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Pol (2002) assinala que os pesos das dimensões no processo de apropriação de espaço variam no decorrer do ciclo de vida da pessoa. Segundo o autor, ambas as dimensões estão presentes, no entanto, o componente de ação-transformação é preponderante na infância e vai diminuindo à medida que a pessoa avance nas fases do ciclo vital, de modo que, o componente de identificação simbólica venha a se destacar na velhice.

Face à colocação desse autor, buscamos algumas referências concernentes ao ciclo vital.

Ao realizar revisão bibliográfica, Bee (1997) foca no ciclo vital a partir do desenvolvimento individual considerando as questões biológicas e sociais imbricadas no processo. Inegavelmente ocorrem mudanças ao longo do ciclo de vida das pessoas que caracterizam e são caracterizadas pela etapa específica que estão vivendo naquele momento. Algumas dessas mudanças podem ser compartilhadas por todos os indivíduos da uma espécie, outras mudanças ocorrem mais comumente em subgrupos que compartilham singularidades culturais e geracionais. Há também as mudanças individuais que não são compartilhadas e dizem respeito a eventos singulares. A autora pontua a variabilidade das definições das fases do ciclo vital que se diferem ao longo do tempo histórico assim como entre os subgrupos.

Por outro lado, Carter e McGoldrick (1995) partem do referencial sistêmico ao afirmar que o ciclo de vida individual ocorre dentro do ciclo de vida familiar por ser este, o contexto primário do desenvolvimento humano. Assim, as autoras descrevem os estágios do ciclo vital sob uma perspectiva intergeracional das inter-relações familiares e referem à necessidade de haver mudanças de segunda ordem para uma realização bem sucedida das transições do ciclo de vida.6

Cerveny e Berthoud (1997) em seu estudo com 1.105 famílias de classe média do Estado de São Paulo caracterizaram as etapas do ciclo de vida familiar em:

1) Fase de aquisição: caracteriza-se pela formação do novo casal e a chegada dos filhos, que exigem o estabelecimento de regras, normas e rituais que vão organizar a família. Nesse momento as famílias de origem do casal passam a se relacionar e vão interferir na vida desse casal em maior ou menor intensidade de acordo com a dinâmica de

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No referencial sistêmico, as mudanças de segunda ordem são aquelas que requerem uma reorganização do sistema.

cada sistema. O estudo revelou que os principais objetivos neste período são: a construção do patrimônio e a promoção dos estudos dos filhos. Há preocupação, principalmente por parte dos pais em relação aos filhos, de cuidar da saúde mental e física. É uma fase marcada pelo caráter empreendedor cuja mobilização é com projetos futuros que visam estabilidade e segurança.

2) Fase adolescente: nessa fase, os adolescentes trazem para o contexto familiar novos valores e novas formas de agir que exigem a reorganização do sistema. Nesse momento, também é comum que o casal busque resignificar sua relação. Tais aspectos produzem alterações nos padrões de relacionamentos intrafamiliares e sociais já existentes.

3) Fase madura: nessa fase os filhos ganham independência saindo de casa. Com o casamento dos filhos novos membros são adicionados à família, o que exige novos arranjos nas mais variadas esferas. Com o nascimento dos netos, os pais tornam-se avós e os filhos tornam-se pais o que propicia novos contextos relacionais cujo foco é a manutenção dos laços afetivos.

4) Fase última: com a chegada da aposentadoria e a ruptura da vida profissional, o casal deve encontrar novas formas de se sentirem ativos socialmente. Com o envelhecimento há perda de autonomia crescente e cabe aos filhos desempenhar agora o papel de cuidadores.

Os assuntos relacionados à perda, doença e morte costumam ser evitados pela maioria da população pesquisada em todas as fases descritas, o que nos remete à situação de crise e necessidade de mudanças estruturais que surgem diante da ocorrência de umas dessas situações.

Consideramos relevante lembrar que tais fases dizem respeito a uma população bastante específica e não contemplam a diversidade das configurações familiares que existem atualmente na nossa sociedade. As

famílias com casais sem filhos, as famílias reconstituídas que são formadas por filhos de uniões anteriores, as famílias com apenas um dos progenitores compartilham certas características das fases mencionadas e incrementam o conceito de ciclo de vida familiar com novos arranjos em seus mais variados aspectos. Slusky (1997), ao falar sobre como o contexto cultural reorganiza a cada vez como a família se define e como nós a representamos, nos lembra da diversidade sempre mutante de formas, redes e contextos sociais.

No que se refere ao ciclo de vida do adulto com deficiência visual, Gonzalez, Benito e Veiga (2003) afirmam que nessa fase da vida, o que se destaca é a necessidade do deficiente buscar expandir-se profissionalmente e a dificuldade de se inserir no mercado de trabalho, que é desenvolvido a partir de uma perspectiva que requer a funcionalidade visual. A inserção no meio social também enfrenta os mesmos obstáculos, dessa forma, são necessários entretenimentos específicos e ajuda técnica e profissional dos serviços especializados em deficiência visual. De acordo com Amiralian (1997) quando a deficiência visual é adquirida na fase adulta, a pessoa tem que lidar, além dos problemas de ordem profissional e econômica, com a manutenção do papel social e familiar desempenhado antes da deficiência. Tal aspecto pode configurar como o maior desafio que a pessoa deficiente visual adquirida na fase adulta pode vir a enfrentar.

Montilha e Arruda (2007) destacam que a pessoa que adquire a deficiência visual na fase adulta vivencia um processo emocional bastante intenso e difícil de aceitação de sua nova condição física. As autoras correlacionam a elaboração da perda da visão com as fases de luto propostas por Bowlby da seguinte maneira:

1) Fase de torpor – nessa primeira fase a pessoa nega a existência do problema. A duração da fase de negação pode variar entre dias, semanas ou meses.

2) Fase de saudade da figura perdida – caracteriza-se por intensa busca de tratamentos para a recuperação da visão. Essa fase é marcada pela esperança de cura.

3) Fase de desorganização – nessa fase os sentimentos de raiva são expressos de forma mais intensa. Há também uma busca por culpados e maiores chances de apresentar depressão.

4) Fase de reorganização-aceitação – quando ocorre a aceitação da perda e maior envolvimento com o processo de reabilitação.

Segundo as autoras, durante esse processo, pode ser um significativo auxílio para o deficiente visual encontrar um lugar no qual seus sentimentos sejam legitimados e seja possível a troca de experiência com outras pessoas com necessidades semelhantes.