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Høringsuttalelse fra Tokke kommune, datert 28.11.2016

4 Sammenfatning av innkomne uttalelser - kommentarer

4.2 Høringsuttalelse fra Tokke kommune, datert 28.11.2016

Cabe aqui uma última reflexão antes de entrarmos propriamente na análise dos relatos colhidos. Se não podemos confiar inteiramente nos nossos entrevistados, tampouco podemos ignorar o fato de que eles contam aquilo que escolheram contar. Esta escolha não é necessariamente um movimento plenamente consciente, mas também um movimento em que a fala pontua as preocupações que o entrevistado vive no momento em que responde as questões da pesquisa. Conforme Pollak:

A memória é seletiva. Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado. A memória é, em parte, herdada, não se refere apenas à vida física da pessoa. A memória também sofre flutuações que são função do momento em que ela é articulada, em que ela está sendo expressa. As preocupações do momento constituem um elemento de estruturação da memória. Isso é verdade também em relação à memória coletiva, ainda que esta seja bem mais organizada.79

Nesse sentido, ainda que determinados acontecimentos80 estruturem a narrativa, é

impossível crer em uma narrativa pura, estruturada de maneira objetiva. Toda narrativa é contaminada pelo momento presente, pelas preocupações que o entrevistado enfrenta no presente e tenta a elas dar resposta:

Esse último elemento da memória - a sua organização em função das preocupações pessoais e políticas do momento mostra que a memória é um fenômeno construído. Quando falo em construção, em nível individual, quero dizer que os modos de construção podem tanto ser conscientes como inconscientes. O que a memória individual grava, recalca, exclui, relembra, é evidentemente o resultado de um verdadeiro trabalho de organização.81

No caso específico de nossa pesquisa, destacamos que o momento em que as entrevistas foram realizadas é, sem sombra de dúvidas, de radical importância para a história do PT e do país, visto que este representa -- ao menos até o momento em que escrevemos -- o fim da primeira longa experiência do Partido dos Trabalhadores à frente do poder executivo federal. As entrevistas foram realizadas no calor das mobilizações inflamadas por grupos de oposição à direita do Governo Federal, nos meses de março e abril de 2016, semanas antes da votação do Impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Evidente que o calor das

79 Disponível em:

<http://www.pgedf.ufpr.br/downloads/Artigos%20PS%20Mest%202014/Andre%20Capraro/memoria_e_identid ade_social.pdf>.

80 "Quais são, portanto, os elementos constitutivos da memória, individual ou coletiva? Em primeiro lugar, são os acontecimentos vividos pessoalmente. Em segundo lugar, são os acontecimentos que eu chamaria de "vividos por tabela", ou seja, acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente pertencer. São acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou mas que, no imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas, é quase impossível que ela consiga saber se participou ou não. Se formos mais longe, a esses acontecimentos vividos por tabela vêm se juntar todos os eventos que não se situam dentro do espaço-tempo de uma pessoa ou de um grupo. É perfeitamente possível que, por meio da socialização política, ou da socialização histórica, ocorra um fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado, tão forte que podemos falar numa memória quase que herdada." (IDEM)

mobilizações e o temor, confirmado, da queda do Governo alimentaram os relatos e a reconstituição da memória de todos os entrevistados. Concordamos com Sarlo:

Propor-se não lembrar é como se propor não perceber um cheiro, porque a lembrança, assim como o cheiro, acomete até mesmo quando não é convocada. Vinda não se sabe de onde, a memória não permite ser deslocada; pelo contrário, obriga a uma perseguição, pois nunca está completa. A lembrança insiste porque de certo modo é soberana e incontrolável (em todos os sentidos dessa palavra). Poderíamos dizer que o passado se faz presente. E a lembrança precisa do passado porque, como assinalou Deleuze a respeito de Bergson, o tempo próprio da lembrança é o presente; isto é, o único tempo apropriado para lembrar e, também, o tempo do qual a lembrança se apodera, tornando-o próprio.82

Desse modo, à medida que todos os entrevistados vivenciam novos momentos políticos, aqueles pelos quais passaram vêm novamente à tona. O ódio ao governo petista, quando irrompe nas ruas, coloca-os novamente na reflexão daquele projeto político que iniciaram no passado. Essa dialética entre os tempos reflete nas respostas dadas nas entrevistas.

As "visões de passado" (segundo a fórmula de Benveniste) são construções. Justamente porque o tempo do passado não pode ser eliminado, e é um perseguidor que escraviza ou liberta, sua irrupção no presente é compreensível na medida em que seja organizado por procedimentos da narrativa e, através deles, por uma ideologia que evidencie um continuum significativo e interpretável do tempo. Fala- se do passado sem suspender o presente e, muitas vezes, implicando também o futuro. Lembra-se, narra-se ou se remete ao passado por um tipo de relato, de personagens, de relação entre suas ações voluntárias e involuntárias, abertas e secretas, definidas por objetivos ou inconscientes; os personagens articulam grupos que podem se apresentar como mais ou menos favoráveis à independência de fatores externos a seu domínio. Essas modalidades do discurso implicam uma concepção do social e, eventualmente, também da natureza. Introduzem um tom dominante nas "visões de passado."83

"Fala-se do passado sem suspender o presente." Os amores, os personagens, os interesses do presente estão todos ali, nas entrelinhas do discurso. É difícil, praticamente impossível, que a fala dos entrevistados sobre momentos políticos do passado não esteja imbuída de suas preocupações e questionamentos contemporâneos, suas agruras e dilemas atuais. Também porque a cultura política permanece, ela se metamorfoseia mas muitas vezes segue existindo na consciência, mantendo vivas determinadas práticas e representações.

82 SARLO, p. 10. 83 IDEM, p. 12

Paul Ricoeur se pergunta, no estudo que dedica às diferenças já clássicas entre história e discurso, em que presente se narra, em que presente se rememora e qual é o passado que se recupera. O presente da enunciação é o "tempo de base do discurso", porque é presente o momento de se começar a narrar e esse momento fica inscrito na narração. Isso implica o narrador em sua história e a inscreve numa retórica da persuasão (o discurso pertence ao modo persuasivo, diz Ricoeur). Os relatos testemunhais são "discursos" nesse sentido, porquê tem como condição um narrador implicado nos fatos, que não persegue uma verdade externa no momento em que ela é enunciada. É inevitável a marca do presente no ato de narrar o passado, justamente porque, no discurso, o presente tem uma hegemonia reconhecida como inevitável e os tempos verbais do passado não ficam livres de uma "experiência fenomenológica" do tempo presente da enunciação. "O presente dirige o passado assim como um maestro, seus músicos", escreveu Italo Svevo. E, como observa Hallbwachs, o passado se distorce para introduzir-se coerência.84

Assim sendo, não nos cabe aqui nesse trabalho buscar um "grau zero" da pureza discursiva, um discurso livre de qualquer contaminação pelas paixões do presente. Ao contrário, o nosso compromisso é o de detectar essas paixões e motivações nos discursos, bem como as distorções que podem se introduzir para dotar de coerência argumentativa o que é, também, defesa de determinadas visões e posicionamentos. Porém, ainda seguindo as palavras de Beatriz Sarlo, é preciso estarmos atentos aos pecados do anacronismo:

A disciplina histórica também é perseguida pelo anacronismo, e um de seus problemas é justamente reconhecê-lo e traçar seus limites. Todo ato de discorrer sobre o passado tem uma dimensão anacrônica; quando Benjamin se inclina por uma história que liberte o passado de sua reificação, redimindo-o num ato presente de memória, no impulso messiânico pelo qual o presente se responsabilizaria por uma dívida de sofrimento com o passado, ou seja, no momento em que a história pensa em construir uma paisagem do passado diferente da que percorre, com espanto, o anjo de Klee, ele está indicando não só que o presente opera sobre a construção do passado, mas que também é seu dever fazê-lo.

O anacronismo benjaminiano tem, por um lado, uma dimensão ética e, por outro, faz parte da polêmica contra o fetichismo documental da história científica do começo do século XX. No entanto, a crítica da qualidade objetiva atribuída à reconstituição dos fatos não esgota o problema da dupla inscrição temporal da história. A indicação de Benjamin também poderia ser lida como uma lição para historiadores: olhar para o passado com os olhos de quem o viveu, para poder ali captar o sofrimento e as ruínas. A exortação seria, nesse caso, metodológica e, em vez de fortalecer o anacronismo, seria um instrumento para dissolvê-lo. 85

Com plena consciência dessa temporalidade cindida entre passado e presente do discurso dos entrevistados, prevenimo-nos dos anacronismos e construímos aqui uma

84 IDEM, p. 49. 85 IDEM, p. 58.

narrativa capaz de fazer justiça a essas vozes e ecoar aquilo que está subjacente a elas. Verificaremos as repetições, os elementos irredutíveis, aquilo que está presente nas memórias individuais e que constitui essas memórias coletivas. Seguindo Pollack, acreditamos que:

É como se, numa história de vida individual - mas isso acontece igualmente em memórias construídas coletivamente houvesse elementos irredutíveis, em que o trabalho de solidificação da memória foi tão importante que impossibilitou a ocorrência de mudanças. Em certo sentido, determinado número de elementos tornam-se realidade, passam a fazer parte da própria essência da pessoa, muito embora outros tantos acontecimentos e fatos possam se modificarem função dos interlocutores, ou em função do movimento da fala.86

Trabalhamos com a memória individual de quatro ativistas à frente da construção do PT no período histórico estudado:

- Adelmo dos Santos. Adelmo foi presidente do sindicato dos radialistas. Esteve presente desde o começo na fundação do Partido e cronologicamente, dentre os entrevistados, foi o primeiro a se aproximar do grupo pró-fundação do PT. Até hoje pertence ao Partido dos Trabalhadores e à corrente hegemônica, outrora Articulação, agora conhecida como Construindo um Novo Brasil (CNB). Trabalha no gabinete do Deputado Paulão (PT), sendo até hoje um militante político reconhecido.

- Alice Anabuki. Iniciou seu ativismo no movimento estudantil, em torno da Revista Em

Tempo, animada pela corrente trotskista "Democracia Socialista" (DS). Os outros entrevistados se referem ao seu período de militância em Alagoas como sendo próximo à corrente trotskista "O Trabalho". Afastou-se do PT local para concluir Mestrado e Doutorado em São Paulo. Não faz mais parte do Partido e atualmente é professora de Sociologia na Universidade Federal de Alagoas. Durante o período estudado era funcionária pública do Estado.

- Tutmés Airam. Aproximou-se do PT via movimento estudantil, sendo estudante de Direito da Universidade Federal de Alagoas. Foi da corrente Democracia Socialista (DS) e durante algum tempo, como o mesmo atesta em seu depoimento, presidente do Diretório Municipal do PT em Maceió. Atualmente cumpre a função de desembargador e, portanto, não possui mais vínculos orgânicos com o PT. No entanto, é comum intervir publicamente com posições

políticas eventualmente próximas ao Partido dos Trabalhadores87, o que sugere que ainda

conserva simpatia pela agremiação.

- Ricardo Coelho. Aproximou-se do PT também a partir do movimento estudantil. Atualmente é professor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas. É militante do PT até hoje.88

- Geraldo de Majella. Foi dirigente do PCB durante o período que compreende os anos de 1979 até o começo dos anos 1990. Sendo figura política presente na construção das esquerdas durante o ocaso da Ditadura e no período posterior, utilizamos seu relato como forma de registrar um olhar sobre o PT de fora desta organização.