essa ideia não pretende hierarquizar as espécies conforme os diferentes níveis de interação mas sim fazer perceber que cada indivíduo, ao viver em seu mundo próprio, experimenta uma tessitura construída com traços selecionados (singularizados) da realidade.

Nesse sentido, para a espécie humana, o que surge como adaptabilidade e conhecimento aparentemente ‘sem objetivo’ porém mais elaborado em relação às outras espécies é uma ‘dilatação’ do Umwelt que através da intersubjetividade significa uma construção da espécie e não propriamente de um individuo hierárquico no escopo das interrelações entre organismos.

Entretanto, esta mesma abordagem é válida para a bactéria ou para a samambaia, visto que assim como os humanos, estes organismos lidam apenas com os traços selecionados para o(s) e no(s) seu(s) mundo(s) próprios, o que do ponto de vista semiótico proposto pela abordagem da Umwelt, os nivelam funcionalmente.

Segundo Uexküll, nessa ligação entre organismos no qual se incluem os sujeitos humanos e a realidade ambiental acessada pelo processo semiótico, a teoria do Umwelt traz a noção de Plano da Natureza, pela qual se pensa uma “perfeita complementaridade entre o

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aparato biológico do ser vivo e a Realidade” (SOUZA&KUBOTA, 2012, p.58). De acordo com Thure von Uexküll1(1908-2004):

O cérebro, em uma análise final, é um órgão criado pela natureza para perceber natureza. Natureza pode ser comparada com um compositor o qual ouve o seu próprio trabalho [...] Isto resulta numa estranha e recíproca relação entre natureza, a qual criou o homem, e homem, quem, não somente em sua arte e ciência, mas também em seu universo experimental, criou a natureza (UEXKÜLL, 2004, p.281).

Por fim, cabe relembrar que Uexküll elaborou sua teorização baseada numa visão semiótica dos fenômenos, o que o levou a desenvolver uma concepção própria de signo na qual signo = portador de significado + utilizador de significado. Essa formulação procura explicar as complementaridades entre todos os elementos de uma relação sígnica ‘funcional’ e define o conceito do significado para explicar o signo a partir do ponto de vista biológico, remetendo-o a todo e qualquer relacionamento entre animais e mundo não vivo (SOUZA&KUBOTA, 2012).

Assim, de acordo com Jakob von Uexküll, essa coincidência entre os traços portadores de significado e o atributo funcional que estaria expresso na complementaridade entre o aparato biológico do ser vivo e a Realidade, seria então a concretização do Plano da Natureza, segundo o pensamento de Thure von Uexküll.

Entretanto, ainda que essa percepção subjetiva do mundo possa não ser exatamente idêntica a uma realidade ‘ontológica’, na maioria das vezes deve ser coerente com essa realidade visando a garantir a sobrevivência dos organismos.

Vistas as concepções arroladas acima, observa-se que a Semiótica de linhagem peirceana subsidia o surgimento de muitos termos-conceitos aqui utilizados não para fins de classificação, mas sim para subsidiar a ampliação da abordagem, na realidade mais interessada nos aspectos fenomênicos e processuais das ocorrências que relacionam

1 Médico alemão, precursor da biossemiótica e filho de Jakob von Uexküll a quem dedicou o estudo e a divulgação do seu pensamento.

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signos linguísticos e extra linguísticos e o conjunto destes à diversidade das experiências compreendidas no processo artístico aqui trabalhado.

Assim, ao buscar-se explorar mais seu viés fenomenológico, conceitos semióticos são traduzidos como conteúdos de arte. Nessa apropriação, não se trata de discutir comparativamente semióticas ou desenvolver um estudo temático sobre o assunto mas de exercitar inclusive, sua reinterpretação poética seguindo o que está implícito no entendimento da semioticista Lucia Santaella quando esta sugere que a Semiótica provê “um esquema analítico sistematicamente desenvolvido que se torna disponível ao uso e incorporação de qualquer disciplina particular, especialmente por aquelas que têm como objeto de estudo fenômenos de natureza interpretativa, comunicativa, ou semiótica” (SANTAELLA apud RECTOR, 1986, p. 185). É nesse sentido que tais constructos estão aqui aproximados e/ou inter-relacionados e subsidiarão as elaborações poético- narrativas que apresentarão analiticamente, as obras representativas da produção artística abordada.

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