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Realizar uma pesquisa com abordagem qualitativa implica estudar a realidade no seu contexto natural, “como acontece, com a intenção de entender seu sentido, interpretando os fenômenos de acordo com o significado que têm para as pessoas envolvidas” (GÓMEZ, 1996, p. 32).

Para Bogdan e Biklen (1994, p. 47-51) a investigação qualitativa possui cinco características:

1. Na investigação qualitativa a fonte directa de dados é o ambiente natural, constituindo o investigador o instrumento principal;

2. A investigação qualitativa é descritiva;

3. Os investigadores qualitativos interessam-se mais pelo processo do que simplesmente pelos resultados ou produtos;

4. Os investigadores qualitativos tendem a analisar os seus dados de forma indutiva; 5. O significado é de importância vital na abordagem qualitativa.

Essas características correspondem à intenção de investigar o funcionamento de dois grupos de pesquisadores e educadores que atuam no Brasil e em Portugal, as ações que desenvolvem para formação, supervisão e apoio a profissionais e, a partir da convivência com eles, descrever suas características, seu contexto, compreender suas práticas, explicitar os mecanismos facilitadores e dificultadores para e na formação da profissionalidade dos educadores de infância.

Para efeito desta pesquisa consideramos como profissionais de educação infantil todos os adultos que atuam diretamente ou indiretamente com as crianças, ou seja, professores, diretores, coordenadores pedagógicos e supervisores, porque assumimos a docência como profissão que possui uma práxis própria e em muitos aspectos específicas. Oliveira- Formosinho (2000, p. 134) define:

a profissionalidade docente como a ação profissional integrada que a pessoa da educadora desenvolve junto das crianças e famílias com base nos seus conhecimentos, competências e sentimentos, assumindo a dimensão moral da profissão.

Na literatura estudada à época do nosso mestrado verificamos que a formação de profissionais, em especial os que atuam diretamente com as crianças pequenas, aparece como

ponto crucial adotado pelo Estado no caminho para a integração das instituições ao sistema de ensino.

Tal relevância é constatada pelo alto investimento nos cursos para formação de profissionais no Brasil no âmbito Federal, tanto no repasse de verbas11 para os Municípios (FUNDEB e FNDE), como na criação de cursos como, por exemplo, o Pró-Infantil12 do Programa de Valorização e Formação de Professores e Trabalhadores da Educação (MEC).

Utilizaremos nesse estudo o termo grupo numa perspectiva sociológica, apoiando-nos em Bogdan e Biklen (1994, p. 91):

Quando falamos acerca de um grupo, numa organização, como foco de estudo, estamos a utilizar a palavra numa perspectiva sociológica, para nos referirmos a pessoas que interagem, que se identificam umas com as outras e que partilham expectativas em relação ao comportamento umas com as outras.

Segundo Lave e Wenger (1991), essa interação social funciona como um componente crítico do aprendizado situado na medida em que se transita de fora para dentro dessa comunidade de práticas num ambiente socialmente ativo e colaborativo.

Nessa interação os componentes do grupo constroem conhecimento compartilhado sobre si mesmos, sobre suas práticas e as práticas de seus pares, na qual nos incluímos como investigadora participante.

Para aprofundar essa investigação escolhemos como método de investigação o estudo de caso, aqui entendido na perspectiva de Stake (1999, p. 11): “o estudo de caso é um estudo da particularidade e de complexidade de um caso singular, para chegar a compreender sua atividade em circunstâncias importantes.”

Essa modalidade de investigação tem sido amplamente utilizada nas pesquisas qualitativas. Diversos autores classificam-na de acordo com a quantidade de casos a serem estudados. Assim podem ser únicos ou múltiplos, conforme o número de casos aos quais se referem Bogdan e Biklen (1982), Yin (1984 e 1993), Stake (1999).

Os estudos de caso podem ainda ser classificados de acordo com o propósito de estudo do investigador (YIN, 1984, 1993) e também de acordo com o tipo de estudo (STAKE, 1999). Nossos objetos de estudo pertencem à Rede Internacional de Pesquisadores. O primeiro, no Brasil, Grupo da FEUSP,

Incluía 20 professores e gestores, no contexto de formação. Em 2005 apoiava 116 profissionais (professores, diretores, coordenadores, supervisores, provenientes de sete unidades infantis da rede pública, que focalizava questões de supervisão e gestão, aprendizagem e práticas pedagógicas [...] 8 bolsistas de iniciação científica, 4 mestrandos, 9 doutorandos, dos quais 13 com financiamento, evidenciando a crescente preparação de pesquisadores. Foram concluídos 4 doutorados, 3 mestrados e estão em andamento 7 doutorados e um mestrado (KISHIMOTO, 2006, p. 250).

O segundo, em Portugal, Grupo da Associação Criança, composto por pesquisadores que atuam em Escolas Apoiadas e cursos de graduação, pós-graduação e formação continuada para profissionais de educação infantil (OLIVEIRA-FORMOSINHO; FORMOSINHO, 2000).

Caracteriza-se, segundo Stake (1999), como um estudo de caso do tipo múltiplo, por não se tratar de um estudo coletivo, mas o estudo intensivo de dois casos, visando a interpretação de seu significado na construção do conceito abstrato de desenvolvimento profissional e organizacional.

Por que investigar esses grupos que trabalham com formação de profissionais de educação infantil?

De que maneira o investimento numa formação diferenciada focada em modelos de supervisão inovadores resulta em efetiva mudança na prática cotidiana e na conseqüente melhoria de qualidade na educação das crianças pequenas?

Nossa escolha justifica-se pelo fato de que os dois casos partilham de crenças e objetivos comuns pautados na Pedagogia da Infância, no direito da criança a uma educação de qualidade, em especial na educação infantil e na formação de professores e supervisores em contexto integrado. Para tanto, esses grupos, desde 1998, têm estreitado intercâmbio nas pesquisas que realizam, proporcionando aos profissionais que os constituem constante oportunidade de desenvolvimento pessoal e profissional.

Como nos diz Oliveira-Formosinho (2002, p. 6):

desenvolvimento profissional é um processo vivencial não puramente individual, mas um processo em contexto. O desenvolvimento profissional conota uma realidade que se preocupa com os processos (levantamento de necessidades, participação dos professores na definição da ação), os conteúdos concretos aprendidos (novos conhecimentos, novas competências), os contextos da aprendizagem (formação centrada na escola), a aprendizagem de processos (metacognição), a relevância para as práticas (formação centrada nas práticas e o impacto na aprendizagem dos alunos).

Nosso papel enquanto investigadora não ocorreu de forma alheia ao processo, apenas como observadora. Estivemos desde o início envolvida nas atividades do Grupo FEUSP, participando das reuniões desde seu planejamento, fazendo as leituras propostas, auxiliando na organização das pautas dos encontros, colaborando no desenvolvimento dos temas, realizando tarefas administrativas como organizar listas de presença, arrumar sala de reuniões, providenciar cópias de textos, fitas para gravação das reuniões e as respectivas transcrições etc.

Os dois casos foram selecionados devido a nossa identificação com o tema, facilidade de acesso e receptividade dos membros dos dois grupos, tanto do Grupo FEUSP, como da

Associação Criança, e também pela oportunidade de estágio (bolsa sanduíche), pelo período de quatro meses realizado em Braga, no segundo semestre de 2005, com a colaboração e financiamento de Convênio Capes-Grices.

Outra justificativa para a escolha dos casos foi a necessidade de compreender com profundidade o funcionamento de cada um deles, os constrangimentos estruturais aos quais são submetidos e até como se infiltram nas estruturas dos contextos onde atuam.

Pelo descrito, consideramo-nos observadora participante, tendo em conta que essa participação facilitou nossa aceitação como investigadora, ao mesmo tempo em que proporcionou nosso próprio desenvolvimento pessoal e profissional.

Recorrendo novamente a Bogdan e Biklen (1994, pp. 85-88) constatamos a referência sobre os cuidados que devem ser tomados pelo investigador participante para não misturar nossa participação no grupo e a de pesquisadora.

Não tivemos a intenção de realizar um estudo de caso comparativo, por conhecer as evidentes diferenças existentes nos contextos onde cada Grupo, objeto de estudo, foi criado e realiza suas atividades. Nosso interesse está em utilizar o estudo de caso como instrumento para identificar e compreender cada caso, os Grupos em si, seus mecanismos e orientações, enfim, seus funcionamentos concretos (STAKE, 1999).

No diálogo com cada caso e com os casos entre si pensamos que se avançará no conceito abstrato de formação em contexto. Por isso o estudo pode ser considerado do tipo instrumental, por contribuir para avançar num conceito.

Nosso plano inicial foi buscar todas as fontes de dados e informações existentes em relação ao GRUPO FEUSP, dada a proximidade e participação. Foram analisadas pautas e atas de reuniões, relatórios, cronogramas, correspondências eletrônicas ou impressas, apresentações em Congressos, relatórios, artigos, capítulos e livros.

Na medida em que estudávamos cada registro, aproveitávamos para agrupá-lo em ordem cronológica, buscando traçar o percurso histórico do Grupo FEUSP, sistematizando as informações.

Para aprofundar nossos estudos realizamos entrevistas semi-estruturadas com membros do Grupo FEUSP, com participantes dos subgrupos de Formação de Professores e de Supervisores, com profissionais da FEUSP, com alunos de Graduação em Pedagogia da Faculdade de Educação e de outras Universidades particulares, bolsistas de iniciação científica e estagiários, utilizando os mesmos instrumentos. Também nos servimos de fotos, observação participante e depoimentos dos participantes das oficinas oferecidas pelo Ponto de Cultura Brincando na Universidade13.

Desse primeiro levantamento resultaram a organização e digitalização das atas e documentos encontrados, que serão entregues à Coordenadora do Grupo FEUSP ao final da pesquisa.

Algumas das dificuldades encontradas na coleta de dados foram: grande quantidade de informações; falta de uma sistematização no registro do conteúdo das reuniões e na datação de muitos dos documentos e nosso grande envolvimento pessoal no Grupo.

Uma das características do Grupo FEUSP é a participação voluntária de seus membros, essa participação fica a critério da pessoa que disponibiliza seu tempo para participar das reuniões, registrar as atas, divulgá-las, de acordo com seu ponto de vista. Não há um método determinado. Assim, cada registro possui as informações que quem a registrou considerou relevante.

As primeiras reuniões do Grupo FEUSP foram gravadas e transcritas por uma secretária e com o passar do tempo a prática da transcrição foi modificada, por não haver recursos para custeá-la, por demandar muito tempo dos voluntários e por ter se mostrado pouco produtiva.

Os dados da Associação Criança foram colhidos durante a bolsa-sanduíche oferecida pelo Convênio Capes-Grices, no período de quatro meses em Braga, Portugal. Para tanto realizamos entrevistas, participamos de reuniões e visitamos duas instituições em momentos diferentes de supervisão: a Sala Carvalhosa, com a metodologia de Contextos Integrados já implantada, e a Musgueira, em fase inicial de intervenção.

Todo o material recolhido foi fundamentado em referencial teórico, nas áreas da psicologia, filosofia, história, sociologia, antropologia, direito, políticas públicas e nas Pedagogias da Infância e no estudo de referenciais metodológicos.

Por esse motivo consideramos relevante estabelecer um diálogo com esses referenciais que fundamentaram o modo de pensar e agir dos dois Grupos estudados antes de tratar dos Grupos em si, com a intenção de estabelecer uma triangulação para a análise dos dados obtidos.

Como nos diz Bodgan e Biklen (1994, p. 2),

A idéia, que deriva originariamente da navegação marítima, foi retomada pela Sociologia. Ao estudar um aspecto, não nos limitamos a uma fonte de dados, mas procuram-se várias confirmações. Assim, uma pessoa será observada repetidamente, em ocasiões diversas, e o seu comportamento será confrontado com as opiniões expressas por ela mesma e por outras pessoas.