Fonte: Página de internet Bilderbuch Düsseldorf. Disponível em: <http://www.bilderbuch-duesseldorf.de>
Acesso em: 16 nov. 2012.
Foto 12 – Burgplatz, Dusseldorf: desenho típico da segunda metade do século XIX.
Fonte: Google Earth. Acesso em: 16 nov. 2012.
A cidade no princípio da Era Industrial se caracterizou espacialmente segundo certos processos bem definidos. Em primeiro lugar, ela experimentou intensa centralização em função da implantação da ferrovia e da estação de trem, sempre próximas dos portos nos casos de centros urbanos marítimos. Em segundo lugar, sua população habitou seu território de modo segregado, com claras distinções entre os bairros de operários, de classe média e dos ricos. Seu aumento populacional ocasionou ainda o surgimento de extensas periferias e da dispersão territorial em escala desconhecida anteriormente. Em especial, o surgimento das metrópoles e do fenômeno da conurbação produziram uma forma urbana inédita na história do Urbanismo, tornando insuficientes boa parte dos raciocínios tradicionais de organização do território urbano. Devido à expansão horizontal e à metropolização, tais áreas produziram também novas centralidades, especialmente na segunda metade do século XX (CORRÊA, 1997). A insuficiência dos métodos de organização espacial tradicionais, aliada aos já conhecidos problemas da congestão, da disfuncionalidade e da insalubridade, levou diversos pensadores a buscarem alternativas para a transformação das cidades existentes. Desta conjunção de fatores ocorreu um intenso movimento intelectual na primeira metade do século XX, abundante em discussões e em propostas radicais de transformação e gestão do ambiente construído. Mesmo com o seu esgotamento no segundo pós-guerra, suas contribuições e realizações conformaram a expressão madura da Cidade Industrial.
Portanto, o Urbanismo Racionalista do início do novecentos surgiu como resposta ao surgimento, na cidade, de uma nova escala (a metropolitana), de uma nova sociedade (a industrial) e de uma nova forma (a dispersa). Assim, tais reflexões e experimentações permitiram que a escala e a complexidade da atividade do urbanista fosse ampliada. Porém, na metade do século, com as destruições e reconstruções em função das guerras mundiais, assim como devido a diversas experiências de aplicação dos modelos propostos pelos urbanistas, diversas críticas irromperam, especialmente pelo caráter funcionalista, arbitrário e universalista daquelas ideias. Assim, a partir da revisão crítica do Urbanismo Racionalista, foram sendo estruturadas as bases metodológicas de um novo modo de organização territorial, o Planejamento Urbano e Regional – influenciado pela pensamento de Patrick Geddes e dos pensadores norte-americanos da Escola de Chicago, que por sua vez, se inspiraram em Georg Simmel. A Inglaterra, berço da industrialização, foi o manancial de onde fluíram as primeiras experiências deste novo tipo de pensamento (conhecido também como Urbanismo Humanista): os Planos para Londres, de Leslie Patrick Abercrombie em 1941 e 1943 implementaram, pela primeira vez, este novo modo intervenção no território, baseado em diagnósticos
multidisciplinares, prognósticos e no desenho de políticas para o ordenamento territorial de regiões, onde a solução se encontrava não mais na execução de um desenho a priori, mas na definição de objetivos e de regras de controle da produção espacial. Esta prática ainda persiste na cidade contemporânea; no Brasil ela se realiza através da elaboração de Planos Diretores e da aplicação de certos instrumentos urbanísticos (KOLHSDORF, 1985).
Passemos então a relacionar, com mais detalhes, a complexa trajetória da cidade ocidental ao longo do século XX. Em função da relevância para a realidade brasileira, nosso enfoque se limitará às características das cidades europeias e norte-americanas no período considerado. As questões urbanas brasileiras no século XX, como já mencionado, serão abordadas no capítulo seguinte. Nosso relato se prenderá aos aspectos que mais diretamente se relacionam com o quadro urbano brasileiro no último século, bastante influenciado pelo Velho Mundo, mas também pelos caminhos adotados na Nova Inglaterra. Tal retrospecto não visa somente chegar à urbanização brasileira, mas também apontar que a gênese de diversas características urbanas contemporâneas se encontram nos séculos precedentes, como na visível relação entre o subúrbio industrial, o condomínio fechado e as atuais edge cities40
norte- americanas.
Conforme vimos, Bernardo Secchi (2009) sintetiza as abordagens teóricas sobre a cidade no século XX a partir de três temáticas: a ansiedade em relação à dispersão, a produção teórica sobre a nova cidade e a pesquisa voltada para a produção espacial do Bem-Estar Social. De fato, a partir da conjunção destes três aspectos podemos perceber as principais características da cidade no período, especialmente a partir do momento em que o poder público passa, em todo o mundo, a realizar a gestão do espaço segundo as propostas desenvolvidas na primeira metade do século XX. De modo geral, podemos encarar os centros urbanos no último século como sendo uma tentativa de viabilizar a produção industrial, de promover o capital imobiliário e de solucionar os malefícios da congestão urbana e de sua violenta dispersão, empregando muitas vezes modelos espaciais apriorísticos, com pretensões científicas, produzidos como alternativa ao espaço urbano tradicional da Cidade Pós-Liberal nas últimas décadas do século XIX. Em cada contexto uma ou outra orientação foi mais aplicada, como no
40 Edge city é uma expressão cunhada por Joel Garreau, referindo-se ao surgimento de verdadeiras cidades muradas nas periferias dos centros urbanos consolidados, especialmente nos EUA. Tais territórios são privados, de acesso controlado, localizados em rodovias que permitem um rápido acesso à cidade ou a um aeroporto e que, em seu interior, oferecem não apenas moradias, mas diversas outras funções urbanas típicas das centralidades: escolas, shopping centers, equipamentos culturais, espaços de lazer e, seu aspecto fundamental, abriga os próprios postos de trabalho de seus moradores (PAROLE, 2012).
caso britânico, onde a Cidade-Jardim foi a grande influência, ou no caso alemão com as propostas progressistas filiadas aos CIAM’s.
Com a expansão generalizada, fruto do rápido incremento populacional dos principais centros urbanos industriais, estas cidades adotaram o subúrbio como solução espacial fundamental para a habitação. Vimos como a cidade europeia ao longo do século XIX alojou ricos e pobres em extensas expansões fora dos antigos limites das muralhas, com casas isoladas em grandes lotes para as famílias mais abastadas e em blocos de unidades padronizadas e idênticas para o operariado pobre (BENEVOLO, 2009). Conforme Mumford (1998) mostra, a suburbanização não surgiu com a cidade oitocentista, mas é um fenômeno recorrente na história da cidade através do qual indivíduos mais abastados procuram áreas com maiores amenidades ambientais em relação aos centros urbanos congestionados, mesmo sendo fora das muralhas. Assim, a cidade no século XX se caracteriza não por apenas possuir o subúrbio, mas por vivenciá-lo de um modo abundante e em escala até então desconhecida.
O subúrbio industrial pode ser compreendido a partir de dois pontos de vista, um nocivo e outro salutar. Seu aspecto negativo é que, ao ser produzido como um território a parte e que intentou criar um ambiente protegido e bucólico, deixou de fora elementos fundamentais da vida urbana, como as diferenças sociais ou a variabilidade tipológica e de usos do solo, criando um ambiente monótono, segregado, artificial e pobre em diversos aspectos. Suas vantagens biológicas (ar puro etc) foram contrabalanceadas pelas desvantagens sociais e psicológicas, pois produziu cenários irreais e distantes da vida na cidade ao redor da qual se desenvolveu:
No subúrbio, podia-se viver e morrer sem macular a imagem de um mundo inocente, a não ser quando alguma sombra de seu mal aparecia na coluna de um jornal. Assim, servia o subúrbio de asilo para preservação de uma ilusão (...). Era um ambiente não só centralizado na criança: baseava-se também numa visão pueril do mundo, no qual a realidade era sacrificada ao princípio do prazer (MUMFORD, 1998, p.534).
Por outro lado, Mumford (1998) ressalta que a monotonia da padronização formal e o aspecto desnaturado do ponto de vista social não foram exclusivos do subúrbio, embora mais acentuados nele (foto 13). A uniformização foi generalizada, pois a metrópole trouxe também consigo, devido à sua produção, consumo e recreação em massa, as mesmas patologias sociais e psicológicas da indiferenciação espacial, do individualismo (embora na multidão) e da criação de ambientes desnaturados em seus espaços mais densos e centrais. Em ambos os casos, no
centro e na periferia, gradativamente a realidade foi sendo substituída pela mediação imagética dos televisores.