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Todos os alunos entrevistados procedem de escolas estaduais, sendo assim diferenciadas somente suas trajetórias. Todos foram “bem sucedidos” em suas experiências com o exame vestibular.

Conforme foi procedido com o coordenador, as entrevistas com os alunos também foram semiestruturadas, permitindo que manifestassem suas opiniões acerca da acumulação, ou não, do capital cultural, econômico e social – mediante a participação da família, das escolas e do “cursinho preparatório” –

, como também para dar a conhecer as formas de incorporação dos “capitais” por esses sujeitos. Portanto, estabelecer as diferenças percebidas pelos próprios alunos acerca da escola e do “cursinho”, além das diferenças existentes entre os alunos que passaram pelo “cursinho” e obtiveram “sucesso” e os que não passaram pelo “cursinho” e obtiveram “sucesso”, poderia nos ajudar a conhecer as maneiras de obtenção do “sucesso escolar”.

Os alunos foram entrevistados, segundo as orientações constantes no anexo 2 (Roteiro de entrevista semiestruturada para aluno). As perguntas de 1 a 5 referiam-se aos dados pessoais sobre a estrutura familiar, escolarização dos pais e irmãos e profissão. As perguntas de 6 a 10 informavam sobre a passagem dos alunos pelo ensino fundamental e médio e a sua percepção acerca da preparação para o concurso vestibular. Também exploramos a vivência dos alunos no cursinho preparatório e as estratégias que eles criaram para chegar ao ensino superior.

O pré-teste do instrumento foi realizado com duas alunas do terceiro ano do ensino médio, representantes da mesma escola onde foi realizado o pré- teste com o professor coordenador. Como o instrumento não apresentou problemas, realizamos os contatos e começamos as entrevistas.

Os alunos entrevistados concordaram com o termo de consentimento livre e esclarecido e também receberam um termo de compromisso, ficando cientes de que poderiam desistir a qualquer momento da participação na pesquisa. Durante a seleção, três alunos discordaram dos termos propostos ou com a entrevista. A princípio, planejamos entrevistar dez sujeitos, mas a negativa de alguns deles inviabilizou nossa intenção. Como não trabalhamos com dados estatísticos, acreditamos que os oitos alunos foram suficientes para compreender as trajetórias dos sujeitos e suas relações com o Cursinho Alpha.

É também importante afirmar que os entrevistados escolheram o local da entrevista. Essa prerrogativa visava dar maior conforto aos mesmos, possibilitando, assim, “uma comunicação não-violenta”, conforme proposto por Bourdieu em A Miséria do Mundo (BOURDIEU, 1997, p.695).

A conversa foi conduzida de modo a levar o sujeito a refletir sobre suas trajetórias escolares, a participação da família, da escola e do cursinho na

concretização de seu sucesso nos concursos vestibulares de universidades públicas. Além disso, buscamos opor essas influências, criando nos sujeitos uma espécie de posição crítica sobre sua formação educacional.

Com referência ao perfil 1, a primeira entrevista foi realizada com o aluno William, egresso de escola pública estadual, que obteve “sucesso escolar” por meio do vestibular da USP e que passou em Física após o término do Ensino Médio, sem ajuda complementar. Sua entrevista foi realizada na escola onde ele estudou durante o Ensino Médio, a pedido de William.

A segunda entrevista foi realizada com Erica, irmã de ex-aluna nossa. Apesar de conhecida a aluna, os contatos mantidos, quando substituíamos os seus faltosos professores não auxiliaram muito na pesquisa, pois Erica é tímida e, em vários momentos, sentiu dificuldades para falar. Ela frequentou a escola pública até concluir o Ensino Médio, nunca passou por cursinhos e foi aprovada na segunda chamada do vestibular da Unesp, em Turismo. Sua entrevista foi realizada em um parque da região centro-oeste, enquanto Érica se encontrava com alguns amigos.

A terceira entrevista foi realizada com a Gabriela, uma menina extremamente extrovertida que auxiliou bastante o nosso trabalho. A garota não sentiu dificuldades ao responder as questões e foi a única que quis entender melhor o trabalho que realizamos. Gabriela estuda Biologia na Unesp de São Vicente, foi aluna regular do ensino público durante toda a trajetória escolar e nos contou que passou por um cursinho particular, simultaneamente, ao Ensino Médio. Sua entrevista foi realizada em uma sala da escola onde ela estudou durante o Ensino Médio.

A última entrevista com os alunos do perfil 1 foi realizada com Gustavo, descendente de japoneses. A influência da cultura do pai ,na formação de Gustavo, é clara, inclusive em suas escolhas profissionais. Gustavo foi aluno de escola privada e, no Ensino Médio, estudou em uma escola técnica, por meio de um processo de seleção. Na escola técnica, ele apresentou problemas de disciplina e foi transferido, compulsoriamente, para uma escola de Ensino Médio tradicional. Gustavo foi aprovado em Letras na USP. Sua intenção era estudar especificamente o Japonês. A entrevista foi realizada em um shopping próximo a sua casa, na região centro-oeste da cidade de São Paulo.

A seleção dos alunos do perfil 2 teve o auxílio da secretária do cursinho preparatório, uma vez que os alunos são egressos e a possibilidade de encontrá-los no cursinho preparatório era praticamente nula. Os meios de comunicação online também foram úteis para localizarmos os sujeitos, pois alguns residem fora de São Paulo.

Conforme procedido no perfil 1, entregamos aos alunos um termo de compromisso, informando sobre o objetivo da pesquisa e da possibilidade de desistirem a qualquer momento de sua participação.

A primeira entrevista foi realizada com a própria secretária do cursinho preparatório. Ela foi aluna da primeira turma do cursinho preparatório, em 2006, e frequentou a escola pública somente no Ensino Médio. Taís passou pelo “cursinho preparatório” durante o terceiro ano do Ensino Médio e foi aprovada no exame vestibular da USP para o curso de Pedagogia, logo em seguida. A entrevista ocorreu em uma das salas do Cursinho Alpha.

A segunda entrevista ocorreu na própria USP, com Márcio. A escolha se deveu ao reduzido tempo que ele possuía para encontrar a pesquisadora. A entrevista foi concedida nos corredores do Instituto de Física. Márcio estudou em colégio privado até a oitava série e, no Ensino Médio, foi transferido para uma escola pública, por escolha própria. Esteve no Cursinho Alpha enquanto cursava o terceiro ano do Ensino Médio e passou em Licenciatura em Física na USP.

A terceira e a quarta entrevistas ocorreram no mesmo dia, em uma sala do Cursinho Alpha. A terceira foi realizada com Douglas, que fez todo o ensino básico (fundamental e médio) em escola pública e ingressou no Cursinho Alpha durante o terceiro ano do Ensino Médio – ele passou em História na Unesp de Franca e em uma universidade Federal do Rio de Janeiro (optou pela Federal).

O último entrevistado foi Adriano. Ele também estudou durante todo o ensino básico (ensino fundamental e médio) em escola pública. Diferentemente dos demais, durante o segundo e terceiro ano do Ensino Médio, trabalhou como menor aprendiz e, por essa razão, estudou no período noturno. Após terminar o Ensino Médio, ingressou no Cursinho Alpha e passou em Física, na USP.

A idade dos sujeitos entrevistados varia de 22 a 18 anos, são três mulheres e cinco homens. A formação dos pais também varia; dois têm o Ensino Fundamental incompleto e um o concluiu; quatro têm o Ensino Médio completo (um fez ensino técnico); cinco têm o ensino superior completo, quatro não conseguiram concluir.

As profissões dos pais também variam. Dos 16 pais analisados, cinco trabalham como autônomos (corretor de imóveis, taxista, faxineira, contador), um é professor, quatro são donas de casa, três são assalariados (analista de sistemas da Caixa Econômica Federal, gerente do Mc’Donalds, funcionário de fabrica no Japão). Somente em uma das famílias os pais se separaram.

Conforme afirmamos, todos os sujeitos da pesquisa foram aprovados em concursos vestibulares de universidades públicas, e este é para nós o diferencial, necessariamente, considerado nesta pesquisa.

No capítulo que se segue, buscamos então, por meio da análise das respostas, estabelecer quais as diferenças entre os alunos, inclusive econômicas e sociais. Também examinamos, por meio das entrevistas, as possibilidades de melhor compreender o processo de seleção do pelo Cursinho Alpha.

Capitulo 3