2 RADIANT HEATING TECHNOLOGY
3.5 D ATA P ROCESSING AND E RROR A NALYSIS
Traduzir não é nem uma representação, nem uma reprodução, nem comunicação. É um compromisso, uma responsabilidade como a responsabilidade de quem possui uma dívida. Qual dívida? Aquela que o tradutor herda, pois o tradutor é o herdeiro de uma semente a qual ele deve fazer disseminar (DELAIN, 2005). Para isso, ele pode manter a restituição de um sentido, já que o retorno deste sentido é impossível e nesse trabalho de restituição, o tradutor-herdeiro vai ainda mais longe; ele deve contribuir para o amadurecimento do que é traduzido fazendo com que este viva mais e melhor.
Cada tradução é um evento único, uma performance, e para que a tradução aconteça ela precisa em um dado contexto e em princípio, de um tradutor que é um sujeito humano ou maquínico, do objeto a ser traduzido e do leitor da tradução. Aqui o objeto vai além da forma textual e o leitor pode ser o próprio sujeito tradutor. O que persiste é a impossível substituição do termo e da tessitura da qual ele faz parte mas, o tradutor buscando o impossível pretende manter esse suporte, mesmo essencialmente desprovido do poder de
41
recriar ou substituir. Contudo a tradução e o tradutor fazem o trabalho sobreviver, mesmo impossibilitados de localizarem os termos de sua sobrevivência.
No processo da tradução, a importância do texto original em relação ao traduzido é incontestável e estabelece a dicotomia pela qual pode se pensar que a não fidelidade ao texto original transgride a expectativa de que o traduzido seja um espelho do original. Esse evento coloca em suspeita a distinção entre o original e o traduzido e anuncia sua relação com o pensamento metafísico que, como pano de fundo reafirma a tradição que em geral aponta para a busca da origem e/ou de um ponto inicial mais anterior onde tudo começaria. Por isso, a busca pela origem e sua suposta localização sustenta a legitimidade do ato de traduzir e mesmo assim, quanto mais ‘legítima’ seja a tradução, na medida em que mais se aproxima do texto original ocorre inevitavelmente o surgimento de elementos e sentidos diferenciados que irão comprometer tal fidelidade e ao mesmo tempo operar um processo autônomo de criação no interior do espaçamento que se pretende preenchido pela melhor equivalência entre original e traduzido.
Assim, no processo da tradução inscreve-se uma operação que produz diferenças, embora motivada pela busca de equivalência e semelhança/sinonímia entre termos. Segundo o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) em A tarefa do Tradutor (1977) o ‘original’ deixa-se traduzir um número indefinido de vezes, enquanto que a tradução não se deixa traduzir de forma alguma. Isso sugere que o autor queira determinar uma relação indissociável entre o binômio original-tradução e assim não admitir a possibilidade de que a tradução seja tomada como original. Contudo, mesmo que o sentido seja transformado nas sucessivas traduções, é pertinente considerar que persiste sequencialmente o traço entre a anterioridade e a posterioridade da coisa então traduzida. Dessa forma, a expectativa rigorosa da possível equivalência entre termos é substituída pela percepção do caráter dinâmico da linguagem e da observação de que cada experiência é um acontecimento único. Nesse sentido, até mesmo a repetida leitura de um mesmo texto, não traduzido, não fornece uma substituição do original. “Nenhuma tradução pode ter a pretensão de substituir o original: é apenas uma tentativa de recriação dele. E sempre cabem outras tentativas. Pode-se dizer que, de um mesmo texto, poderão existir tantas traduções aceitáveis quanto forem os objetivos a que ele puder servir” (CAMPOS, 1986, p. 12). Com isso, a impossibilidade da substituição não é consequência da falta de aptidão do leitor/tradutor, a quem faltaria capacidade para acessar os sentidos dos termos ‘originais’. Ao contrário, se os sentidos originários são produzidos no
42
processo de leitura, então a leitura tradutora será sempre uma reelaboração que em si já está compreendida no repertório de equivalências (importante lembrar que aqui não se leva em consideração o trabalho interpretativo que influencia a tradução). Portanto, o lugar do ‘original’ enfim não é ocupado por um texto assim nomeado, mas antes, é ocupado por uma tradução, se considerada a leitura como a experiência originária e insubstituível de acesso ao texto. Dessa forma, essa percepção do processo de leitura é uma arbitração que desloca para ela a legitimidade da origem, atendendo ao seu quesito metafísico.
[...] é necessário começar em algum lugar, mas não existe um começo absolutamente justificado. Não se pode, devido a razões essenciais que deveremos explicar, retornar a um ponto de partida a partir do qual todo o resto poderia se construir conforme uma ordem das razões nem segundo uma evolução individual ou histórica. Quando muito, podemos dar uma justificativa estratégica para essa medida (DERRIDA apud BENNINGTON in DERRIDA & BENNINGTON, 1996, p.19). A origem é necessária para manter a ordem, mas é uma circunstância arbitrada como toda ‘origem’. Ela legitima aquilo que dela depende e se reproduz e perdura como norma de pensamento e lei de percepção entre causação e efetivação. Nesse sentido, a idéia de origem deve então ser transformada ou nos termos de JD, rasurada, pois assim como a rasura é vista como desvio do sentido para reafirmar o seu fluxo (o que abala a percepção da estabilidade do termo aparentemente originário, mas rasurado) a origem no mínimo estará sempre relativamente a algo e assim pode ser revista sob rasura.
Não é o caso de apagar completamente o conceito de origem, ou de original, negando sua existência. O gesto é de rasurar o conceito de original absoluto, colocando sob suspeição a lógica da identidade. É um gesto, também político, de rasurar o conceito, não para propor um conceito novo, nem para desmerecer o original assim instituído, mas apenas para colocar sob suspeita a pureza de um conceito que conhecemos como original (AZEVEDO & BEATO, 2011, p. 18).
No entanto, curiosamente essa problemática pode ser dirigida ao campo extra-textual e pensada no âmbito das imagens, sons e outros fenômenos que enquanto signos, se relacionam em diferentes ‘códigos’ ou manifestações que constituem processos interativos de tradução.
43
Nesse plano torna-se útil (instrumental) a noção de origem para designar qual signo foi traduzido-rasurado pois, manifestos por relações que criam correspondências entre sintagmas distintos, torna-se ainda mais impossível estabelecer substituições, como por exemplo, no diferencial existente entre um romance lido ou televisionado, ou na performance textual em relação a performance-ação referenciadas numa mesma questão. Assim, importa cada vez menos reivindicar a originalidade de uma produção para que seja legitimida sua anterioridade naquilo que é traduzido pois, embora existam traços em comum, cada signo produz seus efeitos independentemente de estarem ora mais, ora menos identificados como traduções.